Endireite as Costas

Endireite as Costas

(Parte 5 de 7)

A Mecânica estuda a ação de forças sobre os corpos materiais; quando se estudam os organismos vivos é a biomecânica. Ambas podem ser divididas em estática (corpos em equilíbrio, parados) e dinâmica (corpos em movimento).

A mecânica dinâmica se divide em cinemática - que estuda os movimentos independentes da causa inicial - e cinética, que estuda as forças geradoras do movimento.

Em termos biomecânicos, a cinesiologia corresponde à cinemática e estuda os movimentos humanos, e aqui vamos referir especificamente os relacionados com a coluna. Em relação à cinética, pode-se afirmar que existem dois tipos de forças agindo sobre o organismo: uma interna, cuja principal característica é a contração muscular, e uma externa, que é a força da gravidade.

Para estudar os movimentos humanos é importante conhecer o centro de gravidade do corpo. Este pode ser definido matematicamente como sendo o ponto no qual se pode considerar concentrado todo o peso do corpo. Essa definição implica que posturas diferentes da mesma pessoa e pessoas diferentes têm como centro de gravidade locais diversos.

O centro de gravidade do corpo pode ser definido como: 1) o ponto exato em que o corpo poderia ser teoricamente rodado livremente em todas as direções; 2) o centro em torno do qual o corpo deveria ter o mesmo peso e 3) o ponto de interseção dos três planos cardinais do corpo: o sagital, o frontal e o transverso.

Como dissemos, há uma aceitação geral de que temos uma postura "boa" quando a linha de gravidade passa pelos seguintes pontos: apófise mastóide, extremidade do ombro, quadril e anteriormente ao tornozelo.

O centro de gravidade do corpo está mais ou menos a 4 centímetros da frente da primeira vértebra sacral, quando o indivíduo está na posição de sentido.

O homem adulto, em posição ereta, tem o centro de gravidade a 56 a 57% do total de sua altura a partir do solo; na mulher é de 5% de sua altura. Quanto mais jovem for a criança, mais alto e menos estável será o centro devido ao tamanho desproporcional da cabeça e do tórax. (Fig. 12).

No centro de gravidade está localizada a força de gravidade, que é a soma de todas as forças aplicadas aos constituintes do corpo. Essa força possui três características: 1) é uma força aplicada, cons-tantemente, sem interrupções; 2) só é aplicada numa única direção -ao centro da Terra; 3) atua sobre cada uma das partículas do nosso corpo.

Figura 12 Grupos de músculos antigravitacionais responsáveis pela postura ereta. 1. Tibial anterior; 2. Quadrfceps femoral; 3. Iliopsoas; 4. Abdominais; 5. Flexores do pescoço; 6. Extensores espinais; 7. Glúteo máximo; 8. Isquiopoplíteos; 9. Trfceps sural.

No centro de gravidade, a soma dos movimentos devido ao peso de todas as partes do corpo é igual a zero, atingindo assim um equilíbrio.

O equilíbrio do corpo é obtido quando está em repouso ou num movimento em contrabalanço de um outro conjunto de forças ou de movimentos. O conceito de equilíbrio está baseado na segunda lei de Newton, que diz que todas as forças e todos os movimentos devem ser balanceados com outros equivalentes para não movimentar um corpo.

Portanto, quando o corpo está em equilíbrio, diz-se que está balanceado, ou em balança. Esse equilíbrio, contudo, pode ser precário, mal balanceado, ou seguro, bem balanceado. Neste último caso, é dito que existe uma estabilidade. A estabilidade representa pois uma firmeza da balança, ou a habilidade de resistir às forças que pretendem desequilibrar essas estruturas. Os ortopedistas usam muito a expressão de instabilidade da região lombossacra. Existe um centro de balança ou equilíbrio, localizado no ouvido interno, e os olhos também exercem papel importante.

A postura corporal ereta (em movimento e/ou parada) é obtida pelo equilíbrio entre as forças que agem no centro de gravidade, puxando o corpo para o chão, e a força dos músculos antigravitacionais, que fazem esforço em sentido contrário. Se esses músculos falharem, o corpo colapsará em forma de flexão, pela ação da força da gravidade. Assim, a grande maioria dos músculos antigravitacionais são os músculos extensores, principalmente do pescoço, das costas e das pernas. Há inúmeros outros menos importantes, mas que contribuem para a postura. Esses músculos estão constantómente em contração, diferente dos outros músculos que necessitam de estímulos para se contrair.

