Atlas da Biodiversidade de Minas Gerais

Atlas da Biodiversidade de Minas Gerais

Gláucia Moreira Drummond

Cássio Soares Martins

Angelo Barbosa Monteiro Machado

Fabiane Almeida Sebaio Yasmine Antonini

Fundação Biodiv ersitas

Biodiv ersidade em Minas Gerais

O fato de Minas Gerais se localizar em uma região geográfica que engloba parte dos biomas Cerrado, Mata Atlântica e Caatinga faz com que o Estado abrigue uma fauna de aves bastante rica e diversificada. De acordo com Sick (1997), quase metade das 1.678 espécies de aves brasileiras (n = 785) estão registradas para Minas Gerais. Dessas, 54 espécies são endêmicas da Mata Atlântica, 20 são endêmicas do Cerrado e 12 são endêmicas da Caatinga. Há ainda nove espécies típicas de montanhas do sudeste.

Apesar da alta riqueza, um grande número de espécies de aves (n=106) está sob algum tipo de ameaça de extinção no Estado. Do total de espécies encontradas em Minas Gerais, 64 estão globalmente ameaçadas (Collar et al., 1994), 41 fazem parte da lista de espécies ameaçadas do Brasil (MMA, 2003) e 83 fazem parte da lista de espécies ameaçadas do Estado (Minas Gerais, 1996). Há 23 espécies consideradas ameaçadas de extinção por Collar et al. (1994) ou ameaçadas de extinção no Brasil (MMA, 2003) que não pertencem à lista de espécies ameaçadas de Minas Gerais. Dessas, 19 foram pouco registradas no Estado até o momento e apenas quatro possuem diversos registros. Dessas 23 espécies, cinco possuem registros antigos ou indefinidos, merecendo, portanto, uma reavaliação da sua ocorrência no Estado.

A avifauna mineira vem sofrendo vários tipos de impactos negativos. A destruição de ambientes naturais foi o mais expressivo, motivando a inclusão de 61 espécies na lista de aves ameaçadas no Estado.

Minas Gerais perdeu cerca de 121.0 hectares de Mata Atlântica entre 1995 e 20

(Fundação SOS Mata Atlântica, 2002). Algumas regiões, como a do Triângulo, tiveram mais da metade (>75%) de seus hábitats naturais convertidos em plantações e pastagens. A fragmentação de hábitats, principalmente nas florestas, tem agravado a situação, levando à perda de espécies nos pequenos remanescentes de vegetação. Espécies de maior porte, como alguns jacus e mutuns, estão entre as aves mais afetadas pela fragmentação de florestas. Além desses, grandes frugívoros, como papagaios, araras e araçaris e pequenos passarinhos, como o Sporophila frontalis (pixoxó ou catatau) e o Oryzoborus maximiliani(bicudo) são igualmente afetados. Os principais impactos que podem levar ao desaparecimento de algumas espécies são aqueles provocados pelo corte seletivo de madeiras, pisoteamento e pressão sobre o sub-bosque por animais domésticos (gado) ou a própria presença do homem. Tanto o galito (Alectrurus tricolor) quanto o pato-mergulhão (Mergus octosetaceus) são exemplos de espécies muito sensíveis à perturbação antrópica.

Foram descobertas quatro novas espécies endêmicas, sendo duas na Mata Atlântica e duas na Caatinga. Apesar da descoberta dessas novas espécies, seis espécies foram agregadas à lista das ameaçadas no Estado.

A captura de animais para criação em cativeiro e a caça predatória constituem as principais causas de declínio populacional, motivando a inclusão de 32 espécies na lista de aves ameaçadas no Estado. Espécies bastante ornamentais, como a arara-azul-grande (Anodorhynchus página anterior: Lobo Guará (Crysocion brachyurus).

página ao lado: Urutau (Nyctibius griseus)

Fotografias: Roberto Murta hyacinthinus), o curió (Oryzoborus angolensis) e o canário-da-terra (Sicalis flaveola), ou que são bastante apreciadas na caça, como jacus (Penelopespp.), mutuns (Craxspp.) e inhambus (Crypturellus spp.), podem ser seletivamente eliminadas. Pequenos pássaros também podem ser alvo da exploração predatória, pois são caçados e vendidos em feiras livres, em algumas localidades.

Os campos rupestres da Serra do Espinhaço e as áreas de mata seca no norte do

Estado são duas áreas consideradas críticas para conservação devido à presença de espécies descritas recentemente e endêmicas ou quase endêmicas a Minas Gerais. Entre as espécies que aí ocorrem, o joão-cipó (Asthenes luizae), o cara-dourada (Phylloscartes roquettei) e o tico-tico-do- São-Francisco (Arremon franciscanus) merecem especial atenção. Pouco se sabe sobre a real distribuição do joão-cipó, mas, aparentemente, essa espécie está restrita aos campos rupestres da Serra do Espinhaço. O cara-dourada é conhecido através de apenas dois registros, feitos em 1926 e 1977, próximo a Brejo do Amparo, no vale do baixo rio São Francisco. O tico-tico-do-São- Francisco ocorre nas matas secas do norte do Estado e no sul da Bahia. Sua distribuição geográfica ainda é desconhecida, e o seu statusde conservação, ainda não definido, pode ser crítico.

