Caderno de Atenção Básica

Caderno de Atenção Básica

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Cadernos de Atenção Básica - n.º 12 Brasília - DF 2006

MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Atenção à Saúde Departamento de Atenção Básica OBESIDADE

Cadernos de Atenção Básica - n.º 12 Série A. Normas e Manuais Técnicos Brasília - DF 2006

© 2006 Ministério da Saúde. Todos os direitos reservados. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e que não seja para venda ou qualquer fim comercial. A responsabilidade pelos direitos autorais de textos e imagens desta obra é de responsabilidade da área técnica. A coleção institucional do Ministério da Saúde pode ser acessada na íntegra na Biblioteca Virtual do Ministério da Saúde: http://www.saude.gov.br/bvs Cadernos de Atenção Básica, n. 12 Série A. Normas e Manuais Técnicos Tiragem: 1.ª edição - 2006 - 50.0 exemplares Elaboração, distribuição e informações: MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Atenção à Saúde Departamento de Atenção Básica SEPN 511, bloco C, Edifício Bittar IV, 4.º andar CEP: 70058-900, Brasília - DF Tels.: (61) 3448-8040 Fax.: (61) 3448-8248 Homepage: w.saude.gov.br/nutricao Supervisão Geral: Luis Fernando Rolim Sampaio e Antonio Dercy Silveira Filho Equipe de elaboração: Ana Beatriz Vasconcellos (Coordenadora Geral da Política de Alimentação e Nutrição) Jorginete de Jesus Damião (INAD/RJ) Sheila Rotenberg (INAD/RJ) Suzete Marcolan (INAD/RJ) Colaboradores especiais: Ana Paula Machado Lins (INAD/RJ) Anelise Rizzolo de Oliveira Pinheiro (CGPAN/DAB/SAS) Clarice Terra Fagundes (INAD/RJ) Fabiana Pereira Kessler (INAD/RJ) Inês Rugani Ribeiro de Castro (INAD/RJ) Luciene Burlandy (UFF/RJ) Rosane Valéria Viana Fonseca Rito (INAD/RJ) Thais Salema Nogueira de Souza (Conselho Regional de Nutricionista - 4ª Região ) Revisão técnica: Andréa Leitão Ribeiro (CGAB/DAB/SAS) Andreia Soares Nunes (CGAB/DAB/SAS) Anelise Rizzolo de Oliveira Pinheiro (CGPAN/DAB/SAS) Celina Marcia Passos de Cerqueira e Silva (CGAB/DAB/SAS) Dillian Goulart (CGPAN/DAB/SAS) Luciana Sardinha (CGPAN/DAB/SAS) Maria de Fatima Cruz Correia de Carvalho (CGPAN/DAB/SAS) Patrícia Chaves Gentil (CGPAN/DAB/SAS) Apoio técnico: Isabella Costa (CGPAN/DAB/SAS) - Estagiária Impresso no Brasil / Printed in Brazil Ficha Catalográfica _ Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Obesidade / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. - Brasília : Ministério da Saúde, 2006. 108 p. il. - (Cadernos de Atenção Básica, n. 12) (Série A. Normas e Manuais Técnicos) ISBN 85-334-1066-2 1. Obesidade. 2. Programas e políticas de nutrição e alimentação. I. Título. I. Série. NLM WD 210-212 _ Catalogação na fonte - Editora MS - OS 2006/0051 Títulos para indexação: Em inglês: Obesity Em espanhol: Obesidad © 2006 Ministério da Saúde. Todos os direitos reservados. É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e que não seja para venda ou qualquer fim comercial. A responsabilidade pelos direitos autorais de textos e imagens desta obra é de responsabilidade da área técnica. A coleção institucional do Ministério da Saúde pode ser acessada na íntegra na Biblioteca Virtual do Ministério da Saúde: http://www.saude.gov.br/bvs Cadernos de Atenção Básica, n. 12 Série A. Normas e Manuais Técnicos Tiragem: 1.ª edição - 2006 - 50.0 exemplares Elaboração, distribuição e informações: MINISTÉRIO DA SAÚDE Secretaria de Atenção à Saúde Departamento de Atenção Básica SEPN 511, bloco C, Edifício Bittar IV, 4.º andar CEP: 70058-900, Brasília - DF Tels.: (61) 3448-8040 Fax.: (61) 3448-8248 Homepage: w.saude.gov.br/nutricao Supervisão Geral: Luis Fernando Rolim Sampaio e Antonio Dercy Silveira Filho Equipe de elaboração: Ana Beatriz Vasconcellos (Coordenadora Geral da Política de Alimentação e Nutrição) Jorginete de Jesus Damião (INAD/RJ) Sheila Rotenberg (INAD/RJ) Suzete Marcolan (INAD/RJ) Colaboradores especiais: Ana Paula Machado Lins (INAD/RJ) Anelise Rizzolo de Oliveira Pinheiro (CGPAN/DAB/SAS) Clarice Terra Fagundes (INAD/RJ) Fabiana Pereira Kessler (INAD/RJ) Inês Rugani Ribeiro de Castro (INAD/RJ) Luciene Burlandy (UFF/RJ) Rosane Valéria Viana Fonseca Rito (INAD/RJ) Thais Salema Nogueira de Souza (Conselho Regional de Nutricionista - 4ª Região ) Revisão técnica: Andréa Leitão Ribeiro (CGAB/DAB/SAS) Andreia Soares Nunes (CGAB/DAB/SAS) Anelise Rizzolo de Oliveira Pinheiro (CGPAN/DAB/SAS) Celina Marcia Passos de Cerqueira e Silva (CGAB/DAB/SAS) Dillian Goulart (CGPAN/DAB/SAS) Luciana Sardinha (CGPAN/DAB/SAS) Maria de Fatima Cruz Correia de Carvalho (CGPAN/DAB/SAS) Patrícia Chaves Gentil (CGPAN/DAB/SAS) Apoio técnico: Isabella Costa (CGPAN/DAB/SAS) - Estagiária Impresso no Brasil / Printed in Brazil Ficha Catalográfica _ Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Obesidade / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. - Brasília : Ministério da Saúde, 2006. 108 p. il. - (Cadernos de Atenção Básica, n. 12) (Série A. Normas e Manuais Técnicos) ISBN 85-334-1066-2 1. Obesidade. 2. Programas e políticas de nutrição e alimentação. I. Título. I. Série. NLM WD 210-212 _ Catalogação na fonte - Editora MS - OS 2006/0051 Títulos para indexação: Em inglês: Obesity Em espanhol: Obesidad

Apresentação 1 Introdução 2 Promoção da saúde: alimentação saudável e atividade física 3 Epidemiologia: relevância do problema 3.1 Evolução da obesidade no Brasil 3.2 Determinantes do sobrepeso e da obesidade 4 Conceito e classificação 4.1 Conceito de obesidade 4.2 Obesidade e co-morbidades 4.3 Abordagem subjetiva da obesidade 5 Diagnóstico nutricional - Avaliação do estado nutricional 5.1 O diagnóstico coletivo de saúde e nutrição: Sistema Nacional de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) 6 Tratamento e acompanhamento nutricional 6.1 Acompanhamento do usuário com excesso de peso 6.2 Orientação alimentar com vistas à promoção do peso saudável 6.3 Trabalho com grupos: uma estratégia para a construção coletiva do conhecimento 7 Um olhar sob a perspectiva das fases do curso da vida 8 Atribuições e competências da equipe de saúde 8.1 Organização da atenção na prevenção e acompanhamento da obesidade 8.2 Papel dos profissionais da equipe de saúde na prevenção e acompanhamento do sobrepeso/obesidade 8.3 O nutricionista na prevenção e acompanhamento da obesidade Referências Anexos Anexo A Anexo B Anexo C Anexo D Anexo E Anexo F Anexo G 0607091616172020212327273333425259747479819399 100 102 103 104 104 105 106

