POPULAÇÕES DE MINHOCAS AMOSTRADAS USANDO DIFERENTES MÉTODOS DE EXTRAÇÃO EM FLORESTA DE Araucaria angustifolia NO PARQUE ESTADUAL DE CAMPOS DO JORDÃO,

POPULAÇÕES DE MINHOCAS AMOSTRADAS USANDO DIFERENTES MÉTODOS DE EXTRAÇÃO EM...

MÉTODOS DE EXTRAÇÃO EM FLORESTA DE Araucaria angustifolia NO PARQUE ESTADUAL DE CAMPOS DO JORDÃO, SP

Dilmar Baretta1,6; George Gardner Brown2,6; Samuel Wooster James3; Rafaela de Fátima Neroni1,7; Denise L.C. Mescolotti4; Elke Jurandy Bran Nogueira Cardoso5,6

1Programa de Pós-Graduação em Solos e Nutrição de Plantas - C.P. 9 -13418-900, Piracicaba, SP – Brazil, email: baretta@esalq.usp.br 2EMBRAPA-Soja, Rodovia Carlos João Strass – Acesso Orlando Amaral, C.P. 231, 86001-970, Londrina-PR, e-mail: browng@cnpso.embrapa.br 3Kansas University, Natural History Museum and Biodiversity Research Center, 1345 Jayhawk Blvd. Lawrence, KS, 66045, USA. 4USP/ESALQ - Laboratório de Microbiologia do Solo, e-mail: dlcmesco@esalq.usp.br 5USP/ESALQ - Depto. de Solos e Nutrição de Plantas - C.P. 9 -13418-900, Piracicaba, SP, e-mail: ejbncard@esalq.usp.br 6Bolsista do CNPq; 7Bolsista da FAPESP. Projeto temático financiado pela FAPESP (no 01/05146-6).

Palavras-Chave: Oligochaeta, espécies nativas e exóticas, bioindicatores.

Introdução Araucaria angustifolia (Bertoloni) Otto Kuntze também conhecida com Pinheiro do

Paraná é uma planta gimnosperma pertencente à família Araucariaceae, principal componente da formação florestal denominada de Floresta Ombrófila Mista (Floresta de araucária).

Os incêndios acidentais em florestas de araucária no Estado de São Paulo provocados direta ou indiretamente pela ação humana podem contribuir para a extinção desta planta (considerada ameaçada de extinção) e das populações de minhocas (Oligochaeta) a ela associada. Entretanto, a adoção de apenas um método de amostragem pode não ser eficiente para avaliar a abundância e a riqueza de espécies de minhocas de um local determinado (Joschko et al., 2006). Por estas razões, quando é necessária uma análise mais exata da diversidade de minhocas presentes em uma floresta de araucária, recomenda-se a adoção de métodos de coleta complementares. Pensando nisso, realizou-se um ensaio, com o objetivo de avaliar em áreas de floresta natural e reflorestada com araucária, impactadas ou não pela queima acidental, a densidade, diversidade e a biomassa de minhocas, além de identificar o método mais eficiente para coletar estes animais.

Material e Métodos O estudo foi conduzido no município de Campos do Jordão, SP, no período de setembro de 2004 a agosto de 2005, em quatro áreas representativas de florestas de A. angustifolia, dentro do Parque Estadual de Campos do Jordão, distante 210 km da cidade de São Paulo, e situado a 22º 39’ latitude Sul e 45º 27’ longitude Oeste, com altitude média de 1519 m. O relevo é suave ondulado, com declividade média de 0,1702 m m–1. O solo nas quatro áreas de floresta de araucária estudadas é um Latossolo Vermelho-Amarelo distrófico textura argilosa. O clima da região, segundo a classificação de Köppen, é subtropical de altitude, mesotérmico e úmido (Cfb). A maior precipitação pluviométrica concentra-se no verão, sendo que no mês de fevereiro podem ocorrer mais de 240 m, enquanto em setembro ocorrem aproximadamente 8 m; a temperatura média pode variar de 17,5 ºC em fevereiro a 1,5 ºC em junho.

