A psicologia social como especialidade: paradoxos do mundo psi

A psicologia social como especialidade: paradoxos do mundo psi

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Olho para minha surrada carteira verde do

CRP, com sua capa adornada pelas armas da repœblica, que poucos possuem e quase todos estranham - Coisa de advogado, parece um passaporte! , geralmenteexclamam.Emitidaemumlongínquo1978,a carteiratipocaderninho1 tem pÆginas e pÆginas destinadas a anotaçıes2, jamais feitas, por sinal. Hoje, poderia(masnªovai!) conteralgocomo Especialista em... . Só se for em indisciplina, penso.

Duranteofinaldesemanaprolongadoprecedente a este encontro, nªo parei de refletir sobre o quemeforaencomendadopelaABRAPSO-Rio:falar, nestamesaredonda,acercadealgoquemesoacomo um paradoxo - a Psicologia social como especialidade. Para-doxo,istoØ, o queincomodamenteseposta ao lado do que Ø denominado, entªo, doxa ( opiniªo ),e eu julgavaseguroalicerce:umajunçªoentre psico e social supostamente avessa, em sua combinatória feliz, a qualquer tipo de monopolizaçªo unívoca (atØ aqui meu quinhªo, ali começa o seu...).

Se nªo afastamos de imediato este companheiro aparentemente indesejÆvel, ele nos provoca e incita a pensar. Resolvo aceitar o desafio, inclusive

Heliana de Barros Conde Rodrigues Universidade do Estado do Rio de Janeiro

RESUMO: O artigo problematizao processo de criaçªo de uma especialidadeem Psicologia Social, campo atØ entªo considerado imune à constituiçªo dos especialismos tªo comuns em nossa Ærea de atuaçªo. Para tanto, recorre a conceitos da AnÆlise Institucional - Efeito Weber, Efeito LukÆcs, campo de intervençªo e campo de anÆlise -, que funcionam como ferramentas na apreciaçªo tanto da história recente da Psicologia Social no Brasil quanto da definiçªo oficial da Psicologia Social como especialidade. PALAVRAS-CHAVE: PsicologiaSocial;especialidade;AnÆliseInstitucional.

ABSTRACT: The article problematizes the creation process of a specialty in Social Psychology. Unlike other fieldsofourprofessionalarea,SocialPsychologywasuntilrecentseenasimmunetotheconstitutionofspeciality. The study is based on the concepts of Institucional Analysis, such as Weber Effect, LukÆcs Effect, intervention field and analysis field. Such concepts are used as tools in order to appreciate the recent history of the Social Psychology in Brazil and the official definition of Social Psychology as a specialty. KEY-WORDS:SocialPsychology, specialty, InstitutionalAnalysis.

As ciŒncias sªo um pouco como as naçıes, nªo existem verdadeiramente senªo a partir do dia em que seu passado nªo as escandaliza mais (...). Desconfiemos, pois, daquelas que fazem com demasiado cuidado a arrumaçªo de sua história (Michel Foucault).

em seu aspecto mais desagradÆvel: embora atual coordenadoradeumCursodeEspecializaçªoemPsicologia Jurídica, sou pouco afeita a Leis, Decretos e Resoluçıes;sonhocommundosdeØticasconvergentes (em lugar de tantos Faça ou Nªo faça ), mas a encomendame forçaa percorrerinfinidadesde pÆginas povoadas de artigos, incisos, parÆgrafos3. Obriga, inclusive,a ler aquelequaseesquecidodecretode 1977,quepermite,hoje,darum corposarado àminha carteirinha da terceira idade , ao prever o registro de Psicólogo Especialista. Fico matutando: por que diabos foram desenterrar , no ano 20004, esse especialismoqueatØentªopermaneceratªoobscuro?

