A Sociologia no Brasil. In Tempo Social

A Sociologia no Brasil. In Tempo Social

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Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 1290 ou outra qualquer; (2) pesquisas didáticas, visando ao treinamento de alunos, isoladamente ou em grupos; (3) pesquisas em equipe, com finalidade científica; (4) pesquisas em equipe com finalidade prática.

No primeiro caso, temos a maioria dos trabalhos de sociólogos de carreira, ligados a instituições de ensino e pesquisa, ou dos estudiosos isolados em centros de pouca ou nenhuma organização do trabalho científico. Tem sido até agora a pedra de toque para a qualificação do especialista e já produziu resultados apreciáveis em poucos anos de florescimento. No segundo caso, temos atividades geralmente confinadas ao âmbito acadêmico, resultando em trabalhos individuais ou de grupos de estudantes mais ou menos capazes, trabalhando sob orientação, geralmente com finalidade de treinamento, mas podendo em certos casos produzir resultados dignos de publicação. Generaliza-se, contudo, cada vez mais, a tendência de associar o aluno aos trabalhos do terceiro e quarto tipo, em que um planejamento adequado e a finalidade extradidática permitem não só maior aproveitamento dos esforços como verdadeira iniciação profissional.

O terceiro caso, em fase inicial, é por exemplo o da pesquisa sobre preconceito de cor, realizada há alguns anos sob os auspícios da Unesco em vários pontos do país. Por último, temos investigações de caráter prático, sem prejuízo do método científico, visando a contribuir para a análise de uma situação ou de um problema, que se pretende enfrentar próxima ou remotamente. Sirva de exemplo o levantamento sócio-cultural do vale do São Francisco, realizado como parte do plano de recuperação e valorização daquela vasta área; ou a investigação dos níveis de vida em todo o país, por iniciativa do Governo Federal; ou, ainda, a atividade do Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais no sentido da melhoria da instrução e seu ajuste satisfatório às necessidades atuais do país.

Há neste último setor, por vezes, tendência para sair da Sociologia, com recurso a critérios que se aproximam dos da “pesquisa social”, isto é, a pesquisa a curto prazo norteada por finalidade prática imediata, com interesse apenas incidental pelos aspectos teóricos. Mas a sua importância é grande para o progresso científico, visto como não só apela cada vez mais para os especialistas, como vai levando as instituições públicas e privadas de administração, produção, comércio, etc., a prever um setor de investigação dos níveis de vida, poder aquisitivo, habitação, sociabilidade, opinião, atitudes coletivas, etc. (c) A divulgação do trabalho sociológico encontra ainda certas dificuldades, estando abaixo do volume e teor da produção científica. Cresce todavia

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Antonio Candido a possibilidade de publicar livros especializados, embora quase não haja subvenções públicas e particulares neste sentido. As entidades oficiais que editam, distribuem mal. A revista especializada de tiragem regular é Sociologia, mas algumas outras recebem trabalhos sociológicos, entre os de Antropologia, folclore, serviços públicos, etc.: Revista do Museu Paulista, Revista de Antropologia, Revista do Arquivo, Revista de Administração, em São Paulo. Cabe notar ainda a Revista Pernambucana de Sociologia e as publicações da Universidade de Minas Gerais.

A vida associativa é muito fraca e o intercâmbio se dá em base pessoal. A

Sociedade Brasileira de Sociologia, em que se transformou a antiga Sociedade Paulista de Sociologia, realizou um Congresso em 1954 na cidade de São Paulo e publicou em seguida os respectivos anais. A própria troca de publicações é limitada e, a não ser no Rio e São Paulo, os estudiosos dependem do acaso das relações para se porem a par do movimento sociológico no país. É mais fácil conhecer a marcha das pesquisas e publicações nos Estados Unidos e na Europa do que no Brasil – e o presente artigo, escrito por um sociólogo de São Paulo, certamente apresenta lacunas neste sentido. 2) Devemos agora indicar brevemente o espírito que vem presidindo a este desenvolvimento, de que é ao mesmo tempo condição e conseqüência.

