Endireite as Costas

Endireite as Costas

(Parte 4 de 7)

Coluna lombar

Durante os dois primeiros anos de vida, as vértebras lombares crescem rapidamente, com conseqüente alongamento da região lombar e também das nádegas. Isso provoca o aumento da lordose nas crianças até 8 anos de idade.

O alongamento da porção lombar está provavelmente associado com o fato de andarmos sobre os pés, pois os músculos quanto mais longos tornam o andar mais fácil e eficiente (Fig. 9).

Dois fatos importantes chamam atenção: 1) Os músculos posteriores da coxa, se forem demasiadamente esticados nos exercícios de flexão (a tentativa de tocar os dedos dos pés com a ponta dos dedos) podem danificar as vértebras em crescimento, causando osteoartrites, como na doença de Scheuermann. 2) Em algumas crianças de 6 a 8 anos há dificuldade de fazer flexão da espinha toracolombar sem nenhuma razão aparente. Não se deve forçar. Essa rigidez pode persistir até a idade adulta e alguns autores acreditam que forçar esses músculos com exercícios poderia ser a causa de uma espondilolistese. Muitas vezes, a "rigidez" pode ser devida aos ossos da bacia, o que leva a um aumento da curvatura lombar e limitação de flexão.

De qualquer modo, deve-se chamar atenção para o fato de que as tentativas de alongar esses "tendões", "músculos", ou "melhorar os ossos", através de exercícios vigorosos, pode causar danos à vértebra nessa idade, que poderão trazer conseqüências na vida adulta.

As crianças, devido à flexibilidade da coluna, conseguem encostar a ponta dos dedos da mão nos dedos dos pés; entretanto, aquelas que não o conseguem deveriam ser desencorajadas de tentar fazê-lo.

No segundo e terceiro anos de vida, a postura corporal típica da criança é um abdômen proeminente, e uma lordose acentuada é o método da criança para distribuir o peso e conseguir o equilíbrio.

A lordose, ou o grau de inclinação da pélvis, é muito variável, podendo ser pequena (28 graus) ou grande (40 graus). A lordose entre meninas é maior do que entre meninos (Fig. 10). A criança mantém seu equilíbrio curvando-se para frente e mantendo os joelhos levemente dobrados.

Com 7 anos de idade em diante, a criança tende a inclinar a pélvis e projetar seu abdômen e hiperestender seus joelhos, desse modo distribuindo seu peso igualmente nos dois lados da linha de gravidade. Nos anos escolares, as medidas de inclinação da pélvis podem chegar aos 30 a 40 graus, depois vão diminuindo com o crescimento. A partir dos 18 anos, essa inclinação é constante em 18 a 20 graus.

Figura 8 Menina de treze anos: espádua arredondada.

Figura 9 1 1/2 anos; (a) andando em uma base ampla; (b) aprendendo a se equilibrar.

Outros Detalhes de Postura Crescimento

Antes da puberdade, os membros crescem mais rapidamente do que o tronco; mas com o aumento da velocidade de crescimento em geral, o tronco começa a crescer mais depressa. Na puberdade, as taxas de crescimento do tronco e extremidades são aproximadamente iguais, mas o tronco continua a crescer após as extremidades terem diminuído a velocidade de crescimento pós-adolescência.

Essa diferença das taxas de crescimento causa diferenças entre a altura nas posições sentada e de pé. A altura em posição sentada representa 70% da altura total até os 3 anos, mas aos três anos de idade passa a ser 57% da altura total e desce para 52% aos 14 anos (meninos) e 16 anos (meninas). (Fig. 1)

Centro de gravidade

As proporções acima descritas obrigam a uma acomodação variável do corpo a um centro de gravidade. Por essa razão, a característica da postura da criança de 6 a 12 anos (meninos) e 6 a 10 anos (meninas) é sua extrema mobilidade. As crianças menores estão sempre mexendo a cabeça, os braços, os joelhos, dobrando o tronco para frente; se lhe for pedido que faça um exercício (correr ou pular) a criança, quanto mais jovem, leva um certo tempo até adaptar o centro de gravidade corporal. A inclinação da pélvis ajuda esse equilíbrio, como já vimos antes, nas crianças de menos idade; elas, à medida que chegam à puberdade, vão adquirindo maior estabilidade postural.