8 O panorama mundial e brasileiro de doenças crônicas não transmissíveis tem se revelado como um novo desafio para a saúde pública. A complexidade do perfil nutricional que ora se desenha no Brasil revela a importância de um modelo de atenção à saúde que incorpore definitivamente ações de promoção da saúde, prevenção e tratamento de doenças crônicas não transmissíveis. As prevalências de sobrepeso e obesidade cresceram de maneira importante nos últimos 30 anos. Neste cenário epidemiológico do grupo de doenças crônicas não transmissíveis, destaca-se a obesidade por ser simultaneamente uma doença e um fator de risco para outras doenças deste grupo, como a hipertensão e o diabetes, igualmente com taxas de prevalência em elevação no país. O modo de viver da sociedade moderna tem determinado um padrão alimentar que, aliado ao sedentarismo, em geral não é favorável à saúde da população. A Política Nacional de Alimentação e Nutrição tem entre seus propósitos a promoção de práticas alimentares e modos de vida saudáveis, e neste contexto a prevenção e o tratamento da obesidade configuram-se grandes desafios. Este material tem como objetivo subsidiar os profissionais de saúde da atenção básica da rede SUS, incluindo a Estratégia de Saúde da Família, na atenção ao paciente obeso, com ênfase no manejo alimentar e nutricional. Um dos principais destaques desta publicação é uma abordagem integral e humanizada do paciente com excesso de peso, com enfoque na promoção da saúde e prevenção de outras doenças crônicas não transmissíveis, a fim de incluir nas rotinas dos serviços de saúde da atenção básica a abordagem nutricional como uma prática efetiva e cotidiana. A inserção da abordagem temática sobre alimentação e nutrição na atenção básica é uma demanda emergente. Espera-se que o Caderno de Atenção Básica - Obesidade seja o primeiro passo para aprofundar e qualificar a atenção integrada às doenças crônicas não transmissíveis. José Gomes Temporão Secretário de Atenção à Saúde

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ATENÇÃO BÁSICA U ma das principais características da população nos últimos anos tem sido o processo permanente de intensas mudanças na sua composição demográfica, com aumento na expectativa de vida e na proporção de idosos na população. O Brasil acompanha essa tendência, tendo como principais características a queda da fertilidade, o aumento da expectativa de vida, a diminuição dos óbitos devido a causas infecciosas, entre outras. Tal realidade tem implicações no que se refere ao complexo quadro de saúde-doença do país, uma vez que os problemas ambientais, de violência e do processo de envelhecimento populacional, com aumento das doenças e agravos não transmissíveis, somam-se aos problemas já existentes, como a morbimortalidade por doenças infecciosas e os problemas de saúde na infância (LESSA, 1998; SICHIERI, 1998; MONTEIRO, 1995). Apesar da tendência declinante das taxas de morbimortalidade por doenças infecciosas, houve o ressurgimento de doenças infecciosas consideradas controladas e o aparecimento de outras até então desconhecidas. Em países como o Brasil, com grande extensão territorial, significativo número de habitantes e diferenças sócioeconômicas e culturais, a heterogeneidade destes processos é bastante visível e complexa (PINHEIRO, 2004)As doenças e agravos não transmissíveis vêm aumentando e, no Brasil, são a principal causa de óbitos em adultos, sendo a obesidade um dos fatores de maior risco para o adoecimento neste grupo. A prevenção e o diagnóstico precoce da obesidade são importantes aspectos para a promoção da saúde e redução de morbimortalidade, não só por ser um fator de risco importante para outras doenças, mas também por interferir na duração e qualidade de vida, e ainda ter implicações diretas na aceitação social dos indivíduos quando excluídos da estética difundida pela sociedade contemporânea. A globalização, o consumismo, a necessidade de prazeres rápidos e respostas imediatas contribuem para o aparecimento da obesidade como uma questão social. A obesidade envolve uma complexa relação entre corpo-saúde-alimento e sociedade, uma vez que os grupos têm diferentes inserções sociais e concepções diversas sobre estes temas, que variam com a história. Em consonância com as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), a atenção básica é a porta de entrada do usuário no sistema. Por estar inserida próxima à comunidade, tem maior poder de compreensão de sua dinâmica social, tornando-se local privilegiado de atuação na promoção de saúde e no enfrentamento do excesso de peso que acomete o indivíduo, as famílias e a população.

1 - INTRODUÇÃO

10 Assim, as propostas de intervenção na reversão do quadro de excesso de peso tanto ao nível populacional quanto no cuidado individual, desenvolvidos pela atenção básica, devem ser norteadas a partir das diversas concepções presentes na sociedade sobre alimentação, corpo, atividade física e saúde. Nesse sentido, a estratégia Saúde da Família e o Programa de Agentes Comunitários de Saúde colaboram para a reorganização da Atenção Básica, possibilitando alcançar os princípios de universalidade, equidade, integralidade, acessibilidade, humanização, responsabilização, vínculo e participação social.

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ATENÇÃO BÁSICA A promoção da saúde pode ser definida como o processo de envolvimento da comunidade para atuar na melhoria da sua qualidade de vida, incluindo uma maior participação no controle deste processo. [...] Os indivíduos e grupos devem saber identificar aspirações, satisfazer necessidades e modificar favoravelmente o meio ambiente. A saúde deve ser vista como um recurso para a vida e não como um objeto de viver (BRASIL, 1999b). E sta definição de promoção parte de uma concepção ampliada de saúde que, mais do que ausência de doença, é aqui entendida como um direito que deve ser garantido e preservado, sendo determinada pelo acesso à renda, moradia, alimentação, educação, trabalho, lazer, transporte e serviços em geral, tendo reflexo também, nas atitudes e escolhas cotidianas. A saúde é um processo em permanente construção, sendo, ao mesmo tempo, individual e coletivo (Carta de Otawa apud BRASIL, 1999b; CASTRO et al., 2002). Nesta perspectiva, para que a promoção da saúde se dê plenamente, é fundamental que ela não se restrinja ao setor saúde, devendo ser construída por meio de uma ação intersetorial do poder público em parceria com os diversos setores da sociedade (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2005). Vale destacar que o conceito de intersetorialidade é aqui entendido como um processo de construção compartilhada, em que os diversos setores envolvidos são tocados por saberes, linguagens e modos de fazer de seus parceiros, e que implica a existência de algum grau de abertura para dialogar e o estabelecimento de vínculos de co-responsabilidade e co-gestão pela melhoria da qualidade de vida da população (CAMPOS, 2004). Além daintersetorialidade, outros princípios devem nortear as iniciativas de promoção da saúde: o daeqüidade, vinculado ao compromisso ético de diminuição das iniqüidades; o do desenvolvimento humano e social, o da diversidade, que valoriza a riqueza das diferenças entre as pessoas e culturas, e o daqualidade de vidano ecossistema (BRASIL, 1999b; BUSS, 2000). A partir desses princípios, os campos de ação da promoção da saúde abarcam a construção de políticas públicas saudáveis, incluindo a criação de ambientes favoráveis à saúde; a reorientação dos serviços de saúde; o desenvolvimento de habilidades pessoais e o reforço à participação popular (BRASIL, 1999b; BUSS, 2000, CASTRO et al. 2002).

2 - PROMOÇÃO DA SAÚDE: ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL E ATIVIDADE FÍSICA

12 Entre as diversas ações necessárias para a promoção da saúde da população estão as de promoção de hábitos saudáveis. Dentro do atual contexto epidemiológico da população, merecem destaque as ações de promoção da alimentação saudável, da prática regular de atividade física e de prevenção e controle do tabagismo. As ações de promoção da saúde devem combinar três vertentes de atuação:incentivo, proteção e apoio. A seguir, para ilustrar a descrição de cada uma destas vertentes, são dados exemplos de ações no campo da promoção da alimentação saudável e da atividade física, temas de interesse para a promoção do peso saudável e prevenção da obesidade. As medidas de incentivo difundem informação, promovem práticas educativas e motivam os indivíduos para a adoção de práticas saudáveis. São exemplos desta vertente as ações educativas desenvolvidas na rede básica de saúde, no cotidiano das escolas e nos ambientes de trabalho, além das atividades de sensibilização e mobilização para a adoção de hábitos saudáveis (ex: campanhas publicitárias, eventos de mobilização). As medidas deapoiotornam mais factível a adesão a práticas saudáveis por indivíduos e coletividades informados e motivados. São exemplos desta vertente a rotulagem nutricional dos alimentos; os programas de alimentação institucional, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar, que busca garantir a oferta de alimentação saudável para alunos do ensino público fundamental; a disponibilização de alimentos e preparações saudáveis nas cantinas de escolas e ambientes de trabalho; a criação de espaços que favoreçam a amamentação no ambiente de trabalho; a criação de grupos de apoio para mulheres que estão amamentando; a viabilização de espaços públicos seguros para a prática regular de atividade física e a promoção de atividades físicas em ambientes comunitários. As medidas deproteçãoimpedem que coletividades e indivíduos fiquem expostos a fatores e situações que estimulem práticas não saudáveis. São exemplos desta vertente a regulamentação da venda e propaganda de alimentos nas cantinas escolares; a regulamentação de publicidade dirigida ao público infantil e a regulamentação da rotulagem de produtos dirigidos a lactentes. Ou seja, ações efetivas de promoção da saúde combinam iniciativas dirigidas aos indivíduos e coletividades e, também, ao ambiente, aqui entendido como os diversos âmbitos da vida cotidiana (comunidade, escola, ambiente de trabalho, meios de comunicação, comércio etc.). Escolhas aparentemente individuais são fortemente relacionadas aos hábitos coletivos. Os hábitos ou "estilo de vida", expressos por práticas cotidianas, não são iguais para todos, mas também não são puramente atitudes individuais conscientes, isoladas e imutáveis (CHOR, 1999; MENDONÇA, 2005). O estilo de vida vincula-se ao conjunto de comportamentos, hábitos e atitudes, ou seja, são expressões socioculturais de vida, traduzidas nos hábitos alimentares, no gasto energético do trabalho diário, nas atividades de lazer, entre outros hábitos, vinculados

