Endireite as Costas

Endireite as Costas

(Parte 2 de 7)

Existem estudos que demonstram que os músculos desses jovens, com escoliose ou cifose, são diferentes do normal. Não adiantam exercícios, porque seus músculos são fracos, não evoluem; por isso os exercícios são desnecessários.

Como contra-argumento, sabe-se hoje que uma das técnicas mais modernas de tratamento da escoliose é feita com o scoliotron, um aparelho elétrico que estimula os músculos à noite, fazendo endireitar a coluna. Esse aparelho foi desenvolvido nos Estados Unidos, em centros que não acreditam muito em ginástica para a escoliose.

Terceiro

Alguns ortopedistas teimam em afirmar que o problema é somente nos ossos da coluna, e que o que resolve é o colete, pois este agenos ossos e puxa a coluna. O colete realmente é um meio de tratamento excelente, mas só poderá ser usado a partir de uma curvatura de mais de 25 a 30 graus. Existem casos que, mesmo com colete (e já vimos que mesmo com exercícios), pioram: são os tais casos malignos. O colete deve ser bem indicado, e não há vantagem nenhuma em empregá-lo antes de o caso atingir a angulação adequada.

Quarto

A rotação das vértebras da curva da coluna é o dado ortopédico mais difícil de resolver, seja com exercícios, colete, estimulação elétrica, seja, às vezes, até com cirurgia.

A família e o jovem precisam conhecer esses detalhes para acompanhar o tratamento e saber quais as perspectivas que têm para a melhora da condição. Naqueles casos graves, em que as curvaturas da coluna e a rotação das vértebras pioram, é preciso ser avaliada a oportunidade cirúrgica.

Em resumo: A mãe deve saber (1) que a curva da coluna, apesar dos exercícios, poderá ficar inalterada, em alguns casos até piorar, por evolução da própria curva. (2) A controvérsia em relação aos exercícios para a escoliose deve ser minimizada, pois o jovem, na pior das hipóteses, estará realizando um trabalho de conscientização corporal, postural, que só pode ser benéfico. (3) O colete tem indicações precisas e deve ser acompanhado por um preparo psicológico adequado. (4) Há sinais, tais como a rotação de vértebras e defeitos congênitos, que, mesmo os mais graves, devem ser avaliados em termos da oportunidade da indicação cirúrgica. No mundo todo estão diminuindo os casos em que os médicos indicam a cirurgia e o paciente aceita realizá-la.

Se você é o leitor jovem que deverá fazer os exercícios, então deverá saber:

1. Aproveite a oportunidade de obrigatoriamente aprender exercícios adequados desde jovem, quando foi descoberto que você tem um desvio na coluna.

2. Se o desvio for pequeno e você fizer os exercícios aqui ensinados, só vai ajudar você, no futuro, a ter uma conscientização corporal e postural adequada. 3. Se o desvio é grande ou no limite, esforce-se para criar músculos, para que, no futuro, esse desvio corporal não venha a causar dores. 4. Se não gostar de exercícios, será pena, mas natação, correr ou andar poderão ajudar, em menor escala. Experimente fazer exercícios com música ou mesmo quando está estudando ou vendo televisão. 5. Jogar bola, tipo vôlei e basquete, que é mais gostoso que fazer exercícios, ajuda menos a coluna que a ginástica, mas também é bom. 6. O importante é que levantar peso (halterofilismo) é prejudicial nessa idade. Mas a grande maioria dos exercícios são com pesos pequenos. 7. Não fazer nenhum exercício também é inadequado. 8. Leia só o que está escrito, sobre os exercícios, mas se ler o restante do livro, daqui a alguns meses, ficará mais por dentro do seu problema de coluna.

Se o leitor é professor de Educação Física

viu que existem inúmeras opiniões ilustres e completamente antagônicas

Neste campo específico de exercícios da coluna, o caro professor já

A solução é você criar a sua própria.

Antes de dizer "eu acho", você precisa estudar o assunto. Comece o livro lendo a parte teórica; leia, se possível, alguns dos outros autores que têm opinião contrária (veja bibliografia no final). Lembre-se, você é o profissional, e deve ter em conta todos os ângulos da questão. Quanto mais se informar, melhor poderá ajudar-se a decidir qual a linha a adotar e com mais segurança orientará os seus alunos.

