FARMACOGENÉTICA:

uma visão geral da terapêutica individualizada

Barros, JL.; Fradico, JRB.; Guaranys, MTN; Mendonça, ACP; Queiroz, AAG;

Ribeiro, PLA; Santos, TO; Silva, MF; Silva, RR.

Centro Universitário Newton Paiva

RESUMO

Estudos recentes a respeito da farmacogenética comprovam que as diferenças na resposta às drogas ocorrem devido aos polimorfismos genéticos individuais, visto que cada indivíduo apresenta pequenas disparidades em seu código genético, que influenciam nos alvos terapêuticos. A avaliação dessas características individuais visa o tratamento personalizado, pois o objetivo primordial da farmacogenética na prática clínica é reduzir as reações adversas e os Problemas Relacionados a Medicamentos (PRM). No Brasil, existem grupos empenhados na pesquisa da inter-relação de proteínas-alvo e drogas em função da grande miscigenação a qual amplia o interesse por esse estudo. Entretanto, questões éticas, relação custo-benefício e regulamentos legais são fatores que dificultam a implantação dessa ciência no Brasil e nos demais países.

Palavras- chave: farmacogenética; polimorfismos genéticos; tratamento personalizado; miscigenação.

INTRODUÇÃO

A farmacogenômica estuda simultaneamente vários genes e suas interações. Essa ciência tem contribuído para o desenvolvimento de pesquisas farmacogenéticas, a qual é uma área da farmacologia clínica que estuda como as diferenças genéticas entre indivíduos podem afetar as respostas às drogas. Essa análise genética objetiva aperfeiçoar o tratamento através da personalização terapêutica conforme as diferenças nas características genéticas individuais.

A farmacogenética tem suas origens no início do século XX, a partir de observações de diferentes respostas ao mesmo medicamento. Nesse contexto, surgiu a necessidade de pesquisar os motivos da variabilidade terapêutica. Estudos posteriores comprovaram que essa diferença na resposta aos fármacos se deve ao polimorfismo relacionado às proteínas-alvo, responsáveis por receber o estímulo do efeito do mesmo levando a pesquisas cada vez mais aprofundadas. E embora tenham obtido avanços, ainda assim é preciso maior desenvolvimento para melhorar a aplicação desse conhecimento na área médico-farmacêutica.

Assim, a farmacogenética é uma nova tecnologia que propõe a possibilidade de pesquisar e produzir novos fármacos, objetivando uma terapêutica individualmente adequada, de maneira a reduzir os efeitos adversos e aumentar a eficácia da resposta aos medicamentos.

OBJETIVOS

Este estudo propõe conhecer e discutir as implicações e perspectivas da farmacogenética no contexto do tratamento individualizado segundo o histórico, aplicações, vantagens/ desvantagens e a questão ética.

REVISÃO BIBLIOGRÁFICA E DISCUSSÃO

A farmacogenética é considerada a ciência que examina as bases genéticas das variabilidades individuais, observadas nas respostas terapêuticas a tratamentos farmacológicos (METZGER, 2006). Há o questionamento se farmacogenética e farmacogenômica são sinônimos, mas há autores que definem farmacogenômica como a ciência que estuda simultaneamente vários genes e suas interações (COFRE, 2006). Estas áreas da farmacologia clínica objetivam aperfeiçoar o tratamento através da personalização terapêutica conforme as diferenças nas características genéticas dos indivíduos (METZGER, 2006).

Em uma recente revisão sobre o tema, Weinshilboum & Wang definiram a farma­cogenética como o estudo do papel da heredi­tariedade na variação individual ao efeito de um fármaco. Para esses autores, a convergência atual dos avanços em farmacogenética e do desenvolvimento rápido do genoma humano resultou na evolução da farmacogenética e sua transformação na farmacogenômica, especialidade mais abran­gente, que se dedica, também, ao uso do genoma humano na descoberta de novos alvos terapêuticos. Esta evolução está levando a comunidade científica a um entusiasmo crescente para a aplicação da farmacogenômica na prática clínica. Assim sendo há controvérsia sobre a distinção a ser feita ou não entre farmacogenética e farmacogenômica. Nota-se que a distinção é arbitrária e que os dois termos são freqüentemente usados de forma intercambiável.

