Epidemiologia e Indicadores de Saúde

Epidemiologia e Indicadores de Saúde

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Atualmente, com o aumento da expectativa de vida em muitos países, alguns autores tem usado o limite de 60 anos e mais de idade para o cálculo da proporção de idosos entre os óbitos, como apresentado pela Rede Interagencial de Informações para a Saúde (RIPSA) em seu “Indicadores e dados básicos para a saúde (IDB98)” (BRASIL, 2000).

•Mortalidade proporcional por causas de morte:é a proporção que determinada causa (ou agrupamento de causas) tem no conjunto de todos os óbitos. Por exemplo, a mortalidade proporcional por doenças do aparelho circulatórioé a proporção de óbitos por doenças do aparelho circulatório em relação ao total de óbitos no mesmo período e local.

Atualmente, com a implantação do Sistema de Informações sobre

Nascidos Vivos (SINASC) no Brasil, algumas proporções de importância epidemiológica também podem ser calculadas, como por exemplo:

•taxa de nascidos vivos com baixo peso ao nascer: % nascidos vivos com peso ao nascer < 2500 gramas em relação ao total de nascidos vivos em determinado período de tempo e local;

•taxa de nascidos vivos com mães adolescentes:% de nascidos vivos com mães de idade < 20 anos (até 19 anos inclusive) em relação ao total de nascidos vivos em determinado período de tempo e local;

•taxa de nascidos vivos por cesárea:% nascidos vivos por cesárea em relação ao total de nascidos vivos em determinado período de tempo e local;

•taxa de nascidos vivos prematuros:% de nascidos vivos com menos de 37 semanas (até 36 inclusive) de gestação.

É importante considerar que os resultados de indicadores que se baseiam emnúmeros pequenos(por exemplo, com base em dados de apenas um ano de uma área de abrangência de uma Unidade Básica de Saúde ou de uma cidade muito pequena) podem apresentar o que se chama de “variação aleatória”. Por exemplo, se uma determinada área de abrangência tem 150 nascidos vivos no ano e nenhum morrer, o coeficiente será zero; se ocorrer 1 óbito infantil, o coeficiente de mortalidade infantil será de 6,7 por mil nascidos vivos. Se ocorrerem 2 óbitos nessa mesma comunidade, o coeficiente passará para 13,3 por mil nascidos vivos, ou seja, uma variação (aleatória) bastante grande.

No Quadro 2 isto também pode ser observado. Notamos que a variação do coeficiente de mortalidade materna, de 1997 para 1998, no município de Jaguapitã, é de 529,10 por cem mil nascidos vivos. Ao observarmos a variação no número de óbitos, verificamos que essa variação foi causada por apenas 1 óbito, mas como o número de nascidos vivos é pequeno, o coeficiente fica extremamente alto. Essa variação alta também pode ser observada no coeficiente de mortalidade infantil de Jaguapitã, o qual, passando de 2 para 3 óbitos, de 1997 para 1998, passou de cerca de 10 para quase 21 por mil nascidos vivos.

Cidade/anoNúmero de Número de Coeficiente de Número Coeficiente de
nascidosóbitos mortalidade de mortes mortalidade
vivos< 1 ano infantil* maternas materna**

Q2– Número de nascidos vivos, óbitos < 1 ano, óbitos maternos e coeficientes de mortalidade infantil e mortalidade materna em Londrina e Jaguapitã, em 1997 e 1998.

* por mil nascidos vivos ** por 100.0 nascidos vivos Fonte:Paraná, 2000.

Para evitar essa flutuação aleatória de valores, devida a números pequenos, a Organização Mundial de Saúde recomenda que os dados sejam agregados por um período mais longo de tempo – por exemplo, em 3 anos consecutivos, utilizando como valor de coeficiente o que se chama de “média móvel” (OMS, 1994).

Para finalizar, deve-se considerar que os indicadores de medidas do nível de saúde baseiam-se em números. Números, entretanto, que representam pessoas que vivem em determinada comunidade, que nasceram, adoeceram ou morreram. Além de servirem para avaliar o nível de saúde de uma comunidade, esses indicadores medem, indiretamente, seu nível de vida (condições de moradia, nutrição, etc.). O Quadro 3 ilustra essa afirmação, ao apresentar alguns indicadores de saúde para duas regiões administrativas do Brasil, evidenciando que os valores desses indicadores refletem diferenças nas condições de vida dessas populações. A Região Sul, para os indicadores selecionados, apresentou melhor perfil, condizendo com sua realidade socioeconômica mais favorável do que a da Região Nordeste.

IndicadoresRegião SulRegião Nordeste Coeficiente de mortalidade24,0 por 1000 58,3 por 1000 infantilnascidos vivosnascidos vivos Coeficiente de natalidade19,3 por 1000 habitantes25,0 por 1000 habitantes Taxa de nascidos vivos de 21,2%25,9% mães adolescentes Mortalidade proporcional 4,5%7,8% por doenças infecciosas e parasitárias Mortalidade proporcional 58%53% de 60 anos ou mais

Q3– Alguns indicadores de saúde para as Regiões Sul e Nordeste do Brasil, em 1997.

Fonte:BRASIL, 2000 (IDB-98).

É importante ressaltar, ainda, que os indicadores de saúde refletem “médias” do que está acontecendo em uma população. Por exemplo, a taxa de baixo peso ao nascer (< 2500 gramas) dos nascidos vivos residentes em Londrina, em 1997, foi de 7,5% (ou seja, de cada 100 crianças nascidas vivas, em média, 7,5 nasciam com peso baixo). No entanto, ao analisar a taxa de baixo peso nas áreas de abrangência das Unidades Básicas de Saúde da zona urbana, esse valor variou de 1,1% (cerca de 1 criança com baixo peso para cada 100 nascidas) até 12,2% (SPECIAN et al., 1998).

Dessa forma, é indispensável considerar que um indicador “médio” pode estar, na realidade, camuflando importantes desigualdades no interior dessas populações e outras formas de “medir” saúde (como as entrevistas com lideranças comunitárias, a observação da realidade, a desagregação dos indicadores em níveis geográficos menores) também devem ser buscadas, simultaneamente à análise desses indicadores de saúde tradicionais.

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