Monitoramento ambiental por meio de bioindicadores

Monitoramento ambiental por meio de bioindicadores

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no 9

outubro-novembro-dezembrc 1996

Diretor de publicação: MICHEL LÉVÊQUE

Coordenação editorial: HALUMI TATEYAMA TAKAHASHI

Tradução e redação: ROSEMARY COSTHEK ABLiO

Editoraçáo e produção gráfica: VERTENTE SERVIÇOS EDITORIAIS

Impressão: REPROMiL GRÁFICA E EDITORA

ISSN O 104-9 i35 2.400 exemplares

rn COOPERAÇÃO

1 Monitoramento ambientai por meio de bioindicadores

4 A teledetecção aplicada ao estudo da colonização agrícola do Mato Grossa rnTECNOLOGiP

6 Despoluição: o8 microorganismos ganham terreno

8 rn BREVES 9 ESPAÇOAEERTO

Monitoramento ambienta1 por meio de bioindicadores : uma cooperagão franco-brasileira no estudo dos foraminíferos

Já se realizaram numerosos trabalhos sobre as regiões costeiras do Brasil e mais especifica- mente sobre os ambientes paráiicos (lagoas e estuários) do litoral do estado de São Paulo. Eles permitem conheceras linhas básicas dofuncio- namento hidrodinâmico e características bioquí- micas desses ambientes, bem como suas principais características biológicas.

Situando-se na transição entre o domínio con- tinental e o domínio oceânico, tais ambientes são enriquecidos por essa dupla influencia. Eles abrigam ecossistemas muito ricos e muito diver- sificados. Seu interesse económico é conside- rável, em razão do próprio potencial para a pesca local e também da possibilidade de neles se estabelecerem centros de piscicultura ou de conquiiicultura. Sua preservação é fundamen- tal também para a riqueza das zonas costeiras, pois funcionam como áreas de reprodução e "berçário".

Os ambientes paráiicos do Brasil são exces- sivamente diversificados, indo do imenso estuá- rio do Amazonas até as pequenas lagoas supersaigadas do Rio de Janeiro. No estado de

São Paulo, o alto nível marinho que persiste há cerca de 5.0 anos (transgressão hoiocênica) possibilitou a instalação de lagoas costeiras que

abrigam povoamentos de mangue. NO Brasil, como nos outros países, esses ambientes frequentemente são centros de intensa ativida- de econõmica. Acham-se particularmente ex- postos as poluições e muito ameaçados pelas atividades humanas: aterramerito para se esta- belecerem construções diversas, sem estudo prévio do impacto ecológico; poiuiçóes indus- trial, urbana, turística, etc. Certas lagoas, prote- gidas da atividade industrial, da poluição agrícola e da atividade turística, permanecem no estado "original". Outras, como a lagoa de Cananéia, ainda estão pouco afetadas pela atividade humana. E por fim outras, nas redondezas de

Santos, acham-se em avançado estado de des- truição, sob influência de todos os tipos de ativi- dade humana e especialmente de atividades industriais.

Portanto é fundamental conhecer perfeitamen- te o funcionamento desses ecossistemas e pro- porcionar-lhes um acompanhamento constante. As análises hidrológicap e geoquímicas neces- sárias para tal acompanhamento são onerosas e é difícil reproduzi-las em Intervalos regulares.

Além disso, embora sejam precisas, análises de água dão apenas uma imagem instantânea do ambiente. O valor dessa imagem pode ser pos- to em dúvida quando se leve em conta sua ex- trema variabilidade, mesmo na escala de um cicio de maré.

Assim, deve-se pensar em um marcador de manejo simples e pouco oneroso, que consiga resumir as características gerais do ambiente sem levar em conta as variações de períodos cutios, tais como os cicios de maré. 0s traba- ihos atuais procuram definir os bioindicadores que melhor se adaptam aos ambientes e as po- luições em estudo. Eiesdeverão possibilitar uma avaliação rápida e pouco onerosa do impacto dos poluentes e do risco ecotoxicoiógico.

