Levantamento Solos

Levantamento Solos

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LEVANTAMENTO E MAPEAMENTO DE SOLOS Parte do Manual de pedologia do IBGE (2003)

Definição

Os levantamentos de solos envolvem pesquisas de gabinete, campo e laboratório, compreendendo o registro de observações, análises e interpretações de aspectos do meio físico e de características morfológicas, físicas, químicas, mineralógicas e biológicas dos solos, visando à sua caracterização, classificação e principalmente cartografia.

Um levantamento pedológico é um prognóstico da distribuição geográfica dos solos como corpos naturais, determinados por um conjunto de relações e propriedades observáveis na natureza. O levantamento identifica solos que passam a ser reconhecidos como unidades naturais, prevê e delineia suas áreas nos mapas/cartas, em termos de classes definidas de solos.

Um programa de levantamento pedológico requer a existência de um sistema organizado de classificação em caráter permanente de atualização, que possibilite a identificação dos solos, em termos consistentes e uniformes, para facilitar a comunicação e o uso de informações para fins interpretativos (Avery, 1980).

O elo entre a classificação de solos e o levantamento fica estabelecido no momento em que solos semelhantes quanto às propriedades consideradas são reunidos em classes. As classes de solos combinadas com informações e relações do meio ambiente constituem a base fundamental para composição de unidades de mapeamento. Assim, a unidade de mapeamento é o grupamento de área de solos, estabelecido para possibilitar a representação em bases cartográficas e mostrar a distribuição espacial, extensão e limites dos solos.

De maneira geral, um levantamento identifica e separa unidades de mapeamento. Compreende um mapa com legenda e um texto explicativo, que define, descreve e interpreta, para diversos fins, as classes de solos componentes das unidades de mapeamento.

O mapa/carta é parte fundamental de um levantamento. Mostra a distribuição espacial de características dos solos e a composição de unidades de mapeamento, em termos de unidades taxonômicas, ressaltando também, características do meio ambiente.

Objetivos

Os levantamentos pedológicos têm objetivos diversificados, desde a geração de conhecimentos sobre o recurso solo de um país ou região, até o planejamento de uso da terra para diversos fins, em nível de propriedade.

O objetivo principal de um levantamento pedológico é subdividir áreas heterogêneas em parcelas mais homogêneas, que apresentem a menor variabilidade possível, em função dos parâmetros de classificação e das características utilizadas para distinção dos solos.

Utilidades

Os levantamentos pedológicos contribuem para o acervo de conhecimentos especializados na área de Ciência do Solo, bem como fornecem dados de aproveitamento imediato, sobretudo no que se relaciona à previsão de comportamento de uso dos solos em relação às práticas de manejo e conservação.

Contêm informações que permitem repartir áreas heterogêneas em porções mais homogêneas, que apresentam a menor variabilidade possível, em função da escala de mapeamento, dos parâmetros de classificação e das características utilizadas para distinção dos solos. Tais informações são essenciais para a avaliação do potencial ou das limitações de uma área, constituindo uma base de dados para estudos de viabilidade técnica e econômica de projetos e planejamento de uso, manejo e conservação de solos.

Em países desenvolvidos, os levantamentos pedológicos são executados de maneira planificada, obedecendo a uma programação de governo, para atendimento de projetos globais ou específicos, envolvendo o uso agrícola e não agrícola, conservação e recuperação dos solos, decisões localizadas em construção civil, expansão urbana, irrigação, drenagem, taxação de impostos, previsão de safras e planejamento de uso racional do solo em nível de propriedades.

No Brasil, os levantamentos de solos têm atendido a instituições de assistência técnica, de planejamento e de execução de projetos, para fins de seleção de áreas para colonização, estudos de viabilidade técnica de projetos de irrigação e drenagem, avaliação de aptidão agrícola, zoneamentos diversos (pedoclimáticos, sócio-econômico-ecológicos, etc), extrapolação de resultados de pesquisas, indenização de áreas inundadas por represas hidrelétricas, subsídio ao estudo de impactos ambientais (EIA-RIMAS) e seleção de áreas experimentais. Podem também fornecer subsídios para elaboração de estudos da capacidade de uso da terra, de cartas morfopedológicas e de estudos geoambientais. Têm também atendido a instituições de ensino e pesquisa, constituindo bases permanentes para atualização de conhecimentos e formação de profissionais das áreas de Agronomia, Engenharia e Geociências.

Em países em desenvolvimento como o Brasil, há amplas possibilidades de se fundamentar o crescimento econômico no potencial de uso do solo, sendo, para isto, imprescindível o conhecimento de sua aptidão para os diversos tipos de exploração agropecuária e florestal, preservação, expansão de áreas urbanas e industriais e locação de rodovias e ferrovias, segundo planejamento ideal de ocupação, em harmonia com o meio ambiente.

