A percepção da equipe da enfermaria oncológica pediátrica sobre o trabalho desenvolvido pela Terapia Ocupacional

A percepção da equipe da enfermaria oncológica pediátrica sobre o trabalho...

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1. Introdução

1.1 A Doença Crônica e o Câncer.

Doença crônica é definida como uma doença de longa duração, mais de 3 meses ou que necessita de um período de hospitalização maior que um mês em um ano. (VIEIRA, LIMA; 2002).

As doenças crônicas apresentam um ponto em comum, a necessidade de um certo nível de cuidados permanentes e hospitalização constantes (OMS, 2005).

Referindo-se à doença crônica, SCHNEIDER (1976), diz que certos indivíduos se tornam doentes crônicos pela simples razão de apresentarem alterações somáticas tão importantes que são forçados a renunciar a qualquer possibilidade de adaptações e de desenvolvimento, mesmo restrito e sentem necessidade de cuidados paliativos.

Atualmente as doenças crônicas têm acometido a vida dos indivíduos com maior proporção do que anteriormente, caracterizando um novo perfil de saúde para a população. A doença crônica atinge a qualidade de vida, a dinâmica familiar, e as questões de saúde propriamente ditas, portanto, o cuidado envolve o próprio indivíduo, a família e o ambiente em que ele esta inserido (TETELBOM, et.al, 1993).

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), “saúde é o total bem estar biopsicossocial da pessoa e não somente a ausência de doença”.

O doente crônico luta constantemente no sentido de compreender e aceitar a doença para assim, conseguir vivê-la.

Quando um ser humano encontra-se numa situação conflitiva com uma doença crônica, não se deve esquecer de considerar esse indivíduo como uma unidade soma-psique, procurando, de certa forma, manter sua integridade.

A doença surge como um inimigo que deve ser estudado, localizado e combatido. Para isso, existem os medicamentos e profissionais da saúde. Muitas vezes, parece esquecer-se o significado do adoecer, cuidando apenas do órgão prejudicado, dividindo o individuo em corpo e mente, esquecendo-se da história pessoal, familiar e social. Deve-se compreender que, o ser é único, singular e que seu modo de existir assim como adoecer tem suas características próprias, de maneira original e individual.

A doença crônica quando na criança, acaba sendo um acontecimento na família como um todo e necessita de profissionais de saúde que estabeleçam seu planejamento de intervenção com esta visão durante a hospitalização.

A assistência às crianças portadoras de doenças crônicas exige dos profissionais de saúde um conhecimento amplo e aprofundado para o desempenho de habilidades técnicas e científicas, com o objetivo de entender a criança em sua subjetividade e também compreender a família desta criança (ROCHA, et.al., 1998).

Entre muitas doenças crônicas que podem acometer a criança, está o câncer (NEOPLASIAS). Sobre a Neoplasia, pode-se afirmar que se trata de um aumento anormal de uma célula, cujo, crescimento é maior que o dos tecidos ao seu redor. O uso da palavra TUMOR pode ser usado para indicar qualquer inchaço, porém, é mais comum ser usado para designar uma neoplasia; essas podem ser Benignas ou Malignas. As Benignas crescem, porém, permanecem localizadas (sem ramificações). O uso da palavra CÂNCER indica uma Neoplasia Maligna. As Neoplasias são tratadas através da retirada do tumor por meio de cirurgia. Já as Neoplasias Malignas, requerem uma atenção maior durante a realização da cirurgia de remoção, pois esta deve incluir os linfonodos próximos à área acometida pelo câncer. Durante muitos séculos a cirurgia foi o único método de tratamento do câncer e até hoje continua sendo a principal forma de tratamento para a grande maioria dos pacientes curáveis.

Como meio de tratamento do câncer existe também a Radioterapia, a Quimioterapia e a Terapia Hormonal. Na Radioterapia, a radiação ionizante começou a ser usada em procedimentos médicos no inicio da década de 30, com a utilização de radiação natural como fonte de energia letal para a destruição do câncer. Inicialmente o tratamento consistia no implante de radiação diretamente no tumor ou cavidade corporal, utilizando uma fórmula especial para calcular a dose tumoral. Com a sofisticação da engenharia de radiação, foi viabilizado o uso de feixes eletromagnéticos de alta energia, em que, através de geradores eletrostáticos, eram criados os pulsos de elétrons necessários para gerar o efeito letal do câncer.

