O Xango de BakerStreet - Jô Soares

O Xango de BakerStreet - Jô Soares

(Parte 1 de 5)

Livro: O XANGô DE BAKER Autor: José Eugênio Soares Jornalista, Apresentador, Entrevistador, Humorista e, etc. Rio de Janeiro - Brasil

Revisão & Conversão para .DOC/.PDF/.PDB by Dellmareh – Dezembro/2004 Contando ainda com a ajuda da indescritível turma do Papiros...

O XANGÔ DE BAKER STREET Capítulo 1

Às três horas da manhã, alguns negros escravos ainda podiam ser vistos com barris cheios de lixo e excremento das casas das putas da rua do Regente. Tudo era amontoado num local próximo, criando mais um dos aterros de monturo que enfeitavam a paisagem do Rio de Janeiro naquele mês de maio de 1886. Certos escravos competiam para ver quem fazia mais rapidamente o maior monte, e bandeirolas eram plantadas no topo das imundícies quando achavam que ali não cabiam mais dejetos. Depois, ficava a população à espera das chuvas, o escoamento natural que levava tudo aquilo para o mar, lavando as ruas e empesteando a cidade. Passados os temporais, lencinhos perfumados levados ao nariz faziam com que os ricos e a nobreza fingissem que o precário escoamento fornecido pela City Improvements se comparava à invejável rede de esgotos de Paris. Na esquina da rua do Regente com a rua do Hospício, uma pálida figura toda vestida de negro, chapéu de abas largas enfiado até os olhos, espreita a saída dos últimos fregueses. Apesar do calor, enverga uma capa que lhe chega aos pés e aguarda, imóvel. Sob a capa, que lhe frisa a magreza, delineia-se o relevo de um volume indefinido, que tanto pode ser um pacote quanto uma garrucha. Da terceira casa de putas sai uma moça, quase menina, tonta de vinho. A saia vermelha é aberta do lado até a coxa e os seios estão à mostra, pois a blusa amarela, fina e barata, não resistiu aos ataques vorazes dos freqüentadores mais bêbados. Completamente embriagada, ela mal nota a exibição das tetas. Procura um canto menos imundo para vomitar e ri da sua preocupação:"Como é para vomitar, por que não procurar o lugar mais sujo?". No fundo é por pura superstição. Por mais que seja vômito, é dela, e não lhe agrada ver o fruto dos seus engulhos agregado às fezes alheias. Vira num beco escuro e disputa com algumas ratazanas a honra duvidosa de ocupar aquele território. Apóia-se no muro dos fundos de um dos bordéis e, com o queixo debruçado para dentro do quintal da casa, aguarda o engulho Como se tudo não passasse de uma cena exaustivamente ensaiada de Grand-Guignol, o homem de negro lança-se sobre ela com uma adaga numa das mãos e abre-lhe o pescoço com precisão cirúrgica. Pela goela escancarada jorra uma cascata de sangue misturada à primeira golfada de vômito que já passava pela garganta. Sem pressa, o homem ajoelha-se ao lado da jovem puta. Com a faca, corta-lhe fora as duas orelhas e as guarda zelosamente no bolço da sobrecasaca. Levantando-se, revela finalmente o volume que a capa ocultava. Nem pacote nem garrucha:um violino. Ele arranca uma corda, o mi, e, erguendo a saia da moça, enrola o fio arrancado da crevelha nos pêlos crespos do púbis do cadáver. Saciado, sai tranqüilamente pela rua do Regente, tocando um dos vinte e quatro capricci de Paganini nas três cordas restantes do instrumento. A platéia que aplaudia emocionada sentia estar vivendo um momento histórico no teatro do Brasil. Há meses a cidade inteira se preparara para recebê-la e o Imperial Teatro de São Pedro de Alcântara, na praça da Constituição, no Rossio, tinha sido reformado para esperar sua chegada. O camarim fôra redecorado por madame Rosenvald, da Casa das Parasitas, na rua do Ouvidor, e ampliado segundo instruções do secretário da atriz, enviadas antes por carta. Havia agora um novo jogo de poltronas, um sofá e um recamier de veludo verde capitonê. Um biombo separava esta parte do camarim, onde ela receberia suas visitas, da saleta onde a atriz trocava de roupa. No palco, a deslumbrante, a única, a eterna Sarah Bernhardt agradecia em francês os aplausos brasileiros. A estréia, um dia antes, com Fédora, de Victorien Sardou, fora um sucesso colossau, porém, esta noite, A dama das camélias, não ocorrera sem incidentes. O ator Philippe Garnier, representando o papel de Armand Duval, cometera a imprudência de aparecer com o rosto liso, sem os bigodes lustrosos característicos, até então, do amante de Marguerite Gauthier. Das torrinhas, alguns estudantes ensaiaram uma vaia, lançando pontas de cigarros acesas sobre os elegantes que lotavam os fauteuils da platéia. Artur Azevedo levantara da sua poltrona e fizera uma defesa veemente do espetáculo, dizendo que La Bernhardt "representava a própria França". O autor conhecera Sarah em Paris, e fôra ele quem lhe dera o título de "Divina". Ao final do espetáculo, quatro meninos de libré entraram em cena carregando flores a mando do imperador. Colhidas nos jardins do palácio imperial, eram de extremo bom gosto, a não ser, talvez, as vastas hortênsias que compunham o buquê trazido de Petrópolis. Jovens românticos que tinham ocupado as primeiras filas lançaram sobre a Divina uma chuva de camélias, símbolo do abolicionismo, cultivadas no quilombo do Leblon, e ao mesmo tempo uma alusão pouco sutil ao carro-chefe da maior atriz do mundo. - C'est pardonnable et c'est charmant...-dizia a sotto vocce La Bernhardt aos seus colegas em cena, que seguravam o riso enquanto tentavam se desviar da saraivada de flores. A cortina do São Pedro desceu pela vigésima vez. - Ça suffit-dizia Sarah-senão vamos ficar mais tempo agradecendo do que ficamos para encenar a peça. Alexandre jamais nos perdoaria - concluiu, referindo-se a Dumas Filho, autor do texto. Sarah e sua trupe tinham chegado ao Rio há poucos dias, no Cotopaxi, numa quinta feira, dia 27 de maio de 1886. Apesar de ser um dos meses mais amenos do ano, mas ficou encantada com a recepção no cais do porto e mais ainda quando estudantes desatrelaram os animais da sua carruagem e fizéram questão de tomar o lugar dos cavalos, puxando o veículo através do cais. Depois, a caminho do hotel, quis pedir ao cocheiro que levantasse a capota a fim de melhor observar a paisagem e as pessoas que se amontoavam nas ruas para ver um pedaço daquela francesa, porém o intérprete brasileiro que a acompanhava a impediu: - Não, madame. No Brasil não é chique andar de capota levantada.

