Edificios ferroviarios e o turismo em campo grande

Edificios ferroviarios e o turismo em campo grande

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Ângelo Marcos Vieira de Arruda / Icléia Albuquerque de Vargas / Vivina Dias Sol Queiróz OS EDIFÍCIOS FERROVIÁRIOS E O TURISMO EM CAMPO GRANDE: NOVOS USOS E POSSIBILIDADES

Ensaios e Ciências, año/vol. 6, número 003

Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal

Campo Grande, Brasil p. 117-132

Ensaios e Ciência Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal editora@uniderp.br ISSN: 1517-9141 BRASIL

Ângelo Marcos Vieira de Arruda1

Icléia Albuquerque de Vargas2 Vivina Dias Sol Queiróz2

1Professor Msc do Curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIDERP 2 Professora Msc do Curso de Turismo da Uniderp.

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Os edifícios existentes na Esplanada da antiga ferrovia Noroeste do Brasil em

Campo Grande, capital do Estado de Mato

Grosso do Sul, foram construídos entre 1914 e 1939, em uma área localizada na parte mais central da cidade. Este patrimônio, tombado por lei municipal, é constituído de armazéns, rotunda, garagens, oficinas, estação central e apoio e residências ferroviárias e, com o advento da extinção da RFFSA, está a merecer das autoridades federais, estaduais e municipais e da sociedade maior reconhecimento de sua importância histórico cultural, inclusive propostas de novos usos. Este trabalho apresenta um breve histórico deste patrimônio, com informações sobre o estado de vários dos imóveis, bem como fotos, plantas e outros dados fundamentais para a discussão de novos usos para turismo e cultura e inserção de Campo Grande no Movimento de Preservação Ferroviário nacional. Este conjunto arquitetônico, para a cidade de Campo Grande, possui valor inegável e, ao resgatá-los e preservá-los, pretendese alertar para os problemas ali existentes, com a finalidade de encaminhar propostas de uso e de ocupação racionais, que envolvam a comunidade local e vitalize essa porção urbana, no momento, esquecida.

Edifícios ferroviários, estrada de ferro, turismo, Campo Grande.

The premises on the plateau where the old Noroeste do Brasil (Northwest of Brazil) railway in Campo Grande, state capital of Mato Grosso do Sul, used to be, were built between 1914 and 1939 in an area situated in downtown Campo Grande. This compound, in a first moment declared a local heritage monument by municipal law, includes warehouses, a roundabout, garages, workshops, a central station and residences and, after the extinction of the RFFSA is now in need of recognition, by the federal, state and municipal authorities, and by society at large, of its cultural-historical importance; also there is the need to consider proposals of new uses for it. This study presents a brief history of that heritage compound, with information about the actual state of various of the premises, as well as photos, drawings and other data essential for the discussion of their new uses in tourism and culture and a possible insertion of Campo Grande in the Movimento de Preservação Ferroviário Nacional (National Movement for Railway Conservation). This architectural compound holds indisputable value for the city of Campo Grande and, its rescue and preservation will be an alert to the problems it faces. The final objective, then, is to make suggestions as to its rational use and occupation that may involve the local community and allow for the renewal of the urban sector where it stands, bringing it out of its present disregard.

KEY-WORDS Railway premises, Railway, Tourism, Campo Grande.

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1 INTRODUÇÃO

A esplanada da Noroeste do Brasil (NOB), em Campo Grande, capital do

Estado de Mato Grosso do Sul, é um dos maiores conjuntos arquitetônicos e urbanísticos da cidade. Os edifícios que compõem este patrimônio arquitetônico, histórico e cultural da capital, estão em péssimo estado de conservação, ameaçados pela falta de manutenção por parte da proprietária, a Rede Ferroviária Federal (RFFSA), e esquecidos pela sociedade, pois são objetos antigos, considerados de difícil recuperação. A ação prioritária deve devolver parte da qualidade do lugar, onde outrora chegava a riqueza que abastecia a cidade e parte do Estado.