E mais ainda: como se chegou, em 20035,a incluir, ao lado de outras tªo questionÆveis, mas tªo tranqüilamenteacatadas Æreasde conhecimentoespecífico para a atuaçªo do Psicólogo 6 - Psicologia Escolar/Educacional,PsicologiaOrganizacionale do Trabalho, Psicologia do Trânsito, Psicologia Jurídica (meaculpa!?),Psicologiado Esporte,PsicologiaHospitalar , Psicologia Clínica, Psicopedagogia e Psicomotricidade -, a nossa querida Psicologia Social,exatamenteaquelepossívelpontodeconvergŒncia detodasasnossaslutascontraoqueexistesemprede

Rodrigues, H.B.C. A Psicologia Social como especialidade: paradoxos do mundo Psi especializado em nosso domínio de saber ? - aspecto sintetizado por Robert Castel (1978) mediante um truísmolapidar: a psicologiapsicologiza (p.98).Os psicólogos sociais se julgavam livres dessa mortífera especializaçªo-primeira, a situar em cada um, mônadarecobertade carcaçaindividualizante,a Verdade,a Responsabilidade,a Culpa-moraisde Estado civil e/ou penal...de cada um !

Curiosamente, menos de um ano após a moralizaçªo especializante de nossa presumida psicologia sem culpa , uma prima distante - esta, confortavelmenteinstaladadoladodedentrodacarcaça - veio fazer-lhe companhia. Em 2004, tambØm a Neuropsicologia vira especialidade7 e se completa o clichŒtotalizante(ou seriatotalitÆrio?):nossaslentes psi podem, agora, convergir para todo e qualquer lugar do espectro bio-psico-social. E nós com isso?

hegemônicadesdeo sØculo...XVII(?),XVIII(?),......

TerÆ sido porventura o silŒncio frente às pretensas obviedades iniciais - qual no poema, a primeira flor que deixamos roubar8 - o que abriu caminhoà empreitadamaisrecente,ondea especialidade Psicologia Social se vŒ definida como a que atua fundamentadanacompreensªodadimensªosubjetiva dos fenômenos sociais 9? Ora, essa Ø a postura XIX,maisprecisamente,constituindoa funestacondiçªo de nossa existŒncia como disciplina e profissªo, alØm se ser cada vez mais apregoada no mundo contemporâneo, neo-liberal-globalizado-heterogerido. Michel Serres o diz bem, em um aggiornamento da frase de Castel: Nªo depende mais de nós que tudo dependadenós (SERRES,1999,p.225).Comisso,o socialØ crescentementepsicologizado:cuide-se!;cuidado!;afaste-sedosriscos!;sejabelo,saudÆvel,durÆ- vel, equilibrado, flexível, pois, se nªo o fizer, poderÆ tornar-se um inœtil para o mundo (CASTEL, 1995, p.20).

Pensoquenós,psicólogossociais(mas...ainda saberemos quem somos nós?), temos procurado inventar/concebercoisaoutra:a dimensªosocialdesse talsubjetivo10. Em termos mais precisos, aliÆs, temos tentado imanentizar o que fora separado. Algo sabemos da dor e delícia dessa utopia ativamente exercida,seja como estudiosos,profissionaisou militantes.TambØmtemosbuscado,porsinal,imanentizar essas funçıes ditas especializadas .

Retornoaoqueantesindagava:terÆsidoefetivamente nossosilŒncio11 o que permitiunªo só que a Psicologia Social fosse decidida na APAF12 como especialidade ,comoqueotªocombatidoAtoMØdico, por exemplo, penetrasse na definiçªo da tal prima intra-carcaça, a Neuropsicologia? Cito a resoluçªo 002/2004 do CFP: dentre as funçıes do especialista em Neuropsicologia, inclui-se auxiliar na tomada de decisıes de profissionais de outras Æreas, fornecendo dados que contribuam para as escolhas de tratamento medicamentoso e cirœrgico . Cumpre reconhecer que logo se acrescenta: exceto as psicocirurgias . É de bom tom, mas nªo deixa de ser muitoestranho...

Percebo-me irada, e a raiva nem sempre Ø boacompanhiaparaopensamento.Seprossigonesta linha, faço um comício e nªo um debate. Sendo assimproponho,a partirde agora,um volteioparalonge do olho do furacªo - para a ele retornar mais tarde -, com base em dois pontos.

