A cartilha agroecológica

A cartilha agroecológica

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n s t i t u t o

G i r a m u n d o

M u t u a n d o

A CARTILHA AGROECOLÓGICA Instituto Giramundo Mutuando

Todos os direitos livres. Qualquer parte desta edição poderá ser utilizada ou reproduzida em qualquer meio ou forma, desde que se mantenham todos os créditos e seu uso seja exclusivamente sem fins lucrativos.

Coordenação geral Beatriz Stamato

Coordenação de projeto editorial Metalinguagem Comunicação

Jornalista responsável Guto Almeida (MTB 2.460)

Texto Rodrigo Machado Moreira Beatriz Stamato

Arte-finalista Joel Nogueira

Ilustração Luiz Ribeiro

Programação visual Peagade Comunicação

Revisão Guto Almeida Maria Cristina B. Stamato

Apoio técnico André Bergamo Eduardo Calera Pedrosa Guilherme Z. Gonsales Luciana Marcolino Márcio Gonçalves Campos Maria Elisa Von Zuben Tassi Mariana Cassins Galdino Mariana Murakoshi Pestelli Renata Pinho Silvia da Silva Pereira Tiago A. Janela

Agradecimentos especiais Secretaria da Agricultura Familiar do Ministério do Desenvolvimento Agrário Sítio Beira Serra

A Cartilha Agroecológica / Instituto Giramundo Mutuando
Botucatu, SP: Editora Criação Ltda, 2005

Mutuando, Instituto Giramundo, 2005

1. Cartilha - Agricultura Ecológica, Manejo Agroecológico, Agroecologia, Agricultura Familiar, Técnicas Ecológicas

Apresentação 1. Breve história da Agricultura

2. A Agroecologia a. Nova ciência e novos valores b. Tudo está interligado c. A força está na participação popular e na vida rural d. A importância dos saberes populares e. O modo de vida camponês f. A Economia popular, solidária e ecológica g. Uma agricultura de base ecológica

3. Entendendo os princípios básicos a. Equilíbrio ecológico e agroecossistema b. O solo é vivo! c. As plantas, pragas e doenças são indicadoras d. A sucessão vegetal e a formação dos solos e. O lema é: aumentar a massa verde e fazer circular a fertilidade f. Controle biológico e fisiológico

b. O bom facilitador de grupos

4. Para começar, é bom planejar! a. Conhecendo a Metodologia de ATER c. Diagnóstico Rural Participativo (DRP) d. Outras estratégias participativas para o trabalho em grupo e. Análise de agroecossistemas f. Valor agregado e trabalho familiar g. Planejando as Inovações Agroecológicas h. Planejamento por zonas i. Planejamento Legal j. Análise de sustentabilidade l. Transição agroecológica

5. Práticas agroecológicas a. Preparo do solo b. Quebra-ventos c. Adubação orgânica d. Sistemas agroflorestais e. Produção animal agroecológica f. Alguns defensivos ecológicos para plantas e animais

6. Bibliografia

Apresentação

Nós somos o Instituto Giramundo Mutuando, uma ONG que trabalha desde 1998 apoiando o desenvolvimento da agricultura de base familiar e ecológica, baseada nos princípios da Agroecologia.

Oferecemos apoio técnico a grupos de agricultores, orientamos experiências agroecológicas e realizamos atividades de formação para técnicos e famílias agricultoras. Apoiamos a organização de comunidades rurais e urbanas em torno da segurança alimentar, auxiliando a formação de redes de produção e consumo locais de produtos ecológicos. Para isso, utilizamos sempre as metodologias participativas e os princípios da Educação Popular.

Atuamos nas regiões do centro-oeste e sudoeste paulista, apoiando diversas famílias agricultoras e famílias assentadas da Reforma Agrária. Além disso, formamos técnicos(as) de todo Brasil em estágios e eventos educativos.

Este material foi elaborado para que os(as) técnicos(as) possam orientar os(as) agricultores(as) que desejam trabalhar com uma agricultura de base ecológica. Ele é fruto do trabalho dos técnicos(as) do PROGERA - Programa de Extensão Rural Agroecológica de Botucatu e Região, desenvolvido pelo Giramundo em conjunto com instituições locais, organizações dos movimentos sociais do campo e famílias agricultoras. Essa equipe pesquisou textos e cartilhas de outros autores e instituições e elaborou este material de fácil entendimento e aplicação.

