Teoria Literária e Tradução

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9Teoria literária e tradução

TEoriA LiTEráriA E TrADução

Luis Alberto Brandão

Universidade Federal de Minas Gerais luisbra@letras.ufmg.br resumo: A partir da noção de traduzibilidade, este artigo desenvolve reflexões sobre os vínculos entre tradução e teoria literária, indicando alternativas de abordagem do problema e apresentando um panorama especulativo de como em alguns dos movimentos da teoria literária ao longo dos séculos X e XI viabilizaram aproximações e contrastes com questões tradutórias. Os movimentos destacados são: o formalismo russo, o estruturalismo e a desconstrução, as teorias da recepção e do efeito. Palavras-chave: teoria literária, tradução, traduzibilidade.

Abstract: Taking the notion of translatability as the starting point, this article develops reflections on the bonds between translation and literary theory, indicating alternatives for dealing with the problem and presenting a speculative panorama of how, in some literary theory movements throughout the XXth and XXIst centuries provided approaches and contrasts with translation issues. The movements highlighted are: Russian formalism, structuralism and deconstruction, along with the reception and effect theories. Keywords: literary theory, translation, translatability.

Elejo como ponto de partida o termo traduzibilidade. O sufixo substantivador enfatiza uma condição – a condição de ser traduzível –, a qual, ambivalentemente, tanto pode ser tomada como designação de um grau variável – há objetos mais traduzíveis e objetos menos traduzíveis –, quanto como o pressuposto de uma diferença de natureza, segundo uma relação opositiva – há objetos traduzíveis e objetos não traduzíveis. Na conclusão do livro The

Luis Alberto Brandão10 translatability of cultures: figurations of the space between, Wolfgang Iser, um dos organizadores, destaca que translatability é uma espécie de conceito guarda-chuva, que abarca todos os tipos de tradução, nos níveis linguístico, intracultural e transcultural. Sugere, ainda, que quando se aproximam as noções de tradução e de cultura, observa-se algo aparentemente aporético: por um lado, só há cultura se esta se traduz de alguma forma, o que significa afirmar que a traduzibilidade é inerente ao conceito de cultura; por outro lado, o processo de tradução necessariamente ativa um elemento incomensurável, uma diferença não passível de ser suprimida, o que significa levar em conta que a intraduzibilidade sempre se faz presente no diálogo, ou embate, entre culturas.

As ambivalências acima evocadas – a relação entre o traduzível e o intraduzível, entre um sentido estrito e um sentido amplo de tradução – poderiam ser desdobradas em outras ambivalências, como a relação entre algum uso supostamente literal e concreto e os vários significados metafóricos e difusos. Todas essas ambivalências interessam às reflexões aqui propostas, pautadas pela intenção de inquirir a traduzibilidade no âmbito da Teoria Literária, no sentido de explorar em que medida e de quais diferentes modos a noção de tradução se coaduna com as correntes de formulação conceitual que, ao longo do século X e princípio do século XI, se voltam para o objeto literário.

O reconhecimento das ambivalências e do aspecto difuso da traduzibilidade não nos exime, porém, do compromisso de especificar as operações que tal noção ampla torna possíveis. Assim, a pergunta pela traduzibilidade na Teoria Literária pode ser lida como a pergunta pela maneira como o debate sobre tradução se verifica em cada corrente teórica, ou a ela se atribui, levando-se em consideração os eventuais múltiplos significados do termo tradução observáveis em cada caso. A tarefa é, sem dúvida, notavelmente vasta, e mesmo sem fim, pois trata-se de investigação metateórica que só se viabiliza à medida que postula uma configuração e uma história das correntes teóricas, já que não há uma Teoria Literária

11Teoria literária e tradução que se funde e se qualifique por si mesma em suas transformações. No máximo pode-se admitir que há pontos – noções, princípios, valores – cujo alto grau de recorrência os torna nodais, como centros que, irrecusavelmente nevrálgicos, não despertam consenso, quanto a seu teor e alcance epistemológicos, nas avaliações a que são submetidos, conforme distintas perspectivas.

