O avançar dos trilhos e a construção do território no Paraná

O avançar dos trilhos e a construção do território no Paraná

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O avançar dos trilhos e a construção do território no Paraná

(Guarapuava, 1920-1954)

Szlpia Gomes Bento de Mello'

A imagem das ferrovias sintetizará, neste artigo, o fascínio, tão recorrente na modernidade, pela técnica como forma de intervir e transformar o meio, de modificar territórios e paisagens e o desejo de instituir mudanças nos comportamentos e hábitos humanos, de modo a torná-los citiliados. Signo da Revolução Industrial e dos avanços técnicos do século XIX, as estradas de ferro encarnaram com propriedade o desejo de suprimir as distâncias através da velocidade, marcando novas maneiras de se vivenciar a duração do tempo e a passagem do espaço. Significaram igualmente a possibilidade de civilkar regiões inóspitas, fundando cidades e estabelecendo ligações regulares entre os mais variados lugares. Dessa forma, era uma crença recorrente entre os engenheiros do século XIX que

"não tinha limites o poder dos trilhos e que não havia região por mais estéril que fôsse, que não pudesse ser fecundada por ele [sic]" .

Sintonizada a essas concepções, na recém-criada Província do

Paraná' contratava-se engenheiros para definir o melhor traçado para uma estrada de ferro que deveria cortar a Província horizon-

* Mestranda em História - UFSC, bolsista CAPES.

talmente, ou seja, do litoral até o extremo oeste, dirigindo-se então para o Paraguai, Argentina e Mato Grosso'. A ferrovia funcionaria como forma de integração territorial da província a partir do saber técnico dos engenheiros que, ao definirem o percurso mais apropriado para a estrada, estariam também demarcando as zonas mais importantes para experimentar o desenvolvimento que favoreceria que o Paraná para despontar como importante no conjunto das províncias do Império. Assim, Frederico Abranches, presidente da Assembléia Provincial, em inflamado discurso, rejubila-se com a possibilidade de ser concretizado o desejo de construir uma ferrovia naquela Província:

Theatro de grande operações militares, vasto empório de relações commerciaes, o que não será esta província quando sentir o ferro carril, ligando duos oceanos entre si e por conseguinte servindo de nexo a interesses de vários povos, multiplicando as industrias e despertando o ardor das emprezas, derramar-lhe no seio as exuberâncias de vida que lhe trará o concurso de braços e o concurso de capitaes? [sicr.

Os trilhos significariam, portanto, a possibilidade de concretização dos potenciais que se acreditava, a Província já possuía. Seriam eles os elementos necessários para disparar mudanças na paisagem provincial. Dessa forma, uma série de ícones de província moderna vão se agregando à imagem do trem, visando instalar o Paraná em um novo tempo: o contato com outros povos, o desenvolvimento do comércio, a atração de homens aptos ao trabalho e a circulação de capitais devem ser acrescentados a uma percepção de temporalidade apontada para o futuro. Assim,

Não estará longe o dia em que despertando ao ruidoso estrugir da locomotiva aos hálitos fecundos desse pulmão de ferro acordares ao esplendido despertar de uma nova e auspiciosa aurora e sentires que a pujança de vida alimentada na associação de prodigiosas forças productoras, nos coloca a par desses povos adiantados de outras

O provindas que elevam hoje a nação brazileira ao nivel dos grandes Estados [sicr.

A ferrovia, em última instância, proveria e manteria a vida na província, em cada recanto que o trem passasse. A crença que transparece na documentação é a de que o ruído da locomotiva, estremecendo o chão e o rastro de fumaça negra que aquela ia deixando pelo caminho, despertariam as diversas regiões paranaenses para o desenvolvimento econômico, sintonizando-as e acertando o ritmo do progresso no Estado. Aquilo que seria o grandioso empreendimento de comunicação para o Paraná, a estrada de ferro que cortaria a Província deixando em seu rastro as marcas do Progresso, não se realizou nos tempos provinciais, bem como também nunca chegou a se concretizar plenamente para o Estado do Paraná. No entanto, tal projeto foi retomado em diversas outras ocasiões, revelando a eterna ânsia de fazer o Paraná moderno e competitivo. É certo que é possível detectar cortes entre cada um desses momentos em que se reinventa o discurso da ferrovia no Paraná, pois apesar de determinados elementos serem constantes, a variação dos interlocutores do discurso, as motivações e preocupações que mo-

viam o desejo pela ferrovia, numa pesquisa mais acurada, mostram-se diferenciados.

