A Sociologia no Brasil. In Tempo Social

A Sociologia no Brasil. In Tempo Social

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Interessa, porém, à Sociologia notar que fundou as suas opiniões numa concepção coerente da sociedade brasileira. Partindo da função exercida na evolução social pela maior ou menor adaptação dos grupos humanos ao meio, combate a teoria da superioridade constitucional dos povos nórdicos europeus sobre os meridionais, de onde proviemos, bem como da inferioridade dos povos de cor, autóctones ou importados pela escravidão. As raças se ajustam diferentemente aos diferentes meios; o nosso é favorável aos povos mediterrâneos, devendo-se notar que os da Península Ibérica são mesclados largamente de sangue africano; é também evidentemente favorável ao africano e ao nosso índio; neste caso, os nórdicos é que seriam aqui mesologicamente inferiores. Tôrres conclui que temos, de modo geral, a população adequada e capaz para o nosso meio, não havendo razão para pessimismo racista.

No entanto, é contra a mestiçagem, entendendo que o cruzamento enfraquece as qualidades das raças originais, que deveriam ser mantidas lado a lado – raciocínio que mostra quanto de mecânico e utópico havia no seu pensamento, que recuou ante a realidade básica da nossa história no terreno étnico, como havia indicado Silvio Romero desde 1880, ao nos definir como povo caracterizado pela mestiçagem física ou espiritual.

As reflexões sobre a raça e o meio servem-lhe de introdução ao estudo do problema, para ele básico, de aproveitamento e organização dos bens proporcionados pela exploração dos recursos naturais. Neste passo é que se toca no fulcro do seu pensamento, podendo-se sentir a coerência, inédita entre nós, com que procura relacionar a vida dos grupos às necessidades gerais da sociedade nacional. A base onde assentam as formas organizatórias, culminadas pelo Estado, é a dinâmica dos grupos humanos, com suas características raciais, ajustados a determinado meio com certos recursos à sua disposição. Cabe ao estudioso analisar essa dinâmica complexa para extrair coerentemente as normas políticas.

Tal linha é nítida em Oliveira Viana, sem dúvida o mais eminente dessa fase, inspirado pelas indicações de Silvio Romero quanto à teoria sociológica da escola de Le Play e da antropossociologia de Ammon e Lapouge, mas discípulo direto e confessado de Alberto Tôrres na maneira de encarar o problema, para ele fundamental, da organização política, segundo as diretrizes apontadas.

Como para Alberto Tôrres, a preocupação de Oliveira Viana é sobretudo política, podendo-se considerar toda a sua longa obra como preparação do

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Antonio Candido livro final sobre as nossas instituições políticas. Enquanto, porém, o mais velho se preocupava diretamente e desde logo com os problemas de aplicação prática, ele se dedicou mais acuradamente ao estudo da formação social, buscando nela as raízes para a doutrinação teórica no terreno da política e da administração.

Do seu equipamento teórico, já referido, guardou sobretudo a importância dada ao fator racial e a idéia, de que nunca se desprendeu totalmente, apesar de protestos em contrário, de superioridade e inferioridade raciais. Assim, procura explicar certos traços estruturais, institucionais, e certas tendências na vida política brasileira pela diferença da capacidade dos grupos colonizadores – portugueses do Norte ou do Sul, louros ou morenos, com preponderância celta ou gótica. No terreno da pura fantasia, estabelece para a colônia uma estratificação social em que os senhores rurais de origem germânica ou céltica ocupam o pináculo, os morenos algarvios ou alentejanos o degrau médio, os mestiços e homens de cor a plebe rural...

Mas, fora tais deslizes que procurou corrigir em seguida, hauriu na influência leplayana certas inspirações que o conduziram a algumas das suas melhores realizações quanto ao método e à interpretação. Na sua obra, é notória neste sentido a importância dada ao meio físico como base imediata da vida econômica, que por sua vez determina de perto a organização da família, célula da sociedade. São clássicos os seus estudos sobre a família rural do Brasil-Colônia, que analisou como grupo multifuncional (isto é, desempenhando “função simplificadora”), centralizando toda a vida material e espiritual do país. Com esta base, passa ao estudo do particularismo político, o mandonismo das câmaras, que retoma a partir do velho João Francisco Lisboa e lhe parece condicionar a dinâmica da nossa vida política, entrecortada de tensões entre os poderes locais (com a sólida base econômico-social da família) e os poderes centrais, no seu esforço de unificação e, em seguida, progressiva racionalização administrativa.

