historia da filosofia moderna

historia da filosofia moderna

(Parte 1 de 7)

A história da filosofia moderna contada a partir de seus antecedentes no

Renascimento até a Era Contemporânea (séc. X), com as consequências para a era Atual. Os principais autores de cada século, desde o XVII, seus conceitos e teses mais influentes. Abrange o período da história mais importante para o destino da humanidade. Materialismo, razão; o Esclarecimento; Romantismo e o advento das ciências, da tecnologia e da razão enlouquecida como percurso traçado pelo debate da modernidade, diante da perspectiva atual.

Curso apresentado, de 17 de março a 04 de julho de 2005, na Universidade do

Estado do Rio de Janeiro (UERJ), para os alunos do departamento de graduação de Ciências Sociais inscritos na disciplina "História da Filosofia I". Aberto ao público, através da Internet.

Século XVII

1. Renascimento, prelúdio da modernidade; 2. Hobbes e a criação do Leviatã; 3. O novo método de Descartes; 4. Outros autores do período; 5. Debate: "A Fundação do Estado Moderno"

Século XVIII

1. As Luzes da Revolução; 2. Principais autores; 3. O Conceito de Contrato Social em Rousseau; 4. Leitura de "Discurso sobre a Desigualdade entre os Homens"; 5. Kant, o arquiteto da crítica; 6. Leitura de "O que é 'Esclarecimento'"; 7. Debate: "Liberdade de Pensar"

Século XIX

1. O Romantismo como consequência de 1789; 2. Apresentando Hegel; 3. Leitura de "Filosofia da História"; 4. Karl Marx; 5. Autores importantes do século; 6. O Positivismo influencia todas ciências; 7. Debate: "A Razão Enlouquecida"

Século X

1. O mais violento dos Séculos; 2. Círculo de Viena; 3. Pragmatismo; 4. Existencialismo; 5. A Escola de Frankfurt; 6. Uma Teoria da Justiça; 7. Multiculturalismo;

8. A Teoria dos Jogos nas Ciências Sociais;

Bibliografia Sugerida

BLACKBURN, S. Dicionário Oxford de Filosofia; trad. Desidério Murcho et al.. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

COSTA, D. V. C. R. de M. Hegel: Liberdade e razão. - Recife: Ed. do Autor, 2004.

DESCARTES, R. Discurso do Método; Meditações; trad. Bento Prado Jr. e J. Guinsburg. - São Paulo: Abril Cultural, 1983.

DURANT, W. A História da Filosofia; trad. Luiz C. do N. Silva. - São Paulo: Nova Cultural, 1996.

DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico; trad. Pietro Nassetti. - São Paulo: Martin Claret, 2001.

ELSTER, J. Marx Hoje; trad. Plínio Dentzien. - São Paulo: Paz e Terra, 1989.

ERASMO DE ROTTERDAM, D. Elogio da Loucura; trad. Pietro Nassetti. - São Paulo: Martin Claret, 2000.

JAMES, W. Pragmatismo; trad. José C. da Silva. - Rio de Janeiro: Lidador, 1963.

HEGEL, G.W.Fr. Filosofia da História; trad. Mª Rodrigues e Hans Harden. - Brasília: UnB, 1995.

HOBBES, Th. Leviatã; trad. João P. Monteiro e Mª Beatriz N. da Silva. - São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores)

HORKHEIMER, M. & ADORNO, Th. Dialética do Esclarecimento; trad. Guido A. de Almeida. - Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

KANT, I. Crítica da Razão Pura; trad. Alexandre F. Morujão e Manuela P. dos Santos. - Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1989.

_. "Resposta à Pergunta: Que é 'Esclarecimento'?", in Textos Seletos; trad. Floriano de S. Fernandes. - Petrópolis: Vozes, 1974.

MACINTYRE, A. Justiça de Quem? Qual Racionalidade; trad. Marcelo P. Marques. - São Paulo: Loyola, 1991.

MAQUIAVEL, N. O Príncipe; trad. Mário C. da Silva. - Rio de Janeiro: Vecchi, 1965. MILL, J. S. Utilitarismo; trad. Eduardo R. Dias. - Coimbra: Atlântida, 1976. MORUS, Th. A Utopia; trad. Anah M. Franco. - Brasília: UNB, 1982.

RAWLS, J. Justiça como Equidade; trad. Claudia Berliner. - São Paulo: Martins Fontes, 2003.

ROUSSEAU, J-J. Do Contrato Social; Discurso Sobre a Origem e os Fundamentos da

Desigualdade entre os Homens; trad. de Lourdes S. Machado. - São Paulo: Abril Cultural, 1983. (Os Pensadores)

TAYLOR, Ch. Multiculturalismo; trad. de Marta Machado. - Lisboa: Instituto Piaget, 1998

1 - Primeira Unidade - SÉCULO XVII:

Renascimento, prelúdio da modernidade; Por Antônio Rogério da Silva

Quando Desidério Erasmo de Rotterdam (1466-1536) lançou seu Elogio da Loucura, em 1509, uma série de fatos históricos e filosóficos já haviam ocorridos ou estavam por acontecer no período de mudança das mentes e dos costumes europeus, chamado Renascimento. Passo a passo, a mentalidade e as tradições medievais presas ao fervor religioso vão cedendo espaço aos protestos contra os preceitos ascéticos e à crescente valorização dos prazeres materiais. Para tanto muito contribuiu o profundo desgaste causado pela Guerra dos Cem Anos (1337-1453) entre as realezas feudais inglesa e francesas.

