Diretriz dos equipamentos e técnicas da RCV

Diretriz dos equipamentos e técnicas da RCV

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Arquivos Brasileiros de Cardiologia - Volume 83, Nº 5, Novembro 2004 448

Normatização

Normatização dos Equipamentos e Técnicas da Reabilitação Cardiovascular Supervisionada

Editor: Claudio Gil Soares de Araújo Membros: Tales de Carvalho (SC), Claudia Lúcia Barros de Castro (RJ), Ricardo Vivácqua Costa (RJ), Ruy Silveira Moraes (RS), Japy Angelini Oliveira Filho (SP) Coordenador de Normatizações: Jorge Ilha Guimarães São Paulo - SP

Uma grande quantidade de dados epidemiológicos comprova os benefícios do exercício físico regular para a saúde. Particularmente relevantes são os dados que indicam 20 a 30% de redução da mortalidade em coronariopatas que participam regularmente de programas de reabilitação cardíaca. Em adendo, a participação efetiva em programas de reabilitação tende a promover benefícios de natureza psicológica e a melhorar os níveis de aderência à terapêutica farmacológica. Infelizmente, dentro da abordagem de prevenção primária e secundária das doenças cardiovasculares, ainda é bastante baixo o percentual de pacientes efetivamente encaminhados para programas de exercício ou de reabilitação cardíaca.

Já em 1944, um importante simpósio médico discutiu os efeitos deletérios do repouso no leito, como tratamento de enfermidades clínicas, porém foi somente na década de 60 que os primeiros programas começaram a ser implementados. Desde então, esses programas cada vez mais se sofisticam em complexidade e abrangência. Atualmente, os programas tendem a adotar um enfoque mais holístico, incluindo além do exercício físico, abordagens em alimentação, redução dos níveis de estresse e controle dos outros fatores de risco, mormente, tabagismo, hipertensão arterial e dislipidemia, tal como proposto pela Sociedade Brasileira de Cardiologia. Palestras e material educativo são também amplamente utilizados para aumentar o nível de informação e proporcionar melhores condições e um estímulo mais eficaz para uma mudança de estilo de vida do paciente.

Dentro desta ótica mais ampla, vários outros profissionais de saúde desempenham papéis importantes e têm sido incorporados às equipes de reabilitação cardiovascular. Enquanto se ressalta o fato de que essas abordagens multiprofissional e multidisciplinar são extremamente importantes para melhorar a qualidade de vida do paciente, o pilar básico de um programa de reabilitação cardiovascular ainda permanece sendo a prescrição individualizada do exercício físico.

Considerando esses aspectos, as presentes Normas limitarão o seu escopo à questão do exercício físico e serão destinados, portanto, não à temática mais genérica da reabilitação cardíaca, mas apenas ao programa de exercício físico. Em adendo, a abordagem é, primariamente, direcionada aos programas de exercício que se iniciam após as primeiras semanas de um evento cardiovascular agudo.

O principal objetivo deste documento é oferecer subsídios para a implantação de programas de exercício com supervisão médica, visando, em última instância, a viabilizar uma maior disseminação do procedimento em nosso meio.

Programa de Exercício Supervisionado (PES) - O PES caracteriza-se pela situação na qual indivíduos realizam exercício físico prescrito e orientado pelo médico. Diferencia-se de um programa convencional de exercício pela supervisão presencial obrigatória de médico qualificado, pela individualização da prescrição clínica do exercício, dentro do princípio da busca da dose apropriada de exercício, na qual serão maximizados os benefícios e minimizados os riscos e efeitos colaterais.

