Endireite as Costas

Endireite as Costas

(Parte 3 de 7)

A acupuntura, milenar arte oriental, aplica uma série de agulhas, talvez na saída dos ramos do sistema nervoso involuntário, obtendo melhora de estados de distonia, que anteriormente não se tinham beneficiado com outros tratamentos. Nos países orientais, a acupuntura não é considerada uma atividade exclusivamente médica e no Brasil não é uma atividade regulamentada.

Na prática, observa-se que o sistema nervoso simpático, localizado no pescoço, pode produzir uma série de distúrbios, tais como dor de cabeça, vertigens, distúrbios nasais, alterações da sensibilidade do rosto, barulhos no ouvido, apesar de os diversos componentes da região estarem íntegros. Em tratamento da coluna cervical, temos percebido em vários pacientes uma melhora da surdez, a resolução de problemas relacionados com o olfato e principalmente de resolução de cefaléias crônicas.

Temos também visto inúmeros indivíduos com distúrbios de estômago, vesícula e urinários terem alívio desses sintomas quando são tratados da coluna vertebral na região lombar. A explicação científica desses fatos ainda precisa ser pesquisada, sendo aqui referida como a existência de uma possível correlação.

Ligamentos - São estruturas importantes na coluna que limitam os movimentos. Têm capacidade de defender a espinha contra batidas, deslocamentos dos braços, cabeça e pernas.

Os ligamentos ficam, com toda certeza, alterados com os distúrbios das vértebras, dos discos, dos músculos, porém ainda não temos meios clínicos e laboratoriais de diagnosticar os problemas relacionados com eles. Quando os leigos usam as expressões "entorse de coluna" ou "distensão na espinha", acredita-se que esses ligamentos foram afetados, porém os músculos, as vértebras e os discos, com toda certeza, também foram atingidos.

Artérias e veias - A circulação da coluna é feita abundantemente por veias e artérias. Na coluna cervical existe a artéria vertebral que corre paralelamente à coluna cervical e que, segundo o prof. Kerr, de Strasburgo, pode causar uma série de alterações relacionadas com equilíbrio, vertigem e inclusive distúrbios mentais.

Músculos - Os músculos da coluna, de maneira geral, são muito grandes, constituindo provavelmente as maiores massas musculares do organismo.

Estes músculos, se bem que formados precocemente no organismo do homem, só irão ter função depois do seu nascimento. Os músculos, ao começarem suas atividades após o nascimento, moldam as curvas da coluna. Assim, a coluna do feto no útero materno não tem curvatura e só existe um músculo em atividade, o iliopsoas. Depois, quando o nenê levanta a cabeça nas primeiras semanas de vida, está fazendo o primeiro movimento antigravitacional, daí surgindo a curva do pescoço.

Quando engatinha está fazendo um movimento antigravitacional (veja no próximo capítulo) do tronco às custas do desenvolvimento e atividade dos músculos das costas e das nádegas.

Os músculos das costas da maioria dos animais não são tão fortes quanto os do homem, em quem a musculatura deve manter a coluna em posição ereta, de pé, e não permitir que o corpo caia para frente, para trás ou para os lados. Reparem a dificuldade.que o cão tem em ficar de pé sobre duas patas. Não fica mais que alguns segundos, porém se ficar sentado agüentara mais tempo porque a coluna se apóia sobre a bacia.

Postura é um equilíbrio de forças musculares que "seguram" o corpo do homem para que fique de pé, numa posição adequada que não cause danos às estruturas orgânicas.

Assim, existe um equilíbrio muscular que permite adquirir a postura adequada, porém devemos notar as seguintes características:

1. Os músculos da região posterior do corpo são maiores, mais volumosos e são responsáveis pela manutenção da posição ereta. (Fig. 6) 2. Os músculos da frente da coluna são fracos. No pescoço, os músculos estão de lado e correspondem ao esternocleido mastóideo. No abdômen, correspondem ao músculo reto-anterior da frente do abdômen. 3. A bacia, fator importante no equilíbrio da coluna, tem nas nádegas a musculatura posterior e um poderoso músculo chamado iliopsoas na face anterior.