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Paisagem de mangue: lagoa de Cananéia-lguape

Segundo Biandin (1986), um bio- indicador é um organismo ou um

conjunto de organismos que permite caracterizar o estado de um ecos- sistema e evidenciar tão preco- cemente quanto possível as modificações naturais ou provo- cadas. Tal indicador deve:

* ser facilmente identificável; * poder ser amostrado com faciii- dade; - distribuir-se de forma ampla; possuir características ecológicas e biológicas bem conhecidas; - apresentar baixa variabilidade es- pecifica; * desenvolver-se facilmente em ia- boratório; * acumular os poiuentes.

Existem duas grandes categorias de bioindicadores: I) os indicadores

de bioacumuiaçáo que fixam os poluentes; 2) os indicadores de efeitos. Estes úitimos podem ser uti-

lizados em níveis diferentes: bioqui- mico, fisiológico ou ecológico. Os indicadores ecológicos podem ser negativos (regridem com a poluição) ou positivos (desenvolvem-se em meio poluído).

Nos ambientes parálicos, os fora- miniferos constituem bioindicadores de grande interesse, que atendem

bem as quatro primeiras ca- racterísticas enunciadas por Biandin. Pequenos e abundantes, podem ser coietados em grande quantidade em reduzidos volumes de sedimento, o que baixa o custo da coleta. O grande número de tes- te permite um estudo estatisticamen- te confiável dos povoamentos. Ademais, S~O sensíveis a qualidade das águas em que vivem.

Os foraminíferos (sub-ramificação de Foraminiferida) sáo protistas

(eucariotos uniceiuiares) cuja célula é cercada por uma concha: a testa ou carapaça. Seu tamanho varia de algumas dezenas de microns a mais de 10 cm para as maiores formas fósseis conhecidas. Constituem um grupo muito amplo, conhecido há mais de 300 milhões de anos e que compreende cerca de 50.0 espé- cies, das quais 5.0 ainda vivem atualmente. inicialmente conhecidos por seu interesse geológico (pes- quisa petroleira e estatigrafia), eles vêm apaixonando cada vez mais os biólogos e os ecologistas.

São munidos de pseudópodes fi- nos, ligados entre si por numerosas anastomoses; têm modos de vida muito variados. Podem ser bentó- nicos ou planctônicos; podem viver em pieno oceano, nas lagoas cos- teiras ou mesmo nos lagos do

Sahara, desde que a salinidade da água seja suficiente.

Suas carapaças podem ser orgã- nicas, agiutinadas. carbonatadas [calcáreas], siiicosas. As formas atu- ais são basicamente aglutinadas e carbonatadas. A morfoiogia varia muito, em função da adaptação ao meio. Certas espécies de foraminiferos vivem fixadas sobre diversos tipos de suportes: rochas, algas, plantas aquáticas, conchas de moiuscos, etc. Outras são móveis e podem ter movimentação ativa, utilizando os pseudópodes (0,OOüa 0,082 m por minuto, em média), ou passiva, dei- xando-se transportar pelas corren- tes (piâncton).

A alimentação é muito diversi.. ficada: bactérias, algas, crustáceos, detritos orgânicos diversos, etc. Ai- gumas espécies são onívoras; ou- tras, ao contrário, são muito seletivas e preferem um determinado aiimen- to. As espécies que têm regime aii- mentar variado suportam melhor as variações ambientais e levam van- tagem com reiaçáo as que depen- dem de uma fonte única de alimentação.

As grandes formas e as espécies pianctônicas possuem no citopiasma algas simbiontes (diatomáceas, cioroficeas. dinofiageiadas, crisó- fitas, rodoficeas ou mesmo cioro- piastos isolados). Habitualmente esses simbiontes estão encerrados num vacúolc de membrana simples, o que possibilita um controle preciso das trocas entre o simbionte e o hos- pedeiro, proporcionando uma sepa- ração estrutural entre as duas espécies.

As reaçôes dos foraminiferos as ca- racterísticas do meio ambiente começam a ser bem conhecidas. O estudo de seus comportamentos nos ambientes poluídos avança a pas- sos largos e os resultados são mui- to animadores.

Realizaram-se nos ambientes parálicos do Brasil diversos traba-

Frnnçn-Flash MEIOAMBIENTEn" 9 lhos baseados na distribuição des- ses microorganismos.

