Desenvolvimento sustentável

Desenvolvimento sustentável

(Parte 3 de 5)

Na maioria dos muitos projetos hoje existentes de uso dito “sustentável” de recursos, o que se vê é que a sustentabilidade é apenas assumida, sem nem mesmo ser testada, quanto menos demonstrada.

qual significa desdobramento, trazendo embutida a idéia de crescimento em direção a um sistema mais complexo. Num sistema finito, como é o de nosso planeta, crescimento contínuo e conservação são obviamente incompatíveis a longo prazo. Essa simples realidade, enunciada por Paul Ehrlich há umas quatro décadas, é cada vez mais atual, como indicam os problemas hoje enfrentados pelo mundo, embora ainda prefiramos fechar os olhos a ela.

Embora alguns economistas critiquem o “desenvolvimento sustentável” por não representar uma ruptura epistemológica real com as premissas básicas do capitalismo (de David Ricardo e Adam Smith), e alguns já tenham concebido sistemas econômicos que poderiam funcionar sem crescimento, essa idéia ainda não é nada popular. Ao contrário, todos nós somos bombardeados cotidianamente pela mídia com o dogma quase religioso de que crescimento econômico seria a solução para todos os nossos problemas — e, mais do que isso, um fim em si, um objetivo indiscutível a alcançar.

O que é então “desenvolvimento sustentável” na realidade, isto é, não como definição em documento oficial da Comissão Brundtland ou de um governo qualquer, mas como prática? A meu ver, a expressão vem sendo usada atualmente com pelo menos quatro sentidos diferentes, relacionados a seguir.

1.Um elogiável e necessário objetivo (para os de boa-fé). 2.Uma maneira de obter permissão para explorar recursos em áreas naturais protegidas: todas as portas oficiais se abrem diante da mágica palavra “sustentabilidade”, mesmo se tal qualidade for apenas suposta.

3.Uma maneira de inserir produtos num mercado cada vez mais consciente ecologicamente: muitos produtos vendem mais quando têm um selo atestando exploração sustentável, ainda que na realidade não o seja, ou não se saiba se é. 4.Uma maneira de desviar para outros usos os abundantes recursos financeiros internacionais destinados à conservação da natureza.

Este último ponto merece uma rápida explicação. A partir da década de 80, uma parcela cada vez maior desses recursos vem sendo dada a projetos ditos “socioambientais”, que se propõem a resolver problemas sociais e simultaneamente conservar a natureza. Na verdade, a esmagadora maioria desses projetos são simplesmente projetos econômicos e/ou sociais, que não ajudam a preservar a natureza. É indiscutível que lidar com os problemas sociais é crucial, tanto quanto lidar com os ambientais (ver a próxima seção). Mas isso não quer dizer necessariamente que a maneira mais efetiva de tratar os dois tipos de problema seja na mesma área e ao mesmo tempo, como preconizado em inúmeros projetos socioambientais. Ao contrário, muitos deles são ativa e gravemente prejudiciais para a conservação, ao induzir, por exemplo, que se abra para exploração econômica, sob o mantra da suposta “sustentabilidade”, locais que de outra forma seriam áreas naturais protegidas. Com o fracasso da sustentabilidade, chega-se a uma nova situação muito pior que a original, tanto ecológica quanto socialmente: os recursos já não existem e na área há uma população humana maior que antes, com necessidades maiores que não podem mais ser atendidas. Obviamente, é importante haver recursosPaul Ehrlich, biólogo americano, é autor do best-seller The Population Bomb(1968). Woodward, H.N. Capitalismo sem Crescimento. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.Costa, F.A.P.L. “A Insustentável Leveza das Reservas Extrativistas”, in Natureza & Conservação, Vol. 2, 2004.

