Psicólogo no Serviço Público de Saúde

Psicólogo no Serviço Público de Saúde

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143Concepções e atuação profissional diante das queixas escolares

É conhecida a enorme quantidade de crianças com queixas escolares encaminhada pelas escolas aos psi- cólogos nos Centros de Saúde. Estudos revelam que 50 a 70% das crianças e adolescentes encaminhados aos serviços públicos de saúde têm como queixa dificuldades de aprendizagem ou problemas de comportamento na sala de aula ou fora dela (Machado, 1991; Souza, 1993). Nesta úl- tima década, várias pesquisas (Boarini, Guimarães & Luzia, 1990; Mello, 1997; Patto, 1990; Santos, 1990; Silva,

1994) têm analisado criticamente as concepções e o direcionamento que a Psicologia tem dado ao atendimento das queixas escolares, no momento em que os psicólogos deixaram de exercer atividades nas escolas e centralizaram sua atuação nos Centros de Saúde. Além disso, essas pes-

Concepções e atuação profissional diante das queixas escolares: os psicólogos nos serviços públicos de saúde

Estela Cabral

Sandra Maria Sawaya Universidade de São Paulo

Resumo

Este trabalho tem o objetivo de conhecer a atuação dos psicólogos diante das queixas escolares de crianças encaminhadas aos serviços públicos de saúde do município de Ribeirão Preto, Estado de São

Paulo, uma vez que ela pode fornecer dados importantes para a análise da formação profissional do psicólogo. Foram realizadas entrevistas individuais, semi-estruturadas a partir de um roteiro, sendo estas gravadas e transcritas, o que permitiu uma análise quantitativa e qualitativa das respostas de 19 psicólogos que participaram do presente estudo. Os resultados mostraram que esses profissionais ainda compreendem a queixa escolar como um problema da criança pobre e de sua família, passível de ser analisado e tratado fora do contexto da instituição escolar, na qual o fracasso escolar é produ- zido. Embora os profissionais apontem a participação da escola na produção das dificuldades escolares das crianças, o foco de intervenção dos problemas apresentados ainda é o atendimento individualizado das crianças e dos seus familiares. Apesar dos avanços teórico-metodológicos presentes nas novas compreensões das queixas escolares, eles ainda não se fazem suficientemente presentes na atuação desses profissionais.

Palavras-chave: Formação profissional e Psicologia, Problemas de aprendizagem, Atuação do psicólogo.

Abstract

Conceptions and professional performance in face of the needs of children with school problems: Psychologists in the public health services This work aims at characterizing the performance of psychologists in the public health services in the City of Ribeirão Preto, São Paulo State, in face of the needs of children presenting school problems, since they can be an important source of information for the education of such professionals. Individual semi-structured interviews were recorded and transcribed, allowing quantitative and qualitative analyses of data from 19 psychologists who participated in this study. The results showed that psychologists still regard school problems as inherent to poor children and their families and that they can be treated out of the contexts in which they were produced – the school institution where the complaint has originated. Although professionals point out the participation of the school in the production of children’s difficulties, the focus of intervention in problems presented is still the individualized assistance to children and their families. In spite of the theoretical and methodological improvements found in the new understanding of school problems, they are still not present in the performance of these professionals.

Key-words: Professional education and psychology, Learning problems, Psychologist’s performance.

Estudos de Psicologia 2001, 6(2), 143-155

144E. Cabral e S. M. Sawaya quisas vêm propondo aos psicólogos que atendem crianças e adolescentes com queixas escolares novas perspectivas de atuação profissional (Machado & Souza, 1997). O presente estudo tem por objetivo analisar se as con- tribuições destas pesquisas críticas vêm sendo incorporadas pelos psicólogos em sua atuação nos serviços públicos de saúde do município de Ribeirão Preto-SP e também discutir questões que envolvem a formação profissional do psicólogo, tendo em vista que as novas políticas educacionais têm tornado urgente essa discussão.

Já na década de 80, Patto (1987), com o objetivo de conhecer a maneira como os psicólogos representavam a realidade social e escolar e o desempenho desses profissio- nais nas escolas no município de São Paulo, chamava a atenção para os equívocos e incompreensões presentes na formação do psicólogo em relação ao atendimento dos proble- mas escolares das crianças provenientes das camadas populares. Convictos de que os alunos eram deficientes e/ou diferentes e que os professores não os compreendiam em suas deficiências (p. 173), a atuação dos psicólogos focalizava dois aspectos: os alunos e os professores. Com o intuito de desenvolver nos alunos atitudes e comportamentos espera- dos pela escola, realizavam treino de agilidade motora, trabalhavam com a disciplina e obediência às regras escolares, isto é, buscavam a integração da criança desajustada aos padrões de comportamento desejados e a eliminação dos comportamentos inadequados (p. 185). Com os professores, o trabalho voltava-se à sensibilização deles para os as- pectos educacionais tais como a discussão do processo de aprendizagem e suas dificuldades, buscando auxiliá-los no desempenho mais eficiente da sua tarefa, embora não discu- tissem as posturas autoritárias que poderiam estar influenciando os comportamentos indesejados dos alunos. Todavia, quando os psicólogos eram questionados sobre a eficácia de sua proposta de atuação, mostravam-se muito insatisfeitos com esta forma de trabalho com os alunos e os professores, sentindo-se angustiados e impotentes diante do fraco resul- tado que obtinham (p. 186).