Apesar das restrições, sobretudo metodológicas, que se podem opor, é sem dúvida imponente e fecunda a sua construção, culminada pela determinação de “tipos sociais”, definidos segundo a base econômica, variando esta por sua vez conforme as condições regionais. O seu livro básico, Populações meridionais do Brasil (1919; 2º volume póstumo, 1952), estuda justamente os tipos humanos de Minas, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, ligados ao bandeirismo, ao pastoreio e à agricultura do café.

Com ele, atingimos o momento decisivo na formação da Sociologia brasileira, em que representa o divisor de águas entre a tendência para a “vista

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Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 1282 sintética”, como dizia Silvio Romero, e a necessidade analítica de discriminar tipos sociais, de que Euclides fora o precursor. Os seus métodos, ainda ligados à primeira orientação, não lhe permitiriam passar convenientemente à segunda, sendo todavia de notar que é o primeiro a recorrer com regularidade à estatística e a tentar uma renovação da bibliografia, para além do evolucionismo e da escola de Le Play. 5 – Chegada a este ponto, a formação da Sociologia brasileira vai entrar numa etapa culminante, em que se preparam os elementos para sua definitiva constituição e consolidação. Tendo já consciência dos fatos essenciais da realidade brasileira que lhe competia estudar; tendo já elaborado alguns pontos de vista coerentes sobre o país; tendo firmado alguns critérios explicativos (como o recurso à História, o estudo da adaptação ao meio, a avaliação das etnias na formação social, o senso da complexidade cultural); tendo firmado esses e outros critérios, faltava-lhe dar o passo decisivo para se incorporar à nossa vida intelectual: enriquecimento e modernização da teoria, de um lado; opção decidida pelos métodos diretos de pesquisa empírica da realidade presente, de outro. Nesse sentido, era condição indispensável iniciar o seu ensino, sem o qual não haveria possibilidade de formar os sociólogos profissionais e, de maneira mais lata, quadros intelectuais tecnicamente preparados, livres dos caprichos do autodidatismo – que não convém vituperar, porque foi o grande recurso do nosso progresso mental; mas que em nossos dias vai perdendo campo, como etapa vencida pelas próprias exigências desse progresso.

Isto aconteceu devido à ação dos que estabeleceram a Sociologia como disciplina curricular e proporcionaram exposições sistemáticas dos seus princípios, na aula e no manual; e devido à influência que trouxeram aos estudos brasileiros as orientações modernas, superando as sugestões do século XIX, dentro das quais se moviam até então os estudiosos. Deixando para daqui a pouco o primeiro grupo, mencionemos agora este último, em que se destacam homens como Gilberto Freyre e Artur Ramos, aquele mais preso ao campo que nos interessa, este ao da Psicologia Social e da Antropologia de orientação psicológica.

Se Oliveira Viana é um fim da linha de “teoria geral do Brasil” sob um ponto de vista evolutivo, Gilberto Freyre, embora ligado a ela, é um começo, pela renovação dos métodos e a larga informação teórica em que se fundou. As suas obras são ainda tributárias da História; mas, como esta entre nós não se orientara decididamente para o estudo das estruturas e instituições, permanecendo, mesmo entre os melhores, como um levantamento de erudição, a

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Antonio Candido sua obra apareceu desde logo, ao modo da dos predecessores que estudamos, como Sociologia – como a fórmula brasileira da investigação sociológica. Aliás, Gilberto Freyre é um espírito antiacadêmico por excelência, livre das injunções da compartimentação universitária, despreocupado em estar “fazendo sociologia” e interessado apenas em dar sentido e profundidade à sua análise da sociedade brasileira, circulando livremente da Antropologia Física e Social à Geografia Humana, à Economia, à Psicologia. Mas como se aparelhou de formação técnica sem renunciar aos pendores pela intuição artística, a sua obra é limpidamente elaborada e rica de sugestões, tendo significado um marco decisivo e inspirador não apenas para sociólogos e antropólogos, mas para geógrafos, higienistas, políticos, críticos, historiadores. Casa-grande & senzala (1933) é, pois, legitimamente, o eixo em torno do qual gira a evolução que estamos estudando, ao rever as orientações do passado segundo critérios que se abrem para o futuro da disciplina.