Esses músculos posturais, antigravitacionais, são corrigidos por cinco tipos de reflexos quando há um desvio da postura ereta (reflexo de endireitamento ocular, reflexo de endireitamento corporal, reflexo de endireitamento de cabeça, reflexo de endireitamento do pescoço e reflexos labirínticos).

Postura Estática

Assim, damos o nome de postura à posição que o corpo assume no espaço em função do equilíbrio desses quatro constituintes anatómicos: vértebras, discos, articulações e músculos.

A postura estática é o equilíbrio do organismo do homem na posição parada (de pé, sentado ou deitado) numa situação em que não cause nenhum dano a essas estruturas apontadas e nem produza dor quando essa posição for mantida durante muito tempo.

Assim, a postura estática, de pé, de um homem parado, é manter o olhar no horizonte, os ombros bem distendidos, o abdômen não proeminente e os pés ligeiramente afastados entre si. Mesmo nessa posição, existe uma grande variedade de formatos de coluna, todos normais e que têm algumas características de herança.

Por exemplo, as nádegas salientes de uma moça negra fazem com que a curva lombar da coluna fique mais acentuada, mas essa é uma característica que a jovem herdou e não adquiriu. O mesmo sucede com a conformação óssea, maior ou menor, da bacia, característica de certos tipos raciais.

Isso significa que o problema de postura estática é influenciado por fatores hereditários que são difíceis de determinar, mas que se manifestam na conformação dos ossos em geral. É evidente que esta estrutura, apesar de ser de constituição própria, pode ser modificada pelos hábitos da civilização.

A postura da pessoa sentada passou a se alterar com o passar dos anos, devido ao formato da cadeira, da mesa. O modo de o indivíduo andar variou devido ao uso do calçado e, na mulher, por influência do salto. É conhecido o hábito que tinham os chineses de impedir o crescimento dos pés das crianças, através do uso de bandagens restritivas.

Então, nessas novas posições espaciais do corpo, sentado numa cadeira, mantendo-se de pé sobre saltos, dormindo numa cama, existem posições que não causam danos às estruturas já apontadas e existem outras posições "viciosas", que causam o desgaste precoce daquelas estruturas referidas; agem principalmente sobre o disco.

O Dr. Nachemson colocou um aparelho especial de medir pressão dentro do núcleo pulposo do disco e verificou que, conforme a posição do corpo, ou seja, a postura, ou melhor, a posição espacial da coluna, essas pressões internas são muito variáveis. Na figura 13 pode-se verificar que só o fato de dormir de lado, ao invés de costas, causa uma variação de peso três vezes maior sobre o disco. Na pessoa deitada de barriga para cima, o disco suporta um peso de 25 kg (se for uma pessoa de 70 kg, não gorda); se ela se virar de lado vemos na figura que esse peso sobe para 15 kg; se ficar de pé, para 100 kg, e se ficar sentada, 150 kg.

Postura Dinâmica

A coluna participa da realização de todos os movimentos de deslocamento do corpo. Chamamos de postura dinâmica ao equilíbrio adequado na realização desses movimentos que devem ser executados sem dor.

Na posição adequada de equilíbrio, as vértebras, os discos, as articulações e os músculos, executam essa função sem desgaste, sem estragos. É como a engrenagem no câmbio de um carro ou a porta com as dobradiças cometas: ambos podem ser movimentados inúmeras vezes que não gastam, têm o mínimo de atrito. Mas se a engrenagem não está certa ou a dobradiça está falha, depois de um certo tempo há um desgaste, um atrito, e tanto o câmbio "arranha" como a porta "arrasta".

Figura 13 Pressões que o 39 disco lombar sofre, numa pessoa de 70 quilos, conforme a posição do corpo e, portanto, conforme a postura.

No organismo humano acontece a mesma coisa: se todos os movimentos não são executados com equilíbrio adequado (postura) as estruturas anatómicas sofrem um desgaste precoce que irá criar condições especiais para que os nervos que saem da coluna, próximos a essas estruturas desgastadas, sejam agredidos, surgindo as "dores nas costas" tão incômodas.

Estabilização da postura e sua definição

Essas mudanças nas proporções e no crescimento necessitam de ajustamentos do corpo à gravidade. A inclinação da pélvis pode diminuir 25 ou 30 graus, os joelhos são muitas vezes dobrados levemente: a hipertensão dos joelhos já não é necessária a fim de equilibrar o abdômen bojudo.

