A morte e o morrer no cotidiano de estudantes de enfermagem

A morte e o morrer no cotidiano de estudantes de enfermagem

ARTIGO:

PREPARO DOS ACADÊMICOS DE ENFERMAGEM NO PROCESSO DE MORTE E MORRER

PREPARATION OF THE NURSING ACADEMICS IN PROCESS DEATH AND DYING

Samantha Oliveira LanaDiscente do Curso de Enfermagem pelo Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – UnilesteMG. samanthalana@hotmail.com

Ana Beatriz Barbosa PassosEnfermeira especialista em Saúde Pública e Docente do Curso de Enfermagem pelo CentroUniversitário do Leste de Minas Gerais - UnilesteMG

RESUMO

Este estudo tem como objetivo investigar se as escolas de Enfermagem preparam o acadêmico para enfrentar o processo de morte e morrer. Trata-se de um estudo descritivo de natureza quantitativa e qualitativa, realizado em uma instituição de ensino superior na região do Vale do Aço/MG. Utilizou-se um questionário semi-estruturado como técnica para coleta de dados. Os depoimentos de 25 estudantes do Curso de Enfermagem foram submetidos à análise de conteúdo. Foram abordadas questões acerca das fases psicológicas da morte, no qual a maioria (56%) mostrou ter conhecimento; 76% dos acadêmicos presenciaram uma situação de morte em suas atividades de estágio, sendo discutido reações dos acadêmicos diante de uma situação de morte; 78% dos entrevistados procuraram o professor do campo de estádio e foram apoiados. Concluiu-se que os acadêmicos não se sentem preparados para enfrentar a morte, devido ao fato de que eles não sabem lidar com suas emoções e sentimentos, bem como acompanhar e tranqüilizar os familiares dos pacientes.

PALAVRAS-CHAVE: Morte. Processo de morte-morrer. Estudante de enfermagem.

ABSTRACT

This study is on purpose to investigate wether the Nursing Schools are able to get through with the process of death and of dying. One is about a descriptive study, it is about an amount an quantitative and took place on the institute of higher education of Vale do Aço/MG. A poll was made as a technique to search these information. The Nursing School students' 25 statements were submitted to contents' analysis. The questions were about the psychologics' stages of death, in which the majority (56%) have knowledge; 76% of the academics had witnessed a situation of death in its activities of period of training, and was the reactions of the academics of a death situation; 78% of the interviewed ones had looked the professor on the traineeship and had been supported. It conclueded that the academics are not able to face up to death due to they do not know how to deal with their emotions and feelings neither how to deal with the pacient’s relatives and how to calm them down.

KEY-WORDS: Death. Process death and dying, Nursing studenty

INTRODUÇÃO

A morte é considerada como parte constituída da existência humana. É sem dúvida, um dos poucos fatos que se tem certeza de seu acontecimento. E sua imprevisibilidade, obriga o ser humano a conviver com a presença in memorian desde o início da vida ao estágio final de seu desenvolvimento. Ao nascer, o indivíduo está em constante estado de preparação: crescendo, para assim então, multiplicar e morrer. Porém, o último citado, é obscuro, a ponto de ser negado durante toda a sua existência. Fato que aponta para o seu enfrentamento ineficaz (CARVALHO et al, 2006).

O conceito de morte nos dias de hoje, evidencia a parada das funções vitais e a separação do corpo e da alma. Nos tempos mais remotos, era considerado como diagnóstico de morte a cessação da respiração e das funções cardíacas. Atualmente

o critério comumente utilizado é a avaliação da função cerebral, pois com os avanços da ciência e da tecnologia, tornou-se possível manter as funções cardíacas e respiratórias através de aparelhos, enquanto nada se pode fazer para manter funções cerebrais responsivas (BERNIERI; HIDER, 2006).

E quanto mais a ciência avança, mais se teme e mais se nega a realidade da morte. Como é possível? É necessário fugir dessa situação; contudo, cada ser vivente, mais cedo ou mais tarde, deverá encará-la. Seria interessante se todos pudessem começar admitindo a possibilidade da própria morte, com isso, um misto de situações poderia ser concretizada, principalmente o bem estar dos pacientes e da família. Encarando ou aceitando a realidade da própria morte, é que se pode alcançar a paz, tanto interior como a paz entre as nações (KÜBLER-ROSS, 1998).