Closs (1962) fez um estudoquan- titativo das populaçóes de forami- níferos e tecamebas ou testáceos em relação com os diferentes parã- metros ecológicos na Lagoa dos

Patos (RS). Esse autor define uma subdivisão da lagoa em zonas eco- lógicas baseadas nas associações faunísticas. Zaninetti et ai. (1977) publicaram um estudo qualitativo dosforaminiferosde manguezaisda região de Guaratiba e da baía de Sepetiba. Bronnimann (1978; 1979;

1980), Bronniniann & Beurlen

(1977a; 1977b) e Bronnimann & Dias-Brito (1982) mostram a im- portância dos povoamentos de foraminíferos para a compreensão da ecologia das zonas costeiras da região. Os trabalhos de Petri &

Suguio(1973), Petri (1974), Zaninetti et ai. (1979), Dias-Brito & Zaninetti (1979), Bronnimann & Zaninetti (1984), Beurlen & Hílterman (1983) e Bronnimann & Whitaker (1 988) são igualmente importantes para se conhecer a distribuição dos fora- miníferos do Brasil.

Ademais, os trabalhos de Rou- viilois (1982), Ausseii-Badie (1985),

Debenay (1990), Debenay et a/.

(1993a) e Debenay et a/. (1993b) sobre os foraminíferos dos ambien- tes parãiicos das costas da Africa Ocidental podem fornecer interessan- tes pontos de comparação para o estudo das microfaunas brasileiras.

Foraminífero de Bertioga, diâmetro i 0,300 m

As pesquisas em curso enfo- cam dois temas principais: 1. Caracterização e monito- ramento das lagoas costeiras do estado de São Paulo por meio dos povoamentos de micro- fauna, e mais especilicamente dos foraminíferos.

2. Determinação da evolução holocênica das regióes estuda..

das, a partir das associaçóes de foraminíferos e outras microfaunas bentônicas coletadas em amostras superficiais.

Um monitoramento regular das microfaunas das lagoas e mangues do estado de São Paulo permitirá detectar uma eventual transforma- çáo em decorrência de uma altera- ção do meio (construções novas, desenvolvimento do turismo, limita- ção ou não da poluição).

Pesquisa fundamental

Devido a diversidade de seu es- tado de preservação, os ambientes iagunares do estado de São Paulo oferecem um excepcional campode investigaçáo para um estudo do comportamento das microfaunas bentónicas intertropicais expostas a poluição. Essas pesquisas serão de grande interesse para a compreen- sáo de ambientes homólogos do mundo inteiro.

Após dois anos, o balanço é de: dois resumos de congresso, dois anais de congresso, um pôster em congresso, uma publicaçáo em re- vista brasileira, uma publicação em revista internacional.

Formação para B pesquisa

Depois que o programa começou a ser executado, esses estudos de- ram lugar a vários temas de mes- trado e de tese. Posteriormente. certas questóes levantadas no de- correr do estudo poderão por sua vez ser propostas aos estudantes como temas de pesquisa.

Após dois anos, o balanço é de:

três teses de mestrado e uma tese de doutoramentci defendidas; três teses em andamento em regime de co-tutela e uma tese de doutora- mento em andamento no Brasil.

Durante esse período realizaram- se três missões França- Brasil e duas missões Rrasil-França; um bol- sista foi recebido na França.

Aplicações práticas

A caracterização e o monitora- mento das lagoas e estuários utiii-

/ Costas do estado de São Paulo em que as formaçóes qiiaternárias são propicias a instalação de lagoas

França- Flash MEIO AMBIENTE n" 9 zando populações de foraminiferos bentônicos. tecamebas, ostracódios, diatomáceas e pólens são pouco onerosos e de rápida execução por um especialista. Poderão constituir um instrumento valioso pGa os res- ponsáveis pelo aproveitamento e pela proteção dessas zonas.

Uma comparação com a evolução histórica dará uma indicação sobre a rapidez de evolução e as possibili- dades de reversão da tendência evolutiva.

PROJETO CAPES-COFECUB 178/95

"Caracterização e monitoramento dos ambientes parálicos (lagoas e estuários) do Brasil e mais particularmente do estado de São Paulo"

Responsável francês: Responsável brasileiro: Jean-Pierre Debenay (profes- sor doutor) - Laboratoire de Géologie - Fac. Sciences - 2, bd

Lavoisier - 49045 Angers cedex - Tel. (2) 41.73.53.82 - Fax (2) 41.73.53.52 - E-mail <debenay

@ univ-angers.fr>.