Afastada, então, a tentação de exaustividade – embora esse tipo de empreitada não possa abdicar de alguma amplitude de horizonte –, efetuamos breve levantamento de algumas alternativas de abordagem da questão proposta. Uma primeira opção é o estudo do papel que a prática da tradução de textos literários desempenha em cada corrente crítica. No caso do New Criticism, por exemplo, tal prática é essencial, pois atua como instrumento de disponibilização de repertório de leituras tidas como imprescindíveis e formadoras. Basta ler algo das preleções de Ezra Pound em Abc da literatura ou A arte da poesia para confirmar a vocação pedagógica, civilizatória, atribuída à tradução de obras literárias.

Outra opção seria compor um catálogo das formulações explícitas sobre tradução e, como passo subsequente, averiguar em que medida elas dialogam com formulações dispersas na obra do mesmo autor e de outros autores com orientação teórica semelhante. Assim, pode-se indagar qual a relevância de um texto como “Aspectos linguísticos da tradução”, de um dos nomes fundamentais do Estruturalismo, Roman Jakobson, para a compreensão das bases da concepção de poesia e consequentemente da concepção de ato tradutório dessa corrente, indagação potencializada quando o referido texto é aproximado, por exemplo, de “Linguística e poética”, no qual se adota explicitamente o modelo das funções de linguagem.

Alternativa também promissora é investigar como as correntes teóricas se difundem, ou não, via tradução de seus manifestos e textos-chave. Assim, não é irrelevante saber que os textos dos chamados formalistas russos, em seu nascedouro, ficaram restritos ao ambiente soviético, só obtendo tradução para o inglês na década de 1950 e para o francês na de 1960, fato que, na França, atuou como

Luis Alberto Brandão12 importante mecanismo de fortalecimento dos pressupostos do debate estruturalista. Também não é desprezível o número de publicações de traduções da obra de Jacques Derrida nos Estados Unidos, tendo-se em vista a especificidade da conformação dos Estudos Culturais em ambiente norte-americano, bastante diversa do perfil dos Estudos Culturais gestados na Inglaterra pelo grupo da Universidade de Birmingham. Lembre-se que o auge do Estruturalismo, momento no qual este já exercita sua autocrítica, assumindo as feições do que veio a ser designado de Desconstrução, é o ano de 1966, exatamente o ano em que ocorre, na Universidade John Hopkins, um grande encontro acadêmico do qual participaram nomes como Roland Barthes, Tzvetan Todorov, Jacques Lacan e Jacques Derrida.

Outra opção consiste em aproximar, de maneira especulativa e livre, noções ou categorias-chave de correntes da Teoria Literária a noções caras ao debate sobre tradução, o que equivale a indagar, em termos muito genéricos e prospectivos, de que maneira os alicerces teóricos de certa concepção de literatura – ou dos fatores determinantes de tais alicerces – se compatibilizam ou não com certa concepção de tradução. Essa é a opção adotada neste trabalho. Serão apresentadas, a seguir, breves notas, de caráter prioritariamente interrogativo e heurístico, as quais compõem uma espécie de panorama, ainda que lacunar e precário em sua excessiva concisão, de alguns dos movimentos da Teoria Literária ao longo do século X e início do século XI, a partir do vislumbre de aproximações e contrastes com questões tradutórias. O panorama elege três marcos de ancoragem, os quais poderiam ser desdobrados em outros, num exercício de cruzamentos de referências. São eles: 1) o Formalismo Russo, que pode ser tomado como síntese e irradiação das vertentes que lidam com a problemática da autonomia da arte; 2) o Estruturalismo e a Desconstrução, que podem ser compreendidos como ícones da relação entre sistematicidade e assistematicidade nos modelos conceituais dedicados à linguagem; 3) as Teorias da Recepção e do Efeito, lidas como ponto de interrogação, promessa de curto-circuito de alguns fundamentos – como a tendência ao pensamento binário – de modelos teóricos consolidados.