Joelhos e pernas

No segundo ano de vida, a criança vai aos poucos adquirindo a habilidade de se firmar em pé e de se equilibrar, tanto lateral como anteroposteriormente. Ela anda e fica de pé, com uma base ampla com as pernas separadas. A distância fica maior devido às fraldas e nos casos de luxação congénita do quadril.

Figura 10 Menina de 1 1/2 anos; postura característica.

Recém-nascido 2 anos 4 anos 1 anos 14 anos Figura 1 Mudanças nas proporções do corpo (modificado conforme Ellis, 1947).

A inclinação pélvica é variável e o abdômen é saliente. As pernas ficam parcialmente fletidas nos joelhos e os braços, abduzidos e levemente flexionados no cotovelo, como se estivessem se equilibrando com asas parcialmente desdobradas. Os pés geralmente são chatos.

Dos 2 aos 6 anos, as pernas se aproximam entre si e o joelho fica mais para dentro da linha mediana (joelho valgo). Como porém ainda há necessidade de uma base ampla de apoio, e também de equilíbrio lateral, surge uma certa torção da tíbia. Ao final desse período (6 anos), o abdômen fica menos proeminente e os pés começam a formar uma arcada bem desenvolvida.

Em resumo: pode-se dizer que as pernas arqueadas são uma constante na faixa de 1 a 3 anos; o joelho valgo frequente na idade de 2 a 6 anos; e a presença de uma cifose (costas arredondadas) na adolescência.

Peso corporal

Os autores têm referido que em ambos os sexos há uma diminuição marcante no peso ganho durante os dois primeiros anos de vida. Durante os anos pré-escolares, o ganho de peso é lento. Nos primeiros anos escolares, o aumento em altura e peso são constantes. No início da adolescência, o peso e altura crescem mais intensamente. O aumento de peso, no entanto, se dá por um período mais longo do que o aumento de altura. As meninas tendem a perder peso depois que a estatura adulta é atingida (aproximadamente 17 anos); elas parecem mais magras do que aos quinze. Os rapazes continuam a ganhar peso até 21 anos, sendo os músculos os responsáveis por grande parte desse aumento. As vísceras também influem no peso.

A distribuição de gordura, que varia do bebê gordo até a criança préescolar magra, está relacionada com determinantes genéticos, mas também influências ambientais, sociais, culturais e econômicas do meio em que a criança vive.

Os músculos constituem 25% do peso do corpo no nascimento. No início da adolescência correspondem a 3% e aos doze anos podem chegar até 43%.

Nos animais que andam sobre quatro patas, a coluna não desempenha o papel de sustentação do corpo; por essa razão, praticamente, não há desgaste. Os casos de discartrose ou de dores nas costas de cães, gatos ou cavalos, são quase desconhecidos.

Porém, se analisarmos o homem na posição ereta, sobre dois pés, pode-se verificar que o eixo de sustentação passa pela coluna vertebral.

Todos conhecem a lei da gravidade, descoberta pelo sábio inglês

Newton, que diz que os objetos tendem a cair no chão porque a Terra exerce uma atração como se fosse um verdadeiro ímã. Na evolução da escala animal, quando o homem começou a levantar-se do chão, estava tomando uma posição antigravitacional, ou seja, tinha que fazer uma força maior para vencer essa força de atração que é a gravidade. Repare o esforço que faz um nenê, quando começa a andar, para se levantar do chão. Está fazendo força com seus músculos ainda mal preparados para superar essa força da gravidade que procura atrair a cabeça, as vísceras e o tronco para o chão.