O primeiro marco histórico relativo à farmacogenética foi em 510 AC por Pitágoras que percebeu e descreveu o favismo, a ocorrência de intoxicação aguda por favas em alguns indivíduos que as ingeriu, sabe-se que na maioria das pessoas não há intoxicação (PINTO, 2006). Em 1902, Archibald Garrod havia afirmado que variações genéticas, por sua vez, podiam causar reações biológicas negativas com determinadas substâncias químicas. Ele também alegou que as enzimas são responsáveis pela desintoxicação de substâncias estranhas, e as pessoas com falta destas enzimas necessárias não são capazes de eliminá-las a partir do corpo (REFARGEN, 2003).

O primeiro estudo farmacocinético foi conduzido em 1932, quando a incapacidade para saborear um composto químico conhecido como feniltiocarbamida foi visto em conexão com um traço autossômico recessivo. Neste estudo, os indivíduos com dois alelos recessivos não poderiam produzir a enzima que lhes permitiu o gosto feniltiocarbamida químicos. A dedução demonstra como algumas substâncias químicas reagem de maneira diferente devido a predisposições genéticas. (JAIN)

Nas décadas de 1940 e 1950, respostas variáveis de drogas em pessoas que tomam diversos medicamentos preventivos foram notadas pela primeira vez. Durante a segunda Guerra Mundial, alguns soldados começaram a mostrar sintomas de anemia após receber doses de uma droga anti-malária chamada primaquina. Estudos posteriores demonstraram que a anemia foi provocada por uma deficiência genética da glicose-6-fosfato-desidrogenase. Do mesmo modo, alguns pacientes foram observados, e verificou-se que a deficiência de certas enzimas levou à sua incapacidade de metabolizar essas drogas. Depois de estudar estes casos, em 1957, Moltulsky percebeu que os traços herdados não só poderiam contribuir para provocar reações adversas, mas também determinar se os medicamentos são realmente eficazes ou não.

Em 1956, Werner Kalow, da Universidade de Toronto, identifica as alterações genéticas responsáveis pela apnéia prolongada, interrupção respiratória, provocada em alguns pacientes tratados com o relaxante muscular succinilcolina. Nas décadas de 1960 e 1970, cientistas relataram a associação entre polimorfismos da enzima N-acetiltransferase (NAT), metabolização e toxicidade da isoniazida, usada no tratamento da tuberculose (PINTO, 2005).

Robert Smith, da Universidade de Londres, realiza uma auto-observação, pois foi o próprio autor a “cobaia” do experimento, verificando que a deficiência da metabolização do anti-hipertensivo debrisoquina causa intensa queda da pressão arterial.

No Brasil, o processo de criação de uma rede nacional de farmacogenética e farmacogenômica iniciou em 2002. A coordenação de pesquisa do Instituto Nacional do Câncer (INCA) entrou em contato com vários núcleos que faziam farmacologia e genética e a partir daí foi criada uma rede nacional, depois passando a se chamar Rede Nacional de Farmacogenética e Farmacogenômica (Refargen). Após a primeira reunião do grupo, o mesmo recebeu um convite da Secretaria de Desenvolvimento Científico e do Ministério da Ciência e Tecnologia para que suas idéias fossem levadas a Brasília, onde o projeto foi muito bem recebido. A rede integra vários grupos distribuídos por todo o Brasil, desde Belém até o Rio Grande do Sul.

Um dos primeiros estudos, no Brasil, começou ao se analisar a substância isoniazida para tratamento da tuberculose. Esta foi a primeira doença a ter claramente demonstrado a existência de uma alteração genética diferença na resposta ao medicamento. A Refargen atualmente coordena pesquisas na área considerando a diversidade étnica do Brasil. Os estudos são direcionados a identificação de genes relacionados a patologias e descoberta de novos alvos terapêuticos visando um tratamento individualizado e não direcionado a um grupo populacional.

A Refargen tem como um dos seus propósitos, arquivar dados farmacogenéticos da população brasileira, sendo que já conta com vários membros. Recentemente, têm sido feitos progressos relativos às variações genéticas no metabolismo das enzimas chave de droga, tais como o citocromo P450 e a enzimas CIP2D e CIP2C19 para as quais já existem técnicas rápidas para identificação, aprovadas em 2005 pelo Food and Drugs Administration (FDA).

