unesp2009 3dia

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(Parte 2 de 2)

10 No final do primeiro parágrafo, o narrador empregou

“acode”, presente do indicativo, quando a correlação usual com as demais formas verbais exigiria o pretérito imperfeito do subjuntivo, “acudisse”. Essa quebra da correlação, todavia, é feita intencionalmente pelo nar - rador, com o objetivo de produzir um efeito expressivo. Releia o parágrafo e explique esse efeito expressivo causado pelo emprego do presente do indicativo.

Resolução A quebra da correlação verbal, com o presente do indicativo (chamado presente narrativo)empregado no lugar do pretérito imperfeito do subjuntivo, sugere que a intenção do narrador foipresentificar e atualizar a cena, tornando-a vívida para o leitor, intensificando a expressão do momento de medo e perigo por que passavam as personagens.

INSTRUÇÃO: Leia atentamente os fragmentos de textos apresentados a seguir.

1. Fragmento de livro de Isaac Asimov:

Todas as formas de vida diversas da humana só lidam com recursos renováveis. Determinados organismos podem morrer por falta temporária de alimento e água em determinado lugar, ou por causa de aberrações climáticas, ou por presença e atividade de predadores, ou meramente por causa da idade avançada. Toda uma espécie pode morrer devido a mudanças genéticas, à incapacidade de adaptar-se a alterações ambientais, ou à substituição por outra espécie com melhores possibili - dades de sobrevivência. Entretanto, a vida continua, pois a Terra segue sendo habitável, graças à eterna reciclagem de recursos renováveis.

Somente o ser humano lida com recursos não-reno - váveis e, portanto, só ele corre o risco de estruturar um modo de vida cujos elementos essenciais podem faltar repentinamente. Essa falta pode representar tamanha desarticulação que é capaz de pôr fim à civilização humana. Aí, então, a Terra poderá ainda comportar a vida, mas não mais o avanço tecnológico.

(Isaac Asimov. Escolha a catástrofe. São Paulo: Círculo do Livro, 1979. p. 305.)

2. Fragmento de livro de Gilberto Dupas:

Cientistas renomados fazem-nos graves advertências sobre a maneira como estamos conduzindo nossos caminhos. Ao mesmo tempo, eles nos delegam respon sa - bilidades brutais. O filósofo Daniel Dennett acha quase certo não sermos a espécie do planeta com maior chance de sobreviver. Perdemos para as baratas e as criaturas mais simples. Possuímos uma grande vantagem: a condição de olhar à frente e planejar. No entanto, apesar — e por causa — de todo o avanço tecnológico de que fomos capazes, caminhamos em direção a uma barreira de escassez, não de minérios ou energia, mas de água e alimentos. O sociobiologista Edward O. Wilson lembra que transformamo-nos na primeira espécie a se tornar uma força geofísica, capaz de alterar o clima da Terra; e que temos sido os maiores destruidores de vida desde o meteorito que caiu perto de Iucatã há 65 milhões de anos e encerrou o ciclo dos grandes répteis. Com a superpo - pulação e o atual estilo de desenvolvimento, corremos o risco de esgotar nossas reservas naturais — inclusive de água doce — e eliminar para sempre numerosas espécies vegetais e animais. Ele nos compara a uma família que dissipa irrefletidamente seu parco patrimônio e que depende cada vez mais de novos conhecimentos para se manter viva. De fato, se hipoteticamente retiramos a eletricidade de uma tribo de aborígenes australianos, quase nada acontecerá. Se o fizermos aos moradores da Califórnia, milhões morrerão.

É curioso como nossa maravilhosa capacidade de previsão tem evoluído menos que nosso arsenal destrutivo e nossas aspirações de consumo. O homem primitivo dava-se por satisfeito ao voltar para a caverna com algum alimento para sua família e por ter sobrevivido mais um dia. Hoje, tentamos planejar a longo prazo: mas é difícil avaliar as conseqüências de nossas ações para mais de duas gerações. É o caso da degradação do meio ambiente. Ao cortarmos uma árvore da floresta tropical, raramente assumimos que nossos bisnetos poderão encontrar lá um deserto. E, embora saibamos ter de preservar a velha Mãe Terra, o único lar capaz de sustentar a vida, continuamos a destruir seus frágeis ecossistemas naturais, envenenar as águas e poluir o ar com o uso irresponsável da tecnologia.

(Gilberto Dupas, Ética e poder na sociedade da informação. São Paulo: Editora Unesp, 2000. p. 63-65.)

3. Fragmentos de um artigo de Moacir Gadotti:

A sensação de pertencimento ao universo não se inicia na idade adulta e nem por um ato de razão. Desde a infância, sentimo-nos ligados com algo que é muito maior do que nós. Desde crianças nos sentimos profun - damente ligados ao universo e nos colocamos diante dele num misto de espanto e de respeito. E, durante toda a vida, buscamos respostas ao que somos, de onde viemos, para onde vamos, enfim, qual o sentido da nossa existência. É uma busca incessante e que jamais termina. A educação pode ter um papel nesse processo se colocar questões filosóficas fundamentais, mas também se souber trabalhar ao lado do conhecimento, essa nossa capacidade de nos encantar com o universo.

