Manual do candidato: Geografia

Manual do candidato: Geografia

(Parte 1 de 7)

IRBr - Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata

Manual do Candidato

Geografia Regina Célia Araújo

2ª Edição atualizada e revisada

Nova Tiragem

Brasília 2007

A Fundação Alexandre Gusmão (Funag), instituída em 1971, é uma fundação pública vinculada ao Ministério das Relações Exteriores e tem a finalidade de levar à sociedade civil informações sobre a realidade internacional e sobre aspectos da pauta diplomática brasileira.

Sua missão é promover a sensibilização da opinião pública nacional para os temas de relações internacionais e para a política externa brasileira.

A Funag tem dois órgãos específicos singulares:

Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (IPRI) – tem por objetivo desenvolver e divulgar estudos e pesquisas sobre as relações internacionais. Com esse propósito:

- promove a coleta e a sistematização de documentos relativos ao seu campo de atuação; - fomenta o intercâmbio científico com instituições congêneres nacionais, estrangeiras e internacionais, e

- realiza e promove conferências, seminários e congressos na área de relações internacionais.

Centro de História e Documentação Diplomática (CHDD) – cabem-lhe estudos e pesquisas sobre a história das relações internacionais e diplomática do Brasil. Cumpre esse objetivo por meio de:

- criação, difusão de instrumentos de pesquisa; - edição de livros sobre história diplomática do Brasil;

- pesquisas, exposições e seminários sobre o mesmo tema;

- publicação do periódico Cadernos do CHDD.

Ministério das Relações Exteriores Esplanada dos Ministérios, Bloco H Anexo I, Térreo, Sala 1 70170-900 - Brasília-DF Telefones: (61) 3411-6033/6034 Fax: (61) 3411-9125 Site: w.funag.gov.br

Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais (IPRI) Esplanada dos Ministérios, Bloco H Anexo I, Térreo, Sala 2 70170-900 - Brasília-DF Telefones: (61) 3411-6800/9115 Fax: (61) 3411-9588 E-mail: ipri@mre.gov.br

Centro de História e Documentação Diplomática (CHDD) Palácio Itamaraty Avenida Marechal Floriano, 196 Centro – 20080-002 Rio de Janeiro – RJ Telefax: (21) 23-2318/2079 E-mail: chdd.funag@veloxmail.com.br

Jeronimo MoscardoPresidente

DiretorÁlvaro da Costa Franco CENTRO DE HISTÓRIA E DOCUMENTAÇÃO DIPLOMÁTICA

DiretorCarlos Henrique Cardim

A Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) oferece aos candidatos ao Concurso de

Admissão à Carreira de Diplomata, do Instituto Rio Branco (IRBr), do Ministério das Relações Exteriores, a série Manuais do Candidato, com nove volumes: Português, Questões Internacionais Contemporâneas, História do Brasil, História Geral Contemporânea, Geografia, Direito, Economia, Inglês e Francês1.

Os Manuais do Candidato constituem marco de referência conceitual, analítica e bibliográfica das matérias indicadas. O Concurso de Admissão, por ser de âmbito nacional, pode, em alguns centros de inscrição, encontrar candidatos com dificuldade de acesso à bibliografia credenciada ou a professores especializados. Dada a sua condição de guias, os manuais não devem ser encarados como apostilas que por si só habilitem o candidato à aprovação.

A FUNAG convidou representantes do meio acadêmico com reconhecido saber para elaborarem os Manuais do Candidato. As opiniões expressas nos textos são de responsabilidade exclusiva de seus autores.

1 O IRBr considera importante ao Concurso de Admissão que os candidatos não descuidem do aperfeiçoamento no idioma francês, uma vez que (a) será exigida proficiência de alto nível em francês no processo de formação de diplomatas e (b) parte da bibliografia do Programa de Formação e Aperfeiçoamento – Primeira Fase (PROFA I) é constituída de textos em francês.

A Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG), instituída em 1971, é uma fundação pública vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, cuja finalidade é levar à sociedade civil informações sobre a realidade internacional e aspectos da pauta diplomática brasileira.

Com a missão de promover a sensibilização da opinião pública nacional para os temas de relações internacionais e para a política externa brasileira, a Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) promove atividades de natureza cultural e acadêmica que visem à divulgação e ampliação do debate acerca das relações internacionais contemporâneas e dos desafios da inserção do Brasil no contexto mundial.

Fomentando a realização de estudos e pesquisas, organizando foros de discussão e reflexão, promovendo exposições, mantendo um programa editorial voltado para a divulgação dos problemas atinentes às relações internacionais e à política externa brasileira, velando pela conservação e difusão do acervo histórico diplomático do Brasil, a Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG) coloca-se em contato direto com os diferentes setores da sociedade, atendendo ao compromisso com a democracia e com a transparência que orienta a ação do Itamaraty.

E-mail: publicacoes@funag.gov.br

Unidade I - Sociedade e Espaço: o campo de reflexões da Geografia07
1. O Espaço Geográfico09
2. Teorias Geográficas da Relação Sociedade-Natureza1
3 Bibliografia15
Unidade I - A Formação Territorial do Brasil17
Território Brasileiro19
2.Regionalização e Divisão Regional do Trabalho no Brasil3
3.Os Processos Recentes de Urbanização e a Rede de Cidades no Brasil54
Indústria no Brasil63
5.O Processo de Modernização da Agricultura no Brasil e as suas Tendências Atuais74
6. Exemplos de Questões86
7. Bibliografia87
Unidade I - O Brasil no Contexto Geopolítico Mundial89
Escala Global92
A América Latina107
3.O Processo de Estruturação e os Objetivos do Mercosul113
4.As Perspectivas de Integração da Bacia Amazônia133
5. Exemplos de Questões141
Desenvolvimento Sustentável143
1.A Consciência Ambiental e o Planejamento de Usos Sustentáveis do Solo145
2.Os Ecossistemas Brasileiros e as Principais Causas de sua Degradação154
Brasileiras170
4. Exemplos de Questões182

No vasto campo de reflexões da geografia, que abarca desde a lógica da distribuição espacial das atividades humanas e suas transformações ao longo da história até a percepção subjetiva das realidades espaciais vivenciadas pelas diferentes sociedades e pelos grupos que as compõem, o conceito de espaço ocupa lugar de destaque.

Nessa primeira Unidade, pretende-se introduzir a discussão acerca desse conceito e apresentar alguns momentos cruciais da história do pensamento geográfico, de forma a orientar a leitura das Unidades subseqüentes, que tratam da formação do território brasileiro, da inserção do país no contexto internacional e dos impactos do uso predatório dos recursos naturais sobre o patrimônio ambiental do país. Essa introdução conceitual, porém, está longe de ser conclusiva, e não dispensa uma revisão bibliográfica de maior fôlego acerca das grandes linhas teóricas e conceituais que vertebram o campo de reflexões da geografia: trata-se apenas de um quadro de referências fundamentais.

1. O Espaço Geográfico

As sociedades humanas, ao produzirem sua vida material e sua história, modificam os ambientes naturais e produzem também espaço. O processo de humanização da natureza e de transformação desta em recurso produtivo resulta na produção social de formas espaciais diferenciadas, ou, mais simplesmente, na produção do espaço geográfico. O geógrafo Milton Santos define espaço como acumulação desigual de tempos. Nessa perspectiva, o espaço geográfico é coagulação do trabalho social, materialização de idéias e de ações das sociedades sobre a natureza.

O espaço geográfico materializa atributos das sociedades que os produziram.

Sendo assim, ele está em permanente mutação. O surto industrialista vivenciado pela Europa no século XIX, por exemplo, transformou radicalmente a geografia do continente: as precárias vias de circulação medievais e as modestas cidades - com ruelas estreitas que obedeciam a um plano radioconcêntrico - cederam lugar às ferrovias e às grandes aglomerações urbanas. A abertura contemporânea da economia brasileira para os fluxos globalizados de capitais e mercadorias está mudando a geografia das atividades produtivas do país, na medida em que os novos investimentos estão promovendo, ao mesmo tempo, uma desconcentração dos ramos industriais tradicionais pelo território e uma reconcentração das indústrias de base tecnológica em alguns pólos do Centro-Sul. Do mesmo modo, a integração crescente da economia chinesa com o mercado mundial está mudando a paisagem urbana das cidades litorâneas, que adquirem as feições das modernas aglomerações urbanas ocidentais. A geografia estuda uma realidade em permanente mutação, e não um objeto fixo. Ainda de acordo com Milton Santos, a paisagem, assim como o espaço, cristaliza em suas formas o passado e o presente das sociedades que a produziram:

Uma região produtora de algodão, de café ou trigo. Uma paisagem urbana ou uma cidade de tipo europeu ou de tipo americano. Um centro urbano de negócios e as diferentes periferias urbanas. Tudo isto são paisagens, formas mais ou menos duráveis. O seu traço comum é ser a combinação de objetos naturais e de objetos fabricados, isto é, objetos sociais, e ser o resultado da acumulação da atividade de muitas gerações.

Em realidade, a paisagem compreende dois elementos:

Os objetos naturais, que não são obra do homem nem jamais foram tocados por ele.

Os objetos sociais, testemunhas do trabalho humano, no passado como no presente.

A paisagem não tem nada de fixo, de imóvel. Cada vez que a sociedade passa por um processo de mudança, as relações sociais e políticas também mudam, em ritmos e intensidade variados. A mesma coisa acontece em relação ao espaço e a paisagem que se transforma para se adaptar às novas necessidades da sociedade.

As alterações por que passa a paisagem são apenas parciais.

De um lado alguns dos seus elementos não mudam - pelo menos em aparência – enquanto a sociedade evolui. São as testemunhas do passado. Por outro lado, muitas mudanças sociais não provocam necessariamente ou automaticamente modificações na paisagem.

Considerada em um ponto determinado no tempo, uma paisagem representa diferentes momentos do desenvolvimento de uma sociedade. A paisagem é resultado de uma acumulação de tempos. Para cada lugar, cada porção do espaço, essa acumulação é diferente: os objetos não mudam no mesmo lapso de tempo, na mesma velocidade ou na mesma direção.

A paisagem, assim como o espaço, altera-se continuamente para poder acompanhar as transformações da sociedade. A forma é alterada, renovada, suprimida, para dar lugar a uma outra forma que atenda às necessidades novas da estrutura social. “A história é um processo sem fim, mas os objetos mudam e dão uma geografia diferente a cada momento da história” dizia Kant, o filósofo e geógrafo. [SANTOS, Milton. Pensando o espaço do homem. São Paulo: Hucitec, 1986, p. 37-38.]

2. Teorias Geográficas da Relação Sociedade-Natureza

Os mais importantes pensadores da geografia criaram teorias diferentes acerca das relações entre a natureza, a história e o espaço geográfico. Como sempre acontece na história das ciências, essas teorias são também uma expressão do contexto histórico no qual surgiram.

Nas obras do geógrafo alemão Friedrich Ratzel, publicadas no último quartel do século XIX, o estudo da influência do meio – ou das condições naturais – sobre a humanidade ocupa lugar de destaque. Ratzel distinguia os povos naturais, aqueles que vivem submetidos às leis da natureza, dos povos civilizados, mais independentes com relação ao meio. Assim, o progresso consistiria na emancipação progressiva dos homens das determinações naturais, alcançado na medida em que as sociedades dominassem de maneira progressivamente mais plena os recursos naturais disponíveis em seu meio. O território dos povos civilizados seria a expressão de uma ligação completa e íntima entre sociedade e natureza:

Chamamos naturais certos povos não porque eles vivem nas mais íntimas relações imagináveis com a natureza, mas porque vivem sob a constrição da natureza. A distinção entre povo natural e povo civilizado não deve ser buscada no grau, mas no seu modo de dependência com a natureza. A civilização não é propriamente independência da natureza no sentido de uma separação completa, mas no sentido de uma união mais multíplice e mais ampla. O camponês que acumula o trigo no seu celeiro é tão mais dependente do seu campo quanto o é o indiano que recolhe nos pântanos o seu arroz aquático, que não semeou; mas para o camponês esta dependência é menos grave, é para ele uma leve cadeia, que não o prende tão facilmente, porque ele foi bastante prudente para recolher provisões, enquanto qualquer vento forte que lance à água as espigas de arroz atinge o indiano de modo vital. Não nos tornamos completamente livres da natureza pelo fato de a explorarmos e estudarmos mais a fundo; tornamo-nos cada vez mais independentes dos acidentes singulares do seu ser e agir na medida em que multiplicamos as ligações. Precisamente em razão da nossa civilização estamos unidos à natureza mais intimamente que todas as gerações que nos precederam. [RATZEL, Friedrich. Povos naturais e povos civilizados. In: MORAES, Antônio Carlos Robert (Org.). Ratzel. São Paulo: Ática, 1990, p. 122.]

Para Ratzel, a decadência ou o progresso de uma sociedade estariam ligados respectivamente à perda e à conquista de territórios, e o tamanho de um Estado seria indicador do grau de civilização de seu povo. Não por acaso, as suas teses foram associadas ao expansionismo latente da Alemanha do século XIX. De acordo com ele:

Para a geografia política, cada povo, localizado na sua área essencialmente delimitada, representa um corpo vivo que se estendeu sobre uma parte da Terra e se diferenciou de outros corpos, que igualmente se expandiram por fronteiras ou espaços vazios. As populações estão em contínuo movimento interno. Ele se transforma em movimento externo, para diante ou para trás, quando se ocupa um novo trecho de terra ou se abandona uma possessão anterior (...).

A expansão dos horizontes geográficos, produto dos esforços físicos e intelectuais de inúmeras gerações, apresenta continuamente novas áreas para a expansão espacial das populações. Dominar politicamente essas áreas, amalgamá-las e mantê-las unidas requer energia ainda maior: Tal energia só pode se desenvolver lentamente pela e através da cultura (...).

Vemos, acima de tudo, uma íntima relação entre expansão política e religiosa. Mas mesmo elas são ultrapassadas pela enorme influência do comércio, que ainda hoje atua como um impulso poderoso em todas as direções de expansão. Fornecendo apoio a todos esses impulsos estão as pressões populacionais, que aumentam com a cultura, e que, tendo por sua vez promovido a cultura, levam à expansão devido às pressões espaciais (...).

Assim como a área do Estado cresce com sua cultura, vemos também que, nos estágios inferiores de civilização, os povos estão organizados em Estados menores. De fato, quanto mais descemos nos níveis da civilização, menores se tornam os Estados. Logo, o tamanho de um Estado também se torna um dos parâmetros do seu nível cultural. [RATZEL, Friedrich. As leis do crescimento espacial dos Estados. In: MORAES, Antônio Carlos Robert (Org.), Ratzel. São Paulo: Ática, 1990, p. 176-178.]

O geógrafo francês Vidal de La Blache esteve na origem de uma outra importante escola da geografia. Em suas obras, publicadas entre o final do século XIX e o início do século X, La Blache propôs que, na relação histórica e cumulativa com a natureza – cujos recursos são desigualmente distribuídos –, os diferentes grupos humanos criariam “gêneros de vida” particulares. O contato entre “gêneros de vida” diferentes explicaria o contínuo aumento das fronteiras ecúmenas da terra, pela difusão de técnicas e hábitos ou pela complementariedade dos recursos naturais, realizada pelo comércio.

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