O PES deve ser individualmente prescrito, a partir de uma avaliação médica. Essa avaliação deve incluir informações e dados clínicos, assim como medidas antropométricas (ex.: composição corporal) e fisiológicas (ex.: flexibilidade, força e potência muscular), na maioria das vezes, incorporando os resultados de um teste de exercício máximo, preferencialmente, com medida direta de gases expirados. Reavaliações periódicas são recomendadas e, freqüentemente, úteis para revisão da prescrição do exercício e para monitoramento dos eventuais ganhos obtidos. Embora exista uma grande variação entre os diversos PES, quanto ao calendário de reavaliações e a forma de sua execução, parcial ou completa, uma primeira reavaliação após quatro a seis meses do início, deve ser a forma mais adotada.

Sessão de Exercício - A unidade básica do PES é a sessão de exercício físico supervisionado, que inclui basicamente três componentes principais: exercícios aeróbicos, de fortalecimento muscular e de flexibilidade. Muito freqüentemente, exercícios para aprimoramento da coordenação motora, equilíbrio e postura são também incluídos. As sessões podem ser realizadas com diferentes periodicidades, variando desde duas ou três vezes ao dia na fase hospitalar inicial após um evento coronariano agudo, até uma única sessão mensal de acompanhamento médico e reavaliação da prescrição nos pacientes em fase tardia de manutenção. Esses pacientes se mantêm fisicamente ativos em programas sem supervisão médica. Contudo, mais comumente, as sessões são realizadas três a cinco vezes por semana. A duração de uma sessão de exercício varia em função dos objetivos a curto, médio e longo prazo propostos para um dado paciente. Em linhas gerais, a duração

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Normatização dos Equipamentos e Técnicas da Reabilitação Cardiovascular Supervisionada média é ao redor de uma hora, variando desde alguns poucos minutos até quase duas horas. As sessões podem ser realizadas em qualquer horário, procurando facilitar a participação de pacientes que mantenham atividades profissionais.

Enquanto alguns PES realizam as suas sessões na forma de turmas com horários previamente definidos, outros utilizam o sistema de horário livre, no qual os pacientes podem realizar suas sessões de PES em qualquer dia e horário em que o serviço se encontra aberto.

População-Alvo - A participação em um PES não é regida por regras fixas. Em linhas gerais, a participação é provavelmente recomendável para um paciente nas primeiras semanas após a ocorrência de um evento coronariano agudo ou procedimento de revascularização miocárdica, desejável para cardiopatas clinicamente estáveis e opcional para os demais indivíduos. Quanto maior a complexidade clínica de um dado paciente, seja pela cardiopatia ou por co-morbidades ou ainda pela idade, mais clara se torna a indicação de participação em um PES. Para pacientes que se exercitam em alta intensidade, a supervisão médica durante as sessões de exercício é conveniente. Mais recentemente, outros portadores de doenças não-cardiovasculares têm sido encaminhados aos PES, beneficiando-se da supervisão e aconselhamento médico direto para o uso terapêutico do exercício.

De modo geral, os pacientes devem ser encaminhados aos

PES pelos seus médicos assistentes. Um relacionamento direto deve ser estabelecido entre o médico responsável pelo PES e o médico assistente. Os médicos do PES deverão estimular a visita regular ao médico assistente e, periodicamente, poderão emitir relatórios detalhando a evolução no PES. Quando problemas clínicos ou efeitos colaterais relevantes das medicações estiverem interferindo no desempenho do paciente no PES, o médico responsável pelo PES deverá contatar diretamente o médico assistente do paciente. Todo cuidado deve ser tomado para não interferir na conduta do médico assistente, particularmente no que se refere ao tratamento farmacológico e à solicitação de exames complementares ou laboratoriais.

Tipos de Exercícios - Os exercícios aeróbicos são aqueles que envolvem grandes grupos ou massas musculares, com duração típica entre 20 e 40min, capazes de elevar o consumo de oxigênio várias vezes acima do nível de repouso (1 MET). Os melhores exemplos destes exercícios são caminhar, correr, pedalar, nadar e remar. Enquanto alguns tipos de exercícios aeróbicos podem ser feitos ao ar livre, dentro do contexto de um PES, eles são mais freqüentemente realizados em ambientes fechados e climatizados, utilizando equipamentos específicos, tais como esteiras rolantes e cicloergômetros.