O mundo ocidental transformou a morte em tabu. Ela costuma ser escondida das crianças e banida das conversas do dia-a-dia, simplesmente pelo fato de que os sentimentos que a morte faz aflorar são intensos, portanto, seu nome não deve nem mesmo ser pronunciado. Por si só ele já causa medo, fuga e espanto (BERNIERI; HIDER, 2006, p.90).

Carvalho et al (2006) relatam que, mesmo a postura defensiva, a negação e o distanciamento diante das situações de morte e morrer, não conseguem erradicar inúmeros sentimentos de pesar e reações humanas neste momento.

Deveria sim, criar o hábito de pensar, discutir, dialogar sobre a morte e morrer, de vez enquando, antes que, tenha se que defrontar com ele na vida. Se não for feito dessa maneira, irá lembrar se brutalmente da própria finitude quando encarar estas situações (KÜBLER-ROSS, 1998).

Apesar da morte subsistir desde o princípio da humanidade, o processo morte e morrer tem sido motivo de aflição, agonia e desespero, já que mostra o quão susceptível, vulnerável e tênue é o estar vivo, ou seja, ser mortal, finito. É um processo simplesmente natural, universal e inevitável, mas mesmo assim o ser humano não suporta imaginar, pensar ou discutir sobre sua própria morte e acaba projetando-a no outro, tendo em vista a impossibilidade de conceber o mundo sem sua presença (CARVALHO et al, 2006).

Barnieri e Hider (2006) acrescentam que a morte é o estágio final do crescimento humano, última fase do desenvolvimento e as reações, percepções e sentimentos que as pessoas têm com relação à vida e a morte está diretamente relacionadas com o tipo de educação que receberam, as experiências que vivenciaram e o contexto sócio-cultural onde cresceram e se desenvolveram.

E em se tratando de morte, hoje em dia, pode se dizer que as pessoas morrem mais nos hospitais do que em casa, e nenhum outro profissional da saúde convive tão de perto e tão freqüentemente com a morte do que o Enfermeiro, pois é ele quem passa a maior parte do tempo com o indivíduo hospitalizado (OLIVEIRA et al, 2006).

Com isso, alguns estudos sobre a morte e o morrer, revelam que os profissionais da saúde, sejam eles quais forem, devem realizar seu papel profissional, apoiando os familiares que acabaram de perder um ente querido, tendo atitudes simples, como ficar ao lado destes e deixá-los chorar, falar e até gritar, se necessário. O importante é o profissional estar ao lado e sempre à disposição das pessoas naquele momento tão difícil. E as escolas de enfermagem devem preparar e dar suporte a esses futuros profissionais, para que eles possam ser capazes de lidar com seus próprios sentimentos e usá-los de modo deliberado e humanamente sofisticado, oferecendo uma assistência de enfermagem qualificada, dando suporte emocional para quem está necessitando, deixando de lado assuntos que provavelmente seriam abordados, como crenças religiosas e preconceitos sobre a morte. O profissional deve passar a ver o indivíduo como pessoa e sujeito de sua própria vontade, com direito a uma morte digna (BERNIERI; HIDER, 2006).

O profissional de saúde é finito como todo e qualquer outro ser humano, e também passa por profundos dilemas existenciais quanto ao enfrentamento e vivência da morte em seu cotidiano de trabalho. Na maioria das vezes, esse profissional, ainda como acadêmico, não foi estimulado ou preparado à refletir sobre a morte e o morrer, podendo ser pego de surpresa pelo pesar, e mais, não oferecer uma assistência de qualidade, não conseguindo assistir a pessoa que está morrendo e/ou sua família, em razão da morte se configurar como momento de grande sofrimento e fracasso da ação principal em manter a vida (CARVALHO et al, 2006, p.4).