Entretanto, a farmacoterapia nem sempre é acompanhada de sucesso. Há inúmeros fatores envolvidos que podem impedir que os objetivos terapêuticos sejam atingidos. Como os Problemas Relacionados a Medicamentos (PRM) que englobam intoxicações, ausência de efeito e as Reações Adversas a Medicamentos (RAM) que atingem uma grande parcela populacional, como se pode observar em estudos provando que ocorrem inúmeros casos de internação longa, intoxicação e óbito por reações adversas a medicamentos prescritos. As RAM são, além de causar hospitalização, leva ao aumento no período de permanência hospitalar e até mesmo ao óbito (PESSÔA, 2006).

Outro fator envolvido na eficácia da farmacoterapia é a variação individual ou genética da resposta a uma droga. Isso se deve ao polimorfismo genético que se refere, em grande parte, às diferenças das freqüências alélicas em lócus envolvidos com a síntese de enzimas relacionadas ao metabolismo (INSTITUTO HERMES PARDINI, 2008). Usualmente, o metabolismo converte fármacos em metabólitos mais solúveis e conseqüentemente mais facilmente excretados, bem como pode converter pró-fármacos em compostos tera­peuticamente ativos ou mesmo formar metabólitos tóxi­cos (PESSÔA, 2006). Essa diferença genética (Figura 1) na resposta às drogas gera alterações na farmacodinâmica, como nas proteínas-alvo para ação do fármaco, e farmacocinética, que inclui as formas de absorção, distribuição, biotransformação e excreção esperadas pelos medicamentos. (ALMEIDA, 2007)

Figura 1. Bases Clínicas da Farmacogenética. (PINTO, 2005)

Cada pessoa difere das demais em uma parte muito pequena desse código: uma em cada mil letras e essas pequenas disparidades é suficiente para que os indivíduos reajam de forma distinta em relação ao mesmo medicamento (ENRÍQUEZ, 2003). E o entendimento da variabilidade genética/genômica interindividual pode levar ao desenvolvimento genótipo específico de novos fármacos (XXVI ENEGEP).

A farmacogenética poderá identificar os subgrupos de pacientes que terão probabilidade muito grande ou pequena de responder a um fármaco. Isso possibilitará os testes do fármaco em uma população selecionada que teria maior probabilidade de responder, reduzindo-se a possibilidade de eventos adversos nos pacientes que não seriam beneficiados e definindo-se com maior precisão os parâmetros da resposta no subgrupo que apresenta maior suscetibilidade de obter benefícios. Como por exemplo, as mutações nos genes EGFR identificam claramente os pacientes que têm câncer pulmonar que provavelmente responderiam com o inibidor da tirosinocinase conhecido como gefitinib. (GILMAN, GOODMAN, 2006)

Quadro 1. Polimorfismos nos genes do citocromo P450 envolvidos em reações adversas. (GILMAN, 1996) (PINTO, 2006)

Enzima P450

Exemplos de reações adversas

associadas a alelos variantes

das enzimas P450

CIP1A2

Antipsicóticos – dicinesia tardia

CIP2C9

Varfarina – hemorragia;

Fenitoína – toxicidade hepática;

Tolbutamina – hipoglicemia

CIP2C19

Diazepam – sedação prolongada

CIP2D6

Metoprolol – taquicardia;

Nortriptilina – confusão mental;

Opióides – dependência

CIP3A4

Epidofolotoxinas- leucemia

As enzimas do citocromo P450 (CIP) são hemoproteínas ativas no fígado, responsáveis pelo metabolismo oxidativo de inúmeros compostos endógenos e exógenose formam uma grande família cuja metabolização é maior em relação a qualquer outro grupo de enzimas e todos possuem variações genéticas (PESSÔA, 2006).

No quadro 1, são mencionadas as principais CIP afetadas por polimorfismo gênico resultando em reações adversas (XXVI ENEGEP).

A multiplicidade do gene CIP2D6 tem sido relacionada ao fato de que alguns indivíduos apresentam uma resposta terapêutica inadequada a certos fármacos; o polimorfismo neste gene predispõe a diferentes fenótipos de metabolização classificados como metabolizadores lentos que possuem maior tendência a efeitos adversos ou tóxicos, metabolizadores normais e metabolizadores rápidos os quais podem apresentar concentrações plasmáticas reduzidas para uma resposta terapêutica (PESSÔA, 2006).

