Artigo pressões respiratórias máximas

Artigo pressões respiratórias máximas

(Parte 1 de 3)

v. 1 n. 5, 2007 Pressões respiratórias máximas: valores encontrados x preditos361ISSN 1413-3555 Rev. bras. fisioter., São Carlos, v. 1, n. 5, p. 361-368, set./out. 2007

©Revista Brasileira de Fisioterapia

PAREIRA VF 1, FRANÇA DC 2, ZAMPA C 2, FONSECA M 3, TOMICH GM 3 E BRITTO R 1

1 Departamento de Fisioterapia, Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Belo Horizonte, MG - Brasil 2 Programa de Pós-Graduação em Ciências da Reabilitação, UFMG 3 Fisioterapeuta

Correspondência para: Profa. Dra. Verônica Franco Parreira, Departamento de Fisioterapia, Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional, Universidade Federal de Minas Gerais, Av. Presidente Antônio Carlos, 6627, Pampulha, CEP 31270-091, Belo Horizonte, MG – Brasil, e-mail: parreira@ufmg.br

Recebido: 23/10/2006 - Revisado: 29/03/2007 - Aceito: 28/06/2007

Objetivo: Comparar os valores encontrados de pressões respiratórias máximas (pressão inspiratória máxima-PImáx e pressão expiratória máxima-PEmáx) em uma amostra de indivíduos saudáveis de Minas Gerais com valores preditos pelas equações propostas por Neder et al.3. Métodos: Por meio de um manovacuômetro analógico, foram estudados 100 indivíduos saudáveis (54 mulheres, 46 homens), com idade entre 20-80 anos, recrutados no estado de Minas Gerais - Brasil. A análise estatística foi realizada com testes paramétricos ou não-paramétricos, dependendo da distribuição das variáveis, considerando significativo p< 0,05. Resultados: PImáx em mulheres: a média dos valores encontrados foi significativamente menor que a média dos preditos (68,24 ± 29,48 x 86,53 ± 8,76; p= 0,0) e houve correlação de moderada magnitude e significativa (r= 0,557; p< 0,0); PImáx em homens: não houve diferença significativa entre os valores encontrados e preditos (104,67 ± 42,6 x 116,78 ± 14,02; p= 0,055) e houve correlação de baixa magnitude e não significativa (r= 0,236; p= 0,115); PEmáx em mulheres: não houve diferença significativa entre os valores encontrados e preditos (80,37 ± 3,32 x 85,8 ± 10,90; p= 0,164) e houve correlação de baixa magnitude e não significativa (r= 0,149; p= 0,283); PEmáx em homens: a média dos valores encontrados foi significativamente maior que a média dos preditos (142,28 ± 43,89 x 126,30 ± 14,19; p= 0,017) e houve correlação não significativa de baixa magnitude (r= 0,159; p= 0,290). Conclusão: Considerando que para haver concordância entre os valores encontrados e preditos é preciso não haver diferença e haver correlação entre os valores, as equações propostas por Neder et al.3 não foram capazes de predizer os valores de PImáx e PEmáx na população estudada.

Palavras-chave: pressões respiratórias máximas; músculos respiratórios; equações preditivas; pulmão.

Maximal respiratory pressures: actual and predicted values in healthy subjects

Objective: To compare actual values for maximal inspiratory pressure (MIP) and maximal expiratory pressure (MEP) found in a sample of healthy individuals from the State of Minas Gerais (Brazil) with the values predicted from the equations put forward by Neder et al.3. Method: Using an analog manovacuometer, 100 healthy subjects (54 women and 46 men aged 20-80 years old) were studied. Statistical analysis was performed using parametric or non-parametric tests, depending on the distribution of the variables, and p< 0.05 was considered to be significant. Results: For MIP in women, the mean of the actual values was significantly lower than the mean of the predicted values (68.24 ± 29.48 vs. 86.53 ± 8.76; p= 0.0) and there was a moderate and significant correlation (r= 0.557; p< 0.0). For MIP in men, no significant difference was observed between the actual and predicted values (104.67 ± 42.6 vs. 116.78 ± 14.02; p= 0.055) and there was a low and non-significant correlation (r= 0.236; p= 0.115). For MEP in women, there was no significant difference between the actual and predicted values (80.37 ± 3.32 vs. 85.8 ± 10.90; p= 0.164) and there was a low and non-significant correlation (r= 0.149; p= 0.283). For MEP in men, the mean of the actual values was significantly higher than the mean of the predicted values (142.28 ± 43.89 vs. 126.30 ± 14.19; p= 0.017) and there was a low and non-significant correlation (r= 0.159; p= 0.290). Conclusion: Considering that concordance between actual and predicted values requires the lack of difference and the existence of correlation between them, the equations proposed by Neder et al.3 were not successful in predicting MIP and MEP values in the population studied.