A coluna vertebral, sob o ponto de vista de engenharia, é de uma constituição perfeita. Imaginem a coluna de um prédio que tivesse que suportar toda a estrutura e ao mesmo tempo tivesse que movimentar esse prédio. Seria "impossível". Mas a espinha faz isso.

Constituição óssea - A coluna é formada de 3 ossos que são chamados vértebras e está dividida em 4 regiões: a região cervical (pescoço), com 7 vértebras; a torácica ou dorsal, com 12; a lombar, com 5; a região sacra, com 5 vértebras que se fundiram num só osso chamado sacro, e a região do cóccix, com 3 ou 4 vértebras, que também se fundiram em um só osso, o cóccix. É a região sacrococcigeana.

Assim, consideramos para todos os efeitos a coluna vertebral formada de 24 vértebras e dois ossos: o sacro e o cóccix. (Fig. 1).

Figura 1 Regiões da coluna vertebral: 1. Região cervical - pescoço. 2. Região dorsal ou torácica - tórax. 3. Região lombar. 4. Região sacrococcigeana.

Essas vértebras (Fig. 2) têm formas diferentes conforme a região mas, de maneira geral, podemos dizer que todas têm em comum uma parte anterior arredondada, um orifício onde passa a medula e uma região posterior formada por três asinhas. A região anterior ao orifício por onde passa a medula desempenha a função de sustentação. As regiões posteriores são formadas por 3 asinhas: duas laterais, chamadas apófises transversas, e uma posterior, apófise espinhosa. Essas três apófises funcionam como um verdadeiro leme de navio, pois são elas que dão a orientação do movimento da coluna. Também variam de tamanho e forma, conforme a região da coluna.

Articulações de coluna: A coluna, como já vimos, é formada por uma série de ossos que se articulam entre si, permitindo desempenhar sua função de, ao mesmo tempo, ser eixo de suporte do organismo e o apoio responsável por todos os movimentos do corpo. Isso é possível por dois tipos de articulações que existem na coluna: 1-) entre um corpo vertebral e outro (Fig. 2) existe o disco intervertebral que faz uma espécie de "amarra" entre uma vértebra e outra, sendo que quase não existe movimento entre duas vértebras; 2-) as vértebras, na sua parte posterior, se encaixam umas nas outras, deixando uma superfície bastante móvel que orienta os movimentos da coluna. Essa articulação é do tipo que se pode encontrar no dedo da mão entre uma falange e outra. Tem superfície articular e um líquido sinovial para lubrificar esses movimentos.

Figura 2 Anatomia de uma vértebra típica e do disco intervertebral. O corpo vertebral na frente tem em cima o disco intervertebral (anel fibroso e núcleo pulposo). O orifício de várias formas, conforme a região (na fig. tem forma triangular) é por onde passa a medula nervosa. Atrás, as três asinhas; duas apófises transversais e uma apófise espinhosa. Uma vértebra encaixa-se na outra pela superfície articular.

A coluna tem algumas articulações especiais que devem ser conhecidas, pois têm influência fundamental na sua postura.

1. Cabeça - A 1ª e 2ª vértebras do pescoço, chamadas atlas e áxis, servem de apoio para uma articulação extremamente complexa que deve suportar o encaixe do crânio. 2. Costelas - As vértebras torácicas ou dorsais são menos móveis e, em conseqüência, as que menos se desgastam se comparadas às das regiões do pescoço e lombar, pela firme articulação das apófises transversas com as costelas. 3. Bacia - O osso sacro é ligado à coluna lombar e está firmemente preso ao osso ilíaco de cada lado, constituindo a bacia óssea onde se desenvolve o feto na gravidez e onde se localizam inúmeras vísceras.

Orifício de Conjunção - O encaixe de uma vértebra sobre a outra é perfeito, ajustando-se bem na frente, na posição horizontal e na parte de trás, na posição vertical, deixando porém o orifício entre uma vértebra e outra que pode ser visto na coluna na posição lateral (Fig. 3). É conhecido como orifício de conjunção.

Esse orifício é que permite a saída dos nervos espinhais ou raquidianos, um de cada lado da coluna.

A importância desse orifício é fundamental para explicar a dor das diversas regiões da coluna, como veremos adiante, pois é aí que o nervo fica estrangulado.