Há outro tipo de metabolização, (Figura 2) são as reações de conjugação classificadas em acetilação, glucoronidação, sulfatação e metilação. A velocidade dessas reações está relacionada à genética dos pacientes, a maioria dos indivíduos é do tipo “acetiladores rápidos” enquanto há também grupos de “acetiladores normais” e “acetiladores lentos”. Indivíduos que metabolizam através da reação de acetilação lentamente poderão apresentar efeitos tóxicos relacionados à acumulação dos fármacos enquanto os indivíduos que realizam essa metabolização rapidamente podem não atingir o efeito desejado, interferindo na eficácia do tratamento.

Figura 2 - Exemplo esquemático das possíveis alterações de perfil metabólico de indivíduos com diferentes características genéticas (polimorfismos) em enzimas. (METZGER, 2006).

As diferenças no efeito dos medicamentos têm como causas não apenas os polimorfismos genéticos relacionados a enzimas metabolizadoras, mas também por influências ambien­tais como estado nutricional, alimentação e cul­tural. Há variações genéticas que agem em transportadores de íons e nas proteínas dos receptores de membrana gerando alterações na entrada do fármaco na célula, interferindo na sua eficácia (ROCHA, 2004) como ocorre com os canais de sódio SCN1 e os receptores adrenérgicos-β-2 que apresentam uma importância potencial em relação a polimorfismos genéticos e a resposta ao medicamento. (METZGER, 2006)

Por exemplo, o tratamento com os antiretrovirais é caracterizado pela variabilidade genética quanto à resposta do fármaco, tanto em termos de eficácia quanto de toxicidade. No caso dos antiretrovirais do tipo inibidores de protease como o lopinavir, ritonavir, saquinavir, nelfinavir e indinavir, existem algumas vias que podem influenciar em sua cinética. Esses fármacos são metabolizados pelas enzimas CIP3A4 e CIP3A5, além disso, são substratos para os transportadores transmembrana ABCB1, ABCC1 e ABCC2 (DEGRAVE, 2007). Então, para estes fármacos a avaliação farmacogenética é muito mais complexa, já que todos esses genes são altamente polimórficos e podem estar envolvidos na resposta.

Entretanto, caso o fármaco sofra influência genética, ainda que seja apenas um fator, é interessante realizar um exame farmacológico antes do uso do medicamento. Esse exame é realizado com uma pequena amostra de sangue. A primeira etapa é amplificar os genes CIP2D6 e CIP2C19, que estão aplicados ao AmpliChip CIP 450, um dispositivo que permite identificar as diferenças genéticas controladoras das duas enzimas do fígado responsáveis pela maneira como os pacientes metabolizam até 25% dos medicamentos vendidos sob receita médica. Para este procedimento é utilizada a técnica do microarray a qual consegue fornecer seqüências de ácidos nucléicos das moléculas do DNA de forma prática. O software pode então determinar o genótipo do paciente e predizer um fenótipo (RODRIGUES, 2006).

Esse teste já é regulamentado pela Lei n.º 12/2005 e é considerado como teste preceptivo que permite a detecção de predisposição para respostas diferenciais no tratamento com um dado medicamento ou a susceptibilidade para reações adversas derivadas da toxicidade da droga. (BRASIL, 2005) Para a indústria farmacêutica, a aplicação desse teste e do tratamento individualizado conduziria a uma possível redução da fatia de mercado consumidor, acarretando em redução dos lucros (RODRIGUES, 2006) dos medicamentos, que atualmente são produzidos em larga escala industrial. Para Sidney Taurel, executivo de uma indústria farmacêutica, esse modelo atual de medicamentos de grande vendagem não funciona mais.

A utilidade potencial da farmacogenética na melhora do tratamento farmacológico é ampla. Quando estudos adequados do genótipo/fenótipo estiverem concluídos, serão desenvolvidos exames diagnósticos moleculares capazes de detectar mais de 95% das variantes genéticas importantes para a maioria dos polimorfismos; além disso, os testes genéticos apresentam a vantagem de precisar ser realizados apenas uma vez durante toda a vida do paciente (GILMAN, GOODMAN, 2006).