Eduardo I, rei da Inglaterra (de 1327 a 1377), tinha pretensão ao trono francês, que ficara sem sucessor após a morte de Carlos IV em 1328, por ser descendente de Felipe IV, o Belo, rei da França (entre 1285 e 1314). Intitulando-se rei da França, em 1337, promoveu a invasão daquele país, a fim de tomar posse de seu governo. Naquela época, a região de Flandres, os países baixos, fronteiriça ao nordeste da França era rica produtora de tecidos e rota de comércio importante para o Mar do Norte. Vitórias e derrotas de ambos os lados, intermediadas por períodos em que a Peste Negra avançava sobre o continente, destruíram praticamente toda estrutura do sistema de feudos medievais.

Na penísula itálica, dividida entre várias repúblicas, a cultura secular ganha impulso, graças ao comércio com o Oriente, através do Império Bizantino, geograficamente, próximo à região do norte da Itália e à costa do Mar Adriático. Especificamente, em Florença, situada às margens do Rio Arno, ao centro da Toscana, a ascensão da família Médici irá patrocinar uma verdadeira revolução nos costumes italianos e, em consequência, de toda Europa. Cosimo de Médici - conhecido como Cosme, o Velho (1389-1464) -, patriarca da família, enriquecera sendo banqueiro do papa, dos reis de França e da Inglaterra. Em 1429, Cosme, o Velho, assume o governo de Florença, passando a exercer uma política que proporcionava diversão e cultura à população, ao mesmo tempo em que buscava concentrar todo poder em suas mãos.

Ao consolidar o domínio da cidade, em 1434, os Médici prepararam-na para ser o centro do poder na penísula, rivalizando com Roma e os Estados Papais. Com a queda de Constantinopla, em 1453, sob o poder dos turcos, Florença foi uma das cidades favorecidas pela migração de eruditos bizantinos que levavam o conhecimento acumulado pela cultura grega e literatura clássica. Em 1462, o ambiente já é propício para fundação da Academia Platônica de Florença, em uma vila localizada em Careggi, posta à disposição de Marsílio Ficino (1433-1499), por Cosme. Ficino foi o principal representante fiorentino do neoplatonismo. No período em que dirigiu a Academia de Florença, publicou a tradução completa dos diálogos de Platão (427-348 a. C.). É dele o conceito de "amor platônico" - que prioriza a contemplação das formas da figura do ser amado -, forjado a partir de sua interpretação e comentários ao Banquete.

A Academia de Florença marcou decisivamente o movimento renascentista. A expressão das idéias por meio das artes, o lançamento do conceito de cidadão, do método de auto-aperfeiçoamento, o retorno à geometria e temas gregos, a discussão de problemas religiosos e a libertação dogmas são algumas das atitudes que foram estimuladas pelo debate surgido no círculo formado em torno de Ficino.

Em Florença, a aplicação da geometria e da matemática às artes estava em plena consonância com o espírito inovador da época. Em 1419, o arquiteto Filippo de Brunelleschi (1377-1446) emprega as regras da perspectiva pela primeira vez na construção do pórtico do Hospital dos Inocentes. Para conseguir reduzir o espaço tridimensional ao plano bidimensional, Brunelleschi utilizou de instrumentos óticos inventados por ele mesmo. Essa técnica foi o passo principal para distinção das obras renascentistas, das medievais, que tinha uma concepção hierárquica para distribuição da cena em uma tela. Alessandro de Mariano Filipepi, ou Sandro Botticelli ("pequeno barril", 1445-1510), um dos favorecidos pelo mecenato dos Médici, pinta, em 1478, A Alegoria da Primavera em homenagem a Lorenzo de Médici, o Magnífico (1449-1492), como um marco da atmosfera vivida sob ideais neoplatônicos daqueles tempos.