Key words: maximal respiratory pressures; respiratory muscles; predictive equations; lung.

362 Parreira VF, França DC, Zampa C, Fonseca M, Tomich GM e Britto R Rev. bras. fisioter.

A força dos músculos respiratórios pode ser avaliada diretamente por meio de medidas estáticas como as pressões respiratórias máximas1-3 ou inferida utilizando-se alguma manobra dinâmica como a ventilação voluntária máxima3.

A mensuração das pressões respiratórias estáticas máximas é um teste relativamente simples, rápido e não invasivo, que consiste em duas medidas. A pressão inspiratória máxima (PImáx) é um índice de força da musculatura inspiratória, e a pressão expiratória máxima (PEmáx) é um índice de força dos músculos expiratórios. PImáx e PEmáx são, respectivamente, a maior pressão que pode ser gerada durante uma inspiração e expiração máximas contra uma via aérea ocluída3-5. Ambas podem ser medidas por meio do manovacuômetro, instrumento clássico para avaliar a força dos músculos respiratórios em nível da boca. Os valores de PImáx e PEmáx são dependentes não apenas da força dos músculos respiratórios, mas também do volume pulmonar em que são realizadas as medidas e do correspondente valor da pressão de retração elástica do sistema respiratório. Contudo, as mensurações das pressões respiratórias máximas dependem ainda da compreensão das manobras a serem executadas e da vontade do indivíduo em cooperar e realizar movimentos e esforços respiratórios realmente máximos5.

As medidas de PImáx e de PEmáx podem ser utilizadas para quantificar a força dos músculos respiratórios em indivíduos saudáveis de diferentes idades, em pacientes com distúrbios de diferentes origens, assim como para avaliar a resposta ao treinamento muscular respiratório5-10.

Black e Hyatt7, em 1969, descreveram o método de avaliação da força da musculatura respiratória. Esses autores realizaram um estudo com 120 indivíduos saudáveis, de ambos os sexos, com idade entre 20 e 86 anos, determinando os valores de pressões respiratórias máximas e equações de referência para a população saudável, levando em consideração sexo e idade. Após esse primeiro estudo, diversos autores avaliaram PImáx e PEmáx em pessoas saudáveis, de diferentes faixas etárias, em diferentes lugares do mundo e publicaram seus achados sob a forma de valores de referência7,1,12 ou equações preditivas3,7,8,13-15 para o cálculo das pressões respiratórias máximas.

De acordo com a literatura revisada, Camelo Jr et al.1, em 1985, foram os primeiros a descrever valores de PImáx e PEmáx de uma amostra da população brasileira, na cidade de Ribeirão Preto, no estado de São Paulo. Eles avaliaram 60 indivíduos saudáveis de ambos os sexos, com idade entre 20 e 49 anos. Neder et al.3, em 1999, avaliaram 100 indivíduos saudáveis de ambos os sexos, com idade entre 20 e 80 anos, no estado de São Paulo. Esses autores, por meio da análise de regressão múltipla, foram os primeiros a desenvolverem equações preditivas sexo e idade dependentes para PImáx e PEmáx a partir de uma amostra da população brasileira.

Dentro do nosso conhecimento, ainda não foram publicados estudos sobre a aplicabilidade das equações preditivas em uma amostra com faixa etária ampla, de indivíduos de Minas Gerais. Assim, o objetivo deste estudo foi comparar os valores encontrados das pressões respiratórias máximas em uma amostra de indivíduos saudáveis de Minas Gerais com valores preditos pelas equações propostas por Neder et al.3.