Beatriz Beck-Eichier (professora, docente do Instituto Oceanográ- fico) - Laboratóriode Micropaleon- tologia - instituto Oceanográfico -

Cidade Universitária -CEP 05508 São Paulo -Tel. (011) 818.65.67 -

Fax (011) 210.30.92 - E-maii <bbeichle@usp.br>

A teledetecqão aplicada ao estudo da colonizaqão agrícola do Mato Grosso

Há alguns anos desenvolvo pesquisas sobre "o processo de ocupação da Amazônia Matogros- sense". de forma mais dirigida a re- gião Guaporé-Jauru, Sudoeste do

Mato Grosso. O envoivimento com a problemá- tica amazônica, sobretudo com o processo de ocupação da Amazônia Matogrossense, levou-me a percor- rer praticamente todo o estado do

Mato Grosso e grande parte dos estados de Rondónia, Acre e Pará. Contudo, dada as dimensóes territoriais das regiões Centro-Oes- te e Norte do Brasil, o viajar pelo pó colorido das estradas, apenas, não seria suficiente para a melhor com- preensão da dinâmica da paisagem, na sua dimensão mais global. Assim, partindo dos conhecimen- tos adquiridos ao longo dos traba- lhos de campo, tomei a iniciativa de realizar (1992-1993) - com apoio da CAPES - o estágio, a nivel de pós-doutorado, no Laboratoire

Costel/Université Rennes 2 (Haute

Bretagne/Rennes/França). Em setembro próximo passado, realizei o Concurso de Livre-Docén- cia, cuja tese "Teledetecção Apiica- da ao Estudo da Paisagem -

Sudoeste do Mato Grosso" resulta em grande parte do estágio desen- volvido na França, onde efetivei o tratamento digital das imagens LANDSATTM 228.070C e228.071A de 4 de julho de 1992 que recobrem o território do Sudoeste do Mato Grosso compreendido entre os pa- ralelos 14"23' e 15"48' Sul e os meridianos 58"30' e 59"30' Oeste.

O intercâmbio estabelecido com o

Laboratoire Costel propiciou avisita de alguns pesquisadores franceses (M. Bernard Guillot/ORSTOM. Lau- rence Hubert e o próprio Robert Bariou/COSTEL) ao Programa de

Mestrado-Doutorado em Geografia da FCT-UNESP, campus de Presi- dente Prudente, e ainda o meu retorno a Rennes para uma atuali- zação em técnicas mais recentes em teledetecção. No momento, estou escrevendo o livro "A Teledetecção

Aplicada ao Estudo da Colonização Agricoia da Amazônia Matogros- sense" como um dos resultados do apoio da CAPES e do CNPq e, ain- da, do profícuo intercãmbio com a equipe Costel.

Por iniciativas diversas, o Estado e o capital privado contribuem para o deslocamento das atividades agrico-

Ias para o Oeste, provocando mu- danças irreversiveis nos meios na- turais.

A inserção do Mato Grosso no mercado nacional e internacional, de forma incisiva e impactante, ocorre a partir da década de 70; portanto, é um fenômeno muito recente e polemizado pela mídia e pela opi- ninão pública. de forma genérica e superficial. Na Amazônia Legal a extensão da fronteira agricola, regionalmente diversificada, provoca a eliminação de extensas áreas de cerrados e de florestas. AtC o presente, os confli- tos pela posse da terra perduram entre os diversos detentoresipreten- dentes, demonstrando queainda não foi encontrado um sistema de explo- ração que seja um modelo social- mente justo e ambientaimente correto. O Mato Grosso, situado quase no centro da América do Sul, e que bus- ca uma saída efetiva para o Pacifico (Peru?) e para o Atlântico (Santarém/

PA?) é, ainda, uma zona de conquis- ta territorial em direção da Amazô- nia. Vai-se apreender uma pequena parcela desse estado que se encon- tra na Chapada dos Parecis-Vale do Guaporé. Há muito tempo, a cartografia re-

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