Os edifícios existentes na esplanada foram tombados pelos governos municipal – Lei 3.249, de 13/05/1996, estadual – Lei 1.735, de 26/03/1997 e está em fase de tombamento federal, através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O conjunto da antiga Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), com a falta de uso e com a desativação paulatina da Rede Ferroviária Federal (RFFSA) em Mato Grosso do Sul, vem tendo seu patrimônio mobiliário e imobiliário sucateado, pela falta de interesse da NOVOESTE – empresa de capital norte-americano, atual concessionária do trecho Bauru-Corumbá - em atuar na conservação dos bens. Esse fato tem comprometido a preservação da memória e da história de nossa cidade.

Outro ponto bastante presente na NOB está ligado ao potencial de uso futuro – gestão e preservação –, naquilo que diz respeito às respostas e indagações quanto ao futuro econômico do lugar e das pessoas que nele trabalham ou habitam. Esse potencial de uso deve ser investigado para que se adotem as soluções corretas e se possa fazer os investimentos públicos ou privados urgentes e necessários.

Como complexo arquitetônico primeiro da cidade, está implícita a necessidade da valorização do patrimônio histórico e artístico, dos elementos urbanos essenciais e da consolidação daquela área como bem do povo. Ainda com relação a esse aspecto, é essencial conferir as propostas para utilização do traçado ferroviário, a partir de soluções adequadas aos problemas encontrados, no âmbito do assunto ferroviário ou fora dele.

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2 ANTECEDENTES HISTÓRICOS

A concretização do modo de produção capitalista ocorreu com a Revolução

Industrial no século XVIII na Inglaterra, em decorrência de reunir nesse país fatores econômicos, sociais e políticos que possibilitaram o desenvolvimento da indústria, que, por sua vez, provocou problemas sociais, como as condições subumanas dos trabalhadores, que trabalhavam nas fábricas de 16 a 18 horas diárias, recebendo baixos salários, sem direito a férias, aposentadoria, auxílio-doença etc.

Tais condições acentuaram as lutas de classe, de um lado os donos do capital, de outro os donos da força de trabalho, culminando nas greves e na criação de leis sociais que garantissem alguns direitos aos trabalhadores.

É preciso salientar que o desenvolvimento da base material que marcou as sociedades no decorrer dos séculos, e o modo como essas mudanças influenciaram setores da população européia do decorrer do século XIX, propiciaram o surgimento do Turismo inicialmente na Grã-Bretanha, em decorrência principalmente do desenvolvimento tecnológico que proporcionou grandes inovações técnico-científicas, destacando-se a construção das ferrovias, um dos mais autênticos produtos dessa revolução.

O capital encontrou as ferrovias e essas de imediato resolveram todos os problemas do crescimento econômico.

No Brasil, não foi diferente, à construção das ferrovias estava atrelado o trabalho especializado dos engenheiros, o trabalho não especializado e a compra de materiais do mercado industrial dos países capitalistas.

A construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil iniciada em junho de 1904 e inaugurada em outubro de1914, tinha como meta a ligação entre os oceanos Atlântico (Santos-SP-Brasil) e Pacífico (Arica –Chile). Esse trajeto incrementaria o desenvolvimento e o povoamento da fronteira oeste brasileira, passando por terras do atual Estado de Mato Grosso do Sul, criando vilas ou dinamizando as já existentes. Várias localidades situadas às margens da ferrovia hoje constituem-se em importantes cidades. O traçado ligando o interior do País ao centro-sul, facilitaria a comunicação e o controle dessa região por parte do poder central.

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A ferrovia transforma a ainda incipiente rede urbana do Estado mudando o seu eixo comercial. As transações comerciais que anteriormente eram voltadas para o oeste, em direção a Corumbá, com a linha férrea, voltamse para o leste e, mais diretamente para o Estado de São Paulo, incentivando a produção local de gado para atender o mercado consumidor do sul e sudoeste do país. Assim, pequenos vilarejos passam a ter novo dinamismo econômico, entre eles: Miranda, Campo Grande, Aquidauana e Ponta Porã além do desenvolvimento de cidades novas, geradas em torno das estações da linha férrea como: Água Clara, Ribas do Rio Pardo, Sidrolândia e Três Lagoas [...] (EBNER, 1999, p. 17).