Formado numa quadra em que a Sociologia teórica estava decadente, Gilberto Freyre se orientou mais para a Antropologia, no que aliás correspondeu às tendências da nossa evolução sociológica. Graças aos conceitos modernos de cultura, adaptação, contato racial e cultural, distância social, mobilidade – hauridos em homens como Boas, Wissler, Sorokin, Bogardus –, bem como a um pendor decidido pela ecologia humana e os estudos de miscigenação, retomou, fundiu e transfigurou numa síntese original, como fazem os renovadores, temas que se esboçavam, dissociados e fragmentários, na pena dos nossos pré-sociólogos, desde o último quartel do século XIX: papel das etnias constitutivas, mestiçagem, escravidão, família patriarcal, mandonismo, variações regionais etc. Estabeleceu uma correlação amplamente fundamentada entre o regime de propriedade (latifúndio), o de trabalho (escravidão) e o sistema agrícola (monocultura), para sobre ele definir a estrutura e a função da família da camada dominante, como fulcro de toda a organização da sociedade colonial, único ponto de apoio a que se podiam referir as normas sociais nos séculos de formação. Delineou os tipos humanos da camada senhorial e da camada servil, completando-os em Sobrados e mocambos (1936) com os que se interpuseram entre ambas, no processo de mobilidade vertical que foi, ao longo do século XIX, atenuando as distâncias e esboçando os estratos intermédios.

Os dois livros mencionados constituem a sua maior contribuição à sociologia e à história social brasileira, devendo-se juntar a eles Nordeste (1937), espécie de digressão à margem do tema, onde se patenteia a sua acuidade ecológica e que é possivelmente o mais harmonioso dos três. É preciso notar

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Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 1284 que, inteiramente desligado de preconceitos acadêmicos, como ficou assinalado, utiliza uma linguagem viva e insinuante, mais literária que científica na sua estrutura, embora não no léxico, e que é nele um instrumento de interpretação pela riqueza das imagens, a sugestão dos longos períodos em que dá vida e graça ao esqueleto da erudição e da análise. Como em Euclides da Cunha, temos aqui uma obra cujas virtudes literárias estão no nível da capacidade científica.

Contemporaneamente, isto é, no decênio de 1930, deu-se o fato mais importante para a formação da Sociologia, que foi, como dissemos, a sua emergência no ensino. Ressalta aí a atuação dos educadores, que vinham sentindo a sua necessidade para a formação profissional do professor primário e para a elaboração de uma teoria educacional adequada, sentindo logo a seguir a necessidade de estabelecer o seu ensino em nível superior. As reformas de Fernando de Azevedo no então Distrito Federal e em São Paulo (1927; 1933) incluem-na no currículo das Escolas Normais e cursos de aperfeiçoamento; a reforma federal de Francisco Campos (1931), nos cursos complementares. Na Escola Livre de Sociologia e Política e na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade, ambas em São Paulo, bem como na Faculdade de Filosofia da Universidade do Distrito Federal, fundam-se em 1933, 1934 e 1935 os primeiros cursos superiores de Ciências Sociais, figurando ela entre as matérias.

Ligados às necessidades de ensino, surgem então vários manuais e compêndios que permitem a divulgação científica e a ação sobre público mais amplo, como os de Delgado de Carvalho, Fernando de Azevedo, V. de Miranda Reis; o primeiro orientado pelas teorias americanas e de acentuado intuito prático, o segundo filiando-se principalmente à influência de Durkheim, com nítida preocupação teórica, e o último combinando várias orientações, num sentido mais expositivo.

Estes acontecimentos se ligam às condições políticas e sociais que sucederam à revolução de 1930, exprimindo uma curiosidade acentuada de conhecer o país e, em sentido mais amplo, a sociedade moderna e os seus problemas. A expressão “realidade brasileira” é típica do momento, tornando-se verdadeiro lugar-comum a que recorriam indiscriminadamente jornalistas, políticos, escritores e estudiosos; havia no ambiente, além disso, uma solicitação intensa pelos estudos sociais, que se multiplicaram nos diferentes campos da história, da economia, da política, da educação, concorrendo para criar uma atmosfera de receptividade e expectativa em torno da Sociologia.