Hoje, tomamos consciência de que o sentido das nossas vidas não está separado do sentido do próprio planeta. Diante da degradação das nossas vidas, no planeta chegamos a uma verdadeira encruzilhada entre um caminho Tecnozóico, que coloca toda a fé na capacidade da tecnologia de nos tirar da crise sem mudar nosso estilo de vida poluidor e consumista, e um caminho Ecozóico, fundado numa nova relação saudável com o planeta, reconhecendo que somos parte do mundo natural, vivendo em harmonia com o universo, caracterizado pelas atuais preocupações ecológicas. Temos que fazer escolhas. Elas definirão o futuro que teremos. Não me parece, realmente, que sejam caminhos totalmente opostos. Tecnologia e humanismo não se contrapõem. Mas, é claro, houve excessos no nosso estilo de vida poluidor e consumista e que não é fruto da técnica, mas do modelo econômico. Este é que tem que ser posto em causa. E esse é um dos papéis da educação sustentável ou ecológica.

Não aprendemos a amar a Terra lendo livros sobre isso, nem livros de ecologia integral. A experiência própria é o que conta. Plantar e seguir o crescimento de uma árvore ou de uma plantinha, caminhando pelas ruas da cidade ou aventurando-se numa floresta, sentindo o cantar dos pássaros nas manhãs ensolaradas ou não, observando como o vento move as plantas, sentindo a areia quente de nossas praias, olhando para as estrelas numa noite escura. Há muitas formas de encantamento e de emoção frente às maravilhas que a natureza nos reserva. É claro, existe a poluição, a degradação ambiental, para nos lembrar de que podemos destruir essa maravilha e para formar nossa consciência ecológica e nos mover à ação.

(Moacir Gadotti. Pedagogia da terra e cultura de sustentabilidade. Revista lusófona de educação, 2005. Vol. 6, p. 19-20.)

A personagem da peça de Millôr Fernandes, que serviu como uma das bases para as questões de números 04a 07, afirma que “o homem é o câncer da Terra”, visão pessimista que poderia ser traduzida como: a civilização é o pior ou um dos piores males do planeta e conduzirá tudo para a destruição. Uma pessoa bastante otimista não concordaria com esse parecer e defenderia tese contrária: o homem é o maior dos bens que já surgiram neste planeta e conseguirá não apenas sobreviver, mas também preservar as outras formas de vida. Entre esses extremos de pessimismo e de otimismo podem surgir inúmeras outras interpretações sobre a presença e as ações dos seres humanos na Terra. Releia os textos apresentados como base para as questões de números 04a 07, bem como os três fragmentos acima transcritos e, a seguir, manifeste sua própria opinião, fazendo uma redação em prosa, de gênero dissertativo, sobre o tema:

Comentário à proposta de Redação

O tema proposto foi: O homem: inimigo do planeta? Esperava-se que o candidato respondesse a essa questão, expondo a própria opinião sobre "a pre sen - ça e as ações dos seres humanos na Terra". A exemplo de provas anteriores, a Banca ofereceu, como base para a discussão proposta, três fragmentos, além de dois textos que fizeram parte da prova de Língua Portuguesa. Caso optasse por adotar um ponto de vista pessimista acerca do assunto, o candidato poderia valer-se das idéias da personagem criada por Millôr Fernandes, que desdenha o fato de o homem sentir-se "rei da criação", acusando-o de ser um "assas sino nato", "o câncer da Terra". Contaria, ainda, com Gilberto Dupas, que recorre a "cientistas renomados" para nos alertar quanto à maneira como estamos dissipando irresponsavelmente nossos recur - sos naturais, a despeito de "todo o avanço tecnológico de que fomos capazes". Já o vestibulando que pre - feriu defender uma tese otimista pôde contar com os fragmentos do artigo de Moacir Gadotti, que destaca a "capacidade de se encantar com o universo", reco - nhecendo-o como "algo que é muito maior do que nós". Essa reverência, estimulada pela educação sustentável ou ecológica, acabaria por "nos mover à ação". Uma terceira possibilidade estaria no reconhecimento de que, de acordo com Isaac Asimov, somente o homem é capaz de lidar com recursos nãorenováveis, cabendo a ele controlar o risco de "pôr fim à civilização humana". Antero de Quental tam - bém poderia ser lembrado pelo soneto Solemnia verba, que celebra o Amor por seu poder de restaurar "pó e cinzas", tornando-os novamente "flor e en - cantos". Cabe observar, contudo, que embora o can - di dato pudesse fazer uso de todos esses textos de apoio, deveria também recorrer a seu próprio repertório cultural, dele extraindo argumentos que contribuíssem para enriquecer sua dissertação.

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