Esta premissa apela à necessidade dos profissionais enfermeiros possuírem uma preparação especial, não apenas nas questões teórico-científico, uma vez que, além dos aspectos técnicos, das habilidades e dos conhecimentos, existem também as relações humanas do cuidar, que não podem ser improvisados. Aliviar o sofrimento ou ajudar uma pessoa a morrer é um dos ofícios mais difíceis para o profissional. Não poder curar não significa fracasso, mas sim um reconhecimento dos próprios limites da técnica. E perante tudo que foi discutido, um enfermeiro necessita saber lidar saudavelmente com os inevitáveis problemas relacionados com a última fase da vida (MEDEIROS, 2006; MERCÊS et al, 2005).

Diante destes fatores surgiu à necessidade de saber se esse acadêmico de enfermagem está preparado para enfrentar a morte de um paciente, como é a sua reação, como atuar no processo de morte de um indivíduo do qual cuidou? A graduação prepara o acadêmico profissionalmente para enfrentar essa situação? Questões essas que devem ser respondidas, já que a morte é uma situação que nunca se deixará de presenciar.

É visando manter a qualidade da assistência prestada pela equipe de enfermagem ao indivíduo e a sua família, que se faz necessário à investigação da atuação desse profissional nas situações de morte. Com isso, as escolas de enfermagem, poderão se adequar para oferecer ao mercado de trabalho profissionais preparados, prestando uma assistência de melhor qualidade.

O presente estudo analisou qual a reação/percepção do acadêmico de enfermagem diante da morte de um paciente no campo de estágio. Além de identificar em qual momento da graduação é discutido essa situação de morte e morrer. Investigar se o acadêmico procura ajuda nos campos de estágios, com relação à situação de morte. E compreender e avaliar o tipo de assistência que a enfermagem tem sobre o processo de morte.

O objetivo desta estudo é investigar se a escola de enfermagem pesquisada prepara o acadêmico para dar suporte ao indivíduo e a família no processo de morte e morrer.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo de caso descritivo, que segundo Gil (2002), tem como objetivo principal, descrever características de determinada população, ou fenômeno; e qualitativa/quantitativa, que para Minayo (2001), responde à questões muito particulares relativas às ciências sociais, ou seja, coloca como tarefa central a compreensão da realidade humana, além de apresentar números e porcentagens sobre os achados.

Foi realizado no Centro Universitário do Leste de Minas Gerais – unilesteMG, uma instituição de ensino de graduação em enfermagem, situada no interior de Minas Gerais, na região do Vale do Aço, a qual autorizou previamente à realização do trabalho e divulgação do nome da instituição.

A pesquisa foi realizada durante o mês de março de 2008, tendo como população 42 dos 48 acadêmicos matriculados na matéria de TCCII do 8º e 9º períodos do curso de Enfermagem.

Os acadêmicos foram abordados durante os intervalos das aulas teóricas e informados sobre a pesquisa, após autorização verbal, era entregue um questionário e um termo de consentimento livre e esclarecido, o qual foi recolhido uma semana depois. Dos 42 questionários entregues, 25 foram devolvidos e analisados. Com o objetivo de manter o sigilo os entrevistados encontram-se identificados no texto como: Acadêmico 1, Acadêmico 2...

O instrumento de coleta utilizado foi um questionário semi-estruturado contendo as seguintes perguntas: Você já vivenciou uma situação de morte em suas atividades de estágio? Qual sua reação diante dessa situação? Se não, como você reagiria? Você procurou ajuda do professor orientador do estágio? Qual ajuda foi oferecido? Como foi feito? A faculdade prepara o acadêmico para enfrentar o processo de morte e morrer? Você conhece as fases psicológicas da morte? Qual sugestão você daria para melhoria do ensino no processo morte e morrer?

A análise obedeceu à seguinte critério: ordenação, classificação e análise final dos dados. A ordenação deu-se através da leitura dos relatos dos acadêmicos; releitura do material; organização dos relatos, de acordo com a proposta e as respostas de cada um.

A classificação dos dados foi operacionalizada através da leitura exaustiva e repetida das respostas. Através deste exercício fez-se a apreensão das estruturas de relevância a partir das falas dos sujeitos do estudo. Nestas estruturas estão contidas as idéias centrais dos entrevistados.