- Por que não?

- Não sei, madame. Acho que é para dar a impressão de que aqui não faz tanto calor assim. Agora, não via a hora de voltar ao camarim e tirar as pesadas roupas da personagem. Aos quarenta e dois anos parecia uma menina e sua energia era quase a de uma adolescente, mas os trópicos são os trópicos. Não teve tempo de fazer o que desejava. À porta do camarim, já a esperava, cercado por sua comitiva, Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga, o imperador Pedro Segundo do Brasil. O soberano a vira numa de suas viagens à Europa e era dos mais fervorosos adeptos da vinda de Sarah Bernhardt ao Rio. Havia descido de Petrópolis especialmente para a estréia. - Vive l'empereur!- gritou de longe o mito assim que viu Sua Majestade, e quem escutava não podia perceber se havia na exclamação algum toque cínico de deboche. Dom Pedro Segundo ruborizou de prazer. Era a primeira vez que recebia a saudação em francês. - Et vive la reine du talent!- retrucou o imperador. Os bajuladores que o cercavam comentaram entre si, fingindo falar baixo, como se fosse para dom Pedro não ouvir: - Que espírito!Que resposta! No camarim, sentaram-se nos móveis novos que decoravam a saleta. Todos estavam impecavelmente vestidos, com seus uniformes e trajes de gala. Podia-se ter a impressão de estarem eles instalados em algum salon de Paris, não fossem as rodelas de suor presentes em todas as axilas. Sarah pediu champagne ao secretário, Maurice Grau, enquanto se colocava atrás do biombo e, com a ajuda da camareira, arrancava quilos de saia e anáguas empapadas. - Espero que Vossa Majestade tenha gostado do espetáculo.