aos processos de adoecimento, especialmente, quando relacionados às doenças crônicas nãotransmissíveis (PAIM, 1997; POSSAS,1989; CHOR, 1999; MENDONÇA, 2005). Ao se investir numa estratégia de educação em saúde que se propõe somente a prover informação aos indivíduos para promover uma decisão informada sobre os riscos à saúde, desconsidera-se esta vasta rede de condicionantes e coloca-se o indivíduo como o maior responsável pela sua saúde, ou melhor, o "culpado pela sua doença". É preciso, então, compreender os diversos determinantes dos comportamentos humanos, que são construções sócio-históricas. Assim, o desafio para os profissionais seria o de desenvolver intervenções de saúde apropriadas, sem se tornarem reguladores e vigilantes da vida e do prazer alheios (CHOR, 1999; CAMPOS, 2004). A atenção básica de saúde é um espaço privilegiado para o desenvolvimento das ações de incentivo e apoio à adoção de hábitos alimentares e à prática regular da atividade física. Cabe ressaltar que essas ações, além de garantir a difusão de informação, devem buscar viabilizar espaços para reflexão sobre os fatores individuais e coletivos que influenciam as práticas em saúde e nutrição na sociedade, lançando mão de metodologias que estimulem o espírito crítico e o discernimento das pessoas diante de sua realidade e promovam a autonomia de escolha no cotidiano, a atitude protagonista diante da vida e o exercício da cidadania. A autonomia implica necessariamente a construção de maiores capacidades de análise e de co-responsabilização pelo cuidado consigo, com os outros, com o ambiente; enfim, com a vida (CAMPOS, 2004), sem, portanto, desconsiderar que as soluções para os problemas passam por ações que devem ter sustentação cultural, política e econômica. Portanto, esta busca pela autonomia demanda ações que fortaleçam as capacidades dos indivíduos e dos grupos para terem o máximo poder sobre suas próprias vidas, o que pressupõe também a revisão das relações sociais desiguais sobre as quais são construídas suas vidas (SMEKE; OLIVEIRA, 2001). O desafio é ajudar as pessoas a buscarem uma adequação entre os cuidados à saúde e o seu ritmo de vida, incorporando as mudanças possíveis, sem, no entanto, deixar que esses cuidados se tornem mais um fator de estresse cotidiano. O importante é buscar o equilíbrio possível (RIO DE JANEIRO, 2005). Promoção da Alimentação Saudável

A Promoção da alimentação saudável é uma das diretrizes da Política Nacional de Alimentação e Nutrição ("promoção de práticas alimentares e estilos de vida saudáveis") e integra as estratégias citadas pela Política Nacional de Promoção da Saúde, compondo o eixo "promoção de hábitos saudáveis, com ênfase à alimentação saudável, atividade física, comportamentos seguros e combate ao tabagismo". Além disso, é apontada como

14 um componente fundamental na construção da Segurança Alimentar e Nutricional, aqui entendida como "a realização do direito humano a uma alimentação saudável, acessível, de qualidade, em quantidade suficiente e de modo permanente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, com base em práticas alimentares saudáveis, respeitando as diversidades culturais, e sendo sustentável do ponto de vista sócioeconômico e agroecológico" (CONFERÊNCIA NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL, 2004). O princípio básico para a promoção da alimentação saudável é o entendimento da alimentação como um direito humano. Os direitos humanos são aqueles que os seres humanos possuem pelo simples fato de nascer e fazer parte da espécie humana, independentemente de cor, religião, sexo, local de nascimento, opção política, idade ou qualquer outro atributo, e independentemente também de legislação nacional, estadual ou municipal específica. Estes direitos são universais, inalienáveis e indivisíveis, o que quer dizer que a satisfação de um direito não pode ser usada para justificar a violação de outro (VALENTE, 2002). A sociedade, sob a responsabilidade do Estado, deve cumprir o dever de respeitar, proteger, promover e realizar os direitos humanos. O direito humano à alimentação e nutrição adequadas implica o Estado respeitar e proteger a capacidade dos indivíduos, famílias e comunidades de produzir sua própria alimentação ou prover recursos suficientes para obtê-la;promover, por meio de políticas, programas e ações, o direito à alimentação para todos; e realizar o direito de grupos que em situações de emergências ou carências especiais necessitem de recursos financeiros ou alimentares, até que sejam providos meios necessários para que sua capacidade de alimentar-se por si próprios seja recuperada. A violação do direito humano à alimentação coloca em risco o direito à vida, e embora a promoção deste direito comece pelo enfrentamento da fome, não se encerra nele, uma vez que consiste na garantia de acesso diário, e assim de forma sustentável, aos alimentos em quantidade e qualidade suficientes para atender às necessidades nutricionais dos indivíduos e garantir a manutenção da saúde. Assim, a insegurança alimentar, que diz respeito à não-garantia do direito à alimentação e nutrição, passa tanto pela fome e desnutrição, como tambémpelos agravos ligados aos hábitos alimentares inadequados, como a obesidade (VALENTE, 2002). Para Valente (2002), a alimentação humana tem de ser entendida como um processo de transformação de natureza - no seu sentido mais amplo - em gente, em seres humanos, ou seja, em humanidade. Assim, as ações de promoção da saúde e de uma alimentação saudável envolvem também o fortalecimento político dos diferentes grupos para que possam pressionar pela garantia de todos esses direitos: acesso ao alimento e a uma alimentação saudável, acesso à informação, à atenção em saúde, aos bens e serviços públicos essenciais etc.

(CONFERÊNCIA NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL, 2004). A equipe de saúde tem também um papel na promoção da alimentação saudável e na garantia do direito humano à alimentação. Desta forma, sua atuação junto à população em geral e aos grupos populacionais específicos identificados como prioritários em sua área de atuação deve envolver, de forma direta ou indireta, as várias dimensões da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) e de seus determinantes com diferentes implicações. Na perspectiva do curso da vida, a primeira ação de promoção da alimentação saudável é aquela que abarca as iniciativas de promoção da amamentação e da alimentação complementar adequada e oportuna, como por exemplo: campanhas de incentivo à amamentação; orientação a gestantes e nutrizes e suas famílias na atenção básica à saúde, criação de leis que favoreçam a amamentação e que coíbam o estímulo ao consumo de fórmulas infantis, implantação das Iniciativas Hospital Amigo da Criança e Unidade Básica Amiga da Amamentação e criação de espaços que favoreçam a amamentação no ambiente de trabalho. Em todas as fases do curso da vida, as ações de promoção devem assumir como princípio que uma alimentação saudável é aquela: •adequadaemquantidadeequalidade(oferecendo de forma equilibrada todos os nutrientes necessários para cada fase do curso da vida); •variada, de forma a facilitar a oferta de todos os nutrientes necessários ao organismo; • segura, dos pontos de vista sanitário e genético; • disponível (garantia do acesso físico e financeiro); • atrativa do ponto de vista sensorial; • que respeita a cultura alimentar do indivíduo ou grupo a que se destina. Além desses princípios, é fundamental que as ações de promoção da alimentação saudável levem em conta a dimensão do prazer do convívio social que os atos de preparar e realizar uma refeição envolvem, com todos os seus aspectos simbólicos. Assim, na alimentação está implícito um rico ritual de criatividade, afeto, cuidado, amor, prazer, partilha, solidariedade e comunhão entre seres humanos e a natureza, permeado pelas características culturais de cada agrupamento humano e até de dimensões espirituais (VALENTE, 2002). Complementando os princípios anteriormente mencionados, vale destacar, também, as recomendações da Organização Mundial da Saúde para a prevenção da obesidade e de outras doenças associadas à alimentação, no atual contexto de aumento de consumo de produtos industrializados e diminuição de consumo de alimentos in natura ou minimamente processados (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2003):