Os músculos da coluna estão presos através de uma aderência nas apófises transversais e espinhosas e no próprio corpo vertebral, como será explicado mais adiante.

Curvas de coluna - Pode-se ver na Fig. 1 que a coluna vista de frente e de costas, na sua posição normal, de pé, não tem curvas. Vista de lado, pode-se constatar que existe a curva do pescoço, a que se segue a curva da região torácica ou dorsal e a curva da região lombar. Essas curvas são chamadas de lordose, tanto na região cervical como na lombar, e cifose na região dorsal.

As curvas que surgem na posição lateral são chamadas de escoliose e a acentuação da curva torácica chama-se cifose (corcunda).

Movimentos da coluna - A coluna realiza movimentos de flexão (corpo para baixo), extensão (corpo para trás), lateroflexão (corpo para o lado) e rotação. Esses movimentos são realizados só no pescoço e na região lombar às custas do pequeno movimento das vértebras locais e da coluna como um todo, sem dor. A região torácica, por causa das costelas, não se movimenta. O maior desgaste da coluna está, pois, localizado nos dois segmentos mais móveis. Na região cervical, na transição para o tórax, chamado de C5-C6-C7 (a letra C corresponde ao nome da vértebra da região cervical e o número representa a contagem da vértebra de cima para baixo). Na coluna lombar esse segmento corresponde à área de maior movimentação L4-L5-S (ou seja da quarta e quinta vértebra lombar e o osso sacro).

Figura 6 A poderosa musculatura das costas. Notar que são várias camadas musculares, que permitem ao homem ficar de pé. As partes brancas são as "fascias" musculares, locais de inserções nos ossos da coluna, nos omoplatas e nos ilíacos.

I. POSTURA - EQUILÍBRIO ADEQUADO Introdução

A posição ereta bípede do homem resultou da evolução da espécie em milhões de anos de seleção natural, segundo a concepção darwiniana, pela qual as espécies que apresentam variações favoráveis são preservadas e as que apresentam mudanças desfavoráveis tendem a ser destruídas.

O homem é da família dos primatas, que inclui, entre outros, os macacos, e é de aparecimento tardio na evolução, estando incluído na classe dos mamíferos.

Os primeiros mamíferos apareceram na terra 90-50 milhões de anos atrás. Gradualmente, os membros posteriores se adaptaram para sustentar o peso do corpo, as mãos para apanhar comida e segurar objetos interessantes para melhor examiná-los.

Nesse período, os mamíferos tiravam a sua alimentação das árvores altas, tendo assim que desenvolver agilidade e destreza. Através da seleção natural, da sobrevivência do mais apto, ocorreu que os olhos se deslocaram mais para a frente, permitindo uma visão tridimensional, em profundidade, e com isso o cérebro foi aumentando constantemente de tamanho, até atingir seu ápice nos macacos, que correspondem na evolução da espécie aos seres que surgiram há milhões de anos atrás. Cinco dedos se desenvolveram em cada um dos membros, que posteriormente se tornaram móveis; surgiu a clavícula, que serviu de suporte, quando os braços se moviam lateralmente.

A adoção da postura ereta esteve associada à libertação dos membros superiores da locomoção para a fabricação de objetos e instrumentos de caça, além de aumentar o campo de visão.

Os membros superiores desses animais tinham que desenvolver a clavícula, para permitir o desenvolvimento dos braços para as laterais e também aumentar a versatilidade de se suspender em árvores. Nos quadrúpedes, por exemplo, lobos e búfalos, a clavícula é rudimentar, porque as patas dianteiras devem aproximar-se da linha dianteira, para caminhar. Essas necessidades também obrigaram o omoplata a deslocar-se posterior e medialmente, e o músculo peitoral aumentou nos primatas.