As quatro florestas com araucárias selecionadas foram: 1. floresta nativa com predominância de araucária, em clímax, com baixa interferência antrópica (NF); 2. reflorestamento de araucária, plantado em 1959 (R); 3. reflorestamento de araucária plantado em 1959, submetido a um incêndio acidental intenso em julho de 2001 (RF); 4. pastagem natural com araucárias nativas (NPF), submetida a incêndio acidental intenso em setembro de 2004. Todas as áreas estão localizadas em topo-seqüência e altitudes semelhantes. A floresta nativa (NF) é composta basicamente por A. angustifolia (Bertoloni) O. Ktze. e por diversas espécies arbustivas, herbáceas e arbóreas nativas. A área R apresenta várias árvores de Podocarpus lambertii Klotz (Podocarpaceae), mas a predominância é das mesmas espécies de araucária da floresta nativa. Devido ao incêndio, a área RF apresenta menor densidade de araucária (as mesmas espécies de R e NF) e um predomínio de gramíneas Aristida longiseta e da composta Braccharis trimera.

A coleta de minhocas foi realizada no mês de agosto de 2005, onde foram testados três métodos de coletas, sendo: a) método do Formol diluído (0,5%), sendo utilizados 20 litros desta solução numa superfície quadrada de 1m2 (Formol) (Raw, 1959); b) método do Monólito (25 x 25 cm), na profundidade de 0-30 cm (Anderson & Ingram, 1993); e c) método do Monólito Adaptado (40 x 40 cm), na profundidade de 0-30 cm. Em cada floresta de araucária (0,3 ha cada), foram avaliados cinco pontos de amostragem, distribuídos em torno de cinco árvores de araucária escolhidas ao acaso. Nos métodos Monólito (25 x 25 cm) e Monólito Adaptado (40 x 40 cm), as minhocas foram separadas manualmente do solo. No laboratório, as minhocas foram identificadas em nível de gênero ou espécie quando adultas; em nível de espécie, com auxílio de microscópio estereoscópico de 100 aumentos. A biomassa fresca total (g m-²) foi obtida mediante lavagem das minhocas em água corrente, secagem em papel toalha ao ar livre por três minutos. A abundância das minhocas por metro quadrado (no de minhocas m-2) nas diferentes áreas foi submetida à análise de variância (ANOVA), utilizando-se o programa estatístico SAS versão 8.2 (SAS Institute, 2002), e as médias comparadas pelo teste LSD (P< 0,05).

Resultados e Discussão

Considerando os três métodos estudados, foram encontradas seis espécies de minhocas, distribuídas em duas famílias e três gêneros, sendo uma espécie exótica Amynthas corticis (Megascolecidae) e cinco espécies nativas: Glossoscolex sp. (Glossoscolecidae), Glossoscolex sp.1 (Glossoscolecidae), Glossoscolex sp.2 (Glossoscolecidae), Glossoscolex bondari (Glossoscolecidae) e Urobenus brasiliensis (Glossoscolecidae). A abundância de minhocas variou de 0 a 20 indivíduos m-2, seguindo uma ordem de importância decrescente RF>NF>R>NPF, embora a ordem dependa do método empregado. Contudo, o método de coleta influenciou a diversidade e a abundância de minhocas encontradas, e a magnitude de sua resposta variou de acordo com o tipo de método testado, e com a abundância de espécies presentes em cada área amostrada (Tabela 1).

Tabela 1. Abundância (n° de minhocas m-2) e biomassa (g m-2) de minhocas amostradas usando os métodos de Formol diluído (Formol), Monólito (25 x 25 cm) e Monólito Adaptado (40 x 40 cm), discriminando as áreas de floresta com araucária natural (NF), reflorestada (R), impactada pela queima em 2001 (RF) e pastagem natural com araucárias submetidas à queima acidental intensa (NPF), em agosto de 2005. Campos do Jordão, SP, Brasil. Média de cinco repetições.