Nesta cartilha, você vai encontrar orientações básicas para a prática de uma agricultura mais produtiva e duradoura e diversas dicas para o cuidado com a terra, os rios, os animais e os cultivos, de forma a ajudar as famílias agricultoras a produzir, respeitando e conservando a natureza para as futuras gerações.

Lendo-a, vai perceber que não traz apenas novas técnicas, mas estimula um novo olhar para a natureza e para a forma como produzimos alimentos. Através dela, vamos poder avaliar os erros dos sistemas convencionais de produção (monocultura) e orientar as inovações a serem realizadas pelos(as) agricultores(as) para a conquista de sistemas produtivos mais diversificados e ecológicos.

Inicialmente fazemos um resgate histórico da agricultura, analisando criticamente a evolução da agricultura “moderna” e convencional, para então compreender os conceitos e métodos fundamentais da abordagem agroecológica. Em seguida orientamos o planejamento da produção por meio da análise dos agroecossistemas, para depois apresentarmos as técnicas para a produção agroecológica. É importante assinalar que ela é apenas um apoio e que será mais bem usada se for lida e aplicada com as outras pessoas envolvidas na produção, como os(as) técnicos(as), vizinhos(as) e principalmente a família.

Com isso, pretendemos desenvolver novas posturas com relação ao modo como produzimos e os impactos que podem causar no ambiente e na sociedade, quem realmente se beneficia com a agricultura e qual é a responsabilidade dos(as) técnicos(as) e dos agricultores(as).

Acreditamos que, com o nosso trabalho e este material, podemos contribuir para um mundo melhor, mais justo, fraterno e respeitoso com a sociedade e a natureza. Esperamos que esta cartilha sirva para apoiar esse trabalho e fortalecer o ideal que todos trazemos no coração.

Boa leitura e saudações agroecológicas! Equipe Giramundo

B r e v e h i s t ó r i d a g r i c u l u r

No primeiro capítulo da Cartilha de Agroecologia você vai conhecer uma nova versão da história da agricultura que, para muitos de nós, foi contada de forma diferente. Falamos da cruel e desmedida exploração da terra e da mão-de-obra escrava dos primeiros anos do Brasil colônia. Relatamos as dificuldades dos imigrantes e da agricultura familiar que sofreram com as políticas que favoreceram a agricultura de grande escala e de exportação. Falamos da “Revolução Verde” e de suas terríveis conseqüências sob a natureza e a família agricultora, causando o endividamento e a migração de milhões de pessoas para as grandes cidades. Vamos fazer esta breve viagem no tempo para que, assim, possamos começar a escrever uma outra história...

Breve história da Agricultura1

Antes dos portugueses desembarcarem no Brasil, os índios tinham o seu jeito de viver e de produzir. Quando estes colonizadores vieram, roubaram as terras dos índios e implantaram grandes plantações de exportação para a Europa, utilizando mão-de-obra escrava indígena e negra, trazida da África.

A terra que estava sob controle da Coroa Portuguesa passou à monarquia brasileira. A Coroa e o Império doavam as terras aos grandes latifundiários, na forma de sesmarias. Era comum o latifundiário invadir as terras ocupadas pelos índios ou pelos caboclos e depois requerer a concessão da Coroa e tomar posse da terra.

A Cartilha Agroecológica08

Este modelo entrou em crise devido ao combate internacional do tráfico de escravos. Nesta época, os negros que fugiam das fazendas começavam a formar os primeiros quilombos.

á H mais

No século XVII

Noiíco o n i d sécuo l

XIXAssim, com as terras ocupadas, fizeram-se os grandes ciclos da monocultura no tempo da escravidão.

t Duran oe século XVI

Instituto Giramundo Mutuando

Breve história da Agricultura

Houve uma grande pressão para redistribuir essas terras e dar condições para que os camponeses pudessem produzir.

Em 1850, as elites criaram a Lei das Terras, pela qual quem já tinha terra doada pela Coroa podia legalizar a posse, mas quem não tinha, teria de comprar. O acesso legal à terra foi garantido a quem já tinha: o latifundiário.

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