Glossário de Epônimos Anatômicos

Glossário de Epônimos Anatômicos

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Rev. Bras. Ciên. e Mov. Brasília v.8 n. 3 p. junho 200047

* Doutor em Anatomia; Ex-Presidente da Sociedade Brasileira de Anatomia; Coordenador da Área de Anatomia e Professor de Anatomia dos cursos de graduação e pós-graduação em Educação Física da Universidade Católica de Brasília.

** Bacharel em Direito. Pesquisador em Anatomia Humana aplicada à Educação Física. Universidade Católica de Brasília.

Endereço para correspondência: Universidade Católica de Brasília Área de Anatomia Taguatinga - DF E-mail: “abezerra@pos.ucb.br”

Resumo

[1] Bezerra, A.J.C. e Bezerra, R.F.A. Epônimos de uso corrente em Anatomia Humana: um glossário para Educadores Físicos. Rev. Bras. Ciên. e Mov. 8 (3): 47-51, 2000. A multiplicidade de nomes de cientistas e de pesquisadores atribuídos a alguns órgãos e estruturas anatômicas tem dificultado a leitura e a elaboração de trabalhos científicos. Freqüentemente, tal dificuldade aumenta quando se constata que, para um mesmo músculo, ligamento ou tendão existem várias denominações. Este glossário apresenta aos profissionais da área de Educação Física os epônimos ainda de uso corrente na Anatomia Humana.

PALAVRAS-CHAVE: Epônimos - Nomenclatura anatômica - Nomina.

Abstract

[2] Bezerra, A.J.C. e Bezerra, R.F.A. Eponyms of current use in Human Anatomy: a glossary for Physical Educators. Rev. Bras. Ciên. e Mov. 8 (3): 47-51, 2000. The multiplicity of the names attributed by Scientists and Researchers to some organs and anatomical structures has made difficult reading and elaborating scientific papers. Frequently such difficulty increases when one sees that for the same muscle, ligament or tendon, there are various denominations. This glossary presents to the professional in the Physical Education area, the current eponyms still in use in Human Anatomy.

KEYWORDS: Eponyms - Anatomical nomenclature - Nomina.

Epônimos de uso corrente em Anatomia Humana: um glossário para Educadores Físicos

Current eponyms in Human Anatomy: a glossary for Physical Educators

Em fins do século XIX, aproximadamente 50.0 nomes estavam em uso para designar cerca de 5.0 estruturas anatômicas constituintes do corpo humano (5). A multiplicidade de nomes atribuídos a um mesmo acidente anatômico gerava grande dificuldade para a redação de trabalhos científicos e para a comunicação dos pesquisadores entre si (1). Tal dificuldade crescia, também, em decorrência do uso indiscriminado de epônimos (3).

Em linguagem científica, epônimo é o termo anatômico gerado a partir do nome de uma pessoa (2). O epônimo visava a homenagear o cientista que descobrisse ou primeiro descrevesse, por exemplo, um tendão (tendão de Aquiles = tendão calcâneo), um ligamento (ligamento de Poupart = ligamento inguinal) ou um órgão qualquer (trompa de Falópio = tuba uterina).

Além de dificultar o aprendizado dos nomes, o emprego dos epônimos era muitas vezes despropositadamente injusto, haja vista que Poupart, por exemplo, não foi o primeiro a notar a existência do ligamento inguinal.

Assim sendo, após séculos de acumulação de termos inapropriados para uma mesma parte do corpo, anatomistas de diversos países se reuniram e propuseram a Nomina Anatômica de Basiléia (Suiça, 1895). Esta norteouse em três princípios básicos: abolição dos epônimos, recomendação de que os termos sejam de fácil memorização e que cada estrutura anatômica passe a ser designada por um único nome.

Decorridos mais de um século, alguns epônimos continuam sendo usados na comunicação entre profissionais da área de saúde (4, 6, 9).