O governo de Lorenzo, o Magnífico, neto de Cosme, procurou seguir a política de incentivo às artes, às atividades comerciais e à diversão. O próprio Lorenzo fora discípulo de Ficino e adepto do neoplatonismo. Contudo, sua gestão foi marcada por conflitos de interesses com outra família poderosa de Florença, os Pazzi, e por sua relação dúbia com a Igreja. Como reflexo de toda a Itália, esta república esteve dividida entre o apoio à família hegemônica e à aspiração por maior liberdade política para a população. No ano em que Cristóvâo Colombo (1451-1506) chega à America pela primeira vez, Lorenzo não resiste à artrite e deixa como sucessor seu filho Piero de Médici, o Louco, cujo regime tirânico rompe velhas alianças e protege corruptos. Na Florença de Piero, agora existem motivos suficientes para alimentar a pregação radical do frade Fra Girolamo Savonarola (1452- 1498) contra o arbítrio dos Médici e o luxo da Igreja. A retórica deste monge dominicano consegue reunir os interesses contrários aos dos antigos dominadores, depondo o detestável Piero, em 1494. Porém o curto período em que Savonarola tentou implantar um regime republicano que favorecesse a participação política dos fiorentinos (os quatro anos entre 1494 e 1498), também não esteve livre de ameaças, devido à carga pesada de impostos e à insatisfação contra seus rígidos preceitos morais. Em 1497, foi excomungado pelo papa Alexandre VI (1431-1503), a quem acusava de corrupção, e executado no ano seguinte.

Fora da Itália, a descoberta da América estimula ainda mais a navegação feita por aquelas nações que haviam conseguido unificar seu território em torno de uma única coroa. Em Portugal, Infante Dom Henrique, o Navegador (1394-1460), com a fundação da Escola de Sagres, a partir de 1415, financia as viagens de exploração dos mares com o dinheiro recolhido pela Ordem de Cristo para combater os árabes. Os relatos de viajantes e o novo comércio com as chamadas Índias Ocidentais, excitam a imaginação de escritores como Thomas Morus, ou More (1477-1535) que projeta regimes políticos ideais. Em 1500, o Brasil é descoberto e três anos depois inicia-se a formação do império colonial português.

Três Humanistas Diferentes

Pessoalmente, a vida de Erasmo de Rotterdam, que era filho de um casal de pai religioso e mãe de origem burguesa, está sincronizada com esses sucessivos acontecimentos. Nascera três anos antes de Lorenzo, o Magnífico, subir ao poder em Florença e durante sua formação religiosa procurou conciliar esta doutrinação com os clássicos da antiguidade. Com esse espírito contemporizador, torna-se sacerdote e recebe o grau de doutor em teologia pela universidade de Paris, em 1492. Anos depois, convidado por um aluno, viaja à Inglaterra, a fim de conhecer a Universidade de Oxford, onde faz amizade com Thomas Morus. De volta ao continente, mais precisamente em Paris, passa a estudar o Novo Testamento diretamente do grego.

Em 1509, retorna à Inglaterra e hospeda-se na casa de More, que lhe serve de modelo na composição de Elogio da Loucura. A sua pregação pelo reavivamento do cristianismo primitivo permitiu que com essa obra Erasmo ridicularizasse os costumes humanos e, como Savonarola, criticasse abertamente o luxo e o cerimonial da Igreja.

(...)Gabam-se os veneráveis cardeais de descederem em linha reta dos apóstolos, mas eu desejaria que filosofassem um pouco sobre os seus hábitos, e fizessem a si mesmos esta apóstrofe: "Se eu descendo dos apóstolos, porque não faço, então, o que eles fizeram? Não sou senhor, mas simples distribuidor das graças espirituais, e muito berve terei de prestar contas da minha administração. (...) Para que tantos tesouros? Aqueles que pretendem representar o antigo colégio dos apóstolos não deveriam, antes de tudo, imitar a sua pobreza?" Afirmo que, se os cardeais fizessem a si mesmos semelhante apóstrofe, refletindo sobre todos esses pontos, de duas uma: ou devolveriam imediatamente o chapéu, ou levariam uma vida laboriosa, cheia de desgostos e de desejos, justamente como faziam os primeiros apóstolos da Igreja. (ERASMO DE ROTTERDAM, D. Elogio da Loucura, p. 94-95).

Erasmo defendia, antes do Protestantismo surgir das 95 Teses de Martinho Lutero (1483- 1546), que as traduções da Bíblia deveriam ser confrontadas com os originais e debatidas para que surgisse uma interpretação correta. Nesse sentido, em 1516, editou uma nova versão grega do Novo Testamento, bem como os estudos de São Jerônimo sobre o Antigo e Novo Testamento.

No norte da Europa, foi Erasmo o mais importante difusor do humanismo renascentista. Por onde passava, procurava promover o intercâmbio de idéias em escala internacional. Conheceu os principais renascentistas da Alemanha, Holanda, França, Itália e Suiça, sendo amigo dos pintores alemães Albrecht Dürer (1471- 1528), que lhe retratou em gravura, e de Hans Holbein, o Jovem (1497-1543), que lhe pintou em vários quadros. Embora procurasse ser tolerante em termos religiosos, os pontos comuns entre sua postura e a Reforma não impediram Lutero de lhe lançar uma dura resposta por causa da publicação de De Libero Arbitrio (1524), causando o rompimento das relações entre os dois. Mesmo assim,

Erasmo não deixou de tornar pública suas críticas aos doutores, padres da Igreja e à perseguição religiosa, lançando várias edições de seu pensamento até 1530.

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