A Quimioterapia desenvolveu-se nos anos 40 com o uso terapêutico da mostarda nitrogenada. Seu conceito era similar ao da quimioterapia antibacteriana, isto é, destruir células cancerosas como ocorre com as bactérias e, consequentemente curar o câncer. Quimioterapia é um tratamento que utiliza medicamentos para destruir as células doentes que formam um tumor. Dentro do corpo humano, cada medicamento age de uma maneira diferente. Por este motivo são utilizados vários tipos a cada vez que o paciente recebe o tratamento. Estes medicamentos se misturam com o sangue e são levados a todas as partes do corpo, destruindo as células doentes que estão formando o tumor e impedindo, também, que elas se espalhem pelo corpo. No entanto, a quimioterapia é curativa em certas doenças neoplásicas raras, nos tipos mais comuns de câncer, porém, a quimioterapia mostrou-se menos eficaz. Mas, nas últimas duas décadas a quimioterapia combinada com cirurgia e ou radioterapia melhorou as chances de cura.

Já o uso de hormônios pode combater o crescimento neoplásico em órgãos sensíveis a hormônios. Existem duas maneiras de produzir mudanças hormonais no organismo: 1ª – Tratamento Hormonal Ablativo (privativo): com a exérese de órgãos produtores de hormônios ou com a destruição de sua capacidade funcional – castração cirúrgica ou radioterapêutica; 2ª – Terapia Hormonal Aditiva (acrescentativa) : que atua pela administração de hormônios e substancias “hormonio-simile” (hormônio semelhante) ou drogas que interferem nos mecanismos de crescimentos induzidos por hormônios.

1.2 Câncer infantil e a hospitalização da criança.

Entre todas as doenças, o câncer é a que provoca maior impacto psicológico. O câncer representa uma caminhada progressiva e dolorosa em direção à morte. Além disso, a lenda da incurabilidade do câncer, o método de terapia radical e da mudança do aspecto do corpo assustam demais as pessoas.

Aproximadamente, 1 em cada 600 crianças pode desenvolver câncer durante a infância. O câncer infantil corresponde a um grupo de doenças crônicas que tem em comum a proliferação descontrolada de células anormais e pode ocorrer em qualquer local do organismo. As neoplasias mais freqüentes na infância são as Leucemias, os Tumores do Sistema Nervoso Central (SNC) e os Linfomas, entretanto, o Neuroblastoma, o Tumor de Wilms, o Retinoblastoma, o Tumor Germinativo, o Osteosarcoma e os Sarcomas também acometem crianças (PENGO e SANTOS, 2004).

Diferentemente do câncer de adulto, o câncer infantil geralmente afeta as células do sistema sanguíneo e os tecidos de sustentação, enquanto que o do adulto afeta as células do epitélio, que recobre os diferentes órgãos (câncer de mama, de pulmão). Doenças malignas da infância, por serem predominantemente de natureza embrionária, são constituídas de células indiferenciadas, porém respondem, em geral, melhor aos métodos terapêuticos atuais.

É importante que os pais estejam alertas para o fato de que a criança não inventa sintomas e que ao sinal de alguma anormalidade, levem seus filhos ao pediatra para avaliação.

Tão importante quanto o tratamento do câncer em si, é a atenção dada aos aspectos sociais da doença uma vez que a criança está inserida no contexto da família. A cura não deve se basear somente na recuperação biológica, mas também no bem-estar e na qualidade de vida do paciente. Então, não deve faltar a ele, desde o inicio do tratamento, o apoio psicossocial.