Talvez se pudesse resumir dizendo que, no panorama da nossa história intelectual, o advento relativamente recente de uma sociologia científica se deu na medida em que os estudos sociais conseguiram, aqui, superar a mentalidade literária a que se haviam até então ligado indissoluvelmente. A literatura foi entre nós uma espécie de matriz, de solo comum, que, por mais tempo que em outros países, alimentou os estudos sobre a sociedade, dando-lhes viabilidade numa cultura intelectualmente pouco diferenciada. Os brasileiros que lidaram até os nossos dias com as ciências do homem fizeram-no em grande parte como escritores – com atitude mental, linguagem, métodos mais adequados à criação literária (no sentido amplo) do que ao objeto de estudo que escolhiam.

Nos últimos vinte anos, porém, temos visto surgir, cada vez mais, jovens que, ao se interessarem pelo estudo da vida social, fazem-no despreocupados de qualquer intenção estética, visando a abordar com espírito exclusivamente científico, ou pelo menos técnico, as suas disciplinas, encaradas agora como especialidades destacadas do tratamento literário. As obras mais significativas do pensamento pré-sociológico se haviam situado, no Brasil, em terreno dúbio, onde a precisão se disfarçava sob as sugestões artísticas, ou o rigor da observação era substituído por generalizações de cunho intui-

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Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 1292 tivo e técnica retórica. A restrição atual da soberania literária indica uma delimitação de esferas que é verdadeiro índice de maturidade cultural e garante a autonomia de cada uma das ciências humanas.

Todavia, as condições segundo as quais se desenvolveu a Sociologia no

Brasil convergem para lhe dar certas características próprias, num sentido de maior sincretismo, ou se quiserem, maior indiferenciação que noutros lugares. Assim, é bastante largo o seu âmbito de compreensão, englobando atividades que, noutros países, seriam rotuladas de história social, etnologia, antropologia cultural, folclore, política. Sincretismo que pode parecer indevido e talvez o seja em certa medida, mas corresponde a características da nossa evolução mental e necessidades ainda sentidas de compreensão da nossa realidade. Ela só tem sido prejudicial na medida em que não cria ambiente favorável para o desenvolvimento pleno das pesquisas sobre as sociedades urbanas e seus aspectos próprios, com técnicas quantitativas e recursos à estatística, a via preferencial por que deve entrar a Sociologia moderna, depois que os estudos de caráter descritivo, de tonalidade qualitativa, foram incorporados pela Antropologia. Mas, por outro lado, permite ao espírito e aos métodos sociológicos estenderem-se por vários setores que lhe estariam vedados em países de especialização acadêmica mais estrita, enriquecendo o conhecimento da realidade e facultando maior plenitude à personalidade dos estudiosos. A atual tendência para a convergência das ciências humanas encontra mesmo, no Brasil, terreno favorável, dadas estas condições da nossa evolução intelectual. 3) Pela falta de recuo e conseqüente dificuldade em avaliar as contribuições, não é fácil uma apreciação compreensiva da obra dos sociólogos brasileiros cuja atividade como grupo principia pouco antes de 1940 e dá fruto nos dois últimos decênios. Há atualmente no Brasil pelo menos meio cento em produção ativa, contando-se por centenas os pesquisadores, técnicos e professores, mais ou menos especializados. Na relação abaixo, figuram os que, exercendo a Sociologia ou, em alguns casos, a Antropologia como atividade profissional, já apresentam obra definida, salvo raras exceções já publicada sob a forma de livro, e que ordenaremos (sem preocupação de um quadro exaustivo de nomes e orientações) pelos tópicos seguintes: (a) teoria; (b) sociedades primitivas; (c) grupos afro-americanos; (d) sociedades rústicas; (e) aculturação de imigrantes; (f) fenômenos de urbanização; (g) “sociologias especiais”. (a) Embora muitos sociólogos tenham registrado em prefácios ou artigos os seus pontos de vista e posições teóricas, poucos publicaram, até ago-

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Antonio Candido ra, livros consagrados a problemas gerais de teoria, propriamente ditos. Merecem ser citados Mário Lins, Guerreiro Ramos e Florestan Fernandes.

Assim como nas primeiras etapas da evolução da nossa Sociologia os estudiosos procuraram elaborar teorias fundadas numa aplicação mais ou menos rigorosa de conceitos tomados às ciências biológicas, Mário Lins, trilhando uma senda já aberta por Pontes de Miranda com menos força sistemática no campo do Direito, procura aproveitar no mesmo sentido certos princípios da física moderna. Em Espaço-tempo e Relações Sociais (1940), deseja dar à Sociologia conceitos compatíveis ao rigor das ciências exatas, na medida em que tal é