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Antonio Candido

Notamos então incremento nos estudos sobre o negro e o índio, com sentido descritivo ou acentuada tendência para as explicações psicológicas, nos de folclore, nos de política, notando-se em todos eles uma espécie de decantação com a passagem (que marca todo o esforço do decênio) do ponto de vista sociológico para a ciência da Sociologia, da exposição didática para a pesquisa, da divulgação para a construção. Neste processo, foram parte magna, podemos dizer decisiva, os professores universitários, estrangeiros ou naturalizados, que constituem a primeira equipe, no Brasil, de estudiosos especificamente preparados para os estudos sociológicos e antropológicos: Horace Davies, Samuel Lowrie, Claude Lévi-Strauss, Paul Arbousse Bastide, Emilio Willems, Herbert Baldus, Jacques Lambert, Roger Bastide, Donald Pierson – americanos, franceses, alemães que nos vieram trazer a cultura universitária no setor das ciências sociais. Dentre os brasileiros que trabalham no mesmo movimento, destaca-se Fernando de Azevedo, que, passando dos estudos de educação para a Sociologia, ensinou-a e organizou as suas atividades, em São Paulo, primeiro no ensino médio, depois no superior, sem interrupção desde 1931, sendo desde a sua fundação, em 1947, o Chefe do Departamento de Sociologia e Antropologia da Universidade de São Paulo, onde se agrupam numerosos especialistas em cooperação didática e científica.

A sua obra sociológica principia com o decênio de 1930, após uma atividade intensa de escritor, voltado sobretudo para o humanismo clássico, a educação e a crítica, que o foram fazendo lentamente preocupar-se com a importância do fator social na cultura didática e científica.

A sua principal contribuição teórica se encontra em Sociologia educacional (1940), onde procura dar a esta disciplina uma fundamentação sociológica coerente, escapando às tendências demasiado pragmáticas dos americanos no sentido de uma “sociologia aplicada à educação”, que melhor se diria pedagogia sociológica. Trata-se neste livro de inverter de algum modo a posição, considerando a educação como um dos campos de investigação sociológica, armada de um sistema de conceitos, procurando definir o processo educacional no que tem de socialização, para, em seguida, estudá-lo em conexão com as instituições sociais, tanto as genéricas, como a família e o Estado, quanto as específicas, como a escola. Surge assim a necessidade de analisar a emergência dos papéis sociais ligados a ele, a partir dos tipos primitivos de transmissão da experiência cultural. Para isto, Fernando de Azevedo desenvolve as sugestões apontadas por Durkheim, utilizando os dados da Antropologia moderna e a sua própria experiência.

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Na linha já tradicional da Sociologia brasileira, produziu uma obra de interpretação global da nossa cultura espiritual, Cultura brasileira (1943), e um estudo do elemento político na sociedade que se desenvolveu com base na economia do açúcar, Canaviais e engenhos na vida política do Brasil (1948). O primeiro constitui um levantamento exaustivo da nossa vida intelectual e artística, que analisa num enquadramento fecundo, referindo-a primeiro às condições de formação histórico-social, para completá-la em seguida pelo estudo dos mecanismos de transmissão, que garantem no tempo a vida das conquistas espirituais. Era inédita, entre nós, a maneira por que entrosa na vida cultural a educação, que aparece em sua função histórica e social, intimamente solidária à vida do país.

Em Canaviais e engenhos, encara a relação dos fatos políticos com os demais aspectos da vida social, como de interconexão, isto é, como aquele sistema de normas que estabelece as condições de funcionamento das outras normas sociais, vinculando uns aos outros os diferentes elementos da organização. Sem desprezar, antes apontando devidamente o papel dos fatores mesológicos, separa-se da tradição brasileira em tais estudos pela superação das análises étnicas e o interesse direto pelos fenômenos estruturais, estudando a dinâmica das camadas e dos tipos de vida na formação da sociedade em estudo. Sobre esta análise, elabora finalmente o papel das ideologias.

