Revendo a história das cidades paulistas: a inserção feminina e a (re) leitura do cotidiano

Revendo a história das cidades paulistas: a inserção feminina e a (re) leitura do...

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Lídia Maria Vianna Possas

Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da

Universidade Estadual Paulista – Campus de Marília (Unesp – Marília)

Resumo

Objetiva-se realizar uma revisão historiográfica e a ampliação dos estudos de “gênero” ao investir na historicização e desconstrução dos estereótipos e dos papéis sociais de homens e mulheres que vivenciaram o processo de formação das cidades do Oeste paulista na primeira metade do século X. Por meio da interpretação de indícios observados na documentação jurídica e jornalística da cidade de Bauru (SP), foi possível desvelar os silêncios sobre a presença feminina e as formas de repressão à vida das mulheres que, ainda hoje, têm seus desdobramentos no comportamento social e político da sociedade brasileira. A pesquisa é sensível às recentes reflexões e debates sobre os paradigmas da história, atenta aos diferentes movimentos de atores sociais, às temporalidades e aos espaços, possibilitando captar o cotidiano das cidades paulistas e rever as narrativas tradicionais ao demonstrar que tais cidades, colocadas na condição de “periferia”, possuem especificidades ante o processo de modernização e, muitas vezes, rompem a relação causal com a Metrópole paulistana, “centro” dinâmico do capital em expansão.

Palavras-chave: gênero, cotidiano, cidades paulistas, modernidade. Abstract

The objective of this research is to draw a historical review and a gender study increase when investigating the history and the demolish of the stereotypes and social roles of men and women who took part in the process of settlement of the cities in western State of São Paulo in the first fifty years of the twentieth century. Through the interpretation of the evidences observed in the legal and journalistic documents of the city of Bauru, it was possible to reveal the silences about the female presence and the forms of repression they experienced and continue to

58REVISTA ESBOÇOS Nº 17 — UFSC face their consequences in the Brazilian social and political scenery up to the present time. The research is sensitive to the recent reflections and debates about the historical paradigms, to the different movements of the social actors, the qualities in time and space, which enable us to catch a glimpse of the daily life of the cities in the State of São Paulo and to review the traditional narratives, as they show that these cities –in the condition of suburbs – have their particularities in the modernization process –and, quite often, help break the causal relationship with the metropolis of São Paulo, a dynamic centre of the monetary expansion.

Key words: gender, quotidian, São Paulo state cities, modernity.

O presente trabalho aponta algumas reflexões sobre a pesquisa que focaliza as cidades do Oeste paulista, especificamente aquelas situadas na região Noroeste1, no final do século XIX e que, nas décadas do século seguinte, vivenciaram um complexo cenário de modernização com o avanço da economia cafeeira consolidada pela presença das ferrovias2. A investigação prioriza a análise da instalação de inquéritos policiais como novas práticas de controle da criminalidade urbana, que traduziram a ampliação de poderes às agências destinadas à imposição de regras sociais e morais e da ordem implementadas pela elite republicana.

Nos primórdios da nova República que adentrou o século X, vários projetos institucionais objetivavam a instalação de uma nova ordem social, com ênfase na valorização do trabalho e na civilização dos costumes devido à crescente presença da imigração e, principalmente, dos movimentos operários, com suas variantes ideológicas.

Cada uma das cidades paulistas, inseridas na onda modernizadora que adentrou o sertão, construíram, a seu modo, um processo de urbanização. Era preciso enfrentar e conciliar as novas exigências de participação política e social, com ênfase na “civilização dos costumes” ante as demandas de homens e mulheres que chegaram, como forasteiros, nessa nova frente de expansão, com hábitos e costumes diversos.

Meu propósito com este trabalho foi rever lacunas na historiografia e realizar uma releitura das narrativas existentes, principalmente regionais, por meio de uma análise cuidadosa e atenta do cotidiano que me permitisse observar distintas formas de inserção, principalmente a feminina, no espaço público – de modo a entender como as relações de gênero, os diferentes papéis de mulheres e homens, foram delineados no âmbito das mudanças e das permanências e, ao mesmo tempo, capturar os muitos silêncios que a memória individual deixou no esquecimento e a memória coletiva oficial excluiu.