A análise final permitiu refletir sobre o material empírico e analítico, numa movimentação incessante que se foi do empírico para o teórico e vice-versa. Esta “dança” que promove relações entre o teórico e o empírico, o concreto e o abstrato,

    1. o geral e o particular, a teoria e a prática é o verdadeiro movimento dialético visando ao concreto pensado (BERNIERI; HIDER, 2006).

    2. Todos os participantes do referido trabalho foram previamente instruídos da natureza da pesquisa e tiveram resguardados seus respectivos nomes, deixando-os

  1. o livre arbítrio para participar ou não, além de assinarem um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido de acordo com a Resolução 196/96 (BRASIL, 1996).

RESULTADO E DISCUSSÃO

Diante da análise dos dados coletados, 19 acadêmicos afirmaram ter presenciado uma situação de morte em campo de estágio. E os sentimentos experimentados por eles envolvem chateação, tristeza, angústia, susto, perplexidade e impotência. Como demonstra a fala: “Fiquei perplexa, me emocionei, me senti de certa forma inútil diante da situação” (ACADÊMICO 10).

Sentir-se inútil ou impotente, é um tipo de sentimento que todo o profissional depara, principalmente os que trabalham com doentes terminais, pois, além de ser uma preocupação pessoal, esse fato, faz parte do seu cotidiano. Muitos deles relatam sua impotência e frustração perante a imprevisibilidade da trajetória da morte. É como se nesses momentos estivessem diante da fragilidade de sua existência, recordando-se de sua própria finitude e da possibilidade de viver a mesma situação de seus pacientes e de suas famílias (ALENCAR; LACERDA; CENTA, 2005).

Na verdade, os relatos revelam que a maioria dos acadêmicos que passam por essa situação, experimentam sentimentos diversos, mas também conseguem realizar seu trabalho. “Fiquei assustada, mas providenciei para que todos os procedimentos fossem realizados”. (ACADÊMICO 5).

Há quem diga que o que realmente pesa nesse momento é o grau de contato que o profissional tem com o paciente, como relata o Acadêmico 1. “Acredito que reagi bem. Mesmo porque o contato ainda não era tão intenso. Fiquei chateada de não poder ter tido chance de fazer mais pelo paciente, mas reagi bem”. Mas ao longo do tempo, de acordo com alguns acadêmicos, essa situação de morte passa a ser rotina da profissão.

De forma que eu sabia que ia me deparar com este fato a qualquer momento por causa da área em que atuamos. Ficamos meio assustados, mas acabamos nos acostumando com a situação” (ACADÊMICO 3); “Outros relatam não ter tido nenhum tipo de emoção ou reação”. “Agi normalmente, de forma profissional” (ACADÊMICO 2).

Normalidade, conformidade e agir de maneira profissional também foram relatados pelos acadêmicos. “Normal, sem espanto, como uma situação do cotidiano da profissão, poderia às vezes, dependendo da situação ficar chocada, mas com o tempo me acostumo” (ACADÊMICO 7).

A exclusão das emoções por vezes é transformada, através da racionalização, numa técnica científica, aparentemente necessária ao bom desempenho do trabalho. Destaca-se a pretensa “neutralidade”, a qual justifica a falta de relacionamento com o paciente, protegendo o profissional do sofrimento frente à morte do outro (QUINTANA; CECIM; HENN, 2002).

E apesar da tristeza que uma situação de morte pode causar, há quem diga que não se deve deixar influenciar por esse momento de tristeza já que é uma situação rotineira da enfermagem. “Ficaria triste, mas não deixaria interferir de uma forma negativa na minha vida acadêmica. Afinal, é uma situação que se faz presente na realidade profissional da enfermagem” (ACADÊMICO 14).

Já 6 acadêmicos entrevistados disseram não ter presenciado uma situação de morte no campo de estágio. Foi indagado a esses acadêmicos, como ele reagiria caso esse fato viesse a acontecer. Mais uma vez, os mesmo sentimentos citados anteriormente foram relatados pelos entrevistados, a questão do envolvimento com

o paciente foi relatado, como diz o Acadêmico 8. “Depende do grau de intimidade adquirido durante a assistência. Acho que pelo que me conheço, iria sentir muito, chocar”.