Alguns autores afirmam que o universo do cuidar é mais abrangente que o curar. Podemos não curar sempre o câncer na criança, mas sempre poderemos cuidar de uma criança com câncer e diminuir seu sofrimento. Crianças são seres em crescimento e desenvolvimento, que passam por diversas fases e cada uma delas tem suas necessidades especificas, não apenas biológicas que seriam o amadurecimento de suas funções orgânicas, mas também, relações socialmente determinadas pela vulnerabilidade do risco de adoecer entre outros danos que passam a afetar sua qualidade de vida.

O adoecimento e a hospitalização de uma criança representam rupturas no cotidiano dela própria e de sua família. Em geral, a criança deixa de ir à escola, se afasta de seus familiares e amigos, não realiza muitas de suas atividades cotidianas; os familiares, por sua vez, têm sua rotina alterada, precisam se afastar do lar, além de gerenciar os cuidados com a criança doente e as demandas da família, entre outros aspectos.

Segundo AJURIAGUERRA (1983), a hospitalização de crianças provoca problemas importantes e complexos, podendo desencadear reações imediatas no momento da separação, como: choro, gritos, recusa de ficar no hospital, ou reações que surgem após a hospitalização: atitude de recusa ou regressão, problemas alimentares, distúrbios do sono, estados depressivos ou distúrbios de conduta.

Ainda de acordo com este autor, a internação da criança é compreendida como um momento no qual, além da doença, a criança vivencia: a separação das pessoas com as quais possui vínculo afetivo e com quem tem uma relação íntima, mudança de espaço físico do lar para o hospital, procedimentos terapêuticos evasivos, dolorosos, causando medo e emoções de sofrimento e de morte.

A criança tem de adaptar sua vida a uma rotina estritamente ordenada, com horas estabelecidas para dormir, comer, receber visitas. Fica exposto a estranhas e assustadoras experiências, submete-se a diversos tratamentos, tem que se adaptar ao fato que suas necessidades mais íntimas sejam cuidadas por pessoas estranhas, além disso a hospitalização envolve temores e angústias relacionadas às dores, ao desconforto, a alterações na imagem corporal e ao relacionamento familiar.

Considerando a situação de hospitalização da criança, o Estatuto da Criança e do Adolescente assegura que a criança internada na instituição hospitalar tem “direito a ser acompanhado por pai, mãe ou responsável durante todo o período de sua hospitalização ...direito a ter conhecimento adequado de sua enfermidade, dos cuidados terapêuticos e diagnósticos a serem utilizados, do prognóstico, respeitando sua fase cognitiva além de receber amparo psicológico quando se fizer necessário...direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação para a saúde, acompanhamento de currículo escolar, durante todo o período de internação hospitalar” (CONDECA. 1996, Art. 12, p. 27)

Quando uma criança fica doente, especialmente no caso de doenças graves como o câncer, todos aqueles que estão envolvidos com este sujeito vivem momentos bastante difíceis. Diversas vezes, as condições impostas pelo tratamento demandam um tempo longo de hospitalização, quer para a realização de procedimentos e intervenções, quer com relação as idas constantes aos hospitais e ambulatórios. As mudanças na vida marcam este período e o cotidiano passa a ser organizado em função do tratamento.

As crenças e os valores relacionados à doença devem ser considerados: o câncer evidencia o constante jogo entre a vida e a morte, traz um medo permanente; a evolução da doença, as recidivas, sua progressão são preocupações tanto do paciente quanto de sua família.

1.3 A equipe de saúde e a família da criança hospitalizada.

O tratamento multiprofissional é uma realidade freqüente em grande parte dos textos básicos para a atenção do paciente oncológico com dor crônica. Isso quer dizer que o atendimento ideal para o paciente inclui além do Clinico e/ou Oncologista, o neurocirurgião, anestesistas, radioterapêutas, fisiatras, psiquiatras, enfermeiros, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos e assistente social.