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Para tanto, incorpora-se a perspectiva de um olhar histórico-antropológico de tendência crítica cultural3, que fornece subsídios e conceitos valiosos como o de “micro-história”, representações e práticas culturais, suportes necessários para o desvelar da lógica da onda modernizadora sustentada pela idéia do progresso civilizador que construiu uma narrativa linear e, quase sempre, personalista.

Com isso, compreende-se a visão do “progresso desencantado”4, demonstrando ser possível restaurar o papel dos indivíduos, dos sujeitos, na construção dos laços sociais e formas de sociabilidade em que situações de subjetividade, sejam de poder e de resistências, são exercidas em ações concretas e podem ser captadas no subjacente das fontes.

Os resultados da pesquisa, embora parciais, evidenciaram deslocamentos relevantes das estruturas de poder para as redes, para as situações concretamente vividas, explicitando as estratégias singulares de sobrevivência de muitas mulheres e de homens que viviam sós nessas novas frentes de expansão cafeeira paulistas5. Foi possível observar a criação de uma rede de solidariedade, decorrente do convívio diário nas pensões baratas dos “bairros baixos”, no dizer do poeta Rodrigues de Abreu, diante da necessidade de prestarem auxílio mútuo frente às situações de violência e de enfrentamento com a polícia.

A cidade se forma a partir de um aglomerado de pessoas. Numa intensa pluralidade de sujeitos, vivendo em temporalidades múltiplas e exercendo papéis distintos em espaços simultâneos, há indícios reveladores, aqui e ali, que certamente passariam despercebidos se não se estivesse atento ao ofício do historiador, conforme nos alertou Michel de Certeau6.

Desta maneira, torna-se relevante rastrear os aspectos do cotidiano dessas cidades em formação, onde as fontes documentais, embora sejam abundantes, ainda estão bloqueadas pela ausência de políticas públicas de arquivo e pela presença de muitos “discursos e imagens que ainda cobrem as mulheres como uma vasta e espessa capa”7, dificultando a quebra do silêncio que se impôs sobre elas e dos estereótipos que as envolvem.

Com um olhar voltado a captar a presença feminina, observa-se que a mulher se encontra nas ruas, nos bares, nos cabarés, enfim, em todos os lugares dessas novas urbs. As mulheres, aquelas sozinhas, vivem uma complexidade de relações e de práticas sociais que a todo momento perturbam a ordem vigente, desafiam os regulamentos dos poderes públicos e de uma nova tecnologia criminal, com processos de identificação e racionalização administrativa. Reinventam a vida diariamente diante das situações de conflito, colocando em xeque os papéis normativos prescritos, em que uma tradição popular e a ciência se chocam. Enfrentam uma gama de investigações policiais que transformam os distintos sujeitos em “vítimas” ou “indiciados”, com a inquirição de testemunhas em situa-

60REVISTA ESBOÇOS Nº 17 — UFSC ções quase sempre recortadas de mecanismos inquisitoriais. E, quando as inúmeras tentativas de sobrevivência chegam ao limite máximo, elas podem recorrer a soluções drásticas, como a de pôr fim à própria vida, como revela este trecho de um inquérito policial: “[...] vencida, física e moralmente, sem esperança de dias melhores, resolveu pôr termo aos seus sofrimentos com o suicídio”8.

A necessidade de disciplinamento é defendida pelas autoridades como fator de “ordem” onde habita a “desordem”. No entanto, trata-se de uma visão equivocada frente à realidade pulsante, uma vez que o contingencial parece ser passível de ser domado com a intervenção policial, que, contraditoriamente, se apresenta com diversas acepções de justiça e de níveis de intervenção9.

A preocupação dos agentes da Justiça prevê a homogeneização de atitudes, de valores e de comportamentos que são incorporados e defendidos como naturais, embora sejam impostos e, com isso, acabem por reforçar os preconceitos, sejam eles religiosos, raciais ou, principalmente, sexuais.

A pesquisa teve início com o estudo da cidade de Bauru, situada na região conhecida por “boca do sertão” ou, ainda, como a porta da “última fronteira para a civilização”, e está atenta à “história do lugar”10 e à construção das relações de gênero 1.