A AnÆlise Institucional, paradigma ao qual sou muito afeiçoada, prefere os efeitos às leis. Mediante tal privilØgio, faz uma decidida opçªo antipositivista: ao contrÆrio das leis científicas, em que o ver faculta o prever preceito sintetizado pela fórmula assim tem sido, assim serÆ -, os efeitos estªo invariavelmente ligados à preservaçªo, deliberada ou involuntÆria, de determinadas condiçıes de efetuaçªo. Efeitos sªo contingŒncias repetidas ou reforçadas,e nªo legalidadesuniversaisàs quaisestejamos, sem escapatória,sujeitados.

Dentre os inœmeros efeitos batizados pelos analistas institucionais, vale destacar dois. RenØ Lourau (1972) fala em um Efeito Weber, e assim o caracteriza: Quanto mais uma sociedade Ø racionalizada, mais se torna opaca para aqueles que a compıem, a tal ponto que o dito selvagem sabe mais acerca de suas tecnologias e instituiçıes do que nós, ditos civilizados , sobre as nossas (p.10). Trata-se aqui, portanto, da ativa institucionalizaçªo de um desconhecimento, quer quanto ao processo de produçªo de bens materiais quer quanto à produçªo das relaçıes sociais, de maneira geral.

PorØm...todosdesconhecem?Nªoexatamente.Alguns(e somentealguns)devemconhecer(para dirigir ou para fazer com que alguØm dirija). A esse respeito,Lourau(2004a)definenovomododefuncionamento,apelidando-oEfeitoLukÆcs: àmedidaque progride, a ciŒncia tem tendŒncia a esquecer as condiçıesdeseuaparecimento,deseudesenvolvimento, por trÆs dos imperativos do objeto e do mØtodo ; produz-se, com isso, mais e mais nªo-saber pela codificaçªo particular de alguma disciplina, pela alocaçªo num sistema, pelo recorte de um campo e rejeiçªo de tudo o que existe antes e em torno desse campo (p.89).

O Efeito LukÆcs sugere que o conhecimento dos processos sociais pelos quais a ciŒncia se torna possível costuma escapar à própria ciŒncia, nªo porque ela seja naturalmentemÆ ,mas porquese torna cada vez mais opaca à medida que se aperfeiçoam seus instrumentos, à medida que embarca em uma continuada especializaçªo (HESS&SAVOYE,1993, p.75).

Efeitos, no entanto, nªo sªo leis imutÆveis.

- considerando, principalmente, o
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De repente, nªo mais que de repente, ao final dos anos 1970, muitos psicólogos brasileiros puderam, à custade um trabalhode anÆlisede implicaçıes13 (procedimentoqueaespecializaçªoveementementerepudia), perceber-se como guardiªes da ordem - para usar o precioso título da tese de Cecília Coimbra14. Disseram-se entªo psicólogos sociais de um novo tipo :nªomaisespecializados(emborapudessem saber muito),nªomaiseleitosdaacademia(apesarde nelapoderemestar),nªo maiscientistasde laboratóriosexperimentais(estes,sim,geralmenteabandonadosem funçªode seuartificialismoacrítico).Entreas tantas coisas que fizeram, criaram a Associaçªo BrasileiradePsicologiaSocial(ABRAPSO).E parecebastanteapropriado,nestemomento,citarum fragmentodacartadaABRAPSO,napenadeNeusaGuareschi (companheira desta mesa), em resposta à consulta encaminhada pelo CFP acerca da criaçªo da especialidade em Psicologia Social, datada de 5 de junho de 2002(antes,portanto,quea APAF aprovassea matØ- ria): objetivo expresso no estatuto da ABRAPS O: A ABRAPS O tem por finalidades garantir e desenvolver as relaçıes entre pessoas dedicadas ao estudo, ensino, investigaçªo e aplicaçªo da Psicologia em uma perspectiva social no Brasil,(...) ; A proposta de uma Especialidade em Psicologia Social nªo Ø coerente com a finalidad e e a composiçªo desta Associaçªo, e, ainda, vem de encontro aos auspícios da luta pela compreensªo de que toda a Psicologia Ø social, pois Esta afirmaçªo nªo significa reduzir as Æreas específicas da Psicologia à Psicologia social, mas sim cada uma assumir dentro de sua especialidade a naturezahistórico-socialdoserhumano. (Lane, Silvia, T.M. A Psicologia social e uma nova concepçªo do homem para a Psicologia. In: Lane, Silia.T.M. e Codo, W.(org.) Psicologia social: o homem em movimento. Sªo Paulo: Brasiliense,1984,p.19. A posiçªo desta direçªo Ø de nªo legitimar uma açªo que venha depor ao contrÆrio desta luta e, tambØm, nªo contribuir para a formaçªo de uma especialidade em Psicologia Social, correndo o risco de delimitar o compromisso Øticosócio-político que se quer para a prÆtica de qualquer profissional em Psicologia como um fazer tØcnico somente dos profissionais especialistas nesta Ærea15.