Perceber como os discursos são construídos em cada momento histórico, como eles se remetem ou se excluem, buscam uma origem e uma história para embasarem a crença do enunciador e aumentarem sua eficácia enunciativa na tessitura de um saber legítimo a respeito do território paranaense, nessa pesquisa está inspirada a idéia de que:

Atos e limiares epistemológicos [...] suspendem o acúmulo indefinido dos acontecimentos, quebram sua lenta maturação e os introduzem em um tempo novo, os afastam de sua origem empírica e de suas motivações iniciais, e os purificam de suas cumplicidades imaginárias; prescrevem, dessa forma, a análise histórica, não mais a pesquisa dos começos silenciosos, não mais a regressão sem fim em direção aos primeiros precursores, mas a identificação de um novo tipo de racionalidade e de seus efeitos múltiplos'. CD

Nesse sentido, esse artigo buscará investigar a apropriação a) discursiva ocorrida na cidade de Guarapuava entre os anos de 1920-

1954, do desejo de ter uma linha férrea no Paraná. A cidade de Guarapuava fora tomada como ponto estratégico para passagem do trem em inúmeros projetos, tanto nos tempos provinciais quanto nos primeiros tempos republicanos, sendo inclusive considerada o ponto ideal para bifurcação dos trilhos: de Guarapuava uma linha seguiria em direção ao Oeste paranaense e outra para Noroeste, atingindo o Mato-Grosso.

A pesquisa em andamento sobre as articulações — feitas por parte da elite política guarapuavana - entre a reivindicação pela estrada de ferro e o desejo de formatar uma urbe e um território para o Oeste paranaense com determinadas características, aborda como delimitação temporal o período de 1920-1954 por ser o período mais conveniente, tendo em vista a disponibilidade das fontes. É certo que já havia em Guarapuava articulações visando trazer a ferrovia para essa cidade pelo menos desde o final da década de 1910, mas a documentação encontrada não permite trabalhar com esse período nem determinar o grau de interesse anterior pela estrada de ferro', no entanto, como apontamos anteriormente, não é interesse desta pesquisa demarcar origens discursivas, mas tão somente delinear como pode ser possível e em que bases se estruturaram a reivindicação pela ferrovia em Guarapuava a partir dos anos de 1920 até a chegada do trem na cidade, em 1954.

Ao falar de ferrovias, uma documentação realmente significativa para reconstruir o poder simbólico encarnado por elas no Brasil — na verdade, não somente nesse país — são as fotografias. Essas são capazes de comunicar uma ampla gama de significações, pois, conforme Regina Abreu: "[fotografias] são semiófaros, pontes entre um mundo visível e um outro, invisível, sobre os quais repousam os significados' . No que concerne à documentação iconográfca relativa à estrada de ferro para Guarapuava, pode-se inferir que a preocupação de habitantes dessa cidade em doar fotografias para o seu Arquivo Histórico Municipal') revela ser essa uma memória de bravura e pioneirismo que deve ser cultivada ao ser contada e organizada a história da cidade.

O conjunto das fotografias chama atenção pelo potencial que tem, não só de comunicar aspectos ligados à materialidade de tal construção [pistas objetivas como, por exemplo, a acidentalidade do terreno e os instrumentos utilizados para intervir nele], mas também de externar signos que giraram em torno da espera da ferrovia. É possível apreender, nas fotografias em questão, a força do domínio da técnica e da natureza e o impacto do maquinismo; a conquista do espaço - o progresso adentrando o interior do país -, a velocidade suprimindo distância e tempo, além da construção de um mundo eminentemente masculino. Todos esses elementos são capturáveis na imagem que trazemos nesse artigo, que mostra o corte do terreno para o assentamento dos trilhos em direção a Guarapuava, em 19481" .

co As fotografias se mostram, igualmente, como uma boa docu-

no caso específico dessa pesquisa a assimilação do Oeste paranaense ao ritmo do resto do Estado. Além da legitimidade dos engenheiros para modificar os terrenos, a imagem do trem imantou na modernidade brasileira o signo de desbravadora dos sertões'', sendo apropriada para a ocupação de regiões que ainda não conheciam a civili- zação. No caso de Guarapuava, pela sua posição geográfica - em que a sede do município situava-se no Meio-Oeste do estado, embora a sua extensão territorial abarcasse uma parte significativa do Oeste paranaense -, quando se reivindicava uma estrada de ferro, esse desejo estava sendo inscrito em vários âmbitos, conforme ve- remos a seguir. Primeiramente, problematizaremos a reivindicação pela fer- rovia que culminou na apropriação do território oestino do Paraná. Para bem compreender essa questão, é preciso levar em conta que Guarapuava era muitas vezes sinônimo do Oeste. Dessa forma, essa região do Estado que era significada tanto como a mais rica e mais próspera em termos de elementos naturais, quanto carente em termos de atenção e intervenção do governo, tinha na ferrovia uma