Os remanescentes de Mata Atlântica localizados em regiões metropolitanas, como as de Belo Horizonte, Viçosa e Juiz de Fora, também foram apontados como de interesse para conservação. Nesses remanescentes existe um grande número de registros de espécies ameaçadas de extinção, e são regiões, em geral, muito bem inventariadas. A grande pressão antrópica causada pela presença de grandes cidades reforça a urgente necessidade de criação de outras Unidades de Conservação nessas localidades.

As espécies consideradas criticamente em perigo, em geral, sofrem diversos tipos de ameaça e, assim como seus hábitats, merecem medidas de proteção especiais. De maneira geral, as principais medidas a serem adotadas para a proteção das aves são o controle dos desmatamentos e a proteção dos remanescentes de vegetação nativa, principalmente aqueles localizados na Mata Atlântica. A criação de Unidades de Conservação em áreas de Cerrado e Caatinga seria uma medida urgente para a conservação de aves, principalmente aquelas endêmicas a esses biomas. A fiscalização da caça e da captura de animais para criação em cativeiro é medida adicional de proteção, que pode auxiliar na preservação de algumas espécies ameaçadas.

Para definir a importância biológica das áreas indicadas levou-se em consideração a variação do número de espécies endêmicas e ameaçadas entre os biomas. Esse número é maior na Mata Atlântica, intermediário no Cerrado e menor na Caatinga. Além disso, foram analisadas propostas de inclusão de novas áreas e foi revista a classificação das áreas já propostas para as quais se possuíam novas informações.

A atualização do banco de dados contou com as sugestões propostas na consulta ampla e se baseou na consulta à literatura científica publicada entre 1998 e 2003. Das 14 listas consultadas, sete são de localidades da Mata Atlântica, seis do Cerrado (quatro da Serra da Canastra) e apenas uma da Caatinga. Apenas duas regiões do Estado possuem novos registros de aves que contribuíram significativamente para a escolha de novas áreas prioritárias: o vale do rio São Francisco (Kirwan et al., 2001) e o extremo nordeste da Mata Atlântica (Ribon & Maldonado-Coelho, 2001; Ribon et al., 2003; Marini et al., 2003)

Este grupo temático indicou 1 áreas prioritárias para conservação da avifauna: cinco foram incluídas na categoria de importância biológica Especial, 42 na de importância biológica Extrema, 17 na de importância biológica Muito Alta, 15 na de importância biológica Alta e 28 na de importância biológica Potencial. A diminuição do número de áreas prioritárias em relação ao documento anterior deveu-se principalmente ao refinameto da análise das áreas anteriormente propostas, com destaque para as áreas da categoria Potencial. Duas novas áreas especiais foram incorporadas à avaliação de 1998, as quais correspondem aos contrafortes da serra do Cabral e a parte norte da serra do Espinhaço. A classificação das áreas como de importância biológica Especial justificou-se pela presença de espécies de destribuição restrita (p.ex. a Asthenes luizae, na Serra do Cipó e Espinhaço Norte, assim como Augastes scutatusneste último, e a Phylloscartes roquettei, em Brejo do Amparo e Contrafortes da Serra do Cabral) e áreas com ambientes únicos (p.ex. o Jaíba).

O maior volume de informações em algumas áreas da Mata Atlântica mineira, com a maior concentração de registros de espécies ameaçadas de extinção, possibilitou a identificação de um complexo de áreas de Extrema importância biológica, como os Parques Estaduais do Rio Doce e da Serra do Brigadeiro. A grande pressão antrópica reforça a necessidade de criação de outras unidades de conservação nessas regiões. Na Mata Atlântica que ocorre no Sul/Sudoeste de Minas foram indicadas diversas áreas situadas na Serra da Mantiqueira, como a região do Parque Nacional do Itatiaia / Serra do Papagaio e de Poços de Caldas.

Apesar do pouco conhecimento que se tem sobre a Mata Atlântica que ocorre na região do Jequitinhonha, três novas áreas de importância Extrema foram propostas no extremo nordeste do Estado, além de outras três na categoria Potencial.