- Como não gostar? Só lamento que os nossos palcos ainda não estejam à altura dos teatros europeus. - Oh, vous savez...um palco é só um palco. O que conta é o que se lhe põe em cima... - Então, hoje, tivemos o melhor, o mais belo e o mais iluminado palco do mundo

- respondeu, galante, o imperador.- Só lamentei a ausência, aqui, de uma grande amiga e provavelmente uma de suas maiores admiradoras, a baronesa de Avaré, Maria Luísa Catarina de Albuquerque. Fala francês como nós e fez teatro quando menina no colégio. As freiras diziam que tinha grande talento. Num auto de Natal encenado pelas carmelitas, fez chorar pais e mães de alunos interpretando um anjo do Senhor. - E o que impediu tão dotada espectadora de assistir ao espetáculo?- indagou Sarah sorvendo um gole de champagne para disfarçar o cinismo da pergunta. - Imagine que a senhora baronesa era possuidora de um raríssimo violino, um Stradivarius.Pois bem, seu violino foi roubado há poucos dias e, desde então, dona Luísa anda inconformada. Não há doce de abóbora nem lundu de escravos que a tirem desta profunda melancolia. Seus negros já comentam que a sinhá está com banzo. Sarah sorriu sem entender metade: - Banzô?!Qu'est-ce que c'est?

- É como os escravos chamam a melancolia, a tristeza, madame. Sentem falta da mãe África. Imagine a senhora que alguns chegam a morrer de saudades. Aliás, saudades é uma palavra intraduzível. Seria mais ou menos avoir le cafard. - E a polícia? O que diz a polícia?

- Infelizmente a baronesa Maria Luísa não gostaria de envolver as autoridades. O violino foi um presente meu e, apesar da nossa amizade ser puramente platônica, a imperatriz não veria com bons olhos esta história toda nos jornais. - Pois talvez eu possa ajudar ao senhor e à sua baronesa. Imagine, senhor imperador, que sou muito amiga do maior detetive do mundo: Cherloc Holmes. Naturalmente, Vossa Majestade ouviu falar de Cherloc Holmes-disse Sarah. - Devo confessar minha ignorância, madame. É a primeira vez que escuto esse nome. - Por isso é que eu vivo dizendo a seu amigo, doutor Watson, para sacudir a preguiça e narrar as fantásticas aventuras de Holmes. Talvez algum dia o bom doutor siga o meu conselho. Cherloc Holmes é o primeiro detetive dedutivo do mundo. Uma vez, encontrou as jóias perdidas de uma cantora russa apenas examinando as roupas que ela havia usado num banquete oferecido ao imperador. - A mim?!

- Não, Majestade, Napoleão I...