A idéia do isolamento das emoções é um fator que, além de exercer uma interferência negativa no tratamento do paciente, não alivia a angústia sentida pelo profissional que se defronta com uma pessoa prestes a morrer (QUINTANA; CECIM; HENN, 2002).

Com isso, pode-se perceber que os sentimentos e reações são diversos por parte dos acadêmicos, mostrando a grande dificuldade que o mesmo tem em reconhecer seus próprios limites, em reconhecer os limites da técnica. Para outros a morte é um processo natural, que atinge a todos, sendo que alguns entrevistados dizem ter vivenciado tal fenômeno com normalidade, e de maneira profissional, enquanto outros relataram a dificuldade em superar tal acontecimento, mostrando em suas falas os sentimentos de ansiedade, culpa, impotência e angústia gerados pela experiência.

Dos 19 acadêmicos que presenciaram uma situação de morte no campo de estágio, 15 procuraram o professor supervisor para conversarem sobre o assunto. Dessas conversas, alguns acadêmicos ficaram satisfeitos com as orientações do professor: “Foi-me informado que a morte é inerente ao ser humano e que apesar de estarmos voltados a salvar vidas, a morte também deve ser encarada como natural” (ACADÊMICO 2).

Há também os que não se sentiram satisfeitos com o apoio oferecido pelo professor. “Comentei sim com o professor supervisor e apenas relatei o ocorrido. Me perguntou (o professor) a causa da morte e o que eu havia feito pela pessoa, e só” (ACADÊMICO 1).

Alguns entrevistados relataram que colocaram em prática a técnica aprendida na graduação. “Conversamos sobre o assunto e preparamos o corpo, sendo feita de forma bem natural” (ACADÊMICO 16). Outros 3 entrevistados relataram que nenhuma ajuda foi oferecida e 4 não procuraram o professor do campo de estágio.

Ao proporcionar ao acadêmico um esclarecimento sobre o que realmente é a morte, o professor enriquece e consolida o conhecimento do acadêmico acerca de tal processo. Os alunos necessitam do apoio de alguém experiente nas suas primeiras vivências profissionais, para que, através deste suporte, eles consigam organizar seus sentimentos e também agir como profissionais, sem se sentirem defasados no tocante às sensações (BERNIERI; HIDER, 2006).

Evidenciou-se que, os acadêmicos que procuraram seus professores no campo de estágio, o mesmo ofereceu uma abertura para falar e ouvir sobre o processo morte e morrer.

Quando questionados se na formação foram preparados para enfrentar o processo de morte e morrer, 4 disseram que a graduação ajuda nesse processo, mas a abordagem deveria ser mais ampla, como pode-se perceber no relato do acadêmico 10. “Muito pouco. Apesar de aulas sobre morte e o morrer, as sensações e emoções só aparecerão quando nos confrontarmos com a morte. Porém, as aulas sobre este tema ajudam um pouco”. E o acadêmico 1 diz, “fala-se muito pouco a respeito. Acredito que, como a maioria dos seres humanos, falar da morte não é muito fácil. Ela acontece, a faculdade expõe isto, mas deveria ser melhor abordado”. As instituições de ensino dão ao tema morte, uma visão errônea, ou seja, grande parte de nossas faculdades, devido a uma distorção curricular, está unicamente preocupada em qualificar pessoas aptas para curar, tratar e prolongar a vida, porém, bem pouco aptas para assistir psicológica e humanamente pacientes que não vão se recuperar (ALENCAR; LACERDA; CENTA, 2005).

O acadêmico 14 conclui, “Não especificamente para lidar com o processo de morte, mas a faculdade oferece campos de estágio onde permite que o aluno tenha uma vivência prática, podendo enfrentar essa situação”. E é no estágio que fica evidente que a situação da morte e do morrer pode ser experimentada pelo estudante como uma possibilidade de não ter realizado intervenções eficazes para salvar a vida dos indivíduos sob seus cuidados, da sua impotência diante do morrer e, portanto, de seu fracasso como cuidador do outro (CARVALHO et al, 2006). Por outro lado deve-se criar espaços para o diálogo, discussões sobre o ciclo da vida e a morte como uma parte natural deste e não a valorização do sofrimento e fracasso diante da situação.