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Panorama especulativo: a traduzibilidade na Teoria Literária

1. Formalismo russo

O movimento que veio a ser conhecido como Formalismo Russo pode ser caracterizado, sumariamente, a partir de dois polos. Há um primeiro polo, tipicamente programático, no qual se estabelece, com a devida radicalidade e recusa da tradição literária e crítica vigente, o destaque à especificidade do objeto literário – à literaturnost, ou literaturidade –, por intermédio de métodos que, inspirados na linguística, se pretendem científicos. Exemplares desse polo são os textos de Viktor Chklovski, “A arte como procedimento”, de 1917, e o manifesto em que se promulgam cinco proposições em defesa da autonomia da arte em relação à vida, o qual rendeu forte polêmica com Leon Trotsky, arauto da concepção marxista de arte. Nesse polo se constata, quanto aos métodos de abordagem literária, a tentativa de deslocamento de ênfases, sobretudo do campo semântico para o campo formal. A noção de forma, no entanto, rapidamente ganha desdobramentos conceituais: de uma perspectiva empirista de linguagem, na qual forma se confunde com materialidade sensível – em geral o elemento sonoro da palavra –, passa-se a uma perspectiva que perscruta o efeito gerado pelas obras, sobretudo o efeito de desautomatização da percepção, ou ostranenie – estranhamento –, efeito tributado ao que se entendia por “forma difícil”; chega-se, enfim, a noções mais complexas como construção, ou fator construtivo, priom – procedimento – e função.

O segundo polo pode ser qualificado como polo crítico, no qual as premissas iniciais são revistas. Trata-se de abandonar o postulado imanentista e dar destaque a questões como a dos gêneros literários, da tradição e da história, a relação entre séries literárias e não literárias. O principal representante é Iuri Tynianov, com os clássicos estudos “Da evolução literária” e O problema da linguagem poética. Deve-se também mencionar a importância de

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Mikhail Bakhtin, que, apesar de não pertencer ao grupo formalista, incorpora os debates realizados – como no texto “O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária”, no qual, ao propor as três categorias, defende uma noção mais complexa de forma, levando em conta tanto aspectos composicionais (ligados ao material) quanto axiológicos ou o que chama de arquitetônicos (ligados ao conteúdo).

A força de tal corrente teórica, independentemente do polo predominante, tem ligações bastante claras com qualquer concepção de tradução que pretenda afastar-se da primazia do estrato semântico, isto é, da dimensão cognitiva ou intelectiva do texto. São as categorias formalistas, na acepção definida pelo primeiro polo, que dão sustentação às traduções centradas nos efeitos sensórios passíveis de serem gerados pela linguagem verbal – categorias fundamentais para todo o debate, ainda hoje, sobre tradução de poesia, objeto de estudo, não por acaso, privilegiado pelos formalistas. Entretanto, a autocrítica formalista – a qual proclama que não há autonomia ou autossuficiência da forma, e que seus efeitos possuem determinação cultural e histórica, sendo, portanto, variáveis – seguramente também traz consequências para o entendimento de certo modelo do processo tradutório que se torna menos confiante quanto à validade de uma “equivalência de efeitos sensíveis”.

2. Estruturalismo e Desconstrução

O Estruturalismo francês e a Desconstrução podem ser considerados derivações avançadas do substrato formalista, sendo que o primeiro não apenas preserva, mas também procura ampliar a pretensão de cientificidade aplicada a todo o campo das humanidades, e o segundo atua na direção contrária, destacando o caráter indecidível e proliferante dos sistemas de significação, flagrados justamente no que revelam de assistemáticos. O embate entre sistematicidade e assistematicidade também pode ser projetado em con-

15Teoria literária e tradução cepções de tradução concorrentes: a que defende que é possível, no ato tradutório, que se tenha como meta desvelar e reproduzir uma estrutura, um sistema de relações, uma sintaxe, uma gramática, uma equação elementar; e a que procura alardear que tal meta é falaciosa. A noção de estrutura é, sem dúvida, muito poderosa, inclusive devido às diferenças de acepção que comporta. Mas há, no termo, uma espécie de acordo perfeito entre abstração e concretude, inteligível e sensível, latente e manifesto, gramática e enunciado, lei e ocorrência; enfim, entre langue (língua) e parole (fala) no sentido difundido por Saussure. Tal acordo talvez se explique pelo fato de, em sua base, atuar o desejo de uma conjugação em tese insustentável: entre a a-historicidade almejada por um conhecimento pleno e a constatação da mutabilidade radicalmente histórica dos eventos humanos.