16 • buscar o balanço energético e o peso saudável; •limitar o consumo de gorduras; •aumentar o consumo de frutas, legumes e verduras, cereais integrais e oleaginosas (amêndoas, castanhas etc.); • limitar o consumo de açúcares livres; • limitar o consumo de sal (sódio) de todas as fontes e assegurar que o sal seja iodado. Destaca-se que para que os indivíduos possam realizar seu direito à escolha, é preciso garantir a disponibilidade de alimentação adequada, o que implica a oferta de refeições saudáveis, saborosas, em ambientes agradáveis - seja em restaurantes (comerciais e institucionais), creches, escolas, hospitais (alimentação de funcionários, usuários e acompanhantes), locais de trabalho ou em suas proximidades, e em qualquer estabelecimento público que ofereça refeições. Desta forma, as medidas de promoção da alimentação saudável devem se adequar aos diferentes espaços públicos, como as redes de ensino e de saúde, meios de comunicação de massa, indústrias, locais de comercialização de alimentos, organizações sociais e governamentais (CONFERÊNCIA NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL, 2004). Promoção da Atividade Física

A prática regular de atividades físicas proporciona uma série de benefícios, como por exemplo: aumenta a auto-estima e o bem-estar, alivia o estresse, estimula o convívio social, melhora a força muscular, contribui para o fortalecimento dos ossos e para o pleno funcionamento do sistema imunológico. Além disso, é um importante fator de proteção contra a obesidade, o diabetes, as doenças cardiovasculares, alguns tipos de câncer e alguns transtornos mentais (BRASIL, 2001a). Portanto, promover a atividade física é uma ação prioritária na promoção de hábitos saudáveis. Atualmente, a OMS recomenda a prática de atividades físicas de intensidade leve ou moderada diariamente ou na maior parte dos dias da semana, sendo que, para a prevenção de doenças cardiovasculares, diabetes e alguns tipos de câncer, a recomendação é de pelo menos 30 minutos e, para o controle do peso, de pelo menos 60 minutos diários de atividade física. Essas atividades podem ser praticadas de forma contínua (30 ou 60 minutos seguidos) ou acumulada ao longo do dia (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2003). Na promoção da prática regular de atividade física, é fundamental estimular que as pessoas adotem um estilo de vida mais ativo em seu cotidiano (optando, por exemplo, por caminhar e subir escadas em vez de usar carro ou ônibus para distâncias pequenas

e elevador ou escada rolante). Além disso, é fundamental, também, estimular que elas identifiquem que atividades físicas lhes dão prazer. Só desta forma esta prática se tornará regular e sustentável. Um fator imprescindível para a promoção da prática regular de atividade física é a criação e utilização de espaços públicos seguros que facilitem a incorporação desta prática no cotidiano. A segurança nas ruas é um fator imprescindível para a garantia desses espaços, assim como o planejamento urbano, devendo prever instalações para recreação, ciclovias, condições das calçadas, investimentos em parques e equipamentos públicos. Várias iniciativas já são desenvolvidas neste sentido em nosso país: criação de ciclovias e pistas para caminhadas, revitalização de praças, uso do estacionamento de supermercados e shopping centers, construção de espaços adequados dentro dos ambientes de trabalho, fechamento de ruas em determinados horários do dia, entre outros. Destaca-se que diferentes estratégias devem ser pensadas conforme a realidade local. Na atenção básica de saúde, é fundamental investir nas parcerias com outras instituições com o intuito de estimular a população a desenvolver o hábito de praticar atividade física, bem como de viabilizar seu acesso a espaços e iniciativas que facilitem esta prática.

18 3 - EPIDEMIOLOGIA : RELEVÂNCIA DO PROBLEMA

3.1 Evolução da obesidade no Brasil O panorama da evolução nutricional da população brasileira revela, nas duas últimas décadas, mudanças em seu padrão. As tendências temporais da desnutrição e da obesidade definem uma das características marcantes do processo de transição nutricional do país. Ao mesmo tempo em que declina a ocorrência da desnutrição em crianças e adultos em ritmo bem acelerado, aumenta a prevalência de sobrepeso e obesidade. No entanto estes agravos continuam a co-existir, ainda que a desnutrição atinja grupos populacionais mais delimitados, representando situação de extrema gravidade social, pois expõe os indivíduos a maior risco de adoecer e morrer (BATISTA FILHO, 2003; MONTEIRO, 1995). Em função da magnitude da obesidade e da velocidade da sua evolução em vários países do mundo, este agravo tem sido definido como uma pandemia, atingindo tanto países desenvolvidos como em desenvolvimento, entre eles o Brasil (SWINBURN et al., 1999; INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2004). Atualmente, 12,7% das mulheres e 8,8% dos homens adultos brasileiros são obesos, sendo esta prevalência mais alta nas regiões Sul e Sudeste do país. Esta tendência de aumento da obesidade foi registrada para os homens e mulheres de todas as faixas de renda, no período de 1974 a 1989. No período seguinte (1989-2003), os homens continuaram apresentando aumento da obesidade independentemente de sua faixa de renda, enquanto, entre as mulheres, somente aquelas com baixa escolaridade e situadas nas faixas de renda mais baixas (entre as 40% mais pobres) apresentaram este aumento (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2004). Quanto às diferenças de gênero e idade, pode-se observar que as prevalências de obesidade são semelhantes nos dois sexos até os 40 anos, idade a partir da qual as mulheres passam a apresentar prevalências duas vezes mais elevadas que os homens. As prevalências de obesidade em adultos são maiores à medida que aumenta a idade. Entretanto, a partir dos 5 anos, entre os homens, e 65 anos, entre as mulheres, observa- se diminuição da prevalência deste agravo (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2004). Uma vez que esses achados são provenientes de estudos transversais, provavelmente refletem a menor longevidade de pessoas obesas. Já entre crianças e adolescentes brasileiros, identifica-se aumento do excesso de peso em ritmo acelerado: em 1974, observava-se uma prevalência de excesso de peso de 4,9% entre as crianças entre 6 e 9 anos de idade e de 3,7% entre os adolescentes de 10 a 18 anos. Já em 1996-97, observou-se 14% de excesso de peso na faixa etária de 6 e 18 anos em nosso país (WANG et al., 2002). Os dados acima apresentados demonstram a relevância da obesidade como problema de saúde pública em nosso país.

3.2 Determinantes do sobrepeso e obesidade A obesidade pode ser compreendida como um agravo de caráter multifatorial envolvendo desde questões biológicas às históricas, ecológicas, econômicas, sociais, culturais e políticas.