possibilidade de sanar as suas carências e fazer com que as suas riquezas fossem utilizadas no crescimento econômico do Estado do Paraná. Neste sentido, a não existência da ferrovia na região mostra- va-se como um entrave ao desenvolvimento do Oeste paranaense. Sem nos furtar a perguntar sobre os sentidos das relações entre a estrada de ferro e o crescimento econômico da região, é preciso levar em conta a importância adquirida no capitalismo de ter o domínio sobre o tempo e o espaço. O lucro estaria intimamente ligado a esses dois fatores e a imagem da estrada de ferro permite trabalhar muito bem com as imbricações dos três elementos - tempo, espaço, lucro.

Os discursos reivindicatórios por uma estrada de ferro definiam-na como um meio de transporte seguro, rápido e barato, de forma a viabilizar o progresso de Guarapuava. Numa ótica moderna, de

O técnico, o domínio sobre as forças da natureza, eram mecanismos de suprimir as distâncias, favorecendo as atividades econômicas. O próprio tempo era compreendido de forma linear, rumava-se a um período de bem-estar inevitável. O mundo - as terras, os continentes - estava passível à conquista humana. Numa temporalidade apontada para o futuro, a eterna expectativa do novo caracterizava uma vivéncia em que o vir-a-ser era mais importante que o ser.

A respeito da noção de território a que esse texto se refere,

Claude Raffestin' diz ser o território resultado de um processo de territorialização, ou seja, através de ações, de práticas, os homens significam os espaços, tornando-os territórios. Essas ações podem estar no campo discursivo ou das idéias, porque falar ou pensar sobre algo também é uma forma de apropriação. Além disso, os processos de territorialização são sempre processos de poder, por- que os atos de nomear, significar ou intervir não podem estar destituídos deste, ou melhor, são eminentemente atos de poder, entre outras coisas, por implicar uma autoridade — no sentido do fazer autorizado.

A capacidade da locomotiva de circunscrever espaços, de marcar o domínio sobre o território e de estar presente nos mais variados cenários, nas palavras de Eric Hobsbawm:

H os trens alcançavam o centro das grandes cidades - onde suas façanhas triunfais eram festejadas com estações ferroviárias igualmente triunfais e gigantescas - e às mais remotas áreas da zona rural, onde não penetrava nenhum outro vestígio da civilização do século XIX'.

ajuda a dar a dinâmica da ação política embutida na ação política nos projetos de abertura de linhas e redes férreas.

Dessa forma, subordinar a natureza, o entusiasmo pela técnica e o desejo de alcançar e civilizar regiões inóspitas são questões que ajudam a pensar a ferrovia como elemento integrador ou produtor do território. O projeto do governo do Estado do Paraná de ligar o leste a oeste com uma linha férrea, fez parte da construção territorial do Paraná, e a apropriação desse discurso feita em Guarapuava revela novos meandros dessa construção. Exemplo disso são os discur- sos que significam a cidade de Guarapuava como coração do estado, CD as vias de comunicação são equiparadas às veias do corpo humano, responsáveis por dar vida e robustez ao território, e a ferrovia seria os .npulmões, importante na revitalização do Estado. O

A identidade territorial também era constituída em sintonia com discursos que reconheciam em Guarapuava os melhores solos do

Paraná e clima adaptável a todas as culturas. As possibilidades de desenvolvimento da região oestina paranaense podem ser percebidas na passagem a seguir:

Incontestavelmente a prodigiosa região do Oeste Paranaense, pela exuberância das suas múltiplas riquezas naturais, pela fertilidade incomum de suas terras e enfim, pelas suas possibilidades ilimitadas, está destinada a transformar-se em verdadeira Canaan do Brasil, visto o privilégio de possuir o solo recomendável para todas as espécies de culturas, sejam as que produzem em clima frio ou em clima quente, graças a variedade de altitudes, nas diferentes zonas da opulenta região oestina [sic]'s.

Ao se caracterizar a região Oeste do Paraná, esta está se confi- gurando, ganhando sentido e corpo dentro do estado. Michel Foucault, em um de seus artigos, chama atenção para a importância de questionar as formações territoriais, explicitando que a geografia não pode ser encarada como algo fixo, não dialético, imóvel, pois "[...]

na demarcação das implantações, das delimitações, dos recortes dos objetos, das classificações, das organizações de domínios, o que se fazia aflorar eram processos - históricos certamente - de

As percepções da passagem do tempo são como os territórios, construções sociais e históricas. Estudos têm mostrado como a ferrovia modificou a sensibilidade de percepção do tempo, por ter como característica uma velocidade inédita para o seu século de origem. Para muitas comunidades, o tempo não era mais regido pelo cantar do galo ou as badaladas do sino da igreja, mas pelo horário do trem. No entanto, antes de ser uma possibilidade técni- ca, a velocidade é uma questão politica, ou seja, há um investimento no desenvolvimento tecnológico, por isso interessa ao ordenamento social, às gestões territoriais, ao desenvolvimento econômico.