Os efeitos Weber e Lukacs sªo contingŒncias repetidas ou reforçadas, nªo leis universais. Por conseguinte, podem ser combatidos atravØs de efeitos analisadores - acontecimentos ou fenômenos reveladoreseaomesmotempocatalisadores;produtosde umasituaçªoqueagemsobreela (LOURAU,2004b, p.132) -, como a carta recØm-citada. Foram ignorados, contudo, os analisadores. Por quŒ? - fica a pergunta.

Começo a imaginar a rØplica de um interlocutorimaginÆrio: VocŒtrabalhacomperspectivas teórico-políticas muito específicas e nªoØàt oa quetantosDepartamentosUniversitÆriosseintitulam Departamento de Psicologia Social e Institucional . VocŒ tambØm estÆ lançando uma fala de especialista ...eminstituiçıes !!! .

Emprimeirolugar,nªovejooconectivoe(de

Social e Institucional) como indicativo de uma diferença entre especialidades.Pelo contrÆrio,percebo-o comointrodutordeumindispensÆveladendo,devido justamenteaoreconhecimento,porpartedospsicólogos sociais, de nªo estarem isentos, porque sociais, da necessidade de analisar permanentemente sua genealogia, suas condiçıes (institucionais) de existŒncia, teorizaçªo e açªo.

Neste sentido, trago à discussªo, mais uma vez apoiada na AnÆlise Institucional, a distinçªo entre campo de intervençªo e campo de anÆlise. Ao combaterosefeitosdedesconhecimento-WebereLukÆcs -, nós, psicólogos sociais, chegamos a explicitar - e o quanto isso foi Ærduo, pois nos acusavam de fazer política, nªo psicologia16 - que nossos campos de intervençªoreconhecidos,habituais(Escolar, do Trabalho, Jurídico, Clínico etc.), se haviam configurado quando, em face de alguma sacudidela históricosocial(chamemo-ladesterritorializaçªo,presençade movimentosinsólitos,rupturaetc.),ofertÆramosuma resposta tØcnica (reterritorializaçªo, harmonizaçªo funcional, captura) que, a partir de entªo, se fixara como açªo a encomendar - se algo nªo funciona a contento (mas...de quem?), chame o psicólogo para que tudovoltea andarordeiramentenas escolas,nas fÆbricas, nos presídios, nas famílias,...nas cabeças e nas bocas, em suma.

Frenteatalpanorama,aAnÆliseInstitucional faculta pensar que se quase invariavelmente nos encomendam algo a partir de nossa genealogia, digamos, de psicotiras, nada nos obriga - a nªo ser algu-

Rodrigues, H.B.C. A Psicologia Social como especialidade: paradoxos do mundo Psi ma adesªo a mandatos institucionais nªo analisados (porØm nunca impossíveis de analisar) - a colar nosso campo de anÆlise ao campo de intervençªo prØ- definido por tal encomenda, historicamente forjada. É o que diz a carta da ABRAPSO. Ou mesmo, sendo bastante tolerante, era o que diziam, de certa forma, as noveprimeirasespecialidadesreconhecidas,todas elascamposde intervençªoe, conseqüentemente,ainda capazes de acolher, na qualidade de campos de anÆlise , dimensıes analíticas descoladas de especialismos-desconhecimento.