Se a morte é uma constante no trabalho dos profissionais da saúde, é de surpreender que, na maioria dos casos, essa problemática seja excluída dos currículos. Contudo, ao analisar melhor a maneira como os cursos costumam lidar com a problemática da morte, observa-se que essa aparente falta de preparo é, na verdade, uma forma de preparar o aluno para lidar com a problemática através do uso do mecanismo de negação (ALENCAR; LACERDA; CENTA, 2005).

Já 8 entrevistados, disseram que a faculdade prepara sim o acadêmico para essa situação; e prepara de diversas maneiras. Como destacam: o acadêmico 12: “Sim, através de estudos interdisciplinares (sociologia, psicologia e filosofia) que estuda as fases da morte e os cuidados adotados principalmente com o familiar”; acadêmico 4: “Sim, tem matérias que nos prepara para isso tendo até uma matéria optativa específica desse assunto”.

E foram 13 os entrevistados que disseram que a faculdade não prepara o acadêmico para enfrentar o processo de morte e morrer: “Somos treinados a trabalhar a vida e raramente ao enfrentamento da morte” (ACADÊMICO 11), “esta experiência é única, pessoal e a reação de cada um está fundamentada em experiências passadas relacionada a amigos, familiares, etc” (ACADÊMICO 2).

As dificuldades enfrentadas durante esse processo podem estar relacionadas tanto ao despreparo individual para lidar com as demandas do doente que está morrendo e sua família, como também das poucas discussões sobre o tema morte e morrer na academia e da interação do estudante com a morte no ambiente hospitalar antes de uma abordagem afirmativa sobre o tema (CARVALHO et al, 2006).

Os cursos de graduação precisam se instrumentalizar para preparar esses futuros profissionais a vencerem o medo que sentem, e aprenderem a cuidar dos pacientes que estão em eminência de morte com menos receio. O tabu da morte deve ser enfrentado na academia (MERCÊS et al, 2005).

O próximo ponto abordado foi às fases psicológicas da morte. O conhecimento e a sensibilidade dos profissionais de enfermagem para apreender o significado de cada um desses estágios no processo de morrer fornecem subsídios para a compreensão das diferentes etapas com as quais os doentes e suas famílias se deparam frente à iminência da morte. Contudo, se os profissionais de saúde tiverem o conhecimento sobre as fases do morrer e a observação para percebê-las nos momentos de aproximação com o paciente em fase terminal e sua família, isto pode tornar instrumento valioso no processo de cuidar. Perceber o que ocorre neste processo, leva-os a compreender o comportamento do paciente e das pessoas de suas relações afetivas no enfrentamento da morte iminente (ALENCAR; LACERDA; CENTA, 2005).

Uma pessoa em término da sua vida, passa por fases, que são chamadas de fase psicológicas da morte. Estas fases são citadas por Kübler-Ross (1998), e a primeira delas é a “Negação”, onde o paciente nega desesperadamente sua enfermidade. A segunda fase, trata-se da “Raiva”, o paciente questiona: Por que eu? Por que comigo? A terceira fase é a “Barganha”, um trato feito nas entrelinhas, e na maioria das vezes com Deus. A quarta fase é a “Depressão”. O paciente mostra-se receoso diante do medo de perder o que conquistou ao longo da vida, medo de não poder mais cuidar dos filhos e etc. A última fase é “Aceitação”. Nesta fase não existe mais dor. O paciente mostra-se calmo com relação sua enfermidade. É como se toda a dor tivesse esvainecido.

Em relação às fases 14 disseram conhecê-las, e destes, 7 souberam citar cada uma delas; 11 não conhecem ou não se lembram, como relata o Acadêmico 7: “Já vi uma vez em uma das matérias estudadas, mas como não era o foco da matéria, não foi dado muita ênfase”.

Fica claro que os acadêmicos pelo menos já ouviram falar das fases psicológicas da morte, outros não têm nenhum conhecimento científico a respeito do assunto abordado.