A ecologia — muito mais do que os reis, as guerras e os tratados — tem sido um dos maiores árbitros da ascensão e da decadência das civilizações ao longo da história.

internacionais para projetos sociais, no Brasil e em outros países, mas isso não justifica que recursos destinados à conservação — comparativamente muitíssimo menores, embora com valores absolutos suficientemente grandes para despertar cobiça — sejam desviados de suas finalidades originais. A triste história do desvio dos recursos para conservação por meio de projetos “socioambientais” orientados pelo paradigma do desenvolvimento sustentável foi magistralmente contada por John Terborgh em Requiem for Nature. Esse é um livro que os ecologistas só devem ler se tiverem muita certeza de que querem dedicar sua vida à causa da conservação — de outro modo, desistirão, tal o descrédito com o que vem acontecendo, sob o manto de belas estatísticas, em torno de nós neste planeta.

Revendo a História com novos olhos

Em toda pesquisa de opinião, em qualquer país do mundo, os problemas ambientais nunca aparecem como a preocupação maior das pessoas. E nem dos governos. Até o momento em que escrevo, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, jamais ganhou alguma disputa importante dentro do governo. Raramente o meio ambiente tem a seu favor vontade política decisiva ou abundantes recursos financeiros.

Nas últimas décadas, porém, vem surgindo uma percepção inquietante e radicalmente nova. A ecologia — muito mais do que os reis, as guerras e os tratados — tem sido um dos maiores árbitros da ascensão e da decadência das civilizações ao longo da História. Os reis, as guerras e os tratados são meras conseqüências. Essa proposta radical e inquietante — a caminho de uma história ecológica das civilizações — tem sido defendida por Jared Diamond, começando por The Rise and Fall of the Third Chimpanzee, apro- fundando-se em Armas, Germes e Açoe culminando no brilhantíssimo Collapse.

Embora poucos saibam disso, a maior construção humana das Américas até o final do século XIX era o maior dos pueblosde Chaco Canyon, em pleno deserto do Novo México, erguido por volta do ano 900 por um povo conhecido por anasazi. Era uma maciça construção de cinco andares, 650 habitações e mais de 201 metros de comprimento por 95 de largura. Podia alojar cerca de 3.0 pessoas e consumiu em sua construção mais de 200 mil magníficos troncos de árvore de cinco metros cada um. E esse era apenas um dos vários pueblossimilares construídos pelos anasazi. Imagine o quanto deve ter sido surpreendente para os conquistadores espanhóis descobrir aquelas gigantescas construções em pleno deserto, abandonadas havia séculos. Não havia mais nenhum vestígio dos anasazi, exceto referências a eles na cultura dos índios navajos (“anasazi” em navajo quer dizer simplesmente “os antigos”).

Por que fazer construções monumentais como aquelas, no meio do deserto, a centenas de quilômetros de qualquer coisa, e depois abandoná-las intactas? E de onde teria vindo toda aquela madeira usada na construção dos pueblos? A resposta veio do trabalho dos paleobotânicos que estudaram a vegetação passada de Chaco Canyon. A madeira tinha vindo dali mesmo. Quando os pueblosforam construídos, eram cercados não por um deserto nu, mas por uma gloriosa floresta de árvores decíduas e de pinheiros. Os anasazi formaram por séculos uma grande e rica civilização, com várias dezenas de milhares de pessoas. Com a expansão dessa civilização, as florestas foram sendo gradualmente desmatadas para agricultura e a fim de fornecer lenha para combustível e madeira para construção. A história daí em diante é contada em conjunto pela arqueologia e pelos vestígios subfósseis de vegetação, datados por radiocarbono. Os estudos mostram como os anasazi tiveram de ir cada vez mais longe para buscar madeira, percorrendo distâncias de até 80 quilômetros. Mostra também como eles lutaram bravamente para salvar sua agricultura da erosão sempre crescente do solo exposto pela remoção da cobertura florestal, fazendoTerborgh, J. Requiem for Nature. Washington: Island Press, 1999.Diamond, J. The Rise and Fall of the Third Chimpanzee. Londres: Vintage Press, 1991.Diamond, J. Armas, Germes e Aço: os Destinos das Sociedades Humanas. Rio de Janeiro: Record, 2001.Diamond, J. Collapse: How Societies Choose to Fail or to Succeed. Nova York: Viking/Penguin, 2005.