Tive o cuidado, entretanto, de ler as definiçıesdessasprimeirasespecialidades,contidasnoAnexo1 da Resoluçªo014/2000.Constituem,ameuver, curiosasmesclasde descriçıesnaturalizadas do mal que temos feito - legitimando prÆticas hÆ muito problematizadas pelos próprios psicólogos -, com o bem que deveríamos fazer - via formulaçıes proselitistas,semelhantesa manuaisparauma psicologia assØptica e politicamente correta, no pior dos sentidosdestaœltimaexpressªo17.

detecçªode problemasde aprendizagemdo aluno
da humanidade”, e assim por diante19

Nªo querocansÆ-loscom citaçıese, por esse motivo, limito-me a mencionar fragmentos relativos à Psicopedagogia. Exemplo de descriçªo naturalizada e acrítica: este especialista contribui para a e sua intevençªo possibilita a reduçªo significativa dosíndicesdefracassoescolar .Complementandotal descriçªo,apenasaparentementeneutra- vistoque se a detecçªodosproblemasde aprendizagemdo aluno produz uma reduçªo significativa do fracaso escolar, o culpado do fracasso escolar deve ser, por mais que seacumulemanÆliseshistórico-sociaisemcontrÆrio18, o aluno -, encontramos uma espØcie de manual de ajuda para o bem proceder , mediante uma liçªo simultaneamentesentimentalóideegrandiloqüentesobreo atode aprender: Essetrabalhopodeserdesenvolvido em diferentes níveis, propiciando aos educadoresconhecimentospara:areconstruçªodeseuspróprios modelos de aprendizagem, de modo que, ao se perceberemtambØmcomo aprendizes ,revejamseus modelos de ensinantes; (...) a percepçªo de como se processou a evoluçªo dos conhecimentos na história

Para finalizar este ponto, cumpre reafirmar que a Psicologia Social nªo consiste naquele campo de intervençªo que deveria substituir todos os outros por ser o œnico puro, bom ou belo, mas o campo de anÆliseaserpermanentementereinventado,emtodas as nossas prÆticas profissionais e acadŒmicas, no intuito de impedir a colagem entre o que temos feito (campo de intervençªo) e o como, historicamente, o temos feito. SerÆ preciso lembrar como, hegemonicamente,o temosfeito?Invalidandoospobres, dizendo desestruturadas ou insuficientemente boas as suas famílias, atribuindo carŒncias a culturas nªo-hegemônicas,incapacitandopessoasparaa vida civil, prognosticando periculosidades a partir de virtualidades biogrÆficas de tipo racista etc. etc... ***

Concluindo, volto ao olho do furacªo e retomo o diÆlogo com meu interlocutor imaginÆrio. Diria ele: VocŒ, que se disse tªo afeita aos efeitos e tªo pouco às leis (jurídicas e científicas), acha realmente que essas resoluçıes tŒm tanta importância, a ponto de nos fazer escutar críticas por mais de meia hora? . Respondo, ao mesmo tempo, nªo e sim - o quedemodoalgumimplicaqualquerÆlibideneutralidade.

NO, se pensarmosque,ditosou nªosociais, aquelespsicólogosque metemosocialemtudo prosseguirªo, alegremente contra-especialistas e indisciplinados,apensar-praticaruma genealogiade nosso presente : tentarªo assim aprender, junto às pessoasinteressadasemumasØrievariadadeproblemas,os limitesqueas transformaçıese/oucristalizaçıes históricas nos tŒm imposto, a fim de engendrar, ao lado dessas mesmas pessoas, possibilidades de transgredi-los.Em termosmaisnítidos,essespsicólogos continuarªoa rejeitara definiçªo,estasim especializada , da Psicologia Social como aquela disciplina(tªodisciplinada!!)queestudaocomportamentodoindivíduoquandoinfluenciadoporoutrem-afirmaçªo que carrega, e eu nem diria somente nas entrelinhas,o pressupostode uma Psicologiauniversal, abstrata e triste, a reafirmar o nªo influenciado por outrem ,idØiaplatônicadanossacavernaprivatizada/ privatizante e, por princípio, sempre-jÆ-especializada-e-competente.