Espécies de minhocas NF R RF NPF

Biomassa - 0.2 (± 0.1) 0.2 (± 0.1)0.1 (±0.0)

Glossoscolex sp. 2 0.2 (± 0.1) - - -

Biomassa 0.3 (± 0.1) - - -

Glossoscolex bondari (Michaelsen, 1925) - - 0.2 (± 0.1) -

Biomassa - - 0.2 (± 0.1) -

Urobenus brasiliensis (Benham, 1887) 0.2 (± 0.1) 0.2 (± 0.1) - -

Biomassa 0.3 (± 0.1) 0.1 (± 0.0) - - Total (no de minhocas m-2) 8.4 a 1.2 b 3.8 ab 0.6 b

Monólito (25 x 25 cm)

Amynthas corticis (Kinberg, 1867) 6.4 (± 3.6) - - -

Biomassa 0.1 (± 0.0) - - -

Glossoscolex sp. - - 3.2 (± 1.1) -

Biomassa - - 0.5 (± 0.2) -

Glossoscolex bondari (Michaelsen, 1925) - - 3.2 (± 1.1) -

Biomassa - - 0.5 (± 0.2) - Total (no de minhocas m-2) 6.4 a - 6.4 a -

Monólito Adaptado (40 x 40 cm)

(1)Média (± SD); (2)Biomassa: Biomassa fresca total da espécie de minhoca correspondente (g m-2); (3) - : Ausência de espécies. Médias seguidas pela mesma letra na linha não diferem entre si pelo teste LSD (P<0.05).

O método do Formol diluído foi muito eficiente para avaliar a população de Amynthas corticis nas quatro florestas estudadas. Apesar do método monólito (25 x 25 cm) coletar uma boa quantidade de minhocas das espécies Glossoscolex sp. e Glossoscolex bondari, essa diferença não foi significativa em relação aos demais métodos testados (dados não demonstrados). Por outro lado, quando se adaptou o método TSBF (40 x 40 cm), este foi mais eficiente para coletar Glossoscolex sp.1 (Tabela 1). Assim sendo, a densidade, diversidade e a biomassa de minhocas foram afetadas pela presença do fogo e animais (RF e NPF) e pelo método de amostragem utilizado.

Quando se analisou a abundância de minhocas (no total de espécies de minhocas m-2) pelo método Formol em cada área de estudo, verificou-se que a Floresta Nativa (NF) apresentou tendência de maior abundância, seguida pelo Reflorestamento de araucária que sofreu queima acidental (RF) (Tabela 1). Esse mesmo comportamento na abundância de minhocas também foi obtido pelo método do Monólito (25 x 25 cm), o qual não extraiu nada em R e NPF (Tabela 1). Por outro lado, no método Monólito Adaptado (40 x 40 cm), verificou-se o inverso, ou seja, a maior abundância de espécies de minhocas foi encontrada nas áreas que sofreram queima acidental (RF e NPF), seguidas pelas áreas R e NF, respectivamente (Tabela 1).

Conclusão 1) A densidade, diversidade e a biomassa de minhocas foram afetadas pela presença do fogo e animais (RF e NPF), e método de amostragem usado; 2) Formol foi mais eficiente para coletar A. corticis e biomassa fresca total de minhocas, enquanto o método de coleta manual foi mais eficiente para capturar Glossoscolex spp.; 3) Para adequada caracterização da abundância e biomassa de minhocas em sistemas florestais que sofreram pressão antrópica, deveriam ser empregados os métodos Formol diluído e monólito de 40 x 40 cm, garantindo assim, uma coleta rápida de espécies na superfície e dentro do solo, especialmente de Amynthas, Urobenus e Glossoscolex spp. Referências Bibliográficas

ANDERSON, J.M.; INGRAM, J.S.I. Soil fauna. In: Tropical Soil Biology and Fertility: A Handbook of Methods. 2ª ed. Wallingford: C.A.B. International. 1993, p.4-46.

JOSCHKO, M.; FOX, C.A.; LENTZSCH, P.; KIESEL, J.; HIEROLD, W.; KRÜCK, S.; TIMMER, J.; Spatial analysis of earthworm biodiversity at the regional scale. Agriculture, Ecosystems and Environment, 112:367-380, 2006.

RAW, F. Estimating the earthworm population by using formalin. Nature, 184:1661, 1959.

SAS INSTITUTE. SAS: User’s guide: statistics. Versão 8.2. 6 ed. SAS. Institute Inc., Cary, 2002.

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