canais de irrigação. Foi uma longa agonia, mas era uma batalha perdida contra os efeitos da devastação que eles mesmos haviam provocado. Ao fim de uns trezentos anos, os pueblosestavam no meio de um deserto hostil criado por seus próprios habitantes, que tiveram de abandoná-los. Ninguém sabe o que aconteceu com os anasazi depois disso.

Muitas outras civilizações do passado têm história semelhante, de um colapso total, de terem deixado de existir, geralmente de maneira trágica — por fome extrema, guerras civis ou outras catástrofes —, pelo fato de terem destruído seu ambiente e, com ele, suas bases de recursos. Os avanços da arqueologia e das ciências que a auxiliam na reconstrução de ambientes antigos têm permitido elucidar vários desses casos, com um grau de detalhamento muito maior do que o que nem sequer podíamos sonhar há algumas décadas. Os casos analisados longamente por Diamond em Collapseincluem, além dos anasazi, os maias, da América Central, e os povos da ilha da Páscoa, das colônias vikings na Groenlândia e na América do Norte e das ilhas de Henderson e Pitcairn, no Pacífico. De fato, em muitas ocasiões na História a decadência das civilizações foi acontecendo à medida que cada uma destruiu seu ambiente e esgotou a base de recursos dos quais dependia.

Isso explica, por exemplo, por que o centro da civilização ocidental foi gradativamente se deslocando do Oriente Médio para o oeste. O Oriente Médio já foi, segundo todos os registros históricos, uma área fertilíssima — que incluía o chamado Crescente Fértil. Certamente não é à toa que a Bíbliacoloca o Éden naquela região. Hoje é pouco mais que uma coleção de desertos estéreis feitos pelo homem, como aliás a grande maioria dos desertos. A supremacia foi passando gradativamente para a Grécia, depois para Roma e para a Europa ocidental, deixando no caminho da civilização países desmatados, solos esgotados, a natureza devastada.

Hoje, com a exponencial intensificação do comércio global, essa lógica poderia não se aplicar tão bem, pois um país pode se manter economicamente forte importando recursos de outros países numa escala sem precedentes — e, conseqüentemente, exportando para esses países os impac- tos ecológicos associados à extração de tais recursos. Ainda assim, é perturbador notar que os exemplos de “colapsos ecológicos” citados por Diamond incluem civilizações atuais como as de Ruanda, do Haiti e do Estado de Montana, nos Estados Unidos. Aos poucos, o colapso de civilizações que degradaram seu ambiente vem sendo reconhecido como um dos grandes motores da História.

As quatro afirmações “óbvias” apresentadas na introdução são, portanto, todas claramente falsas. Há na cultura popular uma perspectiva ilusória da nossa situação que impede o cidadão comum de perceber a gravidade da crise ecológica em que estamos metidos e o quanto ela já está afetando a vida de todos nós. A ilusão, pode-se argumentar, é tão sofisticada hoje em dia porque permite que as pessoas sobrevivam numa realidade dura. Mas é péssima conselheira e só nos tem feito contribuir, ainda que de boa-fé, para tornar a realidade ainda pior. Se quisermos de fato um futuro melhor, precisamos primeiro ser capazes de vencer os tabus de pensamento que nos impedem de perceber várias coisas que de outro modo seriam claras, entre as quais:

1.Não estamos começando a perder a natureza; já perdemos a grande maior parte; 2.A situação biológica de nossos ecossistemas é trágica — e é escondida, muito mais que revelada, pelas estatísticas oficiais; 3.Crescimento populacional e econômico contínuo é fundamentalmente incompatível tanto com a conservação da natureza quanto com a própria qualida- de de vida humana; “Mankind cannot bear too much reality”, frase do poeta americano T. S. Eliot, citada por Garrett Hardin em Living within Limits — Ecology, Economics, and Population Taboos. Oxford e Nova York: Oxford University Press, 1993.