- Não conheço nenhum detetive - respondeu dom Pedro, passando por cima do pequeno equívoco. -Se bem que gosto de ler algumas histórias de mistério. Não sei se madame conhece a prosa de Edgar Allan Poe. Poe criou uma personagem fascinante, um detetive chamado Auguste Dupin. Ele aparece em "Os assassinatos da rua Morgue" e depois em outras histórias, como "O mistério de Marie Roget" e "A carta roubada". Fiquei muito impressionado, porque Dupin consegue, inclusive, adivinhar o que uma pessoa está pensando usando tão-somente a dedução. - Pois tenho certeza de que esta personagem de ficção não chega nem aos pés de Holmes.Acho que ele adoraria conhecer o Brasil e não saberia como resistir a um convite de Vossa Majestade. Em pouco tempo, descobriria o violino da sua amiga - concluiu Sarah Bernhardt, saindo, esplêndida, de trás do biombo, num magnífico vestido branco.- E agora, se Vossa Majestade permitir uma ceia está à minha espera no Grande Hotel.Estou morta de fome. Não como nunca antes do espetáculo e estou louca para enfim provar a cozinha brasileira, da qual me falam tanto. Assim dizendo, a atriz estendeu a mão ao imperador, que a beijou com respeito. Todos deixaram o camarim encantados com o charme da Divina. Dom Pedro anotou discretamente numa caderneta o nome do detetive.

Capítulo 2

O Grande Hotel ficava no Catete, à rua Marquês de Abrantes. Situado no alto de uma pequena colina toda coberta de jardins e arvoredos, se beneficiava das brisas do mar que se avistava ao longe. Era conhecido por seus aposentos espaçosos e ótimo serviço. Os bondes, subindo e descendo em frente ao portão de entrada, davam um toque romântico ao hotel. A enorme sala de jantar estava decorada com requinte. Toalhas de rendas vindas do Ceará, castiçais imensos no centro da mesa, pratos Limoges, cristais Baccarat e pesados talheres Christofle em vermeil. Aguardando em pé, à volta da mesa, vários jornalistas e alguns nomes da boemia literária da cidade. Lá estavam o jornalista Pardal Mallet, redator da Gazeta de Notícias, e o divertido Guimarães Passos, poeta e arquivista da Mordomia da Casa Imperial, um dos funcionários públicos mais bem pagos do império. Passos costumava dizer que era funcionário público, porém poeta em particular. Defensor interessado do império, passava noites em claro nos botecos da cidade discutindo acaloradamente com seus amigos republicanos. Além dele, Múcio Prado, redator e cronista social do Jornal do Commercio, Belmiro de Almeida, criador do recém-lançado periódico Rataplan, Eduardo Joaquim Correa, do Jornal humorístico O Mequetrefe, Angelo Agostini, da Revista Ilustrada, que não se cansava de publicar charges com a caricatura do imperador, e ainda o milionário janota Alberto Fazélli, filho de imigrantes italianos e que se achava irresistível. Considerado o almofadinha mais cobiçado da cidade, Albertinho decidira que morreria velho e solteiro, de preferência em Paris. Seus amigos debochavam, dizendo que seria bem melhor viver em Paris e morrer por aqui mesmo. Junto com os jornalistas estavam o jovem livreiro Miguel Solera de Lara, dono da livraria O Recanto de Afrodite, um dos pontos de encontro dos intelectuais da cidade, o marquês de Salles, com olheiras profundas e sempre vestido de negro, espécie de enfant gâté da côrte, leitor assíduo de seu quase-homônimo, o marquês de Sade, e o famoso alfaiate Salomão Calif, que vestia metade da cidade elegante, sem falar dos fazendeiros paulistas que viajavam para a capital só para usufruir da sua mágica tesoura. Também presentes o dono do hotel, Aurélio Vidal,com seus amigos, que ocupavam a maior parte da sala. O curioso é que nenhum ator fora convidado e nem se via uma única mulher no recinto, a não ser as negras escravas, que, com os outros criados, iam ajudar a servir a ceia. As janelas estavam abertas, mostrando a vista incomparável da baía. Naquela época do ano, bastavam quatro negros com abanadores para refrescar o ambiente. De repente, entrou correndo um dos moleques que carregavam malas na portaria: - Seu Aurélio!Seu Aurélio! A dona está chegando! Por cima da cabeça do negrinho arfante, todos os olhos machos da sala avistaram a maravilhosa francesa vestida de branco. O rapazola quase morreu de susto e voltou correndo à portaria. Sarah Bernhardt esquivou-se e deixou o menino passar. Houve uma pausa, um compasso de silêncio, e de repente a sala inteira irrompeu num aplauso frenético: - Bravo!Bravo!