Assim, na escola primária, a criança tem um período de intensa mobilidade, na faixa de menor idade (a partir dos 6 anos), e um período mais estático, na faixa de idade mais elevada (10 anos para meninas e 1 1/2 para os meninos). Esse período mais estático coincide com o início do "arranco" no crescimento. A estabilização do padrão postura! está se dando vagarosamente e se ajustando definitivamente à gravidade.

Existem, pois, fatores mecânicos de má postura, relacionados com posições inadequadas, repetitivas, de trabalho ou repouso, que, com o passar dos anos, podem causar distúrbios musculoesqueléticos. Há também fatores orgânicos, doenças tais como cifose, escoliose, espondilite, coxa vara, coxartrose, discartrose, cujas dores obrigam a pessoa a assumir uma postura viciosa para aliviá-las. E há fatores emocionais que influem na postura corporal adequada. Platão já dizia que movimentos corporais harmônicos se traduzem em satisfação mental. A consciência corporal está associada à autoconsciência mental e psíquica. Em certas desordens mentais, o indivíduo dissocia a sua consciência de seu corpo e passa a mutilá-lo, como se fosse outrem.

O relacionamento psiquismo-corpo é, na realidade, um triplo problema: 1) Má relação consigo próprio, com respeito ao seu próprio organismo e sua vida interior. 2) Má relação com a realidade física, com respeito ao espaço (dificuldades de orientação, de posição ou lateralidade) e ao tempo (dificuldade de coordenação rítmica, na sucessão dos movimentos). 3) Má relação com os outros, entrando aí a vida de relação social e sexual.

O prof. R. Ducroquet, de Paris, que escreveu um tratado sobre a marcha nas pessoas normais e nas doentes, usando uma técnica cinematográfica para decompor todos os movimentos executados, concluiu que o fator psíquico é um elemento de grande importância na postura tanto estática como dinâmica. Diz, inclusive, que os psiquiatras fazem muitos diagnósticos do estado psicológico de seus pacientes, observando o tipo de marcha que apresentam e que ela se modifica no mesmo paciente depois do tratamento. Isso, aliás, é de observação corrente. A pessoa deprimida anda cabisbaixa, com os ombros arqueados, as pernas semifletidas, como se tivessem que carregar todo o peso dos problemas do mundo nas costas.

O otimista enfrenta o mundo de frente, olhando as pessoas nos olhos, com uma disposição mais acentuada de resolver os problemas.

Os médicos que lidam com problemas de coluna sabem que os angustiosos, os neuróticos etc. têm uma tendência maior de apresentar dores na coluna, porque têm uma postura viciosa, tanto para andar, como para trabalhar, ou sentar. Enfim, o seu modo de viver em geral está sendo feito numa atitude mental incorreta, que tem seus reflexos sobre o equilíbrio postural adequado, o que por si só causa dores. Depois de algum tempo nessa situação, surgirão inevitáveis desgastes daquelas estruturas apontadas e conseqúentemente novas condições para agressões sobre o nervo, originandose novas e mais dores na coluna.

Imagem Corporal

A imagem corporal que cada pessoa faz de si própria colabora na melhoria da postura. Normalmente, estamos bem conscientes de nossos braços e mãos, menos conscientes de nossas pernas (exceto dos pés quando doem), mas muito poucas pessoas têm consciência do seu tronco. Por isso é importante, para os problemas de postura, desenvolver a consciência do movimento do tronco, e a imagem corporal está intimamente associada à própria correção mecânica da coluna vertebral. Deve-se acrescer que, com a melhoria da imagem corporal e conseqúentemente da própria postura, os fatores emocionais devem melhorar.

Existe uma multiplicidade de novas terapias ditas corporais, que começaram com Reich, mostrando que o indivíduo pode falar com o corpo. "A atitude (postura) mental e a atitude (postura) física são uma coisa só".

Uma postura alerta e ativa é resultado de uma atividade mental sobre o corpo, promovendo assim o equilíbrio e a estabilidade do corpo e da mente. A postura errada está ligada a uma contração excessiva dos músculos, que diminui a atividade dos fusos neuromusculares do sistema gama; consequentemente, há uma carência de transmissão de impulsos ao cérebro, que não é informado sobre o grau de deformidade corporal que o corpo assumiu, e a postura, por isso, não é corrigida. Fatores emocionais agem contraindo excessivamente os músculos esqueléticos, via sistema nervoso autónomo, produzindo a "couraça muscular" do caráter referida por Reich. Essa contração muscular excessiva, que causa toda a complexa "induração" ou "trigger points", tão importantes nas fibrosites, produz estímulos dolorosos, que por sua vez produzem posturas antálgicas inadequadas (Fig. 14).