Foram recrutados 103 indivíduos (47 homens e 56 mulheres) nas cidades de Belo Horizonte, Itabira e Sete Lagoas. Os critérios de inclusão foram: idade entre 20 e 80 anos3; índice de massa corporal entre 18 e 29,9 (kg/m2)16, não possuir história presente3,17 ou passada5,17 de fumo; não apresentar deformidade torácica evidente (pectus carinatum ou pectus escavatum)5; não relatar a presença de patologias neuromusculares, respiratórias ou cardíacas3,5,17; não ter apresentado febre (três semanas)3,5,17 e gripe e/ou resfriado na semana anterior ao procedimento5; não fazer uso de corticóide oral14, depressor do sistema nervoso central, barbitúrico14 ou relaxante muscular13,14; não ter realizado atividade física extenuante num período inferior a 12 horas e não ter realizado refeição completa num período inferior a três horas anteriormente aos procedimentos do estudo3,17. Os critérios de exclusão foram: incapacidade de compreender e/ou realizar os procedimentos.

Os procedimentos do estudo foram aprovados pelo

Comitê de Ética em Pesquisa da Instituição (Parecer ETIC 502/04) e todos os indivíduos assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Os indivíduos foram recrutados de acordo com a idade (20-29, 30-39, 40-49, 50-59, 60-69, 70-80 anos) e sexo, com estratificação em subgrupos, totalizando 12 estratos, semelhante ao estudo realizado por Neder et al.3. Os indivíduos foram submetidos a uma avaliação inicial e, posteriormente, às medidas das pressões respiratórias máximas.

Foi realizada uma entrevista que consistiu em perguntas padronizadas relacionadas aos hábitos de vida e doenças prévias e/ou atuais, baseadas nas diretrizes para testes de função pulmonar5.

Na seqüência, foi aplicado o Questionário Internacional de Atividade Física, versão 8 (International Physical Activity Questionnaire - IPAC) na forma curta18, com o intuito de classificar o nível de atividade física de cada participante. Esse questionário foi validado para a população brasileira por Matsudo et al.18 em 2001. Considerando os critérios de freqüência, duração e tipo de atividade física, os indivíduos foram classificados em sedentários, insuficientemente ativos, ativos e muito ativos.

O peso foi verificado por meio de uma balança portátil e a altura avaliada por uma trena manual. Ambos foram aferidos por meio de uma balança calibrada (Filizola Ind. Ltda, SP,

As medidas de PImáx e PEmáx foram realizadas por meio de um manovacuômetro com intervalo operacional de

± 300 cmH2O (GeRar®, São Paulo, Brasil). O manovacuômetro foi conectado a uma traquéia de plástico de 16 centímetros de comprimento e 2,4 centímetros de diâmetro interno. A extremidade da traquéia foi conectada a um bocal de plástico rígido. O aparelho foi calibrado anteriormente ao início do estudo segundo recomendações do INMETRO, por meio da aplicação crescente de pressão e vácuo até o limite estabelecido pelo fabricante do equipamento. Cabe ressaltar que poderia ser utilizado um outro método, talvez mais confiável, como calibração em coluna d’ água ou mercúrio. Entretanto, após a coleta de dados, o equipamento foi novamente enviado para calibração e não foi necessária a realização da mesma, segundo informações dos técnicos. Anteriormente a cada teste, foi realizada uma verificação da posição do ponteiro no ponto zero e, caso necessário, um simples ajuste do parafuso do ponteiro foi realizado.

Hamnegard et al.19, em 1994, avaliaram as pressões respiratórias máximas em indivíduos saudáveis e pacientes com doença respiratória. Esses autores compararam as medições realizadas com o manômetro portátil com os valores obtidos com um transdutor de pressão, equipamento considerado padrão ouro, e não observaram diferenças significativas, demonstrando a precisão e reprodutibilidade do manômetro portátil. McConnell et al.1, em 1999, mostraram que o coeficiente de variação foi de 10,2% e 12,8% para PImáx e PEmáx, respectivamente, em idosos saudáveis, demonstrando uma reprodutibilidade aceitável.

Neste estudo, os valores de PImáx e PEmáx encontrados foram comparados com os valores preditos pelas equações de Neder et al.3 descritas abaixo:

PImáx - Mulheres: y= -0,49 (idade) + 110,4; erro-padrão da estimativa = 9,1

- Homens: y= -0,80 (idade) + 155,3; erro-padrão da estimativa = 17,3

PEmáx - Mulheres: y= -0,61 (idade) + 115,6; erro- -padrão da estimativa = 1,2

- Homens: y= -0,81 (idade) + 165,3; erro-padrão

da estimativa = 15,6

Para cada parâmetro, os limiares inferior e superior da normalidade foram obtidos subtraindo-se ou somando, respectivamente, do valor predito pela equação, o produto (1,645 x erro-padrão da estimativa)5.