Enfim, os levantamentos de solos proporcionam subsídios que poderão evitar que áreas inadequadas para exploração sejam desmatadas ou alteradas em suas condições naturais de equilíbrio, causando danos irreversíveis à natureza, sem o esperado retorno dos investimentos.

Unidades Básicas de Referência

O indivíduo solo

Cline (1949) identifica indivíduo como “o menor corpo natural, definível por si próprio”. Os indivíduos de interesse para a classificação passam a ser membros de classes. Pela definição de Cline (1949), um indivíduo pode representar somente um objeto do universo sob consideração. O indivíduo é completo e indivisível.

Em taxonomia de solos, o indivíduo solo não é perfeitamente distinto, é uma entidade imaginária, criada artificialmente por conveniência (Knox, 1965). O indivíduo solo é uma concepção teórica. É alguma coisa dentro de certos limites estabelecidos pela mente humana e não coincide necessariamente com as regras da natureza. É, portanto, dependente de limites de classe impostos pelo homem, para atender esquemas de classificações locais e por isso, muito difícil que seja transferido para outros esquemas.

Pedon e Polipedon

Nos sistemas modernos de classificação de solos, têm ampla preferência os conceitos de pedon e polipedon, como unidades básicas de referência taxonômica e também como elementos de transferência da concepção teórica do indivíduo solo para o reconhecimento, no campo, de unidades taxonômicas e por fim, unidades de mapeamento.

O pedon é uma unidade básica de referência, tridimensional, com limites e dimensões arbitrárias, cuja área é determinada pela variabilidade lateral das características utilizadas em taxonomia de solos. Não possuem limites concretos e muitas características se superpõem às de outros pedons e existem em número infinitamente grande (Schelling, 1970).

Polipedon é uma área de solos constituída por agrupamento de pedons semelhantes, cujos limites laterais coincidem com os limites de outros conjuntos de pedons e cuja profundidade é determinada pelos pedons que o constituem (Schelling, 1970).

Para fins de mapeamento, o polipedon é o elemento de ligação entre a classe de solo e a paisagem. Tem limites laterais estabelecidos pelos critérios de classificação e coincide com a classe de solo no nível categórico mais baixo da taxonomia de solos. Desta forma, o polipedon tem limites objetivos, coincidindo com unidades geográficas básicas de solos que servem ao propósito de identificação e delineamento de classes no campo. (Johnson, 1963; Estados Unidos, 1975).

Perfil

Um perfil de solo é definido como um corte vertical na superfície da terra, que inclui todos os horizontes pedogeneticamente inter-relacionados e/ou camadas que tenham sido pouco influenciadas pelos processos pedogenéticos.

O perfil é uma face exposta do solo, que é reconhecido, classificado e descrito no campo. Somente em situações muito raras é que um perfil coincide com as dimensões de um pedon. Por isso, o conceito de pedon (unidade básica de referência para classificação) é normalmente estabelecido mediante observação, descrição, coleta e interpretação de dados morfológicos e analíticos de vários perfis representativos de um determinado segmento da paisagem (Canada, 1984).

Classe de solo

É definida como um agrupamento de indivíduos, ou outras unidades básicas (pedon, por exemplo), semelhantes em características selecionadas. Classe de solo, conforme definida, é sinônimo de taxon e tem o mesmo significado de unidade taxonômica.

A classe de solo, definida por características morfológicas, físicas, químicas e mineralógicas, com apoio num sistema taxonômico organizado, constitui a unidade fundamental na composição de unidades de mapeamento e no estabelecimento das relações solo/paisagem. Portanto, haverá sempre uma classe de solo correspondente a cada nível hieráquico dos Sistemas Taxonômicos.

Unidades Taxonômicas

A unidade taxonômica é conceituada segundo um conjunto de características e propriedades do solo, conhecidas por meio do estudo de pedons e polipedons e corresponde à unidade de classificação mais homogênea em qualquer nível categórico de sistemas taxonômicos.

É uma concepção teórica para facilitar o conhecimento sobre objetos (no caso, solos), em tão grande número, que seria impossível a compreensão dos mesmos individualmente. É integrada por um conceito central, representado por um perfil de solo modal, que exibe as propriedades e características mais usuais e de outros perfis, estreitamente relacionados, que variam em relação ao conceito central, mantendo, no entanto, a variabilidade dentro de limites determinados pela natureza de variável contínua, como é o caso do solo (Estados Unidos, 1951).

Unidades de Mapeamento

Unidade de mapeamento constitui um conjunto de áreas de solos, com posições e relações definidas na paisagem. É caracterizada em termos da(s) unidade(s) toxonômica(s) que a compõem. As unidades de mapeamento podem ser constituídas tanto por classes de solos, quanto por tipos de terreno. Ora juntamente (associação) e ora individualmente.