Emílio Willems, radicado desde muito moço no Brasil, aqui realizou toda a sua obra e pertence de fato e direito à nossa Sociologia. Os seus primeiros estudos foram no campo da Sociologia Educacional, em que efetuou pesquisas, notadamente sobre o papel de peneiramento exercido pela educação em São Paulo. Influenciado pela teoria americana dos contatos raciais e culturais, estudou sob este prisma a colonização alemã do Sul do Brasil em Assimilação e Populações marginais (1940), retomando o tema com maior amplitude e renovado equipamento teórico em A aculturação dos alemães no Brasil (1946), onde aplica, de maneira coerente e sistemática, os modernos conceitos da antropologia cultural americana. Baseado em pesquisa de campo (sobretudo observação participante) e levantamento de material impresso (notadamente coleções de jornais), estudou o desenvolvimento de instituições, tipos de conduta e manifestações ideológicas que exprimem a acomodação dos imigrantes ao novo meio, dando lugar a uma cultura marginal teuto-brasileira, presa entre sentimentos de fidelidade à terra de origem e amor à terra nova, para se resolver afinal numa situação ambivalente que encontra expressão mais típica no “patriotismo local” –

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Antonio Candido espécie de racionalização elaborada como mecanismo adaptativo. Noutros trabalhos, estudou vários aspectos da aculturação dos japoneses.

Em Cunha, tradição e transição numa cultura rural do Brasil (1947) e

Buzios Island (1952), este em colaboração com Gioconda Mussolini, inicia o estudo dos agrupamentos caboclos, utilizando os métodos, inéditos entre nós, das pesquisas de comunidade. Nestes e noutros trabalhos orientou-se decididamente para a investigação empírica, esforçando-se por fazer a Sociologia entrar na fase de pesquisa direta da realidade presente. Estas diretrizes fecundas, que tiveram influência decisiva nas novas gerações de sociólogos, foram por ele ampliadas através da sua atividade docente e da revista Sociologia, que fundou em 1939 com Antenor Romano Barreto e ainda continua em plena atividade, a primeira e por muito tempo única publicação especializada no ramo.

Atividade de certo modo paralela, inspirada em fontes por vezes as mesmas, desempenhou e vem desempenhando Donald Pierson, sociólogo americano radicado no Brasil desde 1935, com poucas interrupções. Da sua intensa atividade destaquemos os dois livros principais: Negroes in Brazil (1942; tradução de 1945: Brancos e pretos na Bahia) e Cruz das almas, a Brazilian Vil1age (1953), este em colaboração com vários discípulos. O primeiro livro é fruto de uma pesquisa de dois anos na Bahia, segundo as orientações teóricas da “escola de Chicago”, a que se filia o autor, notadamente no que tange aos conceitos de contatos raciais e culturais. Para ele (e dos seus estudos locais generaliza para o Brasil), não há entre nós preconceito racial propriamente dito, como se verifica nos Estados Unidos (a preocupação comparativa é permanente no livro, servindo de base para orientar várias conclusões). Embora haja discriminação de cor, ela é condicionada em grande parte pela posição social segundo um esquema de classes, em que a mobilidade é possível e constante; não do tipo casta, em que tende a se perpetuar segundo a origem étnica. Daí o seu otimismo quanto à nossa democracia racial e a fórmula “preconceito de classe não de casta”.

Cruz das almas é baseado em pesquisa intensiva numa pequena vila do interior, levada a cabo com espírito diverso do que presidiu à elaboração de Cunha e mais próximo do roteiro de Buzios Island. Seguindo a linha das monografias etnográficas de comunidade, procede ao levantamento descritivo dos diversos aspectos da cultura material, crenças, trabalho, organização social, sem esquecer os dados prévios de natureza geográfica. É sem dúvida o primeiro levantamento exaustivo de uma comunidade cabocla, embora num sentido mais informativo que interpretativo. Em numerosos

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Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 1288 artigos, Pierson vem completando, nesse sentido, a publicação inicial. Mencionemos ainda que lhe foi confiado o levantamento sociocultural do vale do São Francisco pela respectiva Comissão, tendo ele organizado o trabalho de uma equipe.

