Desenvolvimento sustentável

Desenvolvimento sustentável

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Outro ponto claro é que é preciso encarar o problema do crescimento populacional. Muitos economistas e cientis- tas sociais gostam de falar que Malthusestava errado e queTerborgh, J. Requiem for Nature. Washington: Island Press, 1999.Fernandez, F.A.S. O Poema Imperfeito — Crônicas de Biologia, Conservação da Natureza e Seus Heróis(2ª. edição). Curitiba: Editora da Universidade Federal do Paraná/Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, 2004.O historiador e economista inglês Thomas Robert Malthus (1766-1834) defendeu a con- tenção do crescimento demográfico em seu Ensaio sobre a População, de 1798.

as previsões alarmistas de décadas atrás “não se realizaram”. É curioso dizer isso, uma vez que quase todas as predições feitas pelo Clube de Roma em 1972 — fome, piora da situação social, aumento da violência — são características do mundo de hoje. No que diz respeito à ecologia, é bastante claro que o crescimento populacional é uma das causas principais e o grande multiplicador de todos os problemas ambientais: gera desmatamento para vários usos do solo; aumenta a pressão de caça, o tráfico de animais e o extrativismo; gera aumento de poluição e mudanças climáticas; estimula atividades ambientalmente depredatórias, via desemprego; e gera a degradação da qualidade de vida em geral.

É verdade que a taxade crescimento populacional tem diminuído nos últimos anos, mas o crescimento ainda ocorre e, em valores absolutos, continua muito rápido, uma vez que a base populacional existente já é imensa. Na verdade a questão do crescimento populacional saiu do topo da agenda há décadas por causa de duas percepções relacionadas entre si: a de que as possíveis soluções apontadas para o problema são politicamente e socialmente difíceis de implantar; e a de que seria uma plataforma politicamente de direita. No entanto, ambas as percepções são bastante simplistas e distorcidas. No Brasil, o crescimento populacional praticamente zeraria se simplesmente déssemos a todas as mulheres as informações e os recursos possíveis para que tivessem apenas o número de filhos que efetivamente quisessem — o que não é o que ocorre hoje. As autoridades católicas, as quais têm resolutamente dificultado que isso aconteça, baseando-se em ideologias medievais completamente alienadas hoje em dia, vêm tendo um importante papel em tornar o mundo pior. Quanto à segunda percepção, é fácil verificar que as pessoas que hoje percebem a necessidade de enfrentar o problema estão em todos os pontos do espectro político. Incidentalmente, compartilho todas as posições expressas sobre esse assunto com admirável lucidez por Leonardo

Boff aqui mesmo em Instituto Ethos Reflexão, em 2003. O fato é que precisamos nos livrar de tais desculpas para fugir do problema demográfico e aprender a encarálo. Por mais difícil que seja enfrentar a questão populacional, sem isso a luta ambiental, bem como a social, está condenada a ficar perpetuamente enxugando gelo.

Outra base fundamental para lidar com essa situação é entender o mecanismo que está por trás de todo e qualquer problema ambiental: o da tragédia das áreas de uso comum. Esse mecanismo, descrito por Garrett Hardin, explica como todos nós, com pequenas e cotidianas contribuições, fazemos o mundo um pouco pior; explica também por que as pessoas destroem a natureza, não por serem más, mas porque, no sistema atual, isso é a coisa mais lógica a fazer. A percepção desse ponto crucial fornece a base ética para reformular tanto a economia quanto o direito, de forma a tornar melhor conservar do que destruir.

Em um dos artigos mais citados, não apenas no âmbito da ecologia mas no de qualquer ciência, Hardin conta uma pequena história para ilustrar seu raciocínio. Imagine que uma tradicional vila inglesa de pastores possui um pasto coletivo (o common), que produz pastagem capaz de alimentar 1.0 bois. Como a vila tem 1.0 pastores, se cada um mantiver um boi no pasto, o commonserá capaz de manter-Ver nota 29.Boff, L. “A Ética e a Formação de Valores na Sociedade”, in Instituto Ethos Reflexãonº. 1, outubro de 2003.

Por trás dos mais variados problemas ambientais está a mesma lógica simples da tragédia das áreas de uso comum. Enquanto persistir essa lógica perversa, a luta conservacionista estará condenada a ser inglória.

se indefinidamente, garantindo sustento a todos os pastores. Agora imagine que um dos pastores decide colocar não apenas um, mas três bois no pasto. “Ora”, pensa ele, “1.002 bois em vez de 1.0 vão fazer pouca diferença para o pasto, e eu vou triplicar minha renda”. O problema é que muitos outros pastores podem raciocinar da mesma forma. Se, por exemplo, metade dos pastores pensar assim, serão 2.0 bois — (500 x 3) + (500 x 1) = 2.0. Com um rebanho duas vezes maior do que sua capacidade de fornecer alimento, o pasto inevitavelmente será degradado, e todos os pastores pagarão as conseqüências de tal degradação.