São na realidade as unidades mais homogêneas, que se consegue individualizar por interpretação de materiais básicos, em associação com trabalhos de campo, considerando-se o nível/escala do mapeamento. Os mapas/cartas são, portanto, constituídos por diversas unidades de mapeamento.

As características e propriedades dos solos componentes de uma unidade de mapeamento são definidas pelas descrições e conceituações das unidades taxonômicas que a compõem.

Enquanto uma unidade taxonômica é uma classe de solo definida e conceituada, segundo parâmetros de classificação, uma unidade de mapeamento é um conjunto de áreas de solos com relações e posições definidas na paisagem.

Uma unidade de mapeamento pode ser designada pelo nome de uma única unidade taxonômica (unidade simples) ou por várias unidades taxonômicas (unidade combinada).

Numa unidade simples, há predominância de uma classe de solos, com variações mínimas de características e propriedades. No mínimo 70% dos pedons em cada delineação de uma unidade simples deve pertencer à classe taxonômica que lhe dá o nome.

Uma unidade simples é uma unidade de mapeamento com um só componente, podendo apresentar limites difusos, muito nítidos ou pouco nítidos em relação a outras unidades de solos.

Entre as unidades combinadas, são de maior relevância, para os levantamentos pedológicos, as associações, os complexos e os grupos indiferenciados de solos. Em sua composição, entram dois ou mais componentes.

Associações e complexos consistem de combinações de duas ou mais classes de solos distintos, ocorrendo em padrões regularmente repetidos na paisagem.

Em ambos os casos, os componentes principais podem ser nitidamente diferentes ou pouco diferenciados, tanto na morfologia como no conjunto de propriedades físicas, químicas e mineralógicas.

Associação de solos – é um grupamento de unidades taxonômicas definidas, associadas geográfica e regularmente num padrão de arranjamento definido. É constituída por classes de solos distintos, com limites nítidos ou pouco nítidos entre si, que normalmente podem ser separados em levantamentos de solos mais pormenorizados. A associação é estabelecida, principalmente, pela necessidade de generalizações cartográficas, em função da escala e do padrão de ocorrência dos solos de uma área. Sua designação é feita pela junção dos nomes de duas ou mais classes de solos e/ou tipos de terreno ligados pelo sinal (+);

Na descrição de unidades de mapeamento representadas por associações deve ser especificado o percentual de ocorrência de cada componente. Componentes individuais de uma associação devem ocupar no mínimo 20% da área da associação.

Complexo de solos – é uma associação de solos, cujos componentes taxonômicos não podem ser individualmente separados nem mesmo em escalas em torno de 1:20 0. As unidades taxonômicas que compõem um complexo deverão ser, necessariamente, identificadas, descritas, coletadas e caracterizadas analiticamente. O complexo é definido de acordo com as classes de solos que o compõem e identificado de acordo com os nomes das unidades taxonômicas ligadas por hífens, precedidos da palavra complexo. É, por definição, constituído por solos distintos, com limites pouco nítidos entre si, de difícil individualização para fins cartográficos.

Grupos indiferenciados de solos – são constituídos pela combinação de duas ou mais unidades taxonômicas com semelhanças morfogenéticas e, portanto, pouco diferenciadas. São constituídos por unidades taxonômicas afins, com morfologia e propriedades muito semelhantes e com respostas idênticas às práticas de uso e manejo. Declividade, pedregosidade, rochosidade e drenagem, podem reunir solos distintos no mesmo agrupamento, uma vez que são determinantes do uso e manejo. Os grupos indiferenciados são designados pelos nomes das unidades taxonômicas e ligados pela conjunção e precedidos da expressão grupo indiferenciado.

Tipos de terreno – são ocorrências especiais, não caracterizadas propriamente como classes de solos, que por vezes constituem unidades de mapeamento.

Inclusões – em unidades de mapeamento simples ou combinadas, é comum a ocorrência de solos em proporção muito menor que o componente ou componentes principais. Estas ocorrências são designadas por inclusões e, em geral, representam menos de 20% da área total da unidade de mapeamento.

Fases de Unidades de Mapeamento

A fase não é uma unidade de classificação. É um recurso utilizado para separação das classes de solos, visando prover mais subsídios à interpretação agrícola e não-agrícola dos solos.

A fase é utilizada para indicar mudanças nas feições do meio físico, no comportamento dos solos para fins específicos de uso e manejo e eventualmente nas características morfológicas. Ela pode ser empregada em qualquer tipo de levantamento pedológico, para subdivisão das unidades de mapeamento segundo características que influenciam no uso do solo, destacando-se: vegetação, profundidade, pedregosidade, rochosidade, erosão, drenagem, relevo ou qualquer outra característica importante para os objetivos do levantamento (vide Apêndice 1).

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