Os exercícios aeróbicos podem ser feitos com intensidade constante ou variável, essa última forma, freqüentemente denominada de treinamento intervalado. Um exemplo de treinamento intervalado é a alternância de diferentes velocidades ou inclinações na esteira rolante em intervalos temporais pré-determinados durante a mesma sessão de PES.

A intensidade do exercício deve ser individualizada e, preferencialmente, definida a partir de dados objetivos obtidos no teste de exercício. É controlada mais objetivamente pela medida da freqüência cardíaca (FC), ou ainda pela sensação subjetiva de cansaço, variáveis essas que se relacionam diretamente, dentro de uma faixa bastante ampla, com o consumo de oxigênio e o gasto calórico. Monitores de FC e eletrocardiógrafos podem ser usados para obter, de forma contínua ou intermitente, medidas precisas da FC durante o exercício e, assim, estimar a intensidade do esforço realizado. Uma estratégia comum e prática é dividir a parte dos exercícios aeróbicos de uma única sessão em diferentes atividades, como caminhar e pedalar ou em apresentações distintas, por exemplo, intervalado e contínuo, tornando a sessão menos monótona e minimizando a sensação de fadiga muscular local.

Os exercícios de fortalecimento muscular, anteriormente contraindicados para cardiopatas em geral, passaram mais recentemente a integrar as prescrições. Coloquialmente mais conhecidos como exercícios de musculação, em uma terminologia que remonta aos tempos antigos do fisiculturismo, este tipo de exercício desempenha um papel fundamental no combate ao excesso de peso, à síndrome de resistência à insulina e à sarcopenia, condições clínicas que se tornam progressivamente mais prevalentes com o envelhecimento. Os exercícios de fortalecimento muscular objetivam preservar e aumentar a força e a potência muscular. Este tipo de exercício tem se mostrado seguro e eficiente em coronariopatas, hipertensos e até em certos grupos de portadores de insuficiência cardíaca. Idealmente, a prescrição da série de exercícios de fortalecimento muscular deve ser baseada em resultados de testes específicos, como o de uma repetição máxima ou de uma potência máxima. Contudo, na prática, a escolha dos movimentos e das cargas ou resistências é feita empiricamente, buscando mobilizar os principais grupos musculares com uma intensidade capaz de promover benefícios metabólicos, fisiológicos e antropométricos. A maioria dos PES utiliza 2 a 3 séries de 6 a 12 repetições para um total de 8 a 12 movimentos. Deve haver todo cuidado para que a técnica de execução seja correta, principalmente nas últimas repetições de uma série. Se o paciente não consegue manter a execução correta, muito provavelmente a carga ou resistência está excessiva e deve ser reduzida. Como a resposta pressórica tende a se elevar a cada repetição, alguns PES optam por séries mais curtas, i.e., 6 a 8 repetições, separadas por pequenos intervalos entre 10 a 30s, potencialmente minimizando os níveis pressóricos máximos alcançados durante esse tipo de exercício. Considerando os dados recentes de relação inversa entre potência muscular e mortalidade, assim como a importância da potência muscular para as ações de vida cotidiana do idoso, pode ser conveniente o uso de velocidade alta na fase concêntrica do movimento, objetivando um ganho específico de potência muscular.