Gardin (1999, p. 71) afirma que o tão propalado progresso chega a Campo

Grande embalado pelos trilhos do trem e que este traz em si o sentido do mundo moderno, alterando, por onde passa, toda a forma de vida instalada no lugar.

A partir da estrada de ferro, as estações são demarcadas através de estudos previamente elaborados por técnicos da engenharia. E são nessas estações que vão nascer novos pontos de encontro da vida social. (GARDIN, 1999, p. 71).

A chegada do trem a Campo Grande em 1914 foi motivo de grandes comemorações. Gardin (1999, p. 71) destaca a repercussão desse evento apresentando um trecho de uma matéria publicada no Jornal O Estado de Matto Grosso quando da chegada do trem:

O povo parecia cansado de esperá-la todos mês, toda semana, todo dia. Mas afinal chegou. Uma locomotiva já desceu a encosta e acordou os habitantes, a silvar. Outras têm vindo, alegrou-se nesse bendito rincão brasileiro. Aos operários cobertos de poeira, misturam-se os habitantes da cidade. São gregos, italianos, japoneses, portugueses e brasileiros de toda a casta. No local da futura estação, grupos de famílias, rapazes, velhos e crianças irmanam-se com os homens que fazem o caminho do progresso. A grande festa que a Municipalidade e o povo deliberaram fazer terá lugar para o mês de Novembro, na ligação dos dois trechos, quando deverá aqui chegar o Presidente da República.

Gardin ainda destaca que o movimento do trem cria, por onde passa, um imaginário ligado ao novo ritmo imposto na época – maior velocidade – e que a locomotiva representa o novo símbolo da modernidade no início do século X, alterando substancialmente o modo de vida da população local. “O tempo passa a ser ditado pelo movimento do trem e se cronometra pelos horários estipulados pelas viagens” (GARDIN, 1999,p. 72).

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Campo Grande, por localizar-se em área próxima às vias de acesso que interligam Mato Grosso do Sul aos Estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais, a partir da construção da ferrovia, assume a função de entreposto comercial, elevando o seu contigente populacional, consolidando-se como importante pólo político regional. Até então esse posto vinha sendo ocupado pela cidade de Corumbá, no extremo oeste, às margens do rio Paraguai.

Essa troca de função atribui a Campo Grande um importante papel na economia regional, atraindo a vinda de imigrantes, como os japoneses que, a princípio, se estabeleceram em São Paulo para trabalharem na lavoura cafeeira.

De acordo com Brito (2000), o trabalhador das lavouras cafeeiras tinha uma carga horária diária de dez horas e recebia salários que não passavam de três mil réis, ao passo que a ferrovia representava a esperança de um bom salário, com ganhos de até cinco mil réis.

Além dos japoneses, imigrantes de outros países, trabalhadores nacionais, como ex-escravos também compuseram a força de trabalho da construção da noroeste .

atendimento dos interesses envolvidos. []. Havia apenas duas

Duas equipes foram contratadas para a construção da estrada de ferro. Uma delas foi responsável pelo trecho iniciado em Bauru, no Estado de São Paulo. Outra equipe começou a construção a partir da cidade de Porto Esperança, no Estado de Mato Grosso. A determinação da construção concomitante dos dois trechos foi uma exigência do governo que, ao que tudo indica, apostava na rápida conclusão do projeto para o possibilidades de acesso à cidade de Porto Esperança, ambas por via fluvial. Os trabalhadores, que partiram das lavouras de café em São Paulo, passaram por Montevidéu, Buenos Aires, alcançaram o rio da Prata e o rio Paraguai, conseguindo atingir o Estado de Mato Grosso. (BRITO, 2000, p. 58).

Resultado do esforço de trabalho de vários povos, a construção da Ferrovia

Noroeste do Brasil, nas terras pertencentes ao atual Estado de Mato Grosso do Sul, torna-se realidade.

O cotidiano dos trabalhadores era árduo, sobrando pouco tempo para qualquer atividade de lazer.

O trem, que no início não cumpria uma escala regular de tráfego, vai aos

123Ensaios e ci., Campo Grande - MS, v. 6, n. 3, p. 117-132, dez. 2002 poucos estabelecendo uma estreita aliança com o turismo, especialmente pelo seu trajeto que corta boa parte da planície pantaneira.

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