Mas eu responderia tambØm SIM, ressaltando a importância deste debate. Concordando com Baremblitt (1998), julgo que no mundo hÆ mais respostas que perguntas e que uma das principais estratØgiasde controlesociopolíticoconsisteem reduzir, a um campo delimitado, as perguntas, ou melhor, o registro do visível e do enunciÆvel (e, a partir de entªo, consumível). Neste sentido, em nada Ø inócuo o registro, como especialidade, de uma Psicologia Social: tal registro a desloca do plano da produçªo de uma multiplicidadede açıes analítico-críticaspara o deumprodutoa sermeramenteregistrado-consumidonosmercadosprofissionaise acadŒmicosdomundo contemporâneo. Para tanto, fez-se necessÆrio, inclusive, desconsiderar a história da Psicologia Social no Brasil, ao afirmar ser o novo especialista aquele que promove a problematizaçªo e construçªo de proposiçıes que qualificam o trabalho e a formaçªo no campo da Psicologia Social 20. Arrogando-se o começo de tudo, a Psicologia Social tornada especia- lidadesefaz,portanto,umnovoprodutordeesquecimento-desconhecimento. NOTAS: 1 Durante a exposiçªo oral, a carteira foi mostrada aos presentes: a maioria, aparentemente, nªo a conhecia, poishÆmuitodeixoudeserconfeccionada e oferecida aos psicólogos. 2 Em 1977, o Decreto 79.822, que regulamenta a criaçªodosConselhosdePsicologia,tambØmprevŒa inscriçªo profissional nas qualidades de Psicólogo e Psicólogo Especialista. 3 Toda a legislaçªo referida no texto estÆ disponível no site do Conselho Federal de Psicologia: http:// w.pol.org.br . 4 Resoluçªo 014/2000 do CFP, que institui o título profissional de Especialista em Psicologia e o respectivoregistronosConselhosRegionais. 5 Resoluçªo 005/2003 do CFP, que reconhece a Psicologia Social como especialidade em psicologia para fins de concessªoe registrodo títulode especialista. 6 Termos extraídos da Resoluçªo 014/2000 do CFP. 7 Resoluçªo002/2004doCFP. 8 Eis os versos, bastante conhecidos, a que se faz referŒncia: Na primeira noite eles se aproximam/ e roubam uma flor/ do nosso jardim./ E nªo dizemos nada./Nasegundanoite,jÆnªoseescondem:/pisam as flores,/ matam nosso cªo,/ e nªo dizemos nada./ AtØ que um dia,/ o mais frÆgil deles/ entra sozinho emnossacasa,/rouba-nosaluz,e,/conhecendonosso medo, / arranca-nos a voz da garganta./ E jÆ nªo podemosdizernada .Opoemasechama Nocaminho, com Maiakóvski e nªo Ø de Brecht, como geralmente se pensa, mas do brasileiro Eduardo Alves da Costa. 9 Resoluçªo005/2003doCFP. 10 AlguØmpoderiaretrucarquesetratasimplesmente de uma questªo de palavras, havendo pouca ou nenhuma diferença entre as duas formulaçıes ( dimensªo subjetiva dos fenômenos sociais , como diz a Resoluçªo 005/2003, e dimensªo social do subjetivo ,conformepropomos).Emboraoproblema crucial seja combater a separaçªo entre os âmbitos social e subjetivo, cumpre lembrar que o termo fenômeno costuma ser usado para designar uma experiŒncia, uma aparŒncia (ou, de forma mais rigorosa,um aparecimentoà consciŒncia);dimensªo, por seu lado, geralmente remete a algo estrutural, subjacente e determinante. Por conseguinte, independentementedasintençıes,adefiniçªocontida naResoluçªo005/2003sugereumapreponderância dosubjetivo(designadocomodimensªo)sobreosocial (designadocomofenômeno).Pelomenosumcuidado maiorcomalinguagemseriarecomendÆvelemcampo tªo polŒmico. 1 Nos foruns da Internet que consultei, nªo vi mais