Nessa mesma direção, Almeida (1992), com o objetivo de investigar e compreender as concepções que os psicólo- gos escolares tinham das dificuldades de aprendizagem, verificou que eles acreditavam que tais dificuldades advinham de deficiências dos alunos, de atraso cognitivo ou de proble- mas emocionais, relacionados à desestruturação familiar, isentando a escola, os fatores psicopegagógicos e o processo ensino-aprendizagem da responsabilidade pelos problemas esco- lares (p. 265). Tal postura levava os psicólogos a direcionarem a sua atuação apenas para os aspectos individuais do aluno. Da mesma forma, Yamamoto et al. (1990), mostrando a situação da Psicologia Escolar em Natal (RN) e caracterizando o trabalho desenvolvido pelos psicólogos nesta cidade, observou que a maior atenção centrava-se no aluno, fi- cando em segundo plano a atuação junto à escola, aos pro- fessores e aos pais.

Em uma outra direção de estudos, Silva (1994), fazendo um levantamento da demanda infantil por atendimento psicológico em um Centro de Saúde-Escola da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (SP), verificou que era grande a quantidade de crianças encaminhadas com queixa es- colar e, assim, mostrou que o sistema educacional fundamental tinha a tendência a atribuir as dificuldades escolares dos alunos a problemas intrapsíquicos e/ou orgânicos. Em outras palavras, as causas das dificuldades de aprendizagem, antes atribuídas às condições adversas de saúde (como a desnutrição e verminoses) das classes menos favorecidas da sociedade, passaram a ser atribuídas também aos problemas psicológicos (p. 39), o que levou ao aumento da procura por serviço de psicologia infantil nos centros de saúde.

Fazendo uma análise das estratégias de atuação do psicólogo nestas queixas, Souza (1993) revela que muitas vezes este profissional de saúde não consegue compreender claramente o motivo pelo qual a criança foi encaminhada para o serviço de psicologia. Tampouco a família ou a criança sabem explicar os motivos do encaminhamento. E, em algumas ocasiões, “durante o processo de psicodiagnóstico, as mães trazem informações da escola dizendo que seu filho havia deslanchado no aprendizado, sem que se tivesse ainda por parte do psicólogo qualquer dado mais concreto a respeito das causas da problemática dessas crianças, apontadas pela escola” (p. 270). Tais fatos, somados a vários ou- tros, como a atribuição, pelos psicólogos, de possíveis causas emocionais aos problemas escolares, têm revelado o seu desconhecimento a respeito da escola de onde vêm essas crianças e o que se passa em seu interior.

Oliveira e Bruns (1992), com o objetivo de caracterizar a atuação dos psicólogos que trabalham nas redes de ensino na cidade de Ribeirão Preto - SP e região, apontou o quanto a legislação favorece o trabalho de diagnóstico do psicólogo nas escolas. A lei, ao exigir avaliação psicológica no enca- minhamento de crianças para classes especiais, fortalece a atuação do psicólogo como avaliador do desempenho da criança, de forma que o sistema ajuda a acentuar uma imagem reducionista do aluno, valorizando a avaliação psicométrica (p. 49). Concluem ainda que, apesar de as escolas reconhecerem a importância do serviço de psicologia, há necessida- de de uma revisão crítica da identidade do psicólogo escolar e da especificação de seu papel profissional (p. 50) para que, de fato, ele possa auxiliar as escolas no equacionamento das dificuldades escolares.

Na mesma direção, partindo de considerações históricas para mostrar a contribuição da Psicologia à Educação,

Del Prette (1993) aponta que a atuação do psicólogo tem sido fortemente influenciada por um referencial teórico-metodológico advindo da Psicologia Clínica, o qual limita sua

145Concepções e atuação profissional diante das queixas escolares atuação profissional na instituição escolar, por focalizar os aspectos individuais do aluno. Assim, mostra a necessidade de reconstruir a identidade do psicólogo no contexto educacional, revendo as concepções e práticas profissionais de mo- do a que elas possam dar conta da complexidade dessa realidade. Propõe, ainda, uma ampliação da concepção da queixa escolar que focalize não só a criança mas também a identifi- cação de fatores intra-escolares associados a estas queixas, de modo a tornar possível uma intervenção mais adequada sobre as reais necessidades da escola e dos alunos.