Dessa forma, ao discutir, reivindicar e conclamar que a estra-

O, da de ferro chegasse em Guarapuava, a elite dessa cidade estava negociando também uma nova constituição urbana, mais agradável e digna da importância que esses creditavam a cidade. Desejavam ainda que Guarapuava fosse conectada com outras regiões, possibilitando uma integração territorial que favorecesse o seu desenvol- vimento econômico, pois o capitalismo pressupõe a abertura de mercados externos. Além disso, o trem trazia consigo signos de progresso e modernidade, que muito interessava àqueles homens inserir na vivência urbana de Guarapuava, que incluía uma nova percepção de tempo e de espaço, ou seja, uma temporalidade apontada para o futuro e para o lucro, e uma espacialidade marcada pela égide da civilização.

Documentos produzidos na cidade de Guarapuava insistiram na importância de ter uma estrada de ferro servindo a região Oeste do Paraná; foi justamente aí que os discursos enunciados mais se aproximaram dos produzidos na capital. Em Curitiba, a grande questão era fazer com que a ferrovia chegasse ao oeste e então cruzasse territórios de outros estados e países, num afã latente de que a locomotiva pudesse inserir o oeste na economia estadual, mas também de garantir a posse das fronteiras. Discursos produzidos em Guarapuava apontam para o desejo de que essa fosse reconhecida como importante no Estado e acreditava-se que a ferrovia pudesse proporcionar isso.

A insistência das fontes pesquisadas em se referirem aos bene- fícios que a estrada de ferro traria ao Oeste do Paraná, não é um ato destituído de poder, pois os discursos têm a propriedade de instituir e demarcar territórios. No entanto, existiram outros domínios que foram sendo construídos a partir dos discursos que reivindicavam a ferrovia: o próprio espaço urbano foi sendo sonhado e construído simbolicamente nessas falas. Ao reivindicar uma ferro- via, na realidade, estava sendo reivindicada também uma cidade com determinadas características. O fragmento a seguir ajudará a caracterizar a Guarapuava desejada:

Urge, portanto, com tempo, irmos melhorando as condições de nossa velha, melhorando a sua estética, aformoseando-a com novas construções modernas e bizarras, fazendo desaparecer as antiquadas taipas de pedra, da época dos negros cativos, e muitos casebres em ruínas, que tanto enfeiam a nossa urbsco O

Em oposição à velha cidade, que precisava ser destruída, à memória dos tempos de escravidão que deveria ser legada ao esquecimento, a ferrovia trouxe consigo o discurso de uma urbe moderna e acabou por ser catalisadora de novos sujeitos sociais, ou seja, a estrada de ferro viabilizaria a vinda de colonos europeus para a cidade" . Ligado à necessidade de destruir as construções em ruí- nas, o jornal Folha do Oeste defendeu a construção de um Grande Hotel na cidade, para abarcar o aumento do fluxo de pessoas que passariam a circular na região a partir da inauguração da estrada de ferro.

O transporte ferroviário foi constituído como elemento fundamental para o progresso de Guarapuava por capacitar o escoamento da produção agrícola e industrial da cidade. Dessa for- ma, em Guarapuava, a reivindicação por uma estrada de ferro estava sintonizada com o afã de uma cidade moderna. Segundo documentação pesquisada - especialmente relatórios emitidos pela prefeitura e jornais de circulação local - a Guarapuava moderna seria aquela que tivesse grandes hotéis, indústrias, habitada por imigrantes europeus; estes significados como laboriosos que fa-

voreceriam o uso dos bons solos dessa região do Paraná. Conforme anteriormente exposto, a boa qualidade do clima e do solo seriam responsáveis por boas safras. Discursos que seguiam o mesmo direcionamento consideravam que o desenvolvimento industrial também estaria garantido, com a presença da estrada de ferro:

Guarapuava, apezar de não possuir meios faceis e baratos de transporte, vagarosamente vai progredindo. De tempo em tempo surgem pequenas industrias produzindo para o consumo local devido a falta de meios de transportes para a exportação

[sie'''.

No mesmo jornal, podemos encontrar outras reportagens que ajudam a dar sentido à passagem anterior. A respeito dos produtos de duas pequenas fábricas que surgiram em Guarapuava - uma de macarrão e outra de sabão - A Cidade propagandeiava-os como

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