Diante do cenário de modernização que implementa performances urbanas e sociais específicas nas cidades do noroeste paulista, pois o processo não é homogêneo, foi possível refinar ferramentas de análise, como “gênero”e “mulheres”, que são categorias relevantes para captar a presença e os movimentos dos atores sociais, mas que devem ser pensadas e constantemente revistas ante à pesquisa empírica, conforme nos tem demonstrado a historiografia recente.

Essa preocupação justificou o intento de um novo olhar sobre a história das cidades paulistas, numa revisão das visões personalistas e até mesmo estruturalistas que ocupam os manuais didáticos e publicações mais regionalizadas.

Não basta dar visibilidade à inserção de novos sujeitos com suas experiências e comportamentos captados, mas pretende-se situá-los na informalidade, demonstrando como as diferenças sexuais entre mulheres e homens não foram e não são naturais, podendo ser interpretadas a partir de outros referenciais de análise. As fontes tradicionais, como os inquéritos e processos policiais, ensejam normas jurídicas e traduzem preceitos ou (pré)conceitos amparados por discursos médicos que podem desvelar situações outras a partir da perspectiva de um olhar do historiador da cultura. É por meio dessa nova investida teórica e da historicidade das representações e imagens que se torna possível demonstrar a dinâmica e as transformações da sociedade frente à modernidade e interpretar os inúmeros conflitos e resistências à imposição dos discursos normativos vigentes nos primórdios da vida republicana.

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A investigação nas fontes jurídicas tem demonstrado o que denominamos de circularidade social, com movimentos sutis entre as aspirações contidas na lei e a repressão e onde a visão diluída do narrador tenta impor uma ordem às histórias e relatos contidos. Essas fontes jurídicas evidenciam relações de exploração que “não são econômicas” e deixam marcas profundas devido à perenidade das relações de poder que são simbólicas e se interiorizam no seio da sociedade sob formas de controle da conduta de homens e mulheres, jovens e idosos, adultos e crianças, homossexuais e heterossexuais, as elites e segmentos populares.

Ao rever e reconstruir a “história dos lugares” da região noroestina do final do século XIX, com o advento da República até o período getulista de 1930, foi possível evidenciar a diversidade histórica e romper com a linearidade narrativa. A documentação inédita voltada para o estudo do cotidiano, como os inquéritos policiais, torna possível entender como se estruturavam as relações e as formas de controle social e de reordenação do poder local frente à inserção de múltiplos sujeitos vivendo temporalidades assimétricas.

Olhar mais de perto os inquéritos policiais, resguardando a sua materialidade, as astúcias técnicas do saber jurídico e do saber médico associados, cotejando os acontecimentos nos jornais locais, forneceu indícios valiosos de como as mulheres (re)criaram e assumiram distintos comportamentos diante das normas impostas pelas relações de poder que avançavam ao lado da frenética expansão cafeeira conduzida pelas ferrovias. Essas “mulheres sós” chegavam sem família, desacompanhadas, e vinham pelos trens e trilhos muitas vezes sem emprego, buscando alguma forma de “fazer a vida” nessas frentes pioneiras do Oeste paulista, onde tudo acontecia e onde havia a imagem do acesso ao “dinheiro fácil”. São histórias perdidas, fragmentos de sonhos esquecidos e reduzidas em folhas de papel. Mas existem outras maneiras de captar esse mundo que parece irreal aos olhos do legislador.

Rodrigues de Abreu12 é autor de uma poesia denominada Bauru, uma espécie de visão instantânea da cidade que o acolheu, e suas estrofes fornecem ricas imagens do processo de modernização que adentra o sertão e de como os indivíduos em uma luta surda se inseriam nesse cotidiano. Esse poema é raríssimas vezes apresentado em sua totalidade, o que chega a ser motivo de desacordos de interpretação entre os historiadores e memorialistas que insistem em manter uma visão idealizada da história da cidade, omitindo aspectos julgados improcedentes ante a visão moralista adotada e ensinada. Transcrevo alguns trechos mais ilustrativos da presença de homens e mulheres de distintos segmentos sociais, assim como de hábitos e comportamentos transformados em “crimes” pelas autoridades policiais:

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Bauru

Moro na entrada do Brasil Novo. Bauru, nome frisson que acorda na alma da gente ressonância de passos em marcha batida para a conquista soturna do Desconhecido!