É bom lembrar que existem falhas na abordagem do assunto por parte das escolas de Enfermagem, mas no currículo dos acadêmicos existem matérias como Psicologia, que estuda as teorias das relações interpessoais: comportamento humano, morte, ética, funcionamento e desenvolvimento de grupos, tensão e conflitos, status, papéis e valores; teorias do desenvolvimento da personalidade e teorias da aprendizagem. E Filosofia, que fornece sustentação teórica para a formação do profissional da área da saúde para que ele possa entender a instersubjetividade humana e sua finitude. (CENTRO UNIVERSITÁRIO DO LESTE DE MINAS, 2004)

O que realmente preocupa é o fato do não conhecimento dessas fases, como um enfermeiro poderá atuar frente a real situação psicológica em que se encontra o paciente e a família? (BERNIERI; HIDER, 2006).

As sugestões para a melhoria do ensino no processo morte e morrer nas faculdades emergiram várias propostas: (8) mais matérias obrigatórias ou optativas sobre o tema; (3) maior ênfase no assunto nas matérias que já existem; (1) professor periodicamente nos campos de estágio; (3) mini-cursos, palestras e seminários; (3) abordar o assunto ao longo do curso; (3) trabalhar humanização; (4) bons professores que envolvam o aluno no assunto, conforme a TAB 1.

As questões mencionadas traduzem a importância do tema ser incluído e abordado nos currículos de enfermagem e demais profissões da área da saúde desde o início do curso, de forma a instrumentalizar os profissionais a lidar com esses aspectos subjetivos e, por vezes, dolorosos, mas que são inerentes à profissão (ALENCAR; LACERDA; CENTA, 2005).

TABELA 1 Sugestões sobre a melhoria do ensino morte e morrer

Sugestões

Freqüência

Percentil

Ter uma matéria específica sobre o assunto

8

32%

no currículo obrigatório.

Aprofundamento na matéria de psicologia

3

12%

em relação a este processo.

Manter professores nos campos de estágio

1

4%

de forma prioritária.

Promover seminários, grupos de estudos

3

12%

e vivências.

Ser tratado com mais ênfase, não só em uma

3

12%

matéria mas ao longo do curso.

Trabalhar com os sentimentos e emoções

3

12%

dos acadêmicos.

Bons professores.

4

16%

Total

25

100%

As faculdades deveriam incluir nos currículos de enfermagem assuntos inerentes à morte e o processo de morrer, criar oficinas de discussões entre docentes, pois este é um bom caminho para sanar falhas importantes no que diz respeito ao ensinar o processo de morte e do morrer. Talvez assim, os professores possam se tornar profissionais habilitados para ensinar o processo de morte e morrer, compartilhando e discutindo com seus alunos a melhor forma de lidar com a morte de seus pacientes e de amparar seus familiares no momento triste, porém inevitável (OLIVEIRA et al, 2006).

CONCLUSÃO

A realização deste estudo evidenciou que os acadêmicos de enfermagem entrevistados possuem opiniões variadas acerca do tema morte-morrer, e que os sentimentos aflorados diante de uma situação de morte, são os mais variados possíveis, desde espanto e susto, até mesmo a neutralidade e conformidade. A análise de dados do presente estudo mostram que, a Escola de Enfermagem pesquisada não prepara os acadêmicos para enfrentar a morte. Os acadêmicos mostram-se despreparados e às vezes, até mesmo, fogem dessa realidade.

A maioria deles procuram o professor supervisor do estágio para buscar apoio e alguns esclarecimentos acerca do processo de morte, e esses futuros profissionais mostram-se cientes da existência das fases psicológicas na qual um paciente terminal passa.

Conclui-se que as escolas de Enfermagem precisam se instrumentalizar para oferecer aos futuros profissionais, um ensino de morte e morrer de qualidade, incluir matérias específicas sobre o assunto em sua grade curricular, oferecer palestras, seminários, mesa redonda, para que o tema seja discutido e manter o acadêmico sempre inserido nesta temática morte.

E o mais importante, as Escola de Graduação devem sempre abordar esse tema ao longo do curso, e não em uma matéria isolada, visando a melhoria da assistência prestada pelos seus acadêmicos, e diminuindo o receio e a insegurança que a maioria deles demonstram diante dessa situação.

REFERÊNCIAS

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