No Cerrado, além das novas áreas incorporadas na categoria de importância biológica

Especial, Espinhaço Norte e Contrafortes da Serra do Cabral, as áreas de importância biológica Extrema, como os Parques Nacionais da Serra da Canastra e Grande Sertão Veredas foram mantidas. Na parte central do Estado, este bioma é representado por várias pequenas áreas, com destaque para a região cárstica de Lagoa Santa. Nesta revisão, outras áreas prioritárias foram propostas para o centro-norte e oeste do Triângulo devido à presença de muitas espécies ameaçadas de extinção, apesar dos poucos inventários existentes. Trata-se de uma região sob elevada pressão antrópica, que carece de grandes áreas protegidas. Ainda no bioma Cerrado, a região noroeste, que possui localidades com muitas espécies ameaçadas, merece atenção especial.

Na Caatinga, destacam-se, entre as áreas indicadas, a região do Jaíba, a bacia do rio

Peruaçu e as matas das margens do baixo rio São Francisco, além de áreas no alto e médio rio Jequitinhonha e região de Janaúba.

1Norte do Peruaçu 2 Jaíba 3Vale do Peruaçu 4Brejo do Amparo 5São Francisco / Peruaçu 6Verde Grande 7Região de Espinosa / Gameleira 8Região de Montezuma 9Região de Porteirinha 10Região de Janaúba 11Região de Francisco Sá 12Região de Montes Claros 13Região do Tejuco / Pandeiros 14Parque Estadual Serra das Araras 15Parque Nacional Grande Sertão Veredas 16Vale do Rio Urucuia 17Região de Buritis 18Região de Unaí 19 Sagarana 20Baixo Rio Urucuia 21Encostas do Rio Preto 22Espinhaço Norte 23Região de Turmalina 24Região de Itamarandiba 25Rio Capivari 26Região de Araçuaí 27Região de Coronel Murta 28 Ninheira 29Reserva Biológica da Mata Escura 30Região de Bandeira 31Região de Almenara 32Fazenda Santana 3 Cariri 34Região de Salto da Divisa 35Região de Joaima 36Região de Teófilo Otoni 37Região de Itambacuri 38Região de Central de Minas 39Região de Itueta 40Região de Aimorés 41Várzeas de Pirapora 42Contrafortes da Serra do Cabral 43Região de Buritizeiro 44Serra do Cabral 45Estação Ecológica de Pirapitinga 46Fazenda Santa Cruz 47Região de Bom Despacho 48Região de Onça do Pitangui 49Região de Florestal 50Carste de Lagoa Santa 51Espinhaço Central de Minas Gerais 52 Braúnas 53Matas de Coronel Fabriciano 54Região de Nova Era / Itabira 55Região de São Domingos do Prata 56Parque Estadual do Rio Doce

57RPPN Feliciano Miguel Abdala 58Corredor Caratinga / Sossego 59Parque Nacional do Caparaó 60Serra do Brigadeiro 61Região de Carangola / Caparaó 62Região de Viçosa 63Região de Presidente Bernardes 64Espinhaço Sul 65Região de Brasilândia de Minas 66Fazenda Três Rios 67Reserva Acangaú 68Região de Vazante 69Região de João Pinheiro 70Região de São Gonçalo do Abaeté 71Região de Presidente Olegário 72Região de Coromandel 73Região de São Gotardo 74 Ribeirão do Salitre 75Região de Araxá 76RPPN Galheiro 77Nova Ponte 78 Parque Nacional Serra da Canastra 79Região de Conquista 80Volta Grande 81Leste do Triângulo 82Norte de Uberaba 83Matas de Itumbiara 84Parque Florestal Salto e Ponte 85Região de Canápolis 86 Região de Campina Verde 87 Ninhal do Barreiro 88Região de Arcos 89Nova Floresta 90Região de Monte Belo 91Região de Alfenas 92Região de Poços de Caldas 93Sul de Minas 94Região de Camanducaia 95 Região de Lambari 96 Floresta Nacional de Passa Quatro 97Itatiaia / Serra do Papagaio 98Região de Carrancas 99Região de Itumirim / Bom Sucesso 100Lagoa Dourada 101Região de Barbacena 102APA São José 103Parque Estadual do Ibitipoca 104Região de Olaria 105Região de Juiz de Fora 106Rio Pomba 107Serra do Descoberto 108Região de Cataguases 109Região de Além Paraíba 110Matas de Pirapetinga 111Rio Carangola

