(Parte 1 de 3)

O Eu profundo e os outros Eus

20ª EDIÇÃO

A LITERATURA DRAMÁTICA é uma subespécie de literatura narrativa, e esta uma espécie do gênero literatura.

A literatura é a expressão verbal de um temperamento; a literatura narrativa a forma objetiva dessa expressão verbal; a literatura dramática a forma maximamente objetiva — ou seja, a forma sintética — dessa expressão objetiva. Um drama não é mais que um romance na sua forma máxima de síntese possível. Ê por atingir esta objetividade máxima que ele pode rece- ber a aparência de vida, isto é, que ele pode ser simulado num palco por pessoas a que se chama atores.

As qualidades possíveis do drama resultam, portanto, de três origens. Há as que ele tem em comum com todas as formas literárias, visto que ele é literatura; há as que ele tem, mais particularmente, em comum com todas as narrativas literárias; e há as que lhe são próprias como forma maximamente sintética da narrativa literária.

Há três espécies de drama: o tipo sintético, que busca incluir em

* Apontamento solto; s. d.; in Poemas Dramáticos, I, ed. Ática.

si, equilibrando-as, as três ordens de qualidades que ao drama são possíveis; o tipo analítico, que busca apresentar só as qualidades particulares e distintivas do drama; e o tipo misto que busca reunir, conforme possa ser, as qualidades desses dois tipos.

O tipo sintético do drama atinge a sua plenitude no drama em verso. Por ser em verso atinge o máximo da expressão verbal de um temperamento, que em verso se acentua muito mais que em prosa. Por ser drama reduz essa [expressão] verbal à objetividade.

moído de eu viver, diz-me que é muito cedo aindaSinto-me
febril de longe. Peso-me não sei por quê

SEI QUE DESPERTEI e que ainda durmo. O meu corpo antigo,

Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre um sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. Minha atenção bóia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-me, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.

Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro, c incerta, altera-me como a brisa aos perfis das copas.

um hálito de penumbra. Sou todo confusão quietaPara que
há de um dia raiar?Custa-me o saber que ele raiará, como

Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.

e eu em meio dela, não sei de que onde que não é esse

Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Bóio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge,

Surge mas não apaga esta, esta alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.

rente!

Que nítida de outra e de ela essa trêmula paisagem transpa-

guntar?Eu nem sei querê-lo saber. . .

E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de mo per-

dele, vejo essa paisageme essa paisagem conheço-a há muito,

A alcova vaga é um vidro escuro através do qual, consciente e há muito que com essa mulher que desconheço erro, outra realidade, através da irrealidade dela. Sinto em mim séculos de conhecer aquelas árvores, e aquelas flores e aquelas vias em desvios c aquele ser meu que ali vagueia, antigo e ostensivo

penumbras de ver

ao meu olhar, que o saber que estou nesta alcova veste de

do

De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo e sinto, um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou atual destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de noturna. Depois esse vento passa e torna a ser toda só-ela a paisagem daquele outro mun-

bruma, no horizonte d'essa terra diversaE há momentos em
que o chão que ali pisamos é esta alcova visível
Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulherUm
grande cansaço é um fogo negro que me consomeUma grande
ânsia passiva é a vida que me estreita
Ó felicidade baçaO eterno estar no bifurcar dos cami-
nhos!Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo
alguémE talvez eu não seja senão um sonho desse Alguém
que não existe

Outras vezes este quarto estreito é apenas uma cinza de

Lá fora a antemanhã tão longínqua! a floresta tão aqui ante outros olhos meus!

ela aspiro
As árvores! as flores! o esconder-se copado dos caminhos!

E eu, que longe desta paisagem quase a esqueço, é ao tê-la que tenho saudades d'ela. e é ao percorrê-la que a choro e a

amor
No nosso jardim havia flores de todas as belezasrosas
mínimos, camélias estéreis de perfumeE, pasmados por cima

Passeávamos às vezes, de braço dado, sob os cedros e as olaias, nenhum de nós pensava em viver. A nossa carne era-nos um perfume vago e a nossa vida um eco de som de fonte. Dávamo-nos as mãos e os nossos olhos perguntavam-se o que seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do de contornos enrolados, lírios de um branco amarelecendo-se, papoulas que seriam ocultas se o seu rubro lhes não espreitasse presença, violetas pouco na margem tufada dos canteiros miosótis de ervas altas, olhos, os girassóis isolados fitavam-nos grandemente.

de outras terrasE subia-nos o choro à lembrança, porque
nem aqui, ao sermos felizes o éramos

Nós roçávamos a alma toda vista pelo frescor visível dos musgos e tínhamos, ao passar pelas palmeiras, a intuição esguia

Carvalhos cheios de séculos nodosos faziam tropeçar os nossos pés nos tentáculos mortos das suas raízes. . . Plátanos esta-

no silêncio das latadas os cachos negrejantes de uvas

cavam... E ao longe, entre árvore e árvore de perto, pendiam

O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia.

depois de uma viagem através de sonhos

A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos. como se houvéssemos aparecido às nossas almas

que se dá às cousas que existem?

Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara-se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte haveria alguma cousa de real, de merecedor do olhar aberto

marcavam horas irreaisNada vale a pena, ó meu amor longín-
quo, senão o saber como é suave saber que nada vale a pena

Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho

O movimento parado das árvores; o sossego inquieto das fontes; o hálito indefinido do ritmo íntimo das seivas; o entardecer lento das coisas, que parece vir-lhes de dentro e dar mãos de concordância espiritual ao entristecer longínquo, e próximo à alma do alto silêncio do céu; o cair das folhas, compassado e inútil, pingos de alheamento, em que a paisagem se nos torna toda para os ouvidos e se entristece em nós como uma pátria recordada — tudo isto, como um cinto a desatar-se, cingia-nos, incertamente.

realidade no espaçoQue horas, ó companheira inútil do meu
tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram aliHoras
de paisagem externaE nós não nos perguntávamos para que

Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do tempo, uma extensão que desconhecia os hábitos da de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores era aquilo que não era para nada.

Nós sabíamos ali. por uma intuição que por certo não tínhamos. que este dolorido mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha externa onde as montanhas são hábitos de formas, e para além dessa não havia nada. E era por causa da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura como uma caverna em terra de supersticiosos, e o nosso senti-la era estranho como um perfil de cidade mourisca contra um céu de crepúsculo outonal.

Orlas de marés desconhecidas tocavam, no horizonte de ouvirmos, praias que nunca poderíamos ver, e era-nos a felicidade escutar, até vê-lo em nós, esse mar onde sem dúvida singravam caravelas com outros fins em percorrê-lo que não os fins úteis e comandados da Terra.

Reparávamos de repente, como quem repara que vive, que o ar estava cheio de cantos de ave, e que, como perfumes antigos em cetins, o marulho esfregado das folhas estava mais entranhado em nós de que a consciência de o ouvirmos.

do sabor dos ódios. Julgávamo-nos imortais

E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o fundo monótono esquecido do mar eterno punham à nossa vida abandonada uma auréola de não a conhecermos. Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e

à certeza retângula da vidaHoras imperiais depostas, horas
tias
E doía-nos gozar aquilo, doía-nosPorque apesar do que
me e perverso como a decadência de um império ignoto

Ali vivemos horas cheias de um outro sentirmo-las, horas de uma imperfeição vazia e tão perfeitas por isso, tão diagonais vestidas de púrpura gasta, horas caídas nesse mundo de outro mundo mais cheio de orgulho de ter mais desmanteladas angústinha de exílio calmo, toda essa paisagem nos sabia a sermos deste mundo, toda ela era úmida de um vago tédio, triste e enor-

Nas cortinas da nossa alcova a manhã é uma sombra de luz.

Meus lábios, que eu sei que estão pálidos, sabem um ao outro a não quererem ter vida.

O ar do nosso quarto neutro é pesado como um reposteiro.

A nossa atenção sonolente ao mistério de tudo isto é mole como uma cauda de vestido arrastada num cerimonial no crepúsculo.

Nenhuma ânsia nossa tem razão de ser. Nossa atenção é um absurdo consentido pela nossa inércia alada.

vida

Não sei que óleos de penumbra ungem a nossa idéia do nosso corpo. O cansaço que temos é a sombra de um cansaço. Vemnos de muito longe, como a nossa idéia de haver a nossa

Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo, riríamos sem dúvida de nos imaginarmos vivos. O frescor aquecido dos lenços acaricia-nos (a ti como a mim decerto) os pés que se sentem, um ao outro nus.

jamos a sermos nósNão tiremos do dedo o anel mágico que
sombra e pelos gnomos do esquecimento

Desengunemo-nos, meu amor, da vida e dos seus modos. Fuchama, mexendo-se-lhe, pelas fadas do silêncio e pelos elfos da

misteriosa esquadra

E ei-la que, ao irmos a sonhar falar nela, surge ante nós, outra vez, a floresta muita, mas agora mais perturbada da nossa perturbação e mais triste da nossa tristeza. Foge diante dela, como um nevoeiro que se esfolha, a nossa idéia do mundo real, e eu possuo-me outra vez no meu sonho errante, que esta floresta

não nelas mas na melodia de seus nomesFlores cujos no-
como eram chamadasFrutos cujo nome era um cravar de
dentes na alma da sua polpaSombras que eram relíquias de
outroras felizesClareiras, clareiras claras, que eram sorri-
sos mais francos da paisagem que se boceja em próximaó
horas multicolores!Instantes-flores, minutos-árvores, ó tem-
flores!
Loucura de sonho naquele silêncio alheio!
A nossa vida era toda a vidaO nosso amor era o perfume
do amorVivíamos horas impossíveis, cheias de sermos
nósE isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa
carne, que não éramos uma realidade
Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquerÉra-
mos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria
vera

As flores, as flores que ali vivi! Flores que a vista traduzia para seus nomes, conhecendo-as, e cujo perfume a alma colhia. mes eram repetidos em seqüência, orquestras de perfumes sonoros. Árvores cuja volúpia verde punha sombra e frescor no po estagnado em espaço, tempo morto de espaço coberto de flores, e do perfume de flores, e do perfume de nomes de E assim como ela era duas — de realidade que era, e ilusão — assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não era ele-próprio, se o incerto outro vi-

tíamo-nos a querer soluçarAli aquela paisagem tinha os
serCheios, sim, do tédio de ser qualquer coisa, realidade ou
no exílio dos lagosE nós, caminhando sempre e sem o

Quando emergimos de repente ante o estagnar dos lagos senolhos rasos de água, olhos parados cheios de tédio inúmero de ilusão — e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado e absorto. . .

nós, que por ali íamos, ali estávamosPorque nós não éramos
ninguém. Nem mesmo éramos coisa algumaNão tínhamos

E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem vida que a morte precisasse para matar. Éramos tão tênues e rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo de uma palmeira.

(Parte 1 de 3)

Comentários