Outra modificação foi que, devido à função de apreensão dos galhos, o polegar ficou afastado dos outros dedos, o mesmo ocorrendo no dedo correspondente dos pés. À medida que o homem foi deixando as árvores e passando a andar no chão, o grande artelho dos pés foi perdendo essa função de apreensão e passou a colaborar no equilíbrio do corpo e, na evolução de milhões de anos, veio para frente com os outros dedos, como é atualmente no nosso pé.

Quando o homem ficou apoiado sobre os dois pés, a função da pélvis ficou mais complexa, porque teve que sustentar todo o peso do corpo.

De início houve necessidade de aumentar a eficiência do assoalho pélvico, que ficou envolvido em três camadas de músculos que se cruzaram para dar melhor sustentação. Com o ajustamento da pélvis, o centro de gravidade também foi deslocado, distribuindo o peso do corpo sobre as duas pernas.

Os músculos que ligam a coluna lombar com o Fêmur - o ílio psoas e o ilíaco - e que flexionam o quadril e os três músculos da região posterior das pernas - o semimembranoso, o semitendinoso e o bíceps femoral - todos originários da tuberosidade isquiática e se inserindo na tíbia, agem flexionando o joelho, mas também puxam o tronco para trás ou levantam quando está flexionado para frente.

Coluna vertebral na postura ereta

A posição ereta do homem só foi possível pelas modificações que surgiram na coluna. A cabeça teve que se equilibrar na porção superior da coluna e, assim, permitir que os olhos pudessem ficar voltados para a frente; a cabeça e o tronco tiveram que se equilibrar sobre os membros inferiores, por meio da cintura pélvica; e o corpo todo teve que se apoiar no espaço ocupado pelas plantas dos pés, com isso modificando o centro de gravidade.

Essas manobras só foram possíveis pelo aparecimento das curvas lordóticas, secundárias, na região cervical e na lombossacra; nisto desempenhou papel fundamental a massa muscular, por desenvolver uma força antigravitacional poderosa, que permitiu aos primitivos seres antropóides erguer-se do chão, adquirir a postura ereta, mantê-la e andar. Esses atos eram voluntários, comandados pelo sistema nervoso central, e, com o passar dos séculos, transformaram-se em atos regulados pelo sistema nervoso involuntário.

O feto da espécie humana encontra-se, no útero, numa posição de flexão total, com a coluna em "C", cifótica. O único músculo de inervação voluntária que está em atividade é o iliopsoas, que permite ao feto dar pontapés. Este, porém, não pode dar cabeçadas.

Na vida pós-natal, a criança consegue, logo nas primeiras semanas, levantar a cabeça, o que é feito pela presença da musculatura antigravitacional do pescoço e resulta na formação da lordose cervical. Aos nove meses, quando a criança começa a engatinhar e a sentar, surge a presença da musculatura da região lombar, antigravitacional, que molda a curvatura da coluna na região lombossacral. O início do amadurecimento neuromuscular, que se manifesta no controle dos esfíncteres e dos glúteos, permite à criança ficar de pé. (Fig.7)

As curvas são divididas em primária, que já existe no feto e é a cifose dorsal, e secundárias ou adquiridas, que são as lordoses cervical e lombar.

Essas curvas (lordose cervical e lombar), convexas anteriormente, são moldadas pelos músculos e pelos discos intervertebrais, que são cuneiformes. Na região dorsal, a curvatura é côncava anteriormente e determinada pelas alturas dos corpos vertebrais.

Os bebês devem passar os primeiros meses em pronação ou supinação, ou seja, devem ser deitados em decúbito ventral, como ocorre no Brasil e nos Estados Unidos, ou em decúbito dorsal, como é tradição na Inglaterra ou vários países europeus. As crianças colocadas em decúbito dorsal têm maior desenvolvimento motor; alguns autores acreditam que esta posição seja a causa do aparecimento da escoliose infantil, comum na Inglaterra e praticamente inexistente no Brasil e nos Estados Unidos.