Este trabalho visa a mostrar aos educadores físicos que diferentes termos anatômicos, encontrados atualmente nos livros de anatomia, cinesiologia e fisiologia, por exemplo, podem estar se referindo a uma mesma estrutura do corpo humano (7, 8).

Epônimos correntes

Adão, pomo de - (proeminência laríngea). Saliência na face anterior do pescoço, causada pelo ângulo formado pela junção das bordas anteriores das duas lâminas da cartilagem tireóide. Em latim chama-se pomum adami. O termo deriva da idéia de que parte da maçã proibida, ingerida por Adão, ficou presa em sua garganta.

* Armando José China Bezerra ** Ricardo Flávio de Araújo Bezerra

Rev. Bras. Ciên. e Mov. Brasília v.8 n. 3 p. junho 20004847-51

Alcock, canal de - (canal pudendo). Canal fascial de revestimento do músculo obturador interno, contendo os vasos pudendos internos e o nervo dorsal do pênis/clitóris. Thomas Alcock (1784-1883) foi um anatomista inglês.

Aquiles, tendão de - Tendão conjunto de inserção dos músculos gastrocnêmio e sóleo no osso calcâneo. O nome deriva do fato de Aquiles haver sido seguro pelos tornozelos, ao ser mergulhado no lago batismal. Como a água benta não entrou em contato com o tendão calcâneo, essa parte do corpo ficou vulnerável. Na Guerra de Tróia, Aquiles foi posto fora de combate após ter tido seu tendão calcâneo transfixado por uma flexa, disparada pelo guerreiro Paris.

Auerbach, plexo de - (plexo simpático mientérico). Leopold Auerbach (1828-1897) foi um neuropatologista alemão. Descreveu também os gânglios do plexo mientérico.

Bartholin, glândulas de - (glândulas vestibulares maiores). Casper Bartholin (1655-1738) foi um anatomista dinamarquês. Além das glândulas mucíparas vulvovaginais, descreveu ainda o forame obturado do osso do quadril (forame de Bartholin) e os ductos excretores da glândula salivar sublingual (ductos ou canais sublinguais de Bartholin) que drenam no ducto submandibular. Estes são também chamados canais de Rivinus. Augustus Qurinus Rivinus (1652-1723) foi o anatomista alemão que descobriu a glândula sublingual e seu ducto. Casper Bartholin era filho do anatomista Thomas Bartholin que descreveu, pela primeira vez, o sistema linfático e o ducto torácico.

Bauhin, válvula de - (papila ileal). Gaspar Bahuin (1560-1624) foi um anatomista suíço. Também é chamada Valva de Tulpius. Tal nome é uma homenagem ao seu descobridor Nikolaas Tulp, (1593-1674), médico holandês imortalizado por Rembrandt em sua pintura a óleo “A Lição de Anatomia do Professor Tulp” (1632). A referida tela encontra-se, presentemente, no museu Mauritshuis, em Haia (Holanda).

Bell, músculo de - Feixes musculares que se estendem dos óstios uretéricos até a úvula, limitando lateralmente o trígono vesical. Descreveu ainda os nervos frênicos (diafragma) e torácico longo (serrátil anterior). Cirurgião escocês (1774-1842), foi o primeiro a estabelecer que as raizes nervosas anteriores são motoras e que as posteriores são sensitivas.

Bellini, túbulos de - (túbulos coletores do rim).

Lorenzo Bellini (1643-1704), italiano, lecionou Anatomia em Pisa.

Bichat, bola gordurosa de - (corpo adiposo da bochecha). Massa adiposa situada entre os músculos masseter e bucinador. O anatomista e histologista Marie François Xavier Bichat (1771-1802) era francês. A parte inferior do ligamento sacro-ílico posterior, algumas vezes conhecido como ligamento ílico transverso, foi por ele primeiramente descrito (ligamento de Bichat).

Bigelow, ligamento de - (ligamento iliofemoral).

O citado ligamento também é chamado ligamento em Y de Bigelow. Henry Jacob Bigelow (1818-1890) era norte-americano e lecionou cirurgia em Harvard.