Parecem comungar desse desejo os modelos de tradução seduzidos pela ideia de uma língua pura, paradoxalmente só acessível a partir do atrito entre a estranheza das línguas reais – aqui a referência inescapável é o texto “A tarefa do tradutor”, de Walter Benjamin – talvez um estruturalista desconstruído avant la lettre. É bom lembrar que o estruturalismo também pode ser considerado uma forma de culturalismo, tendo em vista seu forte vínculo com a etnologia, o que obviamente não autoriza que se abdique da pergunta sobre o conceito de cultura aí adotado. É isso justamente o que faz um culturalista de carteirinha, Stuart Hall, no texto “Estudos Culturais: dois paradigmas”, em que o estruturalismo francês, sob a égide de Lévi-Strauss, é qualificado como paradigma culturalista.

Entretanto, num sentido bem mais singelo e corrente, o argumento prático de que uma tradução deve preservar a coerência, o equilíbrio dos elementos constituintes ou a “textualidade” do objeto a traduzir não deixa de se alimentar desse desejo cuja feição é, em termos gerais, estruturalista.

Em contraponto, mas não em oposição, à figura ideal da estrutura como sintaxe reconhecível das transformações de um evento, está a noção de écriture – escritura ou escrita – como linguagem em

Luis Alberto Brandão16 processo de remissão infinita, modo de anunciar a mobilidade permanente do sentido, a inexistência de qualquer centro (nas leituras que acabam por postular uma escritura ideal em seu poder de fuga) ou o fato de que os centros são sempre congelamentos do processo de significação (nas leituras que avaliam, segundo um viés político, os vetores que definem os movimentos de centralização e descentralização). A noção de tradução inspirada nessa perspectiva possivelmente adota o mote de que, se toda linguagem é metafórica, não pode haver tradução literal, pois não existe literalidade, ou melhor, o sentido literal é um efeito de congelamento do sentido, o que demonstra o quão cultural é a própria metaforicidade. Assim, pode-se supor que a Desconstrução, por um lado, estimula propostas de traduções altamente transgressivas, a partir da radicalização do raciocínio de que toda tradução já é, em si, deslocamento e transgressão de sentido; por outro lado, contudo, o mesmo raciocínio aponta para a necessidade de parâmetros comparativos no que tange aos efeitos gerados por distintos tipos de transgressão, o que equivale a lembrar que o efeito gerado por uma tradução – inclusive a percepção de que um ato transgressivo ocorreu – não é definido pelo próprio texto traduzido, mas pela relação com um receptor, o que implica toda uma gama de determinações culturais.

3. Teorias da recepção e do Efeito

As Teorias da Recepção e do Efeito, se tomadas como referência as obras de Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, têm em comum, além da tentativa de desenvolver uma discussão conceitual e metodológica que coloca o leitor em primeiro plano – um leitor social, em suas variações históricas, no primeiro caso; textualizado, tendencialmente antropológico, sem abdicar de certo nível de individualidade, no segundo –, o fato de se insurgirem contra polarizações. Nas famosas teses proferidas na Universidade de Constança, em 1967, Jauss critica a divisão dos estudos literários em,

17Teoria literária e tradução por um lado, escolas de inspiração marxista ou sociológica, e, por outro, de inspiração formalista ou estruturalista. A historicidade da literatura, em seu sentido mais intenso, só se daria no plano da recepção. Também Wolfgang Iser se debate contra os binarismos. Num primeiro momento, como no livro O ato da leitura, procura romper com a ideia de que há simetria entre texto e leitor, como se fossem dois polos equivalentes de um mesmo circuito – em geral entendido como binário, circuito no qual o texto tende a ser definido seja como manifestação direta do autor, seja como seu substituto pleno. Em momento posterior, no livro O fictício e o imaginário, é contra o binômio realidade/ficção que o autor se insurge, propondo um sistema triádico e relacional no qual a noção de imaginário é introduzida com a finalidade de inviabilizar o estatuto ontológico de qualquer elemento da tríade.