- Messieurs, por favor! O espetáculo já terminou e tenho fome. Todos riram e se aproximaram para ver mais de perto ainda aquele fenômeno que resolvera dar o ar de sua graça em terras brasileiras. A atriz entrou no salão acompanhada por seu filho, Maurice Bernhardt, um belíssimo rapaz de vinte e dois anos. O pai de Maurice era o príncipe belga Henri de Ligne, por quem a atriz se apaixonara ainda jovem. Sarah registrara o menino com seu nome apenas, como sendo de pai desconhecido. A história desse romance é digna de um melodrama. O príncipe, apaixonado, resolvera casar-se com a atriz, que começava sua carreira. O tio de Henri, general de Ligne, assim como o pai de Duval, na Dama das camélias, foi procurá-la em Paris, sem que o príncipe soubesse. Numa conversa cortês, porém objetiva, fez ver à atriz que, se houvesse o casamento, o príncipe seria imediatamente deserdado pela família real, perdendo sua posição e todo o patrimônio. Com o coração dilacerado, Sarah Bernhardt afastou-se do príncipe, alegando que sua carreira era mais importante. Jamais o príncipe Henri de Ligne soube o verdadeiro motivo daquele doloroso rompimento. Se naquela noite Sarah realmente pensava experimentar a comida da terra, ficou decepcionada. O cardápio, preparado por um chef francês chamado especialmente para a ocasião, copiava radicalmente os restaurantes de Paris. Roland Blanchard tinha vindo "fazer a América" e há muitos anos morava em Botafogo. às vezes cozinhava para o imperador, e publicara um livro de conselhos e receitas, onde, inclusive, ensinava que não se devia levar à travessa a colher que já fora levada à boca. Explicava também que, se a pessoa sentisse uma vontade irresistível de cuspir, era melhor fazê-lo no chão do que no prato. Do menu da noite constavam caças, saladas, peixes, presuntos, queijos, vinhos e champanhe. Nem mesmo arroz fora incluído para abrasileirar levemente as receitas do francês. Sarah sentou-se à direita de Aurélio Vidal, que ocupava a cabeceira, tendo a seu lado o marquês de Salles e, em frente, Guimarães Passos. Ao lado deste, Alberto Fazélli se esforçava para ficar o mais perto possível, quase com o cotovelo dentro do prato do vizinho.Imediatamente, os jornalistas começaram as perguntas, transformando a ceia numa entrevista coletiva: - O que é que a senhora come quando acorda?

- Entre um ato e outro, a senhora bebe?

- Que número calça?

- Quanto a senhora pesa com roupa?

- E sem roupa?

- É verdade que a senhora só consegue decorar os papéis enquanto faz um escalda-pés? - Qual é a sua idade?

- O que está achando dos homens brasileiros? - perguntou lascivamente Alberto Fazélli, que não era jornalista mas também era inconveniente. - Por enquanto, só estou achando que fazem perguntas demais -respondeu Sarah, esvaziando uma taça de vinho. Para mudar de assunto, Guimarães Passos interrompeu aquelas perguntas de alto nível: - Espero que a senhora desculpe o entusiasmo dos colegas. Só lastimo que alguns dos meus amigos não tenham podido vir ao jantar. Tenho certeza de que a senhora adoraria conversar com Olavo Bilac, por sinal um poeta extraordinário. Pena que ainda não tenha sido publicado em livro. - Olavo Bilac?

- Sim.

- E por que não veio?

- Je ne me mêle pas de ces affaires- disse Sarah com um sorriso.