Assim, a posição ereta do homem sobre dois pés só foi possível graças à coluna e aos músculos. A coluna teve que se adaptar, e, ao invés de ser um tubo rígido, passou a ter as curvas que vimos em páginas anteriores. Os músculos também tiveram que se desenvolver em várias camadas nas costas para permitir que a coluna mantivesse a posição vertical, que é antigravitacional.

Assim, a manutenção da cabeça ereta só foi possível às custas da estrutura óssea da coluna cervical e do desenvolvimento dos músculos adequados no pescoço; caso contrário, a cabeça estaria sempre pendendo para o peito, em virtude do seu peso. O mesmo raciocínio aplica-se ao tronco. Dificilmente poderíamos ficar de pé, sem cairmos para frente ou para trás, se não fosse a sustentação da coluna e da força realizada pelos músculos das costas.

No início, esse esforço da criança para ficar de pé é realizado pelo sistema nervoso central, também chamado de sistema nervoso voluntário. Assim, o homem tinha vontade ou, melhor ainda, tinha necessidade de ficar de pé, porque deveria apanhar os alimentos nas árvores. Então, o homem primitivo tinha que "pensar", arrumar o corpo, para ficar de pé Com o passar de milhões de anos, o ato de ficar de pé tornou-se automático. Hoje, qualquer um de nós, quando levanta da cadeira ou da cama, não precisa "pensar", nem comandar o corpo para ficar de pé. Isso significa que o ato de ficar na posição ereta, acionar os músculos correios, colocar a coluna vertebral em atitude correta é função do sistema nervoso involuntário, inconsciente, não regido pelo cérebro e pela mente, mas orientado por reflexos. Ou seja, os músculos conseguem vencer a força de gravidade, naturalmente, sem esforço, porque isso foi um aprendizado de milhões de anos da espécie humana.

Mas fixem-se essas idéias: (1) A mente, a vontade pode influir na postura; (2) A maior parte dos movimentos da postura de pé, ereta, são automáticos; (3) A mente pode tornar a influir na postura, mesmo essa sendo automatizada; (4) Outros fatores ambientais podem influir na postura; por exemplo: carregar malas, móveis inadequados ou tipo de trabalho a desempenhar, etc. (5) Os músculos são os principais agentes da postura. Devem se contrair e descontrair harmoniosamente. Quando estão "duros", "tensos", a postura é pior. Quando são muito "moles", também a postura piora; (6) A coluna é a segunda estrutura que influi na postura, mas a primeira ação é orientada pelos músculos, como veremos mais para frente.

Existe, pois, uma postura corporal, que preenche as necessidades biomecânicas da estrutura do corpo e permite, com esforço muscular mínimo, manter a posição ereta do adulto.

Há uma aceitação geral de que, quando temos uma postura "boa" ou ideal, a linha de gravidade deve passar pelos seguintes pontos: apófise mastóide (no rosto, osso da maçã do rosto), extremidade do ombro, quadril e anteriormente ao tornozelo.

A interpretação da postura corporal varia conforme o especialista que a analisa: o neurofisiologista, o ortopedista, os especialistas paramédicos (fisioterapeutas, professores de Educação Física) e a própria pessoa.

A postura dinâmica é a posição que o corpo assume na preparação do próximo movimento. A posição de pé, estática, não seria uma verdadeira postura. Um animal descerebrado, ou seja, que tem os movimentos, vive e respira, mas tem lesão da área motora do cérebro, não pode adotar os movimentos necessários para enfrentar os desafios do meio ambiente em que vive, sendo facilmente morto. Da mesma maneira, um indivíduo que tem todas as suas articulações anquilosadas pode ficar de pé, mas não terá condições de se adaptar às necessidades do meio ambiente ou mover-se para assumir qualquer outra forma de postura.

Postura envolve o conceito de balanço (equilíbrio), coordenação neuromuscular e adaptação e deve ser aplicado a um determinado momento corporal e para uma determinada circunstância - postura para andar, postura para jogar tênis ou dar a partida para uma disputa de natação.