O determinante mais imediato do acúmulo excessivo de gordura e, por conseqüência, da obesidade, é o balanço energético positivo. O balanço energético pode ser definido como a diferença entre a quantidade de energia consumida e a quantidade de energia gasta na realização das funções vitais e de atividades em geral. O balanço energético positivo acontece quando a quantidade de energia consumida é maior do que a quantidade gasta. Os fatores que levam um indivíduo ao balanço energético positivo variam de pessoa para pessoa. Embora existam evidências sugerindo a influência genética no desenvolvimento da obesidade, esses mecanismos ainda não estão plenamente esclarecidos. Acredita-se que fatores genéticos possam estar relacionados à eficiência no aproveitamento, armazenamento e mobilização dos nutrientes ingeridos; ao gasto energético, em especial à taxa metabólica basal (TMB); ao controle do apetite e ao comportamento alimentar (FRANCISCHI et al., 2000; SICHIERI, 1998). Algumas desordens endócrinas também podem conduzir à obesidade, como por exemplo o hipotireoidismo e problemas no hipotálamo, mas estas causas representam menos de 1% dos casos de excesso de peso (FRANCISCHI et al., 2000). A associação entre a ocorrência de obesidade entre membros de uma mesma família é conhecida, acreditando-se que isso possa ser devido tanto a fatores genéticos quanto aos hábitos de vida. A ocorrência de obesidade dos pais leva a um risco aumentado de ocorrência de obesidade, chegando a um risco quase duas vezes maior (80%) para os indivíduos com pai e mãe obesos (GIGANTE, 2004). Embora os fatores genéticos possam contribuir para a ocorrência da obesidade, estima-se que somente pequena parcela dos casos de obesidade na atualidade possam ser atribuídos a esses fatores (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1998). Cabe destacar portanto, a importância das condições de vida e dos ambientes em que as pessoas vivem cotidianamente, adotando-se aqui um conceito ampliado de "ambiente" (político, econômico, social, cultural e físico) (SWINBURN et al., 1999). As origens da chamada transição nutricional estão fortemente ligadas às mudanças nos padrões de consumo de alimentos, mas também a modificações de ordem demográfica e social. Fatores sociais, econômicos e culturais estão presentes, destacando- se o novo papel feminino na sociedade e sua inserção no mercado de trabalho, a concentração das populações no meio urbano e a diminuição do esforço físico e, conseqüentemente, do gasto energético, tanto no trabalho quanto na rotina diária, assim como a crescente industrialização dos alimentos, que também parece condicionar o crescimento da obesidade (GIGANTE, 2004). O padrão de consumo alimentar atual está baseado na excessiva ingestão de alimentos de alta densidade energética, ricos em açúcares simples, gordura saturada, sódio e conservantes, e pobres em fibras e micronutrientes. Os principais responsáveis pelo

20 aumento acelerado da obesidade no mundo e em nosso país são relacionados ao ambiente e às mudanças de modo de vida, sendo, portanto, passíveis de intervenção, demandando ações no âmbito individual e coletivo. Inúmeros estudos têm identificado situações e fases do curso da vida em que as pessoas podem ficar mais vulneráveis à obesidade. Fatores relacionados ao ciclo reprodutivo, como a idade da menarca, o ganho de peso gestacional, o número de filhos, o intervalo interpartal, a duração da amamentação e o período da menopausa têm também sido relacionados ao excesso de peso (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1995; GIGANTE et al., 1997; SILVA, 1995;COITINHO, 1998; LINS, 1999; DAMIÃO, 1999; KAC et al., 2001, 2003; MENDONÇA, 2005). Outros fatores que estão associados ao ganho excessivo de peso são as mudanças em alguns momentos da vida (ex: casamento, viuvez, separação); determinadas situações de violência; fatores psicológicos (como o estresse, a ansiedade, a depressão e a compulsão alimentar); alguns tratamentos medicamentosos (com psicofármacos e corticóides); a suspensão do hábito de fumar; o consumo excessivo de álcool; a redução drástica de atividade física (GIGANTE, 1997; MENDONÇA, 2005; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1998). O quadro a seguir apresenta os diferentes níveis dos determinantes da obesidade e expressam a complexa trama de fatores que a determinam.

Modificado de Kumanyika S. et al.., 2002.

As mudanças no perfil epidemiológico, com o aumento da prevalência de doenças crônicas e degenerativas, impuseram uma reorientação analítica no campo da saúde, ressurgindo as correlações causais entre condições de trabalho, condições de moradia, alimentação, atividade física e outros aspectos ligados à vida urbana/rural e o perfil de saúde e doença de grupos populacionais (MENDONÇA, 2005; CHOR, 1999; GARCIA, 1997; MONDINI; MONTEIRO, 2000). Estudos têm apontado a existência de uma rede de fatores que expressam as múltiplas interações entre a saúde, o mercado global de alimentos, a mídia, as políticas agrícolas estatais, os processos de urbanização, o perfil de educação, o acesso aos transportes e ao lazer (MENDONÇA; ANJOS, 2004). Mudanças recentes nas relações entre nações, como o crescente intercâmbio de informações, práticas e bens de consumo, aliadas à urbanização acelerada, com a conseqüente alteração nas relações entre tempo e espaço, a valorização de objetivos econômicos, a diversificação e acentuação do consumo, a competitividade e o individualismo, refletem-se nas práticas alimentares e no estado nutricional de diversas formas (BURLANDY, 2004). No Brasil, a concentração de pobres nas áreas metropolitanas, observada pelo fenômeno de metropolização da pobreza, tem imposto desafios importantes para o setor público. Neste cenário, o fenômeno da obesidade parece configurar-se como um desses desafios, à medida que se observa o crescimento da obesidade no contexto da pobreza (FERREIRA, 2003). Com relação à associação entre obesidade e pobreza, Sawaya (1997) discute algumas hipóteses: a primeira seria de que as populações em situações de carência teriam uma susceptibilidade genética para o desenvolvimento da obesidade, como fator protetor em escassez de alimentos. Desta forma, quando em situações de abundância alimentar, tais "genes ligados à obesidade" poderiam se tornar deletérios ou não protetores, levando ao ganho ponderal excessivo. Uma segunda hipótese seria de que uma desnutrição energético-protéica precoce poderia promover a obesidade no futuro. A terceira hipótese levantada pela autora discute a possibilidade de que, independentemente de fatores genéticos, a melhoria das condições de vida seria o fator preponderante para o excesso de peso na população. Esta melhoria estaria associada a fatores como alta ingestão calórica com redução do consumo de fibras, aumento do consumo de gorduras e açúcares e redução da atividade física. Esta última relação tem sido apontada por outros estudos (SICHIERI, 1998; PEÑA; BACALLAO, 2000; MONDINI; MONTEIRO, 2000; SAWAYA, 1997). Ainda segundo Peña e Bacallao (2000), alimentos como frutas e vegetais frescos não seriam tão acessíveis à população de baixa renda, visto que tais indivíduos dariam preferência a alimentos com alta densidade energética, por serem estes mais baratos, mais saborosos e conferirem maior saciedade. Como se pode observar, a obesidade está relacionada às maneiras de viver e às condições efetivas de vida e saúde de sociedades, classes, grupos e indivíduos, que são construções históricas e sociais. Entretanto, historicamente, as abordagens de prevenção e controle deste agravo têm se concentrado basicamente em estratégias educacionais, comportamentais e farmacológicas. Ainda que essas estratégias possam ser importantes no âmbito individual, não serão suficientemente efetivas para a prevenção e controle da obesidade em âmbito populacional, se não estiverem associadas a medidas que contemplem as diversas dimensões do ambiente (física, econômica, política e sociocultural) de forma a torná-lo menos obesogênico (LESSA, 1998; SWINBURN et al., 1999).

2 4 - CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO

1 Para crianças menores de 7 anos deve-se utilizar o índice peso/idade (BRASIL, 2004a)

ÍNDICE DE MASSA CORPORAL (IMC) =PESO (KG) ESTATURA 2 (M 2 )

4.1 Conceito de obesidade A obesidade pode ser definida, de forma resumida, como o grau de armazenamento de gordura no organismo associado a riscos para a saúde, devido a sua relação com várias complicações metabólicas (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1995). A base da doença é o processo indesejável do balanço energético positivo, resultando em ganho de peso. No entanto, a obesidade é definida em termos de excesso de peso. O índice de massa corporal (IMC) é o índice recomendado para a medida da obesidade em nível populacional e na prática clínica 1 . Este índice é estimado pela relação entre o peso e a estatura, e expresso em kg/m 2 (ANJOS, 1992). Além do grau do excesso de gordura, a sua distribuição regional no corpo interfere nos riscos associados ao excesso de peso. O excesso de gordura abdominal representa maior risco do que o excesso de gordura corporal por si só. Esta situação é definida como obesidade andróide, ao passo que a distribuição mais igual e periférica é definida como distribuição ginecóide, com menores implicações à saúde do indivíduo (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1998). A obesidade integra o grupo de Doenças e Agravos Não Transmissíveis (DANTs). As DANTs podem ser caracterizadas por doenças com história natural prolongada, múltiplos fatores de risco, interação de fatores etiológicos, especificidade de causa desconhecida, ausência de participação ou participação polêmica de microorganismos entre os determinantes, longo período de latência, longo curso assintomático, curso clínico em geral lento, prolongado e permanente, manifestações clínicas com períodos de remissão e de exacerbação, lesões celulares irreversíveis e evolução para diferentes graus de incapacidade ou para a morte (PINHEIRO, 2004). Sendo assim, a obesidade traz aos profissionais desafios para o entendimento de sua determinação, acompanhamento e apoio à população, nas diferentes fases do curso de vida.