- Infelizmente, meu amigo Olavo meteu-se a ser republicano e no momento anda escondido. Publicou um pequeno panfleto contra a monarquia e está sendo procurado pelo delegado Mello Pimenta, da nossa polícia. Mello jurou que Bilac há de passar uma noite na cadeia. A senhora concorda que é muito cedo para mudanças na nossa política? - O que foi que ela falou?- perguntou avidamente Pardal Mallet, da outra ponta da mesa. Alberto Fazélli traduziu de ouvido: - Ela viu o Mello com seis alferes. Múcio Prado, do Jornal do Commercio, corrigiu rapidamente:

- Não é bem isso, Albertinho. Ela só falou que não se mete nesses assuntos. - E, aproveitando o mal-entendido, encaixou uma pergunta: - Sei que a senhora esteve com o nosso imperador. O que pode contar desse encontro? - Só que o imperador é muito simpático e anda preocupado - confidenciou a comédienne, em voz baixa, ao cronista. - Imagine que roubaram um violino Stradivarius de uma amiga sua, uma baronesa, que está desconsolada. Eu até sugeri que ele convidasse um detetive inglês que conheço bem, Cherloc Holmes, para desvendar o mistério. Múcio logo viu que tinha uma boa nota para sua seção: baronesa, amiga do imperador, só podia ser Maria Luísa Catarina de Albuquerque. Até então, o único Stradivarius, instrumento valiosíssimo, de que se tinha notícia no Rio pertencia ao violinista José White, excelente músico cubano habitué da côrte. Obviamente, este outro violino deveria ser um presente secreto de Dom Pedro. Em volta da mesa, poucos deram atenção à notícia, talvez por não perceberem o francês rápido e sussurrado da atriz, porém o jornalista sabia que o potin causaria um pequeno escândalo na côrte. Tão boa era a comida que, apesar da presença da Divina, todos silenciaram em volta da mesa. Quando iam começar as perguntas depois da sobremesa, Sarah levantou-se rapidamente: - Senhores, estava tudo delicioso, mas amanhã tenho ensaio. Por favor, não se levantem. -Antes que alguém pudesse ajudá-la, ergueu-se agilmente, deixando o guardanapo cair no chão. Saiu da sala, de estômago cheio mas leve como uma pluma, em direção à escada que levava aos seus aposentos. Alberto Fazélli recolheu o guardanapo, cheirou o pano como se fosse o lenço de rendas da mulher amada e sentenciou profundamente: - Isto é o que se chama sair à francesa. O delegado Mello Pimenta tinha, no momento, preocupações maiores do que correr atrás de Olavo Bilac. A declaração de que faria o poeta passar uma noite na cadeia fora muito mais um desabafo num momento de raiva do que uma sentença. Na verdade,não havia motivo para perseguir o "subversivo" Bilac. Sobretudo agora, com esse crime que começara a investigar. Mello Pimenta era gordo e baixo, ostentando um vastíssimo bigode negro à la Balzac. Sofria muito com o calor, contudo sempre era visto de terno e colete, camisa de colarinho engomado e punho rígido, muito apertada no pescoço. Curiosamente, Pimenta nunca suava. A aparência balofa do policial enganava aqueles malfeitores que menosprezavam sua agilidade: Mello Pimenta corria como uma gazela. Ao seu lado, envergando um avental médico coberto de manchas escuras de sangue coagulado, estava o doutor Saraiva, médico-legista do Estado. Magérrimo, Saraiva ostentava um cavanhaque e uma longa cabeleira branca, também manchada, pois o legista, distraído, tinha o cacoete de coçar a cabeça ao meditar sobre a autópsia que estava praticando. Vendo-os lado a lado, era impossível não pensar em Dom Quixote e seu fiel escudeiro. Os dois encontravam-se no necrotério da Ordem Terceira da Penitência, no largo da Carioca. A polícia usava o local sempre que a morgue oficial da Santa Casa da Misericórdia, no largo do Moura, já se juncara de cadáveres. Deitado na mesa fria de pedra, o corpo da moça assassinada ainda estava aberto, oferecendo-se de forma ainda mais obscena do que quando ela exercia a mais antiga das profissões. Fora encontrado por um português vendedor de vassouras que apregoava bem cedo os seus produtos: - "Olha a vassooooura!Olha o ispanadoire!:. Assim que entrou no beco ainda escuro da rua do Regente e se deparou com aquele horror, o pobre homem largou tudo no chão e saiu correndo a gritar: - Ai, Jesus!É o inferno de Dantas! O inferno de Dantas!- levando, de roldão, a obra italiana para terras lusitanas. Com um corte hábil de profissional com muitos anos de prática - Saraiva começara sua carreira como médico militar na guerra do Paraguai; dizia a lenda que fizera a autópsia de Solano López -, o professor tinha feito a incisão clássica, em forma de Y, deixando à mostra os órgãos internos da jovem prostituta. A Pimenta parecia inútil aquele ritual, uma vez que a causa da morte dificilmente seria outra além do corte da garganta, tão profundo que quase separara a cabeça do tronco. Mesmo assim, para Saraiva, praxe era praxe. Com voz monocórdia, ele seguia dissecando e dissertando para o delegado: - Pelo estado avançado da rigidez cadavérica, a morte deve ter ocorrido na madrugada da quarta-feira, dia 26 de maio de 1886. A vítima aparenta ter entre quinze e vinte e um anos de idade. O corpo foi encontrado totalmente frio e exangue. Lábios cianóticos, pupilas redondas e regulares, dilatadas bilateralmente. Fígado comprometido, provavelmente devido à excessiva ingestão de bebidas alcoólicas. Caso não tivesse morrido do ataque assassino, a vítima seria, com certeza, candidata a uma cirrose precoce. A causa da morte se deve à ferida no pescoço, que lhe dilacerou a laringe e a faringe num corte horizontal desferido da esquerda para a direita. O ferimento foi causado por um instrumento cortante. Pela pressão exercida, o agressor possui grande força física. As duas orelhas da vítima foram extirpadas, também com habilidade. A vítima... Impaciente, o delegado Mello Pimenta interrompeu: - Saraiva, tudo isso a gente sabe. Não há nenhum detalhe que tenha passado despercebido no primeiro exame? - Claro que há. O melhor eu deixei para o fim. -Dizendo isso, colocou nas mãos do delegado a corda enrolada de violino que encontrara junto aos pêlos pubianos da menina-puta. - O que é isso?