Os fisioterapeutas, fisiatras e cinesiologistas conseguem identificar parâmetros para a postura, mas, para os psicólogos, o ser humano não tem uma forma global própria, portanto, uma postura definida. A postura é dinâmica e está em função do mundo circundante. A denominação de atitude é mais correta, pois dá idéia de que outras formas tensionais musculares devem combinar-se. Um afeto qualquer pode alterar o nível energético da personalidade e produz uma alteração no tônus muscular previamente existente, que resulta numa atitude (ou postura) completamente diferente. Assim, num determinado momento, o corpo está tomado simultaneamente por vários afetos (necessidades emocionais), vários movimentos (necessidades biomecânicas - ficar sentado, deitado, levantar peso, etc.) e vários atos instintivos (ficar equilibrado, alerta, etc.).

A atitude (ou postura) global exprime simultaneamente todas essas várias influências. Para complicar, o afeto pode exprimir-se em uma parte do corpo, que são os anéis de Reich, na pélvis, no abdômen, no pescoço, etc.

A "atitude (talvez a nossa definição de postura) é a posição e disposição do corpo num dado instante e num ato que está preparando". Por posição, estende-se a situação do corpo em relação às três coordenadas clássicas: estar de pé, sentado, deitado. Disposição é a posição relativa de cada parte do corpo, por exemplo, joelho fletido, braço cruzado. Daí a plasticidade dinâmica do ser humano, e a capacidade de exprimir-se pelo corpo; dança, ao andar, etc.; mas também o fato de um mesmo indivíduo que usa uma serra, uma tesoura, ou um ato "prático" qualquer, usar a mesma postura todas as vezes. Mas a repressão de um movimento, a inação, também é feita com esforço e um aumento interno do tônus muscular, porém sem movimento. A pessoa que inibe uma vontade também executa um esforço, uma espasmodicidade muscular para impedir o movimento. Assim, tanto as atitudes expressivas (cujo afeto resulta em movimento), como as repressivas (que resultam em inibições ou ausência de movimento), influem na atitude (ou postura corporal), num dado instante.

A concepção psicossomática de postura engloba, pois, as noções de comportamento emocional, relacionadas com a teoria do stress, de que, nas pessoas, o organismo como tal reage (atitude de briga) ou foge (de abandono) ante qualquer perigo. Ambos os casos, a briga ou a fuga, representam emocionalmente uma reação que se reflete na estrutura muscular do corpo, principalmente no dorso, onde existem de 30 a 40% dos músculos do corpo, que acabam influindo na coluna e, indiretamente, nos discos intervertebrais, no orifício de conjugação, que, diminuindo, agride a raiz nervosa e produz dor. A dor, por si só, modifica a postura ou a atitude corporal, num ciclo vicioso.

Os músculos do rosto, a mímica, evidentemente também ficam afetados, às vezes mais expressivamente, às vezes menos.

Assim como o corpo reage ou foge, como um todo, podem partes do corpo ser imóveis, paradas, frias, inexpressivas, e outras móveis, "vivas" e expressivas, havendo ainda todos os graus intermediários. Daí a formação da idéia da imagem corporal, que muito bem pode estar associada à postura corporal que o indivíduo idealiza de si próprio.

A imagem corporal já é formada desde criança, e os fatores importantes que formam essa imagem seriam a dor, a estimulação motora e a liberdade de ação. Nos primeiros dias de vida, o bebê tem consciência do seu próprio corpo com olhos e mãos. Quando começa a andar, os reflexos de alongamento muscular começam a entrar em atividade e, além do sistema alfa e do sistema gama, há um controle do tônus muscular e da postura.

Outros estímulos aferentes relacionados com a manutenção da postura são: reflexos de endireitamento da cabeça e pescoço; estímulos visuais e auditivos, o aparelho vestibular e a tensão positiva dos ligamentos, cápsulas e faseias profundas. Os músculos antigravitacionais, como já vimos, são elementos que contrabalançam a força de gravidade em todas as posturas corporais.

O estudo da cibernética, assim como os de psicologia médica, tem revelado que existe na realização e na forma de determinados movimentos a presença de mais fatores do que os apontados pelos estudos musculoneurofisiológicos. Os estímulos sociais e culturais do meio ambiente e a própria característica da personalidade do indivíduo podem alterar os movimentos e a postura corporal.

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