Bem diferente da dos dois sociólogos indicados foi a ação de Roger Bastide, que aqui ensinou e pesquisou de 1937 a 1954. Espírito menos sistemático e mais inquieto, deu sobretudo um exemplo de tolerância teórica e liberdade crítica, utilizando pontos de vista da Sociologia francesa, alemã e americana, da Antropologia americana e inglesa, da tradicional “etnografia” francesa, da psicanálise e da filosofia social. Preocupado principalmente em “interpretar”, desenvolveu em seus discípulos a confiança nos fatores individuais do pesquisador, fundamentados todavia pelo rigor da posição teórica. A sua preocupação fundamental foram sempre os estudos afro-brasileiros, a que vem consagrando trabalhos de vária natureza, com preferência pelos fenômenos mágico-religiosos, nos quais lhe interessam sobretudo a análise e compreensão dos cultos: Estudos afro-brasileiros (3 séries, 1946, 1951, 1953); A poesia afro-brasileira (1943); Imagens do nordeste místico em branco e preto (1945); Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo (1955), importante pesquisa dirigida por ele e Florestan Fernandes, com a colaboração de outros especialistas.

Além dos estudos sobre o negro brasileiro, Bastide trabalhou e encaminhou discípulos em sociologia da arte, campo também de sua predileção (Arte e sociedade, 1945), psicologia social (Sociologia e psicanálise, 1948), não contando uma intensa atividade de crítica literária e da arte, para a qual trouxe a contribuição da sua cultura científica e filosófica.

Jacques Lambert, de estada curta entre nós, orientou os seus trabalhos no rumo da demografia (Problèmes demographiques contemporains, 1. Les faits [1944], em colaboração com L. A. Costa Pinto), publicando mais tarde, na linha das “teorias do Brasil”, que hoje parece ser preferida sobretudo pelos estrangeiros, uma síntese excelente, Le Brésil: structures sociales et institutions politiques (1953), a que se podem juntar outras, da mesma natureza, de mais dois professores franceses que ensinaram aqui: Les trois âges du Brésil, de Charles Morazé (1954), e Le Brésil, de Pierre Monbeig (1954). Numa linha algo diversa, de documentação e pesquisa mais acurada, temos Brazil, its people and institutions (1947), de T. Lynn-Smith, também residente alguns anos entre nós.

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Antonio Candido

Tendências atuais

Diante do exposto, compreende-se melhor em que sentido foi dito, a princípio, que a Sociologia só se constituiu realmente entre nós, como atividade ampla, reconhecida e produtiva, contando com pessoal mais ou menos numeroso e devidamente especializado, depois de 1940. Essa data é em parte convencional e aproximativa, pois não apenas os sociólogos da “fase transitória” trabalhavam e continuam trabalhando no sentido que se apontará aqui, e que foram eles a estabelecer, como vários sociólogos jovens prolongam orientações do período inicial; ela marca, todavia, perspectivas novas que mostram a consolidação da sociologia como ciência e profissão, diferenciada das disciplinas afins. Conseqüentemente, a produção muda de aspecto, constituindo-se cada vez mais de estudos empíricos metodicamente conduzidos ou teorias empiricamente fundamentadas.

Esse progresso pode ser verificado em três vias: 1) na organização do trabalho sociológico; 2) no novo espírito que o preside; 3) nas obras realizadas. 1) Quanto à organização, as atividades sociológicas devem ser consideradas sob três aspectos: (a) ensino; (b) pesquisa; (c) divulgação. (a) Vimos que o ensino se desenvolveu depois de 1930, mas só no decênio seguinte as escolas superiores passaram a fornecer de maneira ponderável professores e pesquisadores para abastecer os cursos técnicos, as faculdades, os serviços de investigação no setor social, que então se estabeleceram. A situação é particularmente favorável no estado de São Paulo, cujo ensino oficial é bastante desenvolvido, exigindo-se dos professores concurso de títulos e provas, e onde, no grau superior, existe o regime de tempo integral. Uma comparação entre os programas de há vinte anos e agora, mostra como aumentou em complexidade e coerência o currículo dos cursos superiores de sociologia, superada a etapa inicial, de teor demasiado geral, apoiada sobretudo no estudo das teorias e da história da sociologia. (b) No setor da pesquisa é que o avanço foi mais sensível, surgindo as primeiras verbas a ela destinadas, esboçando-se o trabalho das equipes, criando-se a mentalidade empírica, elaborando-se os primeiros planos metódicos de investigação. Nesse sentido, foi decisiva a influência das novas condições sociais, impondo aos governos e às organizações privadas um conhecimento racional da realidade em vista das necessidades cada vez maiores de planejamento e orientação racional das suas atividades. Para sistematizar o assunto, podemos distinguir quatro tipos de pesquisa que se vêm processando no Brasil: (1) pesquisas individuais, de finalidade acadêmica

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