- Não sei exatamente. Parece uma corda de bandolim ou de algum instrumento musical. - Pelo menos é uma pista. Uma corda de bandolim.

- Ou de cavaquinho, sei lá. Sem dúvida é de um instrumento musical.

- Será que o assassino é músico?

- Pode ser e pode não ser. Pela violência do crime e pelo lugar onde encontrei a corda, o que eu sei é que ele é meio maluco. - Por quê?Onde estava a corda?-perguntou Pimenta, desconfiado.

- Misturada aos pêlos púbicos da moça. Coitada, bem ralinhos ainda... Com certa repugnância, Pimenta envolveu a corda num lenço e limpou as mãos nas próprias lapelas: - Posso levar?

- Claro, é toda sua. Quer que embrulhe para presente?- riu o doutor Saraiva, numa clara demonstração do mórbido senso de humor tão comum à sua profissão.

Capítulo 3

No Apartamento 221b da Baker Street, Cherloc Holmes acabara de servir chá para si e para o doutor Watson. O doutor parecia absolutamente concentrado na leitura do jornal. - Duas pedras, Watson?

- Hum? Sim, por favor...Estranho...muito estranho...

- Posso saber o que é estranho?- perguntou Holmes, entregando-lhe a xícara e dirigindo-se para a sua poltrona preferida. - Ao ler estas notícias, sinto uma curiosa sensação de déjà vu.

- Elementar, meu caro Watson- disse Cherloc Holmes, pronunciando a frase

que mais irritava o amigo. - Como assim?

- Você está lendo o Taimes de ontem. Enquanto Watson recolhia seu queijo, que havia caído, a porta se abriu e a governanta, senhora Hudson, entrou com um telegrama. Estava agitadíssima. - Calma, senhora Hudson. Presumo que seja uma mensagem do inspetor Lestrade

- afirmou o detetive.