Agora pense em poluição: cada poluidor se beneficia em se livrar dos poluentes, mas o prejuízo é dividido por todos — os commonsneste caso são nossos rios, nossos mares, nosso ar etc. Pense em desmatamento: os lucros individuais para os desmatadores são óbvios, mas a erosão, a degradação de nascentes e do ar e as perdas na fauna são prejuízos compartilhados por todos nós. Pense no crescimento da população humana: os filhos trazem benefícios individuais de todos os tipos, mas as conseqüências de viver num planeta superpovoado prejudicam a todos e condenam a natureza ao desastre, como vimos anteriormente.

Por trás dos mais variados problemas ambientais está a mesma lógica simples da tragédia das áreas de uso comum. Enquanto persistir essa lógica perversa, a luta conservacionista estará condenada a ser inglória. Novos problemas ambientais continuam aparecendo e outros vão aparecer a cada dia, porque não é nenhuma imperfeição da economia, mas a própria lógica da economia que faz com que eles surjam:se quem cria o problema fica com todo o lucro e arca apenas com uma proporção ínfima do prejuízo, o estímulo para devastar é muito maior que o estímulo para conservar. A consciência individual dos que lutam pela natureza pode retardar o processo, como já tem conseguido, mas dificilmente poderá detê-lo. Mesmo uma pequena parcela da população que não tenha essa consciência pode fazer imensos estragos na natureza.

A única maneira de ganhar a batalha é mudar o funcionamento da nossa economia de modo a remover dela a assimetria básica da lógica da tragédia das áreas comunais. Numa abordagem mais imediatista, só há duas soluções possíveis: coletivi- zar os benefícios ou individualizar os prejuízos. Em nosso mundo capitalista, a primeira solução seria vista como subversiva, mas a segunda já começa a ser aplicada no direito ambiental, por meio de leis que obrigam os responsáveis por danos ambientais a repará-los (o que nem sempre é possível). A falta de uma visão ampla e lúcida da lógica dos problemas ambientais, no entanto, faz com que essas medidas sejam ainda tímidas, pontuais e com limitado apoio da sociedade.

Para reverter a lógica cruel da tragédia das áreas de uso comum, precisamos de mudanças muito mais profundas do que as exigidas pelo “desenvolvimento sustentável”. Indo mais fundo, podem ser propostos mecanismos — primeiro entrevistos por Francisco de Assis, há oito séculos — pelos quais podemos reverter essa lógica, fazendo de nós mesmos, em cada pequeno gesto, instrumentos para um mundo melhor. Tais mecanismos partem de uma constatação simples: não há ato ecologicamente neutro; todos nós tornamos o mundo cada dia um pouquinho melhor ou um pouquinho pior com nossas ações. Essa constatação simples é válida pelo menos para qualquer ato que envolva consumo, embora raramente pensemos nisso ao consumir. Francisco de Assis, no século XIII, começou sua belíssima oração pelo verso “Fazei de mim um instrumento de vossa paz” e prosseguiu falando de maneiras pelas quais uma pessoa pode servir a uma causa maior (Deus, no caso dele), tornando melhor o mundo à sua volta com cada pequeno ato, cada pequena atitude.

Uma das conseqüências da superpopulação é que cada pessoa neste planeta tem uma chance cada vez menor de mudar o mundo sozinha. Nesse tipo de situação, e levando-se em conta a natureza humana, é grande a tentação de procurar os culpados pelos problemas ambientais sempre nos outros, nos grandes destruidores, esquecendo-se de que cada um tem sua parte no processo com suas opções de vida. Para realmente mudar a situação, cada um de nós pode tornar o mundo um pouquinho melhor colocando-se a serviço de uma causa maior — neste caso, o cuidado com a natureza — e através dela proporcionar uma vida melhor para as próximas gerações. Transportar a maravilhosa intuição deHardin, G. “The Tragedy of the Commons”, in Science, Vol. 162, 1968.São Francisco de Assis (1181-1226) é considerado patrono da ecologia.

Francisco de Assis para os dias atuais equivale a dizer: façamos de nossa vida um instrumento para um mundo melhor. Em cada pequena escolha que fazemos, como consumidores, produtores, empregadores, cidadãos, podemos conscientemente contribuir para que o mundo se torne ecologicamente melhor.

Felizmente esse tipo de atitude já está ocorrendo hoje em dia, embora numa escala muito abaixo do necessário, e é um dos mais promissores caminhos para mudar a situação. Ainda em Collapse, Diamond relata vários casos em que indústrias que exploram recursos naturais, como a florestal e a pesqueira, têm auto-regulado suas atividades de maneira séria graças à pressão dos consumidores. Por outro lado, em paralelo com as certificações de sustentabilidade confiáveis, derivadas de auditorias independentes, as próprias indústrias (a madeireira, por exemplo) têm criado diversas “certificações” espúrias para confundir os consumidores e iludi-los de que estão comprando produtos oriundos de práticas sustentáveis. Nesse assunto, como em muitos outros, a luta por um mundo melhor no século XXI passa por uma difícil batalha pela informação que nos permita separar o joio do trigo.