É bastante evidente que o debate sobre tradução tem profundos vínculos com as premissas de uma Teoria da Recepção, nos moldes daquilo que busca Jauss, já que uma das importantes tarefas dos pesquisadores desse campo é a tentativa de descrever variáveis históricas – tanto de natureza quantitativa quando de natureza qualitativa, esta incluindo os mais diferentes aparatos e objetivos de análise – presentes em séries sincrônicas e diacrônicas de objetos compreendidos como resultantes de alguma operação tradutória, não sendo demasiado lembrar que o próprio estabelecimento do que se entende por tradução, e por objeto traduzido, também varia de acordo com o contexto, ou seja, está sujeito, histórica e culturalmente, a mudanças. A operação de descrição, contudo, não se define por si mesma, pois pressupõe que existam critérios de descrição – os quais já são critérios judicativos. O desejo de um hipotético, mas impossível horizonte de isenção descritiva parece constituir, assim, um dos problemas centrais de uma Teoria da Recepção, válidos, portanto, para uma Teoria da Recepção de Objetos Traduzidos.

Também é inegável a relevância do liame entre uma teoria da tradução e uma teoria da leitura, já que todo tradutor é um leitor,

Luis Alberto Brandão18 embora nenhuma dessas duas categorias seja autoevidente. Nesse sentido, a obra do primeiro Iser é de fato estimulante, já que procura passar em revista, de modo rigoroso, os vários modelos de leitor presentes de maneira explícita ou implícita nos sistemas de abordagem do texto literário. Trata-se da acareação do leitor ideal, do arquileitor de Michael Riffaterre, do leitor informado de Stanley Fish, do leitor intencionado de Erwin Wolff, e da proposição de uma categoria própria, a do leitor implícito. A cada um desses modelos de leitor muito provavelmente correspondem modelos de tradução, ou modelos de análise do trabalho tradutório.

Também estimulante na obra do primeiro Iser é a problematização do que se entende por leitura, sobretudo no caso de obras literárias. Nesse caso, considera-se que a leitura não é uma operação que produz sentido, mas uma experiência, um evento no qual o sentido é um efeito a vivenciar. Assim, não são os sentidos constituídos que vêm em primeiro plano, mas o próprio ato de constituição, o qual não se subordina a nenhum tipo de validação explicativa. Segundo Iser, a leitura literária não é uma operação prioritariamente cognitiva, interpretativa, equivalente a um processo de semantização, de atribuição de sentidos identificáveis, mas uma operação do imaginário.

A noção de imaginário, para Iser, vincula-se a fatores de indeterminação, os quais possibilitam que as determinações – entendidas, de modo muito amplo, como o que qualifica algo como dotado de realidade – sejam deslocadas por meio do fictício, que atua conforme a equação “como se”. O imaginário é um campo de possibilidades, concretizáveis pela atuação do fictício. Toda forma de escrita é, assim, da ordem do fictício, já que executa esse trabalho concretizador, sendo que, na escrita literária, o fictício se autodesnuda.

Talvez seja interessante, então, pensar que, por ser um leitor que procura escrever sua leitura, o tradutor ocupa posição peculiar no que tange às relações entre o fictício e o imaginário. Entender o tradutor apenas como aquele que semantiza sua leitura é equipará-lo ao crítico, enfatizando os fatores de determinação presentes na leitura – ou,

19Teoria literária e tradução segundo a nomenclatura iseriana, a ação realizadora do fictício. Se é verdade que o tradutor se assemelha ao crítico, é preciso também lembrar que aquele se diferencia deste por atuar como um propositor de eventos, de experiências de leitura com sua carga de indeterminação, ou seja, com a impregnação do imaginário. Pode-se supor que cabe ao tradutor literário ativar, em algum nível, a potência que a indeterminação exerce sobre a determinação, ao mesmo tempo que estabelece os elementos de determinação sobre os quais, e a partir dos quais, a indeterminação pode operar.

Muitas outras perguntas, dirigidas à traduzibilidade na Teoria

Literária, poderiam ser feitas. Neste momento, nos contentamos em deixar que o panorama especulativo esboçado produza ressonâncias.

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