- Presumiu errado, senhor Holmes, é um telegrama do Brasil. Do próprio imperador! - Do imperador do Brasil? O que será que ele quer com você? - perguntou intrigado Watson. - Só vou saber depois de ler - respondeu Holmes. - Obrigado, senhora Hudson. Vejo que, contrariando as ordens do seu médico, a senhora continua comendo ovos, às escondidas, no café da manhã. A pobre mulher assustou-se e gaguejou envergonhada: - É verdade, senhor Holmes. Não consigo resistir...Como descobriu?

- Simples, senhora Hudson. Na pressa de engoli-los, a senhora deixou cair um pouco de gema na blusa, causando uma mancha amarela. Logo, deduzi que a senhora desobedeceu às ordens do doutor. A governanta olhou acanhada para a gola da blusa: - Bem, senhor Holmes, na verdade, isso que o senhor chama de mancha amarela é um broche de ouro, que pertenceu a minha mãe. Mas o engraçado é que realmente comi uma omelete hoje cedo. - É evidente. Minhas deduções estão sempre certas. O seu broche é que está errado. Pode ir. Muito a contragosto, a governanta curiosa saiu fechando a porta. Watson pensou mais uma vez como era tola a vaidade daquele grande homem em não querer usar óculos. Holmes aproximou-se da escrivaninha e abriu o telegrama com uma faca que lhe fora atirada havia alguns anos, durante a caça a um mal-feitor em Spitalfields: - Interessante, Watson. Imagine que o imperador do Brasil Pedro Segundo nos convida para ir ao Rio de Janeiro, a capital. - Como? A capital do Brasil não é Buenos Aires? - espantou-se Watson.

- Não, Watson. Buenos Aires é a capital da Argentina.

- E o que quer com você o imperador do Brasil?

- Parece que roubaram um violino Stradivarius de uma amiga e Dom Pedro pede que eu faça uma investigação sigilosa. - Como foi que ele soube de nós?

- De nós, não, caro Watson. De mim. Por sorte do imperador, minha querida amiga, a grande Sarah Bernhardt, está fazendo uma turnê por lá. - Fantástico! Já existem teatros por aquelas bandas?

- Claro que sim, Watson. O Brasil é um país peculiar. É a única monarquia das Américas. Dizem que o imperador é um homem muito culto. - Queria entender como você conhece tanto a respeito deste inusitado império - resmungou Watson. A cultura do detetive era das mais paradoxais. Holmes era capaz de conhecer detalhes sobre países estranhos, geologia, música, botânica, química e anatomia, entretanto, espantosamente, ignorava a teoria de Copérnico e a composição do sistema solar. Para Watson, era difícil assimilar o fato de um ser humano tão civilizado do século dezenove não ter ciência de que a Terra girava em torno do Sol. Isso às vezes o incomodava um pouco. Cherloc, magnânimo, deu um tapinha condescendente no ombro do médico: - Não fique emburrado, meu amigo. Foi por acaso que consegui estas informações. Por intermédio de um escocês-americano que encontrei na França. - Quem?

- Chama-se Alexander. Você não o conhece.

- Alexander?

- Sim, Alexander Graham Bell, inventor desta maravilha moderna que é o telefone. - Não sabia que você se dava com americanos - ironizou Watson, com despeito.

- Fui apresentado a ele há seis anos. Lembra-se que fui a Paris? Bell estava lá para receber o Prêmio Volta, de cinqüenta mil francos, por sua invenção. - Não me diga que Graham Bell conhece o imperador do Brasil - continuou Watson ainda descrente. - Não só conhece, como foi Dom Pedro o primeiro a utilizar o telefone publicamente, na Exposição Centenária da Filadélfia. Bell contou-me o caso às gargalhadas.

Sem querer, pregou-lhe uma peça. Sabe qual foi a primeira frase que fez o monarca pronunciar quando experimentou o aparelho? - Não posso imaginar.

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