exclusivamente reservadasaos especialistas em

do que umas poucas cartinhas à moda do sim ou nªo àsespecialidades,qualnasenquetesdotipo vocŒ decide . 12 AssemblØia de Políticas Administrativas e Financeiras,do SistemaConselhos. 13 É importanteenfatizara diferencaentreimplicaçªo (dedicaçªo, esforço, compromisso) e anÆlise de implicaçªo (trabalho coletivo de elucidaçªo dos vínculos afetivos, históricos e profissionais com as instituiçıes). A respeito, pode-se consultar Lourau, 2004c. 14 O título completo da tese referida Ø Guardiªes da Ordem: algumas prÆticas psi no Brasil do milagre . 15 Trecho transcrito do site da ABRAPSO: http:// w.abrapso.org.br(acessoem1/1/2004). 16 A acusaçªopressupunhaqueosdemaisagentespsi estivessem a salvo das relaçıes de poder, alØm de considerÆ-las uma espØcie de pecado do qual nªo se envergonhariamosacusadores,estessim verdadeiros cientistas . 17 Asexpressıes omalquetemosfeito e obemque deveríamosfazer sªo,evidentemente,impressionistas e metafóricas, buscando sintetizar uma problemÆtica. Nªo julgamos, pelo fato de usÆ-las, que o bem e omal existam,tampoucoqueospsicólogospossam atingi-los. No mÆximo, fazemos algo de bom ou de mau - historicamente circunstanciados e só assim avaliÆveis. 18 Levando em conta tantas especialidades, essas anÆlises histórico-sociais deveriam ficar psicologia social? 19 A transformaçªo da apresentaçªo oral em artigo faculta transcrever alguns trechos relativos a outras especialidades.Assim,porexemplo,o especialistaem Psicologia Organizacional e do Trabalho atua em atividadesrelacionadas[entreoutras]à saœdedotrabalhador ; participa do processo de desligamento de funcionÆrios de organizaçıes ; atua na relaçªo capital-trabalho no sentido de equacionar e dar encaminhamento a conflitos organizacionais . JÆ o especialista em Psicologia Jurídica auxilia juizados na assistŒnciapsicológicademenores[?!?]e seusfamiliares ; presta atendimento e orientaçªo a detentos e seus familiaresvisando à preservaçªoda saœde ; realiza (...) avaliaçªo de periculosidade e outros exames psicológicosno sistemapenitenciÆrio .O especialista em Psicologia do Esporte, por sua vez, tanto orienta a efetivaçªo do esporte nªo competitivo de carÆter profilÆtico e recreacional para conseguir o bem-estarequalidadedevidadosindivíduos quanto atua natransformaçªodepadrıesdecomportamento que interferem na prÆtica de atividade física regular e/ou competitiva . Por mais que se trate de enumeraçıesqueprocuramcobrir, qualnosdocumentos

Rodrigues, H.B.C. A Psicologia Social como especialidade: paradoxos do mundo Psi daOrganizaçªoInternacionaldoTrabalho(OIT),toda a amplitudedasatividadesdesempenhadas,e nªode um código de Øtica, decerto hÆ sØrias questıes Øticopolíticas envolvidas nessas listagens aparentemente descritivas - questıes particularmente perceptíveis quando se dÆ atençªo à seqüŒncia de açıes mencionada em cada especialidade, invariavelmente plena de conflitivas e, mesmo, de contradiçıes. 20Resoluçªo005/2003doCFP.

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Heliana de Barros Conde Rodrigues Ø professora adjunta do Departamento de Psicologia

Social e Institucional/Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de

Janeiro (UERJ).O endereço eletrônico da autoraØ: helianaconde@uol.com.br

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