Entende-se por Suporte Psicossocial o conjunto de atenção direcionada a garantir o atendimento do paciente, através de instrumentos que passam pela família e pela colaboração de estruturas sociais bem determinadas, incluindo o voluntariado leigo como mostra o quadro a seguir:

Quadro 1 – Suporte Psicossocial

- SUPORTE PSICOLOGICO:

  • Promover suporte emocional ao paciente e à família;

  • Orientar que as respostas emocionais da experiência de dor são normais;

  • Garantir que a atenção psicológica será junto ao paciente e à família, como parte da equipe de atenção;

  • Explicar claramente como pretende agir durante o tratamento;

  • Expressar ao paciente e à família que sempre haverá algo a ser realizado ou tentado para controlar a dor;

- SUPORTE SOCIAL:

  • Insistir na importância do controle da dor para a qualidade de vida do paciente;

  • Negociar e garantir a hospitalização, assim como os medicamentos necessários;

- EDUCAÇÃO AO PACIENTE E A FAMILIA:

- Mensagens que devem ficar bem claras no processo de aprendizado:

  • O alívio da dor é importante para todos;

  • Não há beneficio em sofrer com a dor;

  • A dor é usualmente melhor controlada com medicações orais;

  • Se essas medicações não funcionam, há outras medidas a serem tomadas;

- Providenciar uma lista para revisões periódicas:

  • Dos medicamentos que estão sendo usados e para que servem;

  • Uma lista dos efeitos colaterais;

  • Enumeração dos problemas relacionados ao sono;

Para que as vivencias decorrentes da hospitalização possam ser enfrentados e transformados é preciso que a criança e sua família estejam em um ambiente acolhedor, com uma equipe de profissionais que forneça apoio, através de acolhimento, escuta e intervenções técnicas.

A existência de redes sociais de apoio também é fundamental para os familiares. Esta rede inclui a família, os amigos, a comunidade, os profissionais de saúde e também grupos de apoio e associações. A co-responsabilização e a troca de experiências entre as pessoas podem ajudar no desenvolvimento de estratégias para enfrentar as dificuldades do processo de adoecimento e hospitalização das crianças.

TAKATORI, OSHIRO e OTASHIMA (2004) dizem que principalmente as mães vêem-se internadas com a criança: geralmente tem que permanecer o dia todo no hospital, ficar longe de seus lares, afastadas de outro filhos, não podendo permanecer no trabalho. Há cansaço, desestruturação familiar e máxima atenção voltada para a criança, sendo que seus sentidos não são priorizados, ou até nem considerados.

Acredita-se que as famílias buscam estratégias que as auxiliem a vivenciar tantas situações tão complexas. É notável a importância de redes de apoio para este auxílio.

O sofrimento familiar diante do adoecimento e da hospitalização é uma situação complexa e estas situações exigem apoio e intervenções por parte da equipe de saúde. As intervenções no campo da saúde devem ser constituídas de maneira mais ampla e humanizada, construídas de maneira compartilhada entre pacientes, familiares e profissionais, para que toda a meta de melhoria da qualidade de vida seja efetivamente alcançada.

A família passa a representar o elo entre o hospital e o ambiente familiar. Participa de alguns procedimentos, dado a sua proximidade afetiva com a criança para verbalização coerente sobre condicionantes da patologia.

No cotidiano de intervenções do Serviço Social na enfermaria de pediatria são demandas, tanto por familiares, quanto por membros da equipe profissional, várias situações envolvendo implicações sobre a condição do acompanhante, o que denota o “aviso do direito”.

Da parte da equipe profissional destacam-se: dificuldade de compreensão do acompanhante sobre a necessidade de alguns procedimentos médicos e de enfermagem; de adaptação dos mesmos às normas hospitalares; pouco envolvimento no papel de acompanhamento do tratamento; tensão no intercurso entre membros da equipe e o acompanhante; hábitos do acompanhante não compatíveis com o ambiente hospitalar (vestes, tom de voz alto, falha na higiene...).

Da parte dos acompanhantes, ressalta-se: tensão pela preocupação com o quadro clínico; informações mais detalhadas e compreensíveis sobre a patologia e evolução do tratamento, sentimento de inferioridade devido hostilidade de algum membro da equipe; limitações para permanecer em horário integral; sobra a última situação, destaca-se como principais associações: dificuldades dos pais trabalhadores formais em serem liberados pelo empregador; preocupação com outros filhos em casa, agravada pela falta de apoio na família e na comunidade; necessidade de amamentação de outro filho em casa; gravidez em estágio avançado; trabalho informal imprescindível no sustento da família.