Com a incorporação crescente da farmacogenética às experiências clínicas, os genes e polimorfismos importantes serão identificados e o tratamento não ocorrerá pela dose máxima eficaz, mas pela dose mínima terapêutica (ROCHA, 2004), assim, a individualização posológica poderá melhorar os resultados, reduzir os efeitos adversos de curto e de longo prazo além de evitar insistência em terapias ineficazes para determinados pacientes. Dessa forma, os tratamentos serão individualizados, personalizados para cada paciente.

Assim, cada país seguirá seu próprio caminho, uma vez que as alterações genéticas que podem levar o paciente a ter uma resistência ou toxicidade são características, podendo estar ligado ao seu gene particular ou ao de cada população, que é um âmbito mais fácil de realizar estudos. Há a necessidade do desenvolvimento do conhecimento desses mecanismos especificamente na população brasileira devido a sua heterogeneidade e grande miscigenação, associadas a um campo científico bastante propício (PINTO, 2005). Além do que, existem alterações em pacientes de regiões diferentes também devido à mistura étnica, como se pode observar, no Rio de Janeiro há uma maior influência de genes decorrentes de africanos, São Paulo é caracterizado por japoneses e italianos e a região norte, que conta com uma carga genética mais ligada aos nativos (PINTO, 2005). De uma forma geral, estudos deixam claro que os principais grupos que contribuíram para a formação genética da população brasileira são os ameríndios, europeus e africanos (SANTOS).

Segundo Maciel, estudos demonstraram essa heterogeneidade genética que ocorre entre as regiões do Brasil, como é perceptível pelos dados que calcularam a ancestralidade dos brasileiros segundo as regiões. No Nordeste, foi calculada uma ancestralidade 51% Européia, 36% Africana e 13% Ameríndia, enquanto que no Norte, obteve-se descendência 47% Européia, 12% Africana e 41% Ameríndia. No Sul, no estado do Rio Grande do Sul, calcularam uma ancestralidade 82% Européia, 7% Africana e 11% Ameríndia. (MACIEL, 2007)

Devido a essa diversidade genética, muitos cientistas e estudiosos estrangeiros se interessam em conhecer e estudar a farmacogenética em pacientes brasileiros já que essa heterogeneidade não permite a utilização livre de dados farmacogenéticos colhidos em populações relativamente homogêneas. (REFARGEN, 2003)

O gene CIP2E1 é um exemplo de associação entre polimorfismo que envolve a presença de reações adversas em pacientes com tuberculose e o surgimento de neoplasias, principalmente câncer de pulmão e faringe. As freqüências das variantes do gene CIP2E1 dependem da etnia do grupo em estudo e há pouca informação sobre esse polimorfismo em populações miscigenadas como a brasileira (TEIXEIRA, 2005).

É preciso aprofundar os estudos quanto à farmacogenética da população brasileira, uma vez que o tratamento individualizado trará inúmeros benefícios para o paciente, sendo uma alternativa que reduzirá a chance de possíveis reações adversas e efeitos colaterais. A implantação dessa nova ferramenta da farmacoterapia causará uma mudança na conduta médica de modo a facilitar na escolha de um medicamento de acordo com o genótipo do indivíduo (LICÍNIO, 2001). Essa nova prática permitirá a especificidade na utilização de drogas por meio da descoberta de novos mecanismos de ação, o que possibilitará a redução da exposição do paciente a terapias prolongadas com baixa eficácia e muitas vezes onerosas (LIMA, 2004).

Segundo Degrave, o tratamento personalizado, portanto, diminuirá o impacto econômico sobre o sistema de saúde relacionado a altas incidências de mortes e internações, devido à redução da ineficácia ou toxicidade (DEGRAVE, 2007).

A indústria farmacêutica, nesse contexto, tem a farmacogenética como um novo caminho para aumentar sua produtividade, o número, a qualidade e a inovação dos campos de pesquisas dos medicamentos, visto que esta se encontra em uma situação de pequenas inovações. Com a farmacogenética, a indústria produzirá medicamentos mais seguros, em tempo reduzido, além da determinação de grupos mais homogêneos para o tratamento. No entanto, para que ocorra essa grande expansão é preciso reduzir o tempo e o custo do desenvolvimento neste âmbito (COFRE, 2006).

Outra dificuldade para implantação da farmacogenética é o pequeno avanço da legislação em relação ao ritmo de descobertas científicas, o que demonstra dificuldade na aplicabilidade desse conhecimento técnico (PINTO, 2005).