Billroth, cordões de - disposição da polpa vermelha no baço. Christian Billroth (1829-1894) foi um cirurgião austríaco. É de sua autoria a classificação das queimaduras em três graus.

Botallo, forame de - (forame oval). Comunicação entre os átrios do coração, durante o período fetal. Leonardo Botallo foi um anatomista e cirurgião italiano. Nascido em 1530, descobriu também o canal arterial e o ligamento arterial.

Bourgery, ligamento de - (ligamento poplíteo oblíquo). Expansão tendinosa do músculo semimembranoso na cápsula articular do joelho.

Bowman, cápsula de - (cápsula do glomérulo renal). William Bowman (1816-1892) foi um oftalmologista inglês. Agraciado com o título de Sir, lecionou Anatomia no King’s College, em Londres. Descreveu ainda as glândulas serosas da mucosa olfatória e a lâmina limitante anterior da córnea (membrana de Bowman).

Broca, circunvolução de - (giro frontal inferior do hemisfério cerebral esquerdo). É considerado o centro da linguagem articulada. Pierre Paul Broca (1824-1880) foi um atuante cirurgião parisiense.

Brödel, linha avascular de - Linha hipovascularizada, existente na margem lateral do rim, que demarca as áreas irrigadas pelos ramos anterior e posterior da artéria renal. Max Brödel (1870-1941) foi um entusiasta do desenho anatômico, como meio de ensino, tendo chegado a ocupar a posição de diretor do Instituto de Artes, de Baltimore.

Camper, fáscia de - (fáscia subcutânea superficial). É a camada superficial da tela subcutânea do abdome. Pieter Camper (1722-1781), médico e anatomista holandês, dedicava-se também às artes plásticas.

Chassaignac, espaço ou bolsa de - (espaço retromamário). Situa-se entre a camada profunda da tela subcutânea e o músculo peitoral maior. Charles Marie Edouard Chassaignac (1805-1879), cirurgião francês, descreveu também o tubérculo anterior ou carótico da sexta vértebra cervical.

Colles, fáscia de - Camada membranácea profunda da fáscia perineal superficial. Abraham Colles (1773- 1843) foi um médico irlandês. Lecionou Anatomia no Irish College of Surgeons onde escreveu seu renomado trabalho sobre fratura de Colles (fratura da epífise distal do rádio). Descreveu também o ligamento inguinal reflexo e o espaço perineal superficial.

Cooper, ligamento de suspensão de - (ligamento suspensor da mama). São fibras conjuntivas que unem a glândula mamária à pele. Sir Astley Paston Cooper (1768- 1841) foi um renomado cirurgião inglês.A artéria epigástrica inferior e o ligamento pectíneo também foram descobertos por Cooper.

Corti, órgão de - (órgão espiral). Alfonso Marchese

Corti (1822-1888) foi um anatomista italiano. Descreveu, também, o gânglio espiral e a membrana tectória.

Douglas, fundo de saco de - (escavação retouterina). James Douglas (1675-1742) foi um destacado anatomista escocês e um atuante médico em Londres. Des-

Rev. Bras. Ciên. e Mov. Brasília v.8 n. 3 p. junho 20004947-51 creveu, também, a linha arqueada ou semicircular da lâmina posterior da bainha do músculo reto abdominal e a prega retouterina.

Dupuytren, fáscia de - (fáscia palmar). Guillaume

Dupuytren 1778-1835 foi um cirurgião e anatomista francês. Ficou famoso por seus trabalhos sobre a contratura da aponeurose palmar por esforços repetitivos, relacionados com o trabalho.

Edinger-Westphal, núcleo de - (parte do núcleo oculomotor no mesencéfalo). Tal estrutura anatômica foi estudada por dois pesquisadores alemães. Ludwig Edinger (1855-1918) foi docente de Anatomia em Frankfurt. Canhoto, exímio violinista, doou seu cérebro para estudos neuroanatômicos. Deu continuidade aos trabalhos científicos do neurologista alemão Carl Friedrich Otto Westphal (1833-1860).

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