Compreende-se quando o acompanhante, na grande maioria das vezes a mãe, vem para enfermaria trazendo, junto sua criança, a sua ansiedade, seus medos e apreensão. Traz também sua condição social; sua adolescência; seus hábitos, sua postura diante do poder e da autoridade a qual pode ser de constrangimento e subordinação, ou de predisposição. Há que se reconhecer que nem sempre, os profissionais compreendem a dimensão educativa de sua ação, independente do segmento ao qual se vincule.

O processo de acolhimento, bem como de busca de sua adaptação ao processo terapêutico é difícil, porém necessário. Exige a descontaminação do olhar e a compreensão interdisciplinar de sua condição e de sua importância. Considerando-se o seu caráter de ligação entre o ambiente hospitalar e o familiar, pode propiciar a compreensão sobre os condicionantes do meio sócio-familiar sobre o processo saúde-doença, e assim, associar os fatores biológicos com os sócio-culturais.

Visando nortear a conduta dos profissionais de saúde no ambiente hospitalar a Sociedade Brasileira de Pediatria elaborou os seguintes direitos na vigésima sétima Assembléia Ordinária Nacional de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA:

  1. Direito a proteção à vida e à saúde, com absoluta prioridade e sem qualquer forma de discriminação;

  2. Direito a ser hospitalização quando for necessário ao seu tratamento, sem distinção de classes social, condição econômica, raça ou crença religiosa;

  3. Direito a não ser ou permanecer hospitalizado desnecessariamente por qualquer razão alheia ao melhor tratamento de sua enfermidade;

  4. Direito a ser acompanhado por sua mãe, pai ou responsável, durante todo o período de sua hospitalização, bem como receber visitas;

  5. Direito a receber aleitamento materno sem restrições;

  6. Direito a não ser separado de sua mãe ao nascer;

  7. Direito de não sentir dor, quando existam meios para evita-las;

  8. Direito a ter conhecimento adequado de sua enfermidade, dos cuidados terapêuticos e diagnósticos a serem utilizados, do prognóstico, respeitando sua fase cognitiva, além de receber amparo psicológico, quando se fizer necessário;

  9. Direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação para a saúde, acompanhamento do currículo escolar, durante sua permanência hospitalar;

  10. Direito a que seus pais ou responsáveis participem ativamente do seu diagnostico, tratamento e prognostico, recebendo informações sobre os procedimentos a que sera submetido;

  11. Direito a receber apoio espiritual e religioso conforme pratica de sua família;

  12. Direito a não ser objeto de ensaio clinico, provas diagnósticas e terapêuticas, sem o consentimento informado de seus pais ou responsáveis e o seu próprio, quando tiver discernimento para tal;

  13. Direito a receber todos os recursos terapêuticos disponíveis para sua cura, reabilitação e ou prevenção secundaria e terciária;

  14. Direito a proteção contra qualquer forma de discriminação, negligencia ou maus tratos;

  15. Direito ao respeito e sua integridade física, psíquica e moral;

  16. Direito a prevenção de sua imagem, identidade, autonomia de valores, dos espaços e objetos pessoais;

  17. Direito a não ser utilizado pelos meios de comunicação, sem a expressa vontade de seus pais ou responsáveis, ou a sua própria vontade, resguardando-se a ética;

  18. Direito a confidencia dos seus dados clínicos, bem como Direito a tomar conhecimento dos mesmos, arquivados na Instituição, pelo prazo estipulado por lei;

  19. Direito a ter seus Direitos Constitucionais e os contidos no Estatuto da Criança e do Adolescente, respeitados pelos hospitais integralmente;

  20. Direito a ter morte digna, junto a seus familiares, quando esgotados todos os recursos terapêuticos disponíveis.

1.4 A Terapia Ocupacional e a criança hospitalizada.

Terapia Ocupacional é a arte e a ciência de ajudar pessoas a realizarem suas atividades diárias que são importantes para ela, apesar de incapacidades ou deficiências.