4.2 Obesidade e co-morbidades

A obesidade é um dos fatores de risco mais importantes para outras doenças não transmissíveis, com destaque especial para as cardiovasculares e diabetes. Muitos estudos demonstram que obesos morrem relativamente mais de doenças do aparelho circulatório, principalmente de acidente vascular-cerebral e infarto agudo do miorcádio, que indivíduos com peso adequado (FEDERACIÓN LATINOAMERICANA DE SOCIEDADES OBESIDAD, 1998; FRANCISCHI, 2000). O excesso de peso está claramente associado com o aumento da morbidade e mortalidade e este risco aumenta progressivamente de acordo com o ganho de peso. Observou-se que o diabetes mellitus e a hipertensão ocorrem 2,9 vezes mais freqüentemente em indivíduos obesos do que naqueles com peso adequado e, embora não haja uma associação absolutamente definida entre a obesidade e as doenças cardiovasculares, alguns autores consideram que um indivíduo obeso tem 1,5 vezes mais propensão a apresentar níveis sanguíneos elevados de triglicerídeos e colesterol (WAITZBERG, 2000). As doenças e agravos não transmissíveis têm expressão clínica após longo tempo de exposição aos fatores de risco e da convivência assintomática do indivíduo, mesmo quando os fatores de risco podem ser perceptíveis, como o tabagismo, etilismo, pouca atividade física e o excesso de peso (BRASIL, 2001a). O sobrepeso por si não tem efeito imediato no desenvolvimento de doenças crônicas, porém a história de excesso de peso pode contribuir para variações nos riscos à saúde. Três questões devem ser consideradas: idade de aparecimento, duração e padrões de flutuação de peso, isto é, oscilações de peso (DUARTE, 2005). A combinação do IMC com outros fatores, como por exemplo, tabagismo, hipertensão, dislipidemia, diabetes mellitus, pode levar a riscos diferentes de adoecer. Da mesma forma, o excesso de peso resultante da combinação do baixo consumo de frutas, legumes e verduras, fonte de fibras e substâncias antioxidantes, alto consumo de gorduras saturadas, açúcares e álcool associado à pouca atividade física pode apresentar diferentes conseqüências em relação ao desenvolvimento de dislipidemias 2 e doença coronariana, em virtude da pré-disposição genética (FRANCISCHI, 2000). Embora indivíduos com excesso de peso possam apresentar níveis de colesterol mais elevados do que os eutróficos, a principal dislipidemia associada ao sobrepeso e a obesidade é caracterizada por elevações leves a moderadas dos triglicerídeos e diminuição do HDL colesterol (DUARTE, 2005). 2 Dislipidemias são alterações metabólicas lipídicas decorrentes de distúrbios em qualquer fase do metabolismo lipídico, que ocasionem repercussão nos níveis séricos de lipoproteínas.

24 Da mesma forma que o excesso de massa corporal traz risco, o padrão de distribuição da gordura tem implicações diferenciadas à saúde. Indivíduos com circunferência abdominal aumentada apresentam aumento de tecido adiposo visceral, que confere risco para distúrbios metabólicos, em especial à hipertensão arterial, independentemente do IMC (WORLD HEALTH ORGANIZATION,1995). Quanto à hipertensão arterial sistêmica 3 , a nova orientação da OMS chama a atenção para o fato de que não se deve apenas valorizar os níveis de pressão arterial, fazendo- se também necessária uma avaliação do risco cardiovascular global. A hipertensão essencial (primária) aparece com freqüência entre os 25 e 5 anos de idade e é incomum antes dos 20 anos, faixa etária que também está relacionada à freqüência da obesidade. O aumento da massa corporal está associado à pressão arterial elevada, e a perda de peso em indivíduos hipertensos é geralmente acompanhada por uma redução na pressão arterial. De acordo com os resultados de uma metaanálise, a perda de 1 kg de massa corporal está associada com a diminuição de 1,2 -1,6 mmHg na pressão sistólica e 1,0 - 1,3 na pressão diastólica. A perda de peso é recomendada para todos os indivíduos hipertensos que apresentem excesso de peso. Os efeitos benéficos refletem- se também na necessidade de medicação anti-hipertensiva (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1995). Do mesmo modo, o diabetes mellitus (DM) tipo 2 ou a tolerância à glicose diminuída é, hoje, considerado parte da chamada síndrome metabólica ou de resistência à insulina, que tem ainda os seguintes componentes: hiperinsulinemia, obesidade central / abdominal, hipertensão arterial, dislipidemia, microalbuminúria, etc. O quadro de DM se desenvolve em obesos após período de intolerância à glicose, quando a glicemia se mostra acima dos valores normais, o que conduz, na maioria dos casos, a um estado de hiperinsulinemia. Sendo o sobrepeso associado à pouca tolerância à glicose e à hipersinsulinemia (resistência à insulina), estas alterações podem ser revertidas em pouco tempo pela perda de peso. A perda de peso, em indivíduos diabéticos tipo I, melhora a tolerância à glicose e reduz a necessidade de drogas hipoglicemiantes (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1995). O excesso de peso é também um fator de risco para outros problemas na saúde, sendo importante para o desenvolvimento de litíase biliar, de osteoartrite e tendo associação com alguns tipos de câncer, como de cólon, de reto, de próstata, de mama, 3 O limite escolhido para definir HAS é o de igual ou maior de 140/90 mmHg, quando encontrado em pelo menos duas aferições - realizadas no mesmo momento. A hipertensão arterial é, portanto, definida como uma pressão arterial sistólica maior ou igual a 140 mmHg e uma pressão arterial diastólica maior ou igual a 90 mmHg, em indivíduos que não estão fazendo uso de medicação anti-hipertensiva. (BRASIL, 2001b)

de ovário e de endométrio (FEDERACIÓN LATINOAMERICANA DE SOCIEDADES OBESIDAD, 1998; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1995). A apnéia do sono é comum em indivíduos com obesidade e tem sido apontada como um fator de risco independente para doenças cardíacas. A obesidade é fator de aumento no risco de refluxo esôfagofaríngeo e de hérnia de hiato, muito embora quadros de esofagite severa causem disfagia, levando à perda de peso (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1995). A alimentação saudável para todos as pessoas com sobrepeso e obesidade tem por objetivos melhorar o bem-estar, possibilitar a proteção da saúde, prevenindo e controlando as co-morbidades e permitindo o alcance do peso adequado. Os fatores de risco para as doenças e agravos não transmissíveis com maior consistência de associação são aqueles relativos aos "modos de viver", que embora sejam considerados mutáveis, exigem estratégias de intervenção das políticas públicas que sejam consistentes, inovadoras, que para serem bem-sucedidas devem considerar as desigualdades sociais e a busca da qualidade de vida da população brasileira.

4.3 Abordagem subjetiva da obesidade

As perspectivas acerca do que seja uma doença ou que aspectos levam à sua ocorrência, transformando-a em um problema a ser prevenido e/ou tratado, variam de acordo com as visões de mundo, crenças, comportamentos, percepções e atitudes diante da doença, do mal-estar, da dor, e de outras formas de sofrimento.

O conceito de risco é social e culturalmente construído, e portanto, nas diversas sociedades, e também no interior dos grupos sociais de uma mesma sociedade, o que é considerado risco vai ser variável, diferenciando-se de acordo com a idade, o gênero, a profissão e a condição socioeconômica (MENDONÇA, 2005). A humanidade sempre conviveu com perigos diversos, sejam eles "involuntários", tais como os decorrentes de fenômenos naturais, sejam os associados à vida cotidiana ou às guerras, ou ainda os vinculados ao "estilo de vida" e considerados como "voluntários". Os anos 70 trouxeram o conceito de "riscos auto-infligidos" representados entre outros pela alimentação, falta de exercícios, consumo de álcool e drogas, maus hábitos dos motoristas, a diversidade de parceiros sexuais e a negligência que levaram às doenças sexualmente transmissíveis, em relações aos quais a saúde pública, de forma preponderante, tem como ênfase a normatização de condutas em relação ao corpo, saúde e nutrição (MENDONÇA, 2005). No que diz respeito ao excesso de peso, Arnaiz (2004) destaca que nem toda idéia do que seja risco relaciona-se a um balanço entre saúde e doença, pois, há pessoas