Figura 7 Evolução cronológica do desenvolvimento da postura no.homem. A -Coluna no útero não tem nenhuma curvatura. B - Formação da lordose cervical para suportar a elevação da cabeça. C - Formação da lordose lombar devido à força antigravitacional dos músculos

Durante os dois primeiros anos de vida, as vértebras lombares crescem rapidamente, com conseqüente alongamento lombar e aumento das nádegas, resultantes da posição ereta.

Acompanhando 600 crianças de um orfanato, verificou-se que, durante o crescimento, de 2 a 6 anos, os joelhos se aproximam (joelho valgo) para dar uma base mais ampla, feita por uma torção da tíbia.

A taxa de crescimento em altura diminui rapidamente nos dois primeiros anos e continua a diminuir na idade pré-escolar, havendo um pequeno aumento entre 1 e 14 anos, para as meninas, e entre 12 e 15 anos, para os meninos. A mesma evolução ocorre em relação ao peso.

Até os 9 anos, não há diferenças significativas entre meninos e meninas, apesar de as meninas serem um pouco mais gordas e um pouco mais baixas. A partir daí, as meninas crescem mais rapidamente e essa taxa de crescimento continua por 2 a 3 anos, sendo a velocidade máxima atingida por volta de 12 anos, aproximadamente um ano antes da menarca. Nos meninos, tudo ocorre dois anos mais tarde. Entre 16 e 18 anos, cessa o crescimento em estatura e o ponderal.

O crescimento das partes do corpo é diferenciado. Durante a infância, o crescimento mais rápido é o da cabeça; depois, o do tronco. No segundo ano, as pernas começam a crescer mais rapidamente que o tronco, e isso continua até o início do crescimento da puberdade, quando, em ambos os sexos, o tronco cresce mais rapidamente do que os membros. Nos meninos, os ossos da cintura escapular crescem mais rapidamente do que os da cintura pélvica, e,nas meninas, vice-versa.

O peso corporal está em função da gordura, músculos e vísceras.

Os músculos constituem-se no maior contingente do peso corporal. No nascimento, constituem 25% do peso corporal, e, no início da adolescência, podem constituir 43% do peso corporal.

Evolução de Postura na Criança Coluna cervical e espáduas

Nas primeiras semanas de vida pós-natal, a criança estende a sua cabeça, surgindo então uma pequena curva lordótica compensatória posterior na região cervical. Quando, dali a meses, começa a sentar-se, aparece uma curva lordótica secundária, na região lombar. As curvas secundárias são formadas pela diferença de espessura do disco intervertebral que fica com forma cuneiforme; as curvas primárias (da região torácica-cifótica) dependem da diferença da altura da porção anterior e posterior dos corpos vertebrais.

Na região cervical e espáduas, há uma importante modificação da postura das crianças em torno da adolescência, adquirindo o aspecto cifótico típico, na posição de descanso, também chamado de espáduas arredondadas. (Fig. 8)

Essa postura inadequada é formada pelas seguintes características: 1) Ombros voltados para frente. Na maioria das crianças dos dois sexos, durante o curso primário, a extremidade do acrômio está voltada anteriormente, e com o eixo do antebraço voltado para trás; 2) Escápula móvel: A borda vertebral e o ângulo da escápula estão mais altos e mais móveis permitindo uma mobilidade maior; 3) Projeção do pescoço anteriormente é praticamente uma constante; quando o pescoço fica "reto" (paralelo à linha de gravidade) surge uma Iordose mais acentuada, que é corrigida com o retesamento das espáduas para trás e lançamento da cabeça para trás. Projeção da cabeça para frente é muito rara; a cabeça geralmente se estende quando o pescoço se projeta para frente, de modo que os olhos são trazidos de volta para a posição horizontal!

A espádua arredondada é um achado muito comum no começo do surto de crescimento; é muito importante fazer o diagnóstico diferencial com a cifose juvenil ou doença de Scheuermann (veja adiante esse tema).

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