Discos Intervertebrais - São os elementos que unem um corpo vertebral ao outro. Se analisarmos o disco, podemos verificar que é formado por duas partes, uma porção externa fibrosa (anulus fibroso ou anel) e uma porção interna mais gelatinosa que é o núcleo pulposo (Fig. 2).

A parede externa do disco (anel) é formada por uma espécie de ninho fibro-elástico que mantém o núcleo no seu interior. Esse núcleo, que é gelatinoso, funciona como um absorvedor hidráulico de choques, permitindo um deslocamento do peso exercido sobre ele para a estrutura fibro-elástica do anel. O núcleo tem uns 80% de água até o início da adolescência e depois essa porcentagem vai diminuindo com a idade e com os traumatismos (batidas diretas ou erros de postura). A perda da forma gelatinosa do núcleo faz com que as pressões internas aumentem sobre o anel que, com isso, perde de início a elasticidade e posteriormente pode romper-se.

O disco intervertebral não tem artérias ou veias. Isso significa que não recebe alimentação direta, mas indiretamente, através da cartilagem que recobre o corpo vertebral que filtra uma série de substâncias. Através da alternância do relaxamento e do aperto dos componentes do anel fibroso é que o disco intervertebral pode receber alimentação adequada. E isso ocorre principalmente no período noturno, quando a pessoa dorme e as pressões sobre o disco diminuem por estar a pessoa deitada. O disco altera-se quando a sua estrutura fibro-elástica sofre várias "rachaduras" por ação de traumas, posturas erradas e idade. O núcleo perde a sua constituição físico-química com o passar dos anos e pode alterar-se completamente. A esse conjunto de modificações damos o nome de discopatia, ou seja, doença do disco intervertebral. Como o disco lesado tem as características dos distúrbios produzidos pela artrose, na articulação, a lesão é denominada também de discartrose.

Figura 3 Orifício de conjunção e seus componentes: vértebra, disco (núcleo), articulação e nervo.

Em alguns casos em que o núcleo se mantém íntegro e por um movimento intempestivo (levantar um bujão de gás ou trocar um pneu) ele é expulso por algumas daquelas rachaduras existentes no "anel fibroso", formase, conseqüentemente, a hérnia de disco, que veremos mais adiante.

Um disco alterado, com discopatia ou discartrose, deve continuar a desempenhar suas funções dentro do conjunto da coluna, quais sejam a de agüentar o peso da pessoa e colaborar na movimentação corporal.

Mas ocorre que a degeneração de, um disco faz com que sua atuação fique alterada e tenha que desempenhar uma função para a qual não está mais preparado. O disco normal tem um núcleo gelatinoso e um anel fibroelástico que amortece o peso do corpo que ele tem que suportar, sem se deformar, achatando-se durante o dia e voltando ao normal à noite.

No disco degenerado ou lesado isso não ocorre mais e a "pressão" que as vértebras fazem produz uma força que se transmite diretamente sobre o disco, provocando o seu achatamento e fazendo com que ele seja deslocado da sua posição normal. Então, ocorre como num sanduíche de hambúrguer em que o "pão" acima e o "pão" de baixo são os corpos vertebrais, e o hamburger, o disco.

Figura 4 Orifício de conjugação alterado. Disco intervertebral diminuído, vértebras com osteófitos e articulações sem espaço articular. Tudo isso comprime os nervos. Compare com a figura 3.

Na hora da mordida, a mão aperta o pão de cima sobre o de baixo e há um deslocamento de hamburger por toda a superfície circular do pão, em alguns lugares mais e em outros menos, saindo de seu local por pressão, assim como o disco que sai de sua posição normal por ter que agüentar o peso do corpo.

Esse "pedaço" de disco que sai por "pressão do peso" tem que se deslocar para fora do corpo vertebral, porém não pode ficar solto no ar. Para isso o organismo faz uma espécie de prateleira fibrosa que depois de algum tempo se calcifica, transformando-se em osso. É o que os médicos chamam de osteófitos e os leigos denominam de "bicos de papagaio" devido ao aspecto que adquirem na radiografia, semelhante ao bico da ave (Fig. 4).

Portanto, esse "bico de papagaio" é uma proteção de que o próprio organismo lança mão no sentido de calcificar não só uma parte do disco como uma saliência da vértebra que o sustenta.

Os esteófitos que causam dano são os posteriores, pois apertam a saída da terminação nervosa do orifício de conjugação e com isso provocam a dor.