A posição do corpo no espaço é a que dá um bom relacionamento entre as partes com o menor esforço, evitando a fadiga. É óbvio que, com isso, pode-se admitir que existem posturas melhores e uma ideal. Mas esses padrões variam muito até os 10 anos de idade, quando as crianças estão constantemente testando novas maneiras de reagir à gravidade. Existem padrões culturais e mentais que influem na postura. O porte, a atitude e a pose, que são às vezes usados como sinônimos de postura, são eventos transitórios e podem ser diferenciados. O porte significa o modo de andar, a pose é a postura forçada para uma foto, ou até de exibicionismo, e a atitude postural está mais ligada com estados emocionais, tais como medo e cólera.

A postura no adulto é mais que isso. É um hábito permanente de colocar o corpo no espaço, posição a que o indivíduo sempre volta depois do exercício e do descanso. É característica do indivíduo e, provavelmente, depende da "imagem" que a própria pessoa faz do seu corpo.

Outra definição é a posição do corpo que envolve o mínimo de estiramento e de stress das estruturas do corpo, com o menor gasto de energia para se obter o máximo de eficiência no uso do corpo. Autores acreditam que, usando as linhas de referência que passam pela metade do corpo, tanto por trás como pela frente, pode-se ter um alinhamento básico que corresponde a uma postura padrão estática. Pode-se obter essa postura simplificada deixando-se passar um fio de prumo bem no meio da cabeça, passando pela frente no meio das pernas e atrás no sulco interglúteo. Quando essa linha de referência postural coincide com a linha de gravidade, a postura estaria adequada e, portanto, seria a "ideal".

A Academia Americana de Ortopedia definiu a postura como sendo um arranjo relativo das partes do corpo; e define, como critério de boa postura, o equilíbrio entre as estruturas de suporte do corpo, os músculos e ossos, que protegem o corpo contra uma agressão (acidente) ou deformidade progressiva.

As diversas posturas (de pé, deitada, dobrada para frente, agachada) podem, durante o repouso ou o trabalho, ser realizadas em condições mais adequadas, em que os músculos podem desempenhar as suas funções mais eficientemente. O esqueleto não está submetido a forças inúteis e os órgãos abdominais e torácicos ficam bem colocados. A má postura, segundo ainda essa entidade, é aquela em que existe essa falta de relacionamento das várias partes corporais, que induz um aumento da agressão às estruturas de suporte, resultando em equilíbrio menos eficiente do corpo sobre as suas bases de suporte.

A boa postura está associada com a saúde e vigor físico e, obviamente, a má postura com doença e mal-estar. A má postura está ligada a fatores musculares inadequados e, provavelmente, a problemas emocionais.

Toda posição que adquire o corpo no espaço corresponde a um novo eixo de equilíbrio adequado para que não se produza uma queda ao solo. Assim, no instante em que se procura levantar um objeto do chão, o centro de gravidade ou de equilíbrio do organismo é modificado, obrigando um grupo de músculos a se contraírem e outros a se relaxarem para permitir que o corpo fique nessa posição, sem cair.

A cada instante, o corpo humano executa seguidamente inúmeros movimentos, obrigando a coluna (vértebras, discos, articulações) e os músculos a uma ação constante de equilíbrio. Imaginem os movimentos executados pela menina Nádia Comaneci nos exercícios de ginástica ou por Pele, na realização de uma finta num jogo de futebol. Além de sustentarem o corpo equilibrado no espaço, por si só uma façanha, devem executar um movimento a mais que complemente a ginástica ou que impulsione a bola.

Esses movimentos são realizados graças às articulações da coluna e, novamente, sob o comando dos músculos; os discos e as vértebras influem relativamente pouco.

Para entender e estudar melhor esses movimentos e equilíbrios foram usados os conceitos da Física e, em particular, os da Mecânica.

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