As medidas das pressões respiratórias máximas foram realizadas com os indivíduos sentados, utilizando clipe nasal e mantendo um bocal firmemente entre os lábios. Primeiramente, duas manobras para aprendizado foram realizadas3. A avaliação foi considerada completa quando o indivíduo realizava três medidas aceitáveis e, dentre essas, um número mínimo de duas reprodutíveis5. O último valor encontrado não poderia ser superior aos demais3,5. Foram consideradas aceitáveis manobras sem vazamentos de ar e com sustentação da pressão por pelo menos um segundo3, e reprodutíveis as medidas com variação igual ou inferior a 10% do maior valor3,5. Houve um intervalo de um minuto entre as medidas, e o maior valor entre as manobras reprodutíveis foi o selecionado para análise3,5.

Para a medida de PImáx, os indivíduos expiraram no bocal até o volume residual e, posteriormente, geraram um esforço inspiratório máximo contra uma via aérea ocluída3,5. Para PEmáx, os indivíduos inspiraram no bocal até a capacidade pulmonar total e, em seguida, um esforço máximo expiratório contra uma via aérea ocluída foi gerado3,5. Durante essa última medida, os indivíduos seguraram com as mãos a musculatura perioral da face para evitar vazamento e acúmulo de ar na região lateral da cavidade oral3.

O procedimento foi realizado por três examinadores.

Para minimizar possíveis interferências de heterogeneidade nas coletas, foi realizada análise da confiabilidade inter- -examinadores para PImáx e PEmáx por meio do estudo dos dados relativos a cinco voluntários, seguindo recomendações da assessoria estatística. Para esta análise, foram utilizados dois testes complementares: coeficiente de variação das médias dos examinadores e o coeficiente de correlação intraclasse (ICC)20.

O coeficiente de variação foi utilizado para testar a hipótese de igualdade das respostas médias entre os examinadores. Um coeficiente de variação menor que 0,25 é considerado adequado. O coeficiente observado foi de 0,032 e 0,037 para PImáx e PEmáx, respectivamente, demostrando, assim, que os examinadores obtiveram resultados muito próximos.

O ICC foi utilizado para avaliar a correspondência entre as medidas realizadas pelos diferentes examinadores. O ICC observado foi de 0,89 para PImáx e 0,83 para PEmáx, indicando forte concordância entre os mesmos, visto que um ICC igual ou superior a 0,8020 demonstra forte concordância entre os examinadores.

Análise estatística

Os dados foram expressos como média ± desvio-padrão.

O teste de normalidade Kolmogorov-Smirnov foi utilizado para verificar a distribuição dos dados. Para comparação das médias dos valores de pressões respiratórias máximas obtidos nesse estudo e dos valores preditos por meio das equações propostas por Neder et al.3, foi utilizado o teste t de Student pareado quando a distribuição foi normal e Wilcoxon quando a distribuição foi diferente de normal. Para verificar a associação entre esses valores, foi utilizado o coeficiente de correlação de Pearson ou Spearman, em função do tipo de distribuição da variável20.

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Foram consideradas diferenças estatisticamente significativas aquelas cujo valor p foi inferior a 0,05.

Dos 103 indivíduos recrutados, três foram excluídos (dois por incapacidade de realizar os procedimentos e um por atingir valores de PEmáx superiores a 300 cmH2O). Foram estudados 100 indivíduos (46 homens e 54 mulheres). A

Tabela 1 descreve os dados demográficos e antropométricos da amostra, assim como apresenta a distribuição dos indivíduos em relação ao sexo, à idade e à cidade de origem.

De acordo com a classificação do IPAC, 54% dos indivíduos foram classificados como sedentários ou insuficientemente ativos, e 46%, como ativos ou muito ativos.

Valores encontrados x valores preditos

A Tabela 2 apresenta os valores de PImáx e PEmáx encontrados e aqueles preditos pelas equações propostas por Neder et al.3. Os dados foram apresentados separadamente para mulheres e homens e expressos em cmH2O. Os valores encontrados de PImáx no grupo das mulheres foram significativamente menores que os preditos. Comparando- -se os valores de PImáx no grupo dos homens, não houve

Belo Horizonte Itabira Sete Lagoas

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