Ao longo de sua história a Terapia Ocupacional tem trilhado muitos caminhos. No Brasil, consolidada como profissão há cerca de 40 anos, temos observado nos últimos anos um crescimento da profissão, diretamente ligado ao crescimento científico de seus profissionais.

Como conseqüência da I e II Guerras Mundiais, surgindo a necessidade de tratar os feridos, a Terapia Ocupacional ganhou uma significativa importância. Foi neste contexto que se usaram pela primeira vez dispositivos, técnicas e métodos como análise de movimentos associados à incapacidade física. Sem dúvida, a expansão da Terapia Ocupacional foi grande, uma vez que o número de pacientes não parava de aumentar e consequentemente a necessidade de mais técnicos especializados nessa área de reabilitação, para puder intervir diretamente com amputados, traumatismos cranianos, indivíduos com alterações do foro psiquiátrico, como as neuroses de guerra.

A Terapia Ocupacional desenvolve-se baseada num conceito central – A Ocupação como meio de tratamento. Na realidade, ao longo da história da Humanidade constata-se que sempre foi dado especial relevo ao uso de ocupações como meio de tratar os doentes, relacionando-se de forma direta a saúde e a ocupação, bem como o uso terapêutico de atividades, ou apenas do movimento, como forma de tratamento de doenças.

“Ocupação” em Terapia Ocupacional não se refere simplesmente a profissão ou a treinamentos profissionais; ocupação em Terapia Ocupacional refere-se a todas as atividades que ocupam o tempo das pessoas e dão sentido a suas vidas. Na terminologia da Terapia Ocupacional, essas atividades são denominadas áreas de performance ocupacional. Essas áreas podem ser divididas em atividades diárias, atividades laborais e produtivas e atividades de lazer e diversão.

As Atividades da Vida Diária (AVD) são: arrumar-se, higiene oral, banhar-se, higiene sanitária, vestir-se, dar de comer, alimentar-se, rotina médica, manutenção da saúde, socialização, comunicação funcional, mobilidade funcional, mobilidade comunitária, respostas e emergências e expressão sexual; as Atividades profissionais e produtivas são: administração da casa (cuidado com a roupa, limpeza, preparação de comida, fazer compras, administração de dinheiro, manutenção do domicílio, procedimentos de segurança); Atividades de diversão e lazer (AVP – atividade de vida pratica) são: exploração do lazer, diversão e execução dos mesmos.

Os Terapeutas Ocupacionais trabalham com pessoas de todas as idades, desde a infância até a terceira idade. Essas pessoas pertencem a diversos grupos sociais e culturais. Os serviços de Terapia Ocupacional incluem avaliação e tratamento, os terapeutas ocupacionais trabalham em diversas instituições de atendimento comunitário ou não. As instituições compreendem hospitais gerais, clinicas, hospitais de reabilitação, centro de reabilitação de médio e longo prazos ou ainda asilos.

KUDO e PIERRI (1997) afirmam que é possível constatar práticas de terapia ocupacional, em hospitais e enfermarias pediátricas, voltadas para a criança e sua família independentemente da doença que ela apresente com o atendimento voltado para o processo de hospitalização. Uma vez que pacientes e familiares vivenciam o adoecimento, a intervenção e as rupturas no cotidiano, o terapeuta ocupacional pode, através de diferentes abordagens, ajudar na construção de novas possibilidades de realização das atividades cotidianas, retomar desejos e vontades, abrindo um espaço saudável na rotina destas pessoas.

De acordo com DE CARLO et.al. (2004), o terapeuta ocupacional é responsável pela promoção da vida ocupacional dos sujeitos, na construção de autonomia e independência para uma vida ativa; além de cuidar das condições físicas que estão comprometidas com a doença, ele pode ajudar crianças e familiares e elaborar os aspectos socioemocionais envolvidos no processo de hospitalização: dor, separação, perdas, limitações, etc.

No contexto hospitalar, o terapeuta ocupacional deve ter a sensibilidade de valorizar a história de vida dessas crianças, suas necessidade, interesses, fantasias e medos, perceber as necessidades da instituição e da equipe hospitalar na qual está inserido.

No espaço hospitalar o terapeuta ocupacional tem como objetivos:

  • Recriar o espaço e a dimensão ocupacional das crianças e dos adolescentes hospitalizados;

  • Identificar as principais dificuldades apresentadas pelas crianças e adolescentes;

  • Proporcionar condições e elaboração das fantasias acerca da enfermidade e hospitalização;

  • Integrar a família no processo como elemento de referencia, assim como a equipe hospitalar;

  • Despertar a consciência da criança, do adolescente e da família em relação a importância da continuidade de seus hábitos cotidianos respeitando os limites impostos pelo processo vivenciado;

  • Analisar as atividades humanas próprias para cada criança e adolescente levando em consideração as necessidades e limitações especificas de cada caso;

  • Humanizar o espaço terapêutico.

Com relação ao tipo de atendimento, os atendimentos individuais são os mais realizados em virtude da criança ou adolescente estarem impossibilitados de deambular devido às recomendações médicas, pelo uso da tração, em isolamento entre outros. Nestes casos, as atividades são escolhidas pelo paciente a partir de seus anseios e de acordo com suas limitações e do ambiente. Os principais recursos terapêuticos usados são atividades de automanutenção, artísticas (literárias, musicais, artes plásticas como desenho, pintura, colagem) e culturais (comemorações, jogos, brinquedos e brincadeiras infantis); estes atendimentos podem também ser realizados na sala de terapia ocupacional.

Em relação aos atendimentos grupais, eles são usados devido à necessidade de não reforçar o isolamento e a dependência da criança e do adolescente, proporcionando uma melhor sociabilização, confronto com outras dificuldades, a elaboração de medos e fantasias em relação a doença e hospitalização pela troca de experiências entre os componentes do grupo. São realizados na enfermaria ou na sala de terapia ocupacional, usando como recurso terapêutico as atividades de automanutenção, artísticas (literárias, cênicas e musicais); plásticas (como desenho, pintura, colagem, dobradura); e culturais, como comemorações, jogos, brinquedos e brincadeiras infantis.

KUDO e PIERRI (1990) acreditam ser fundamental a criação de espaços lúdicos onde as crianças e adolescentes hospitalizados possam explorar o ambiente através de suas brincadeiras e da interação com outros. Neste sentido, o brincar passa a ser visto como um espaço terapêutico capaz de promover não só a continuidade do desenvolvimento infantil, como também a possibilidade de, através dele, a criança hospitalizada melhor elaborar esse momento específico em que vive.

O Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO) “dispõe sobre a prática do Brincar como Recurso Terapêutico para crianças hospitalizadas pelo terapeuta ocupacional e da outras providências” (Resoluções COFFITO 81\87, 08\78, 10\78, Lei nº 938/69).

Considerando que é atribuição do terapeuta ocupacional o acompanhamento, avaliação e atendimento da criança hospitalizada que vivencia o ócio, a dor, é fundamental a atuação do profissional com objetivo de intervir através de atividades terapêuticas ocupacionais, que promovam situações prazerosas, criatividade, inovação e flexibilidades comportamentais, levando a ênfase das resoluções e enfrentamentos de problemas e adaptações ao meio:

Art-1º É competência do terapeuta ocupacional levar a criança a ser capaz de enfrentar com sucesso os desafios do ambiente hospitalar, aumentando as habilidades e organização das sensações produzindo respostas adaptativas;

Art- 2º O terapeuta ocupacional promove uma abordagem do brincar na idéia de produção social da saúde como parte de um atendimento humanizado, direcionado à criança em situação individualizada ou grupal;

Art- 3º A brinquedoteca no contexto hospitalar como local de prática terapêutica ocupacional deve ser um espaço de segurança e domínio da criança hospitalizada para que possam dar sentidos a essa vivência e buscar melhor forma de lidar com essa situação;

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