A maioria das pessoas em que, com o passar dos anos, o disco vaise desgastando e saindo de seu local anatômico apresenta esses "bicos de papagaio" que por si sós não são a causa da dor.

Nervos Espinhais ou Raquidianos - A medula espinhal, situada dentro da espinha, corresponde a um prolongamento do sistema nervoso central, localizado no cérebro. A medula espinhal libera os nervos espinhais que "descem" de cima para baixo, ou seja, os da região do pescoço vão para os braços; os localizados no dorso dão a volta no tórax; os da região lombar vão para as pernas. Os nervos raquidianos que saem da medula são mistos, tendo um ramo anterior ou motor e um ramo posterior ou sensitivo, que se fundem em um só. Os ramos motores vão inervar os músculos da região, dando a possibilidade de movimentá-los. O ramo sensitivo vai para a pele, dando a sensação de dor, numa distribuição, conforme se vê no esquema (Fig. 4).

Os nervos que saem pelo orifício de conjugação ocupam pela sua espessura 1/4 a 1/5 do tamanho desse orifício, sendo o restante preenchido pelas veias, artérias e um tecido conjuntivo, frouxo, que pode sofrer um processo inflamatório e também colaborar no estreitamento da saída do nervo. Esses nervos, depois de saírem do orifício de conjugação, se juntam formando uma verdadeira rede que recebe o nome de plexo. Por exemplo, na região do pescoço e do braço existe o plexo cérvico-braquial. Na região lombar existe o plexo lombo-sacro, que é a origem do nervo ciático, por demais conhecido. (Fig. 5)

A medula, assim como o cérebro, faz parte do sistema nervoso voluntário, ou seja, aquele que está sob o controle de nossa vontade. Agora estou com o braço levantado, quero abaixá-lo. O sistema nervoso voluntário divide-se em sistema nervoso central (formado pelo cérebro e a medula nervosa) e o sistema nervoso periférico (constituído pelos nervos raquidianos, que saem através do orifício de conjugação).

Além disso, existe o sistema nervoso involuntário, ou seja, aquele que não é controlado por nossa vontade e que fica na intimidade de todas as vísceras. O batimento do coração, o movimento do intestino, a contração da bexiga, a dilatação dos brônquios, a respiração, etc. são exemplos da ação do sistema nervoso involuntário, que pode ser dividido, por características que não cabe aqui analisar, em sistema nervoso involuntário simpático e parassimpático.

Os distúrbios do sistema nervoso central são: 1 - Os do cérebro, muito complexos e amplos, entre os quais, neste livro, faremos especial referência às psicoses e neuroses. 2 - As alterações da medula nervosa são menos numerosas. O que nos interessa aqui são os distúrbios dos nervos raquidianos: "dores nas costas", formigamentos, adormecimentos, etc.

Figura 5 Distribuição dos nervos periféricos, que saem dos orifícios de conjugação de toda a coluna. Verificar que os nervos da região cervical vão para os ombros e braços; os nervos da região lombo-sacral vão para as pernas e pés.

As falhas do funcionamento do sistema nervoso involuntário são chamadas de distonias neurovegetativas, hoje muito conhecidas da população. Os exemplos dessas distonias são inúmeros: choros freqüentes, sem razão aparente; disenterias, antes das provas; dor de estômago nos períodos de tensão; vontade de urinar ou palpitações nas ocasiões de medo etc. São atitudes que não conseguimos controlar. A medicina moderna não conseguiu ainda descobrir exames laboratoriais para medir as distonias neurovegetativas, que podem ser confundidas com os problemas da própria víscera em si. Como identificar se o paciente que tem vontade de urinar a todo instante o faz por uma inflamação na bexiga ou porque está com algum temor? As dores de maneira geral é que trazem maior dificuldade de identificação. Quando uma dor é causada por um problema físico (por uma cãibra, espasmo ou contração) ou por uma alteração psíquica, ou um distúrbio neurovegetativo? Ou seja, quando uma dor é "real" ou "imaginária"?

Os dois sistemas nervosos, o voluntário e o involuntário, acham-se muito ligados à altura do orifício de conjugação.

Existe um grupo de médicos que atribuem todos os distúrbios do corpo humano à coluna vertebral: são os quiropatas, um pequeno número de médicos dos Estados Unidos e que praticamente só existem lá. No Brasil, não são reconhecidos por lei e não se têm notícias da sua existência.

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