1Norte do PeruaçuPotencial 2 Jaíba Especial 3Vale do PeruaçuExtrema 4Brejo do AmparoEspecial 5São Francisco / PeruaçuPotencial 6Verde GrandeAlta 7Região de Espinosa / GameleiraPotencial 8Região de MontezumaPotencial 9Região de PorteirinhaPotencial 10Região de JanaúbaExtrema 11Região de Francisco SáPotencial 12Região de Montes ClarosPotencial 13Região do Tejuco / PandeirosExtrema 14Parque Estadual Serra das ArarasPotencial 15Parque Nacional Grande Sertão VeredasExtrema 16Vale do Rio UrucuiaAlta 17Região de BuritisPotencial 18Região de UnaíExtrema 19 Sagarana Alta 20Baixo Rio UrucuiaPotencial 21Encostas do Rio PretoPotencial 2 Espinhaço Norte Especial 23Região de TurmalinaPotencial 24Região de ItamarandibaPotencial 25Rio CapivariMuito Alta 26Região de AraçuaíAlta 27Região de Coronel MurtaExtrema 28 Ninheira Potencial 29Reserva Biológica da Mata EscuraExtrema 30Região de BandeiraExtrema 31Região de AlmenaraPotencial 32 Fazenda Santana Extrema 3 Cariri Extrema 34Região de Salto da DivisaPotencial 35Região de JoaimaMuito Alta 36Região de Teófilo OtoniMuito Alta 37Região de ItambacuriMuito Alta 38Região de Central de MinasAlta 39Região de ItuetaAlta 40Região de AimorésExtrema 41Várzeas de PiraporaExtrema 42Contrafortes da Serra do CabralEspecial 43Região de BuritizeiroMuito Alta 44Serra do CabralAlta 45Estação Ecológica de PirapitingaExtrema 46Fazenda Santa CruzExtrema 47Região de Bom DespachoMuito Alta 48Região de Onça do PitanguiMuito Alta 49Região de FlorestalAlta 50Carste de Lagoa SantaExtrema 51Espinhaço Central de Minas GeraisEspecial 52 Braúnas Extrema 53Matas de Coronel FabricianoPotencial 54Região de Nova Era / ItabiraMuito Alta 55Região de São Domingos do PrataAlta 56Parque Estadual do Rio DoceExtrema

Número da Área

Nome da ÁreaCategoriaRecomendações Pressões

Antrópicas

Relação das áreas indicadas para a conservação das aves de Minas Gerais

57RPPN Feliciano Miguel AbdalaExtrema 58Corredor Caratinga / SossegoPotencial 59Parque Nacional do CaparaóExtrema 60Serra do BrigadeiroExtrema 61Região de Carangola / CaparaóPotencial 62Região de ViçosaExtrema 63Região de Presidente BernardesAlta 64 Espinhaço Sul Extrema 65Região de Brasilândia de MinasExtrema 66Fazenda Três RiosExtrema 67Reserva AcangaúMuito Alta 68Região de VazanteExtrema 69Região de João PinheiroMuito Alta 70Região de São Gotardo do AbaetéMuito Alta 71Região de Presidente OlegárioAlta 72Região de CoromandelAlta 73Região de São GotardoPotencial 74Ribeirão do SalitreExtrema 75Região de AraxáExtrema 76 RPPN Galheiro Extrema 77Nova PonteMuito Alta 78Parque Nacional Serra da CanastraExtrema 79Região de ConquistaMuito Alta 80Volta GrandeAlta 81Leste do TriânguloPotencial 82Norte de UberabaExtrema 83Matas de ItumbiaraExtrema 84Parque Florestal Salto e PonteMuito Alta 85Região de CanápolisPotencial 86Região de Campina VerdePotencial 87Ninhal do BarreiroExtrema 88Região de ArcosMuito Alta 89Nova FlorestaMuito Alta 90Região de Monte BeloExtrema 91Região de AlfenasAlta 92Região de Poços de CaldasExtrema 93Sul de MinasPotencial 94Região de CamanducaiaMuito Alta 95Região de LambariMuito Alta 96Floresta Nacional de Passa QuatroExtrema 97Itatiaia / Serra do PapagaioExtrema 98Região de CarrancasPotencial 99Região de Itumirim / Bom SucessoMuito Alta 100 Lagoa Dourada Potencial 101Região de BarbacenaPotencial 102APA São JoséExtrema 103Parque Estadual do IbitipocaExtrema 104Região de OlariaPotencial 105Região de Juiz de ForaExtrema 106Rio PombaExtrema 107Serra do DescobertoAlta 108Região de CataguasesExtrema 109Região de Além ParaíbaPotencial 110Matas de PirapetingaExtrema 1 Rio Carangola Alta

Número da Área

Nome da ÁreaCategoriaRecomendações Pressões

Antrópicas

Consulte legenda dos ícones desta tabela na orelha da página 202.

Recomendações

Educação ambiental Fiscalização Inventários Monitoramento Plano de manejo Promover conectividade Recuperação Regularização fundiária Unidades de Conservação

Pressões Antrópicas

Agropecuária e Pecuária Agricultura Assoreamento Barramento Caça Desmatamento Espécies exóticas invasoras Expansão urbana Extração de madeira Extração vegetal Isolamento Mineração Monocultura Pesca predatória Piscicultura Queimada Turismo desordenado

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