Licínio discute que o mapeamento genético individualizado irá possibilitar a quebra do sigilo do DNA acarretando assim, em problemas éticos relacionados à discriminação de indivíduos com determinadas características e à maneira de armazenagem desse material (LICINIO, 2001).

Dentro desse contexto, é notável que a farmacogenômica e a farmacogenética traga dúvidas em vários sentidos quanto aos procedimentos realizados, mas principalmente pela questão ética16, uma vez que atualmente não existe, no Brasil e no mundo, uma legislação regulamentando a prática dessas ciências. (LIMA, 2004)

Para o desenvolvimento de novos tratamentos farmacológicos é necessário realizar testes genéticos para a coleta de informações a respeito do DNA do paciente, bem como armazenar adequadamente os dados obtidos. Segundo o autor Licínio, esse procedimento envolve questões éticas devido à necessidade de garantir a segurança e o sigilo do genótipo do paciente (DEGRAVE, 2007). A complexidade dessa técnica requer significativa responsabilidade, na qual se pode incluir além do próprio paciente, médicos, hospitais, indústrias farmacêuticas e companhias de seguro de saúde.

O médico farmacologista Dr. Guilherme Kurtz acredita que a informação genética não é mais relevante do que as outras informações a cerca do estado de saúde do paciente afinal, toda a informação médica tem sua importância e em relação ao aspecto genético não seria diferente. Do ponto de vista desse médico farmacologista, portanto, os dados do genótipo do paciente seriam salvaguardados entre o paciente e o médico (LIMA, 2004). Isso implicaria em mudanças na conduta médica, a qual teria maior responsabilidade.

A farmacogenética, constituída de uma terapêutica individualizada, é capaz de produzir novos grupos de pessoas com possibilidade de serem discriminadas, de acordo com a resposta terapêutica. Esta, por sua vez, apresenta variabilidade em função das diferenças étnicas e genéticas. A partir do mapeamento genético será possível conhecer o potencial de resposta do paciente quanto ao medicamento, o que implicará na inclusão ou exclusão do indivíduo no tratamento (COFRE, 2006). Possivelmente isso afetaria no preço do seguro de saúde. (LIMA, 2004) O paciente que apresentar um determinado polimorfismo genético contribuindo negativamente para a resposta medicamentosa, por exemplo, poderá ter dificuldades financeiras, com o aumento do custo do plano de saúde.

Os pesquisadores Adam Hedgecoe e Paul Martin realizaram um estudo a respeito da abordagem da bioética nos periódicos científicos baseados na Bioethicsline e no PUBMED. Eles constataram que há pouco debate nos artigos envolvendo essa temática e os possíveis problemas éticos, legais e sociais criados pela farmacogenética. Essa discussão, entretanto, ao ser abordado nos estudos é realizada por pesquisadores com expectativas comerciais e científicas (LICINIO, 2001).

Segundo o professor Garrafa“a ética serve como instrumento preventivo contra abusos que venham a trazer lucros abusivos para poucos, em detrimento do sofrimento da maioria e do próprio desequilíbrio planetário” (PINTO, 2005). Esse excerto destaca a relevância da ética no desenvolvimento da ciência em prol do ser humano, seja na farmacogenômica e na farmacogenética ou em outras ciências da área de saúde. Afinal, “ética sobrevive sem a ciência e a técnica, mas a ciência e a técnica não podem prescindir da ética” (PINTO, 2005).

O desenvolvimento dessas novas ciências, portanto, apresenta, além de desafios genéticos e farmacológicos, novas diretrizes éticas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O tratamento individualizado proposto pela farmacogenética representa um avanço na terapêutica. A prática dessa especialidade implicará na redução de efeitos adversos e no aumento da eficácia e segurança do uso de medicamentos. No entanto, existem dificuldades como o custo oneroso, adesão do profissional da saúde e do paciente e a falta de uma legislação que respalde o exercício da farmacogenética por envolver inúmeros fatores éticos.

No âmbito da aplicação da farmacogenética, a assistência farmacêutica apresenta-se como uma das áreas influenciadas, englobando desde os estudos pré-clínicos até a produção de novos fármacos e a atenção farmacêutica. Dessa maneira, o farmacêutico estaria presente nas pesquisas, na produção e no acompanhamento da terapêutica do paciente juntamente com outros profissionais.

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