Os exercícios de flexibilidade destinam-se a preservar ou aumentar o grau de amplitude de mobilidade dos principais movimentos articulares. A flexibilidade é uma das variáveis da aptidão física relacionada à saúde, podendo ser definida como a amplitude máxima passiva de um dado movimento articular. É específica para cada movimento articular, de modo que um indivíduo pode ser flexível no ombro e não o ser no quadril, ou ainda, possuir uma boa amplitude de extensão do tronco e ser relativamente inflexível na flexão do tronco. Os exercícios de flexibilidade, coloquialmente também conhecidos como exercícios de alongamento, podem ser feitos de forma ativa, assistida ou passiva, essas últimas duas com o auxílio de outro indivíduo ou implemento. Nestes exercícios, procura-se alcançar a amplitude máxima do movimento, chegando até o ponto de leve desconforto. Enquanto no passado, os exercícios

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Normatização dos Equipamentos e Técnicas da Reabilitação Cardiovascular Supervisionada de flexibilidade podiam ser feitos de forma balística ou estática, atualmente, apenas a modalidade estática, i.e., aquela em que o indivíduo alcança a posição de amplitude máxima e a mantém por 10 a 30s, é utilizada em PES. Idealmente, a prescrição dos exercícios de flexibilidade deve ser feita a partir dos resultados de uma avaliação específica, como, por exemplo, o Flexiteste. A partir da avaliação é possível prescrever uma série de exercícios priorizando eliminar as deficiências ou limitações do indivíduo e a mobilidade dos movimentos articulares mais utilizados em situações da vida cotidiana. Dentro de uma sessão de exercício supervisionado, podem ser utilizados vários movimentos, sendo o mais comum, uma rotina que englobe 5 a 12 movimentos articulares realizados em duas ou três séries de 10 a 30 s. Eventualmente, dependendo dos objetivos e da condição clínica de um dado paciente, outros tipos de exercícios podem ser incorporados à prescrição da sessão de exercícios. Dentre esses, destacam-se os exercícios de coordenação motora, de postura e equilíbrio corporal e de relaxamento. Em adendo, a prática de jogos de bola ou de raquete, atividades aquáticas, lutas e danças podem integrar uma prescrição clínica de exercício físico regular, sem serem objetivamente inseridas dentro de um PES. O detalhamento dos tipos de exercícios e atividade excede o escopo da presente normatização e não será aqui abordado.

Operacionalização da Sessão de Exercício - A sessão de exercício deverá ser realizada em um ambiente de dimensões e características apropriadas. O ambiente deverá ser suficientemente amplo, com uma altura de pé direito mínima de 250 cm, amplamente iluminado e bem ventilado. As condições climáticas ideais situam-se em uma temperatura ambiente entre 2 e 25o Celsius e uma umidade relativa do ar entre 40 e 65%. Ventiladores de teto ou de parede e condicionadores de ar podem ser eventualmente utilizados para auxiliar no controle térmico do ambiente. Para efeitos de dimensionamento da capacidade de refrigeração do ambiente, deve-se considerar que cada indivíduo em exercício produz uma quantidade de calor bastante alta, podendo alcançar, dependendo da intensidade do exercício, valores correspondentes entre 2 a 12 indivíduos em repouso. A metragem livre para exercício físico depende das características da planta baixa, da quantidade, dimensões e distribuição espacial dos equipamentos e do número de pessoas simultaneamente presentes, incluindo nessa contagem tanto os pacientes como os membros da equipe profissional. Na maioria dos PES, a metragem da área de exercício (excluídos vestiários e áreas de espera e de recepção) varia entre 20 e 200 m. Idealmente, deve haver espaços próprios para troca de roupa, para uso de instalações sanitárias e para banho quente dos pacientes. Os pacientes deverão utilizar vestimenta apropriada para a realização da sessão de exercício, compatíveis com a condição climática local. Camisetas folgadas e de manga curta e tops facilitam bastante a colocação dos manguitos para medida da pressão arterial, dos transmissores dos freqüencímetros e dos eletrodos de ECG. Bermudas, calções e calças folgadas tendem a facilitar a realização dos exercícios de flexibilidade. Os calçados desportivos são itens importantes e devem conter amortecimento a ar e se ajustar não somente de forma precisa ao tamanho do pé, mas principalmente às características da pisada, se neutra, pronada ou supinada.

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