Nos últimos 20 anos, alguns estudos em Educação e em Psicologia (Andaló, 1993; Del Prette, 1993; Gatti, Patto, Costa, Copit & Almeida, 1981) realizaram uma análise crí- tica das práticas pedagógicas, da relação professor-aluno, da estrutura e funcionamento da escola pública oferecida às crianças e adolescentes de camadas populares, revendo ain- da as concepções que a escola tem do aluno e de sua família e o seu modo de atuação junto a eles. Estes estudos vêm apontando causas intra-escolares para os altos índices de fra- casso escolar e, como mostrou Ribeiro (1991) em 1982, estudos registravam 52% de reprovação da primeira para a segunda série do primeiro grau. Tais estudos permitiram uma ampliação do entendimento dos problemas escolares desta clientela, abrindo novas perspectivas de investigação e atuação do psicólogo na escola.

A partir de um referencial teórico-metodológico que permitiu uma análise do cotidiano escolar, alguns estudos (Collares & Moyses, 1996; Patto, 1990) vieram revelar que o fracasso escolar das crianças da camadas populares é produzido por diversas práticas que se estabelecem na relação da escola com a sociedade e com sua clientela, tais como a elaboração de materiais didáticos distantes da realidade das crianças, por crenças de que esta população não aprende porque é portadora de deficiências decorrentes de suas con- dições de vida ou pelas dificuldades econômicas que não lhe permitem se alimentar direito, ou pela falta de interesse dos pais por questões escolares, ou pela desestruturação fa- miliar, crenças que acabam interferindo no relacionamento com os alunos, pois desacreditando neles, os professores acabam por não lhes ensinar, rotulando-os como deficien- tes. A partir de tal análise, abriram-se novas perspectivas de atuação do psicólogo nas queixas escolares. Nessa mesma linha de pesquisa, Andaló (1993) veio revelar que os modos de atuação do psicólogo também têm contribuído para o não entendimento da multiplicidade de fatores intra-escolares na produção das dificuldades das cri- anças de camadas populares. Permeada por concepções e representações muitas vezes baseadas em preconceitos sociais em relação às crianças pobres e suas famílias, as práti- cas dos psicólogos acabam por reforçar os “mecanismos ideológicos” (a avaliação negativa do professor sobre as capacidades de aprendizagem das crianças e suas repercus- sões sobre a família, entre outros), “que naturalizados atra- vés de um processo de interiorização que faz com que passem a fazer parte da subjetividade”, traduzem-se em formas de relacionamento que produzem dificuldade de aprendiza- gem do aluno (p. 5).

Complementando esta idéia, Balbino (1990) aponta também a desarticulação entre teoria e prática que caracteriza a formação do psicólogo, bem como a falta de um enfoque sócio-político que permita, inclusive, aos psicólogos terem um conhecimento dos dados e informações sobre a situação da educação brasileira (p. 5).

É no contexto dessas discussões que o presente estudo se insere e visa caracterizar a atuação de psicólogos que aten- dem crianças encaminhadas com queixas escolares aos serviços públicos da cidade de Ribeirão Preto (SP), sejam eles municipais, estaduais ou ligados a entidades não-governa- mentais.

Buscando conhecer como os psicólogos compreendem o seu trabalho e desempenham profissionalmente, este arti- go pode contribuir para o entendimento dos problemas por eles enfrentados, ajudando-os a reconhecer, a partir de uma análise das concepções que permeiam sua atuação profissi- onal, quais as questões que precisam ser enfrentadas na superação desses problemas.

Método

Amostra

Participaram do presente estudo dezenove psicólogas que atuam na cidade de Ribeirão Preto (SP) em serviços públicos - Unidades Básicas de Saúde, Clínicas Escolas e Centros Especializados - que atendem crianças encaminhadas com queixas escolares.

As psicólogas entrevistadas constituem uma representativa amostra de 60% do total de 32 profissionais que atuam nos diferentes tipos de serviços públicos prestados ao município, o que permite uma caracterização de suas atuações profissionais junto às crianças com queixas escolares encaminhadas pelas escolas estaduais e municipais de Ri- beirão Preto aos serviços públicos de Psicologia.

As profissionais têm grande experiência profissional e alto nível de qualificação, 58% delas têm mais de 10 anos de formados e 10% mais de 3 anos de formados e 53% delas estão há pelo menos 5 anos neste emprego. Formadas em sua grande maioria em universidades públicas, 64% de- las cursaram a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, sendo que 63% têm especialização pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, na área de atendimento de saúde (Psicopedagogia, Psicologia cCínica com especialização no atendimento a crianças e adolescentes). Dessas profissionais, 26% possuem mestrado e

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