26 para quem o risco de engordar não consiste em "contrair" uma obesidade mórbida, senão em deixar de ter um corpo socialmente aceitável: o perigo, neste caso, seria deixar de ser magro. Embora o indivíduo possa apresentar um IMC considerado como excesso de peso, este pode não comprometer as atividades cotidianas, não sendo identificado como risco. Em estudo realizado com mulheres obesas usuárias de serviços da rede básica de saúde, Mendonça (2005) relata que, para as mulheres, a percepção da obesidade não passa por mensurações comparáveis a um padrão estabelecido, mas sim por comparações de suas medidas ao longo do tempo, tais como as mudanças de manequim na compra de roupas, ou representado pela silhueta, onde se destaca a cintura como parâmetro, ou também ao valor limite caracterizado pela barreira dos 100 quilos, ou ainda pela manutenção ou impedimento à capacidade de locomoção e de trabalho. A representação do estado de saúde/doença como capacitação/ incapacitação para o trabalho é tradicional nas classes trabalhadoras. A doença comumente é percebida por meio da dor ou outro sintoma que possa impedir as atividades laborais cotidianas (LUZ,1998). A percepção de doença e sua visibilidade são importantes para a busca ou não da atenção à saúde. Como ressaltam Luz (1998) e Minayo (1989), ao indagarem sobre em que situação a população procura atendimento médico, esta tende a afirmar que só o busca "em último caso", quando não "suporta mais". Em outras palavras, aparentemente as pessoas procuram retardar ao máximo o contato com a instituição médica, talvez devido aos transtornos para o seu cotidiano que tal busca represente. Este fato agrava- se ainda mais quando se trata da percepção de saúde-doença para os homens. Outra questão salientada pela autora (LUZ, 1997) diz respeito à presença da relação entre dor e doença. Este dado é interessante, uma vez que há doenças graves que podem se desenvolver sem dor, e sem gerar, a princípio, incapacidade, como o caso em questão, o excesso de peso. A obesidade, como já explicitado, é uma doença não transmissível, que tem como características: longo período de latência, longo curso assintomático, curso clínico em geral lento, prolongado e permanente, manifestações clínicas com períodos de remissão e de exacerbação e de múltiplas determinações, com forte componente ambiental. Destaca-se que há, em muitos casos, ausência de dor física, porém, há sofrimento, há dor psicossocial. Entretanto, para os profissionais de saúde, ancorados na visão tradicional da medicina, estar doente é ser portador de uma patologia orgânica, de origem genética ou provocada por infecção/transmissão de bactérias ou vírus. O que ultrapassa essa definição não se enquadra na categoria da doença. A doença é uma entidade identificável e erradicável com uso de medicamento ou cirurgia, e o doente, por sua vez, define-se pela presença de patologia diagnosticável, sendo as doenças divididas em interessantes e desinteressantes. As segundas seriam as corriqueiras, ordinárias, que não demandariam

muito do médico em termos de conhecimento, enquanto as primeiras seriam as de difícil diagnóstico e/ou tratamento, por sua raridade e /ou complexidade (LUZ, 1997, 1998). Diante das reflexões anteriores, torna-se importante indagar: o acúmulo do peso, por ser muitas vezes silencioso, em muitos casos gradual durante um período longo, inicialmente indolor e para os médicos nem sempre diagnosticado, e quando visível, sem tanta "importância" do ponto de vista do aparato técnico-científico, como lidar com a obesidade como uma doença? A obesidade é percebida, interpretada e influenciada pelo sistema social. Valores socioeconômicos relacionados ao excesso de peso podem, portanto, variar de uma sociedade para outra, nos diferentes contextos históricos. Neste sentido, a corpulência que, no passado, esteve associada à idéia de saúde, no imaginário coletivo de hoje tem seu significado transformado. Padrões definidos para obesidade assumem contornos distintos em cada sociedade e também entre diferentes grupos sociais (LINS, 1999). Através dos séculos, nas diversas culturas e sociedades, o corpo adquiriu conotações, significados, importância e tratamentos diferentes. As formas de sentir, de pensar e de agir dos sujeitos são influenciadas pelas significativas mudanças na qualidade de vida das sociedades e, conseqüentemente, acarretam transformações no imaginário que estes constroem sobre saúde e representações sociais das doenças. Para a criança pequena há uma valorização da corpulência, bebê gordinho é sinônimo de bebê saudável e bem cuidado, para todos ou quase todos os grupos sociais. Chammé (1996) refere-se ao caso do "modelo Bebê Johnson" idealizado sobre a figura de um bebê do sexo masculino, branco, de olhos azuis, feições suaves e robusto, traduzindo elevado peso ao nascer e ganho de peso previsto com excesso de calorias, garantindo-lhe contornos arredondados. Este modelo vai ao encontro da preocupação dos pais em superalimentar seus bebês, garantindo assim a manutenção e ampliação de todo um esquema da indústria alimentar para a primeira infância, em substituição do aleitamento materno por superdosagens de leite em pó e açúcares específicos. Com o crescimento da criança, na fase escolar, já não se espera tanta corpulência, o excesso de peso já pode trazer algumas dificuldades em atividades físicas, a corpulência pode começar a ser motivo de "chacotas", o que se intensifica na fase de adolescência. Rito (2004), em estudo com gestantes obesas, identificou que a percepção corporal da obesidade foi expressa por vários adjetivos, tais como "cheinha", "gordinha", "pouco mais de peso" e "forte", sendo o termo obeso (a) restrito a situações consideradas por elas como limite, que se caracterizou pela conotação negativa atribuída ao excesso de peso. Ressalta-se que nas vezes que o termo obeso foi utilizado, este estava associado a pessoas que haviam ultrapassado os 100 quilos, o que, de acordo com Fischler (1995), representa a ''rotundade absolta", uma vez que os números redondos ganham significados mágicos.

28 Esta mesma autora observou que as mulheres referiram que os comentários com conotações negativas em relação à obesidade foram feitos por pessoas que não faziam parte do círculo familiar ou de amigos próximos. Com relação ao cônjuge, a maioria não denotou a exigência da perda de peso, observando-se a preferência dos parceiros por corpos arredondados, quadris largos e coxas grossas. Em estudo realizado com mulheres obesas de um assentamento rural no estado do Rio de Janeiro, as concepções do grupo sobre obesidade expressam suas concepções de saúde-doença e suas representações de corpo. A "gordura", por um lado, é considerada um agravo à saúde, reproduzindo o discurso das ciências, mas também expressa as experiências vividas, por vezes contradizendo este mesmo discurso. Foi observado que nem sempre existe uma relação direta entre a obesidade e determinado agravo. Assim, esta associação é desmerecida e questionada pela população (DAMIÃO, 1999). Para as classes populares, há uma valorização estética da corpulência e da gordura, especialmente entre as mulheres. A gordura parece ser vista como um símbolo do seu poder na família, sem conotação negativa; ao contrário, entre elas parece imperar um padrão estético próprio de apreciação da corpulência, oposto ao das classes privilegiadas (ZALUAR, 1985; BOLTANKI, 1989; TONIAL, 2001). A percepção da obesidade em homens e mulheres também pode ser distinta: como alguns estudiosos têm observado, a obesidade pode estar associada às idéias de sucesso econômico, força política e condição social, ou ao contrário, um corpo discriminado, sem controle. A esse respeito, Fischler (1995) define as sociedades modernas como "lipófobas", ou seja, odeiam a gordura. Atualmente, tem vigorado uma nova ética em relação ao corpo: o culto narcisista, dietético, higiênico e terapêutico (TONIAL, 2001; FELIPO, 2003; FERREIRA, 2003). Avanços recentes da ciência médica têm reforçado construções mecânicas e materialistas do corpo, num mundo onde milhões de cirurgias plásticas corretivas e reconstrutivas acontecem por ano. Na sociedade de consumo, para vender e ampliar as vendas, os comerciantes e profissionais dos cuidados do corpo vêm contribuindo para difundir novos hábitos (LINS, 1999). As heterogeneidades, as diferentes determinações e concepções sobre o excesso de peso implicam estratégias e propostas de intervenções diferenciadas, tanto em nível individual como coletivo.