4.A ecologia, longe de ser uma preocupação secundária, tem sido um dos grandes determinantes do sucesso ou do fracasso das sociedades humanas.

“Desenvolvimento sustentável” é uma bandeira que tem sido abraçada por muitas pessoas bem-intencionadas, sejam empresários, ecologistas ou cidadãos comuns, como um paradigma que tem orientado posturas ecologicamente melhores e mudanças elogiáveis de postura em relação aos “recursos naturais”. Mas precisamos nos perguntar se essas mudanças são de fato suficientes para resolver nossos problemas. Nunca se falou tanto de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável quanto nos últimos anos. No entanto, é perfeitamente claro que, apesar das muitas iniciativas louváveis, ainda estamos perdendo o jogo: a situação ambiental do planeta é hoje pior do que jamais foi, e a maioria dos problemas continua piorando num ritmo sem precedentes. O desenvolvimento sustentável, no fundo — por manter as idéias de crescimento e desenvolvimento — e na prática — por ser uma expressão amplamente utilizada para justificar práticas inefetivas —, mais parece um novo paradigma para mudar de modo a ficar do mesmo jeito. Se queremos de fato um mundo melhor para nós mesmos, para nossos filhos e para os demais seres vivos que compartilham o planeta conosco, precisamos ir muito mais fundo.

O que podemos fazer

Nossa espécie, como um todo, está numa crise maior e mais complexa do que jamais esteve. Não tenho, de modo algum, a pretensão de apontar a solução para todos os problemas — o que entre outras coisas demandaria especialistas de várias áreas trabalhando em harmonia —, mas gostaria de apontar, a seguir, pelo menos algumas sugestões para tentar melhorar um pouco nossa situação.

Primeiro, é preciso esclarecer a diferença entre “cuidados com o meio ambiente” e “conservação da natureza”. “Meio ambiente” de quem? Da nossa espécie, é claro. No entanto, nem tudo o que é feito em favor do meio ambiente contribui para a conservação da natureza. Numa comissão da qual participo, por exemplo, pessoas bem-intencionadas acreditavam que estavam contribuindo muito para o meio ambiente ao tentar reduzir os níveis de ruído do tráfego de veículos no centro do Rio de Janeiro. Para o meio ambiente (nosso) pode ser, mas a relação que isso teria com conservação é obscura.

É preciso também levar em conta que grande parte das espécies não tem nenhuma utilidade econômica para o homem; portanto, se sua conservação depender exclusivamente de argumentos utilitaristas, elas estão condenadas. Embora já exista uma considerável preocupação do público com problemas ambientais, é muito menor e envolve muito menos pessoas a preocupação com a conservação da natureza por ela mesma, pelo direito de todos os seres vivos (e não apenas dos seres humanos) à vida e a seu próprio modo de vida. A visão antropocêntrica, a preocupação apenas com os direitos de nossa própria espécie, é resultado do sucesso cultural de nossa obstinada recusa em engolir Darwin e perceber as implicações, para a maneira como vemos os outros seres vivos, de nosso parentesco evolutivo com eles.

De um ponto de vista pragmático, visando interesses socioeconômicos de curto prazo, uma visão antropocêntrica e de “meio ambiente” poderia parecer perfeitamente adequada aos interesses da humanidade. No entanto, cada vez mais se percebe que os estragos feitos na natureza em si acabam afetando, por formas mais ou menos indiretas, a própria economia, as questões sociais e a qualidade de vida das pessoas (vide seção anterior). Por isso, se temos a preocupação de fazer um mundo melhor a longo prazo, precisamos pensar menos em meio ambiente sem conservação e mais na conservação da natureza em si.

(Parte 3 de 5)

Comentários