Naturalmente — e aí chegamos a mais um pensamento que parece “politicamente incorreto” hoje em dia —, muitas de nossas ações em favor de um mundo melhor envolvem a questão do consumo. O planeta é habitado atualmente por 6,5 bilhões de pessoas, a maioria delas com aspirações (perfeitamente legítimas e compreensíveis) de atingir o glorificado padrão de vida norte-americano. Ocorre, porém, que os Estados Unidos, que possuem apenas 1/25 da população do mundo, são responsáveis por um terço de todo o consumo de energia e de toda a dilapidação de recursos naturais. Logo, alcançar seu padrão de vida é um objetivo claramente impossível e persegui-lo só pode trazer (e está trazendo) uma imensa frustração para a grande maioria dos seres humanos. Se considerarmos que, em linhas gerais, a intensidade da crise ecológica é proporcional tanto ao tamanho da população quanto ao consumo de recursos per capita, não há outro jeito: é preciso reduzir um ou o outro — ou ambos. Certamente é necessária uma ampla transição econômica, muito mais profunda que o “desenvolvimento sustentável”.

Conforme defendido por Kenneth Boulding, precisamos passar de uma “economia de cowboy” (ou economia de fronteira, como a chamam alguns ecologistas) para uma “economia de astronauta”. Diz ele: “Fico tentado a chamar a economia aberta de ‘economia de cowboy’, na qual o cowboysimboliza as pradarias intermináveis e está associado a um comportamento irresponsável, exploratório, romântico e violento, característico das sociedades abertas. (...) Analogamente, a economia fechada do futuro poderia ser chamada de ‘economia de astronauta’, na qual a Terra se transforma numa única espaçonave, sem reservas ilimitadas de nada, nem para extração nem para poluição (...). Na economia de cowboy, o consumo é considerado uma coisa boa, tanto quanto a produção, e o sucesso da economia é medido pela quantidade de influxo dos ‘fatores de produção’ (...). [Na economia de astronauta], a medida essencial de sucesso econômico não é de modo algum produção e consumo, mas, sim, a natureza, a extensão, a qualidade e a diversidade do patrimônio total, incluindose aí o estado dos corpos e das mentes humanas que participam do sistema”.

Como alcançar essa transição com a rapidez suficiente é uma grande questão. Nos tempos atuais, a brilhante máxima de Henry Thoreau— “o homem mais rico é aquele cujos prazeres são os mais simples” — não parece ser muito popular. Qualquer caminho viável para alcançar a transição econômica, portanto, passa certamente por uma profunda mudança cultural. As pessoas querem ter muito, e as que podem têm muito mais do que precisam. No entanto, ajuda bastante se compreendermos que isso ocorre não por alguma pecaminosa falha da natureza humana, mas porque a sociedade valoriza mais (de uma imensa série de maneiras mais óbvias ou mais sutis) as pessoas que têm mais. Mudar isso seria a base para mudar uma sociedade em que tantos recursos são desperdiçados para que uns mostrem aos outros o quanto possuem. Pode parecer insignificante, mas poucas coisasO economista britânico Kenneth Boulding (1910-1993), no ensaio “The Economics of the Coming Spaceship Earth”, de 1966, reproduzido em 1968 em Environmental Quality in a Growing Economy, da Johns Hopkins University Press.Henry David Thoreau (1817-1862), poeta e ensaísta americano.

contribuiriam mais para melhorar o mundo, tanto ecológica como socialmente, quanto valorizar as pessoas pelo que elas são, e não pelo que elas têm. Num mundo tão vergonhosamente desigual, muito ganho social poderia ser alcançado pela redução das desigualdades, o que seria possível com essa mudança cultural. Diminuir as desigualdades e melhorar a qualidade de vida das pessoas são objetivos não só muito mais nobres como muito mais sustentáveis que o aumento do PIB. E a ciência, assim como as lições da História, dos maias à civilização desaparecida de Chaco Canyon, nos diz que um mundo ecologicamente melhor será também, mais cedo ou mais tarde, um mundo econômica e socialmente melhor.

Espero que o leitor não tenha ficado deprimido com os quatro pontos discutidos na primeira parte deste artigo. Caso isso tenha ocorrido, talvez seja um consolo pensar que tal depressão pode ter, ela mesma, um pequeno papel em ajudar a tornar este mundo um pouquinho melhor. Como disse Karl Marx, “a perda das ilusões a respeito de uma situação é a primeira condição para sair de uma situação na qual se necessita de ilusões”. Por mais que para nós seja conveniente nos iludirmos de que o chamado “desenvolvimento sustentável” vai resolver nossos problemas, o abandono dessa ilusão pode ser um passo essencial para podermos fazer mudanças mais radicais em nosso modo de viver que nos permitam alcançar uma vida de fato sustentável. Karl Marx (1818-1883), filósofo, cientista social, economista político, historiador e revolucionário alemão, em Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel.

Agradecimentos

“A Fernando Pachi pelo convite para preparar este artigo e a Benjamin Sérgio Gonçalves pelos contatos posteriores e pela excelente revisão dos originais. A Alexandra Pires pela leitura crítica do manuscrito. A Priscila Cardim, Melina Leite e Leandro Travassos pela ajuda com as referências.”

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