5 - DIAGNÓSTICO NUTRICIONAL - AVALIAÇÃO DO ESTADO NUTRICIONAL

5.1 O diagnóstico coletivo de saúde e nutrição: Sistema Nacional de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) A Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan) faz parte de um conjunto de ações da Política Nacional de Alimentação e Nutrição que contribuem para a promoção de modos de vida saudáveis, proporcionando condições para que as pessoas possam exercer maior controle sobre sua saúde. Essas ações são fundamentais nas diferentes fases do curso da vida (CONFERÊNCIA NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL, 2004). Vigilância Alimentar e Nutricional é o monitoramento, a análise e a divulgação de dados sobre a situação alimentar e nutricional de dada população, incluindo informações sobre produção, comercialização, acesso e utilização biológica do alimento. O Sisvan tem o objetivo de fazer o diagnóstico descritivo e analítico da situação alimentar e nutricional da população brasileira. Este monitoramento contribui para o conhecimento da natureza e magnitude dos problemas de nutrição, identificando inclusive as áreas geográficas, segmentos sociais e grupos populacionais acometidos de maior risco aos agravos nutricionais. Objetiva, também, acompanhar de maneira contínua as tendências das condições nutricionais, visando ao planejamento e à avaliação de políticas, programas e intervenções.Além disso, o Sisvan é um instrumento que permite compreender a dimensão do estado nutricional que compõe a Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) (CASTRO, 1995; CONFERÊNCIA NACIONAL DE SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL, 2004). No setor saúde, as informações podem ser advindas dos serviços de saúde, de estudos e pesquisas (intra-setorial ou intersetorial) que possam colaborar para o conhecimento das condições nutricionais, incluindo o excesso de peso, tais como sua extensão, sua distribuição na população local e seus determinantes, no intuito de contribuir para a sua prevenção. A vigilância nutricional é uma ferramenta importante, também, para a prevenção e controle dos diversos agravos nutricionais que afetam a população, contribuindo para o controle da obesidade e das doenças crônicas não transmissíveis como o diabetes e a hipertensão arterial (BRITO, 2002).

30 O Sisvan, no entanto, não deve restringir - se a um banco de dados, seu objetivo primordial é a "atitude de vigilância". A "aitude de vigilância" é ter um olhar diferenciado para cada indivíduo, para cada grupo, para cada fase do curso da vida, usando a informação rotineiramente para subsidiar as programações locais e as instâncias superiores, repensando a prática do serviço de saúde qualificando a assistência prestada aos indivíduos que diariamente estão à procura de atendimento (BRASIL, 2004). O Ministério da Saúde (BRASIL, 2004) publicou um manual sobre o Sisvan com orientações básicas para todas as fases do curso da vida, sendo recomendada sua adoção em todos os municípios brasileiros. Diagnóstico nutricional individual para o acompanhamento da obesidade

O estado nutricional expressa a relação entre os alimentos ingeridos, a capacidade do organismo em aproveitá-los e o gasto de energia ante as necessidades nutricionais em cada fase do curso de vida. Ele expressa "a síntese orgânica das relações entre homem-natureza-alimento que se estabelecem numa determinada sociedade" (VASCONCELOS, 1995; YPIRANGA, 1989). A avaliação do estado nutricional compreende diferentes etapas que se complementam: avaliação antropométrica, dietética, clínica, laboratorial e psicossocial, tendo como objetivo realizar o diagnóstico e identificar a intervenção necessária. Uma vez que as condições nutricionais podem ser expressas também pelas medidas corporais, um dos métodos mais utilizados para a avaliação do estado nutricional é a antropometria, que consiste na medição das dimensões corporais. Este método tem como vantagens ser de baixo custo, não invasivo, de fácil utilização pelos serviços, além de ser aplicável a todas as fases do curso da vida (VASCONCELOS, 1995; ENGSTROM,2002). As medidas, quando combinadas, formam os índices antropométricos, que nos permitem comparar a informação individual com parâmetros utilizados como referência. As medidas mais usadas são a massa corporal (peso) e a altura (comprimento e estatura). Em todas as consultas e em todos os contatos dos usuários com o serviço de saúde é importante que sejam aferidas as medidas antropométricas e que o estado nutricional seja identificado. Os serviços de saúde precisam estar sensibilizados para a importância destas medidas, no intuito de garantir confiabilidade e qualidade no cuidado à saúde. Outra questão importante diz respeito a constante manutenção dos equipamentos. A seguir são descritos, conforme preconizado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2004a) os pontos de corte para o diagnóstico de sobrepeso / obesidade em cada fase do curso da vida.

Índices recomendados:

Fases do curso da vida Índices e Pontos de Corte para Sobrepeso e Obesidade Crianças (menores de 10 anos) Peso/Altura (P > 97°) Adolescentes (>10 anos e < 20 anos) IMC percentilar por idade e sexo (P > 85°) Adultos ( 20 anos e < 60 anos ) IMC (>25 sobrepeso e >30 obesidade) Idosos (>60 anos) IMC (>27 sobrepeso) Gestantes (> 10 e < 60 anos) IMC por semana gestacional (verificar tabela SISVAN) O diagnóstico de risco de sobrepeso em crianças menores de 10 anos

O crescimento é um processo dinâmico e contínuo ao longo da vida. A utilização dos indicadores antropométricos é considerada um dos melhores parâmetros para avaliação e acompanhamento da saúde da criança (BRASIL, 2002a, 2004a; MONTEIRO, 1997). Para avaliação do estado nutricional de crianças, utiliza-se como referência a população do National Center for Health and Statistics - NCHS (1977), recomendada pela WHO (1995), pois as crianças em condições adequadas de saúde têm crescimento semelhante em diferentes etnias. Para classificação do estado nutricional utiliza-se o percentil (P).O ponto de corte para risco de sobrepeso é o > P97 (percentil noventa e sete) para o índice P/A (peso para altura). Ressalta-se que não se deve perder de vista a importância do acompanhamento do crescimento linear; assim, o índice altura por idade (A/I) deve, quando possível, ser avaliado em todas as consultas, especialmente quando o peso por idade (P/I) estiver elevado. Para o diagnóstico de obesidade em crianças deve-se também utilizar medidas complementares, como dobras cutâneas triciptal e subescapular, avaliando-as de acordo com os índices recomendados por faixa etária. Nos serviços de saúde, a realização destas medidas exige uma capacitação prévia, por não ser usualmente utilizada (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1995). O diagnóstico de sobrepeso em adolescentes

A adolescência é um período de constante transformação tanto biológica quanto psicossocial, nas quais a nutrição desempenha um papel importante. O diagnóstico nutricional neste grupo etário apresenta uma complexidade adicional, uma vez que a maturação sexual influencia a interpretação dos resultados. Adolescentes de mesma idade, sexo, massa corporal e estatura encontram-se em momentos diferentes de maturação sexual (ANJOS et al, 1998). O grande incremento do crescimento físico que ocorre na puberdade recebe o nome de estirão puberal. O ganho de estatura na adolescência corresponde à cerca de 20-

32 25% da estatura final adulta e 50% do peso corporal. A composição corporal também sofre alteração neste período em relação à quantidade de massa magra, percentual e distribuição de gordura, aumentando as diferenças entre meninos e meninas. A maturação sexual é acompanhada por meio do desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários, que ocorre na puberdade. O estagiamento desta maturação foi sistematizado por Tanner (1989), considerando o desenvolvimento dos caracteres sexuais femininos e masculinos, desde seu início até o completo desenvolvimento físico, parada do crescimento e aquisição de capacidade reprodutiva. Esta seqüência é conhecida como estagiamento puberal ou critérios de Tanner (Anexo A). O uso da antropometria para este grupo fundamenta-se basicamente na evidência de que o crescimento físico e a própria maturação sexual dependem fundamentalmente das condições nutricionais. Embora no acompanhamento clínico a avaliação da maturação sexual seja importante, o risco de excesso de peso é medido principalmente a partir dos índices antropométricos. Assim, os indicadores como o peso e a estatura adquirem grande importância no diagnóstico do estado nutricional. Para o diagnóstico e acompanhamento do estado nutricional de adolescentes, utiliza- se como parâmetro a distribuição do Índice de Massa Corporal (IMC) segundo idade e sexo, da referência National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES). Para o diagnóstico nutricional da obesidade, deve-se calcular o IMC conforme descrito anteriormente. A partir do valor obtido, deve-se compará-lo com a referência através das tabelas de percentil de IMC por idade e sexo. Para o diagnóstico de excesso de peso, o ponto de corte estabelecido para adolescentes é>Percentil 85, correspondendo à classificação de Sobrepeso (BRASIL, 2004a). São apresentadas a seguir as tabelas de percentil de IMC por idade e sexo, para adolescentes com idade maior ou igual a 10 e menor de 20 anos.

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