Vi homens fecundos que fazem reclamo da Raça! E eu sei que há mulheres fidalgas que ateiam incêndios na mata inflamável dos nossos desejos! Mulheres fidalgas que já transplantaram O Rio de Janeiro para este areal!

A alegria buzina e atropela os tristes nas ruas, A cidade se fez a toques de sinos festivos, a marchas vermelhas de música, ao riso estridente, de Colombinas e Arlequins13.

As mulheres ocupavam o imaginário do poeta. Mas quem seriam esses personagens femininos que acendiam o seu espírito inquieto?

Nem todas poderiam ser denominadas de “mulheres públicas”, na concepção de Michelle Perrot14, como aquelas que estariam “deslocadas” e mais afeitas à desordem, à transgressão.

Havia tantas outras. As “criadas para a família” e aquelas que tentavam participar das novas possibilidades de acesso ao espaço público com a oferta de novas profissões: telefonistas, secretárias. Essas chegaram transferidas do Rio de Janeiro para a nova fronteira em expansão, como funcionárias mais especializadas da Estrada de Ferro Central do Brasil para os Escritórios da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil – NOB, diante de sua implementação no final dos anos 20. Os anúncios dos jornais ofereciam vagas em pensões “para moças de fino trato”.

No entanto, não seriam possivelmente para aquelas que estariam residindo em outros lugares, como as pensões e cabarés da cidade, que se transformavam à noite em casas de encontros, de baile, de prostituição. É nesse cenário urbano saturado de muitas mulheres que outros lugares são estigmatizados diante de nomes afrancesados como Bataclan, Maxims, que ofereciam uma intensa vida noturna, conforme se depreende da sensibilidade poética do dândi provinciano Rodrigues de Abreu ao narrar a vida da cidade:

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Cidade de espantos

Carros de bois geram desastres com máquinas Ford Rolls Royces encalham beijando na areia Casa de taboas mudáveis nas costas; As avenidas paulistas... Cidades de espanto!!!

A febre de lucro que move seus homens nas ruas do centro e a pecaminosa alegria dos teus bairros baixos...; Eu já tomei cocaína em teus bairros baixos onde há Milonquitas de pálpebras murchas e olhos brilhantes!15

O poeta não consegue escapar às sensações que a cidade desperta e projeta suas impressões mais íntimas fornecendo indícios reveladores sobre aspectos do cotidiano, da vida mundana, noturna, dos hábitos que a modernidade introduzia nesse sertão e que teimam em não ser aprisionados e silenciados pelos discursos normativos da ordem.

Um outro observador, o jornalista Brenno Ferraz, que como colaborador escrevia crônicas para o jornal Estado de S.Paulo em 1924, percorria as cidades do interior paulista escrevendo as impressões de suas andanças e das experiências absorvidas, revelando, na sua perspectiva, as diferenças entre elas, seus modos de vida, sua gente: “Botucatu era uma cidade importante com renome de capital; Lençóis uma pequena colméia de trabalho; Agudos onde o patriarcado ostenta em nobre pujança do valor moral”. Bauru era diferente, feito na ponta dos trilhos, improvisada, de uma indisciplina atroz.16

O poeta e o cronista fornecem pistas, minúcias de uma realidade repleta de gente, de comportamentos que teimam em deixar rastros. Foram justamente as matrizes dessas representações de desorganização, de improvisação, que me levaram a buscar e analisar com mais exigência a documentação existente, que me permitisse identificar a concretude de tais sentidos e percepções.

Na primeira metade do século X, as elites agrárias controlavam o poder político do país por meio do Estado oligárquico. Esse poder era justificado e reforçado por um discurso que apontava o progresso como finalidade social. Com isso, praticou-se o genocídio indígena reinventado em pleno século X; retomouse a exploração de homens e mulheres no mundo do trabalho em situações desumanas nas fábricas e fazendas; houve a depredação da natureza devidamente implementada pelos conhecimentos tecnológicos e científicos que impunham a disciplina e a ordem interna, com a ampliação de um aparato jurídico policial que passou a criminalizar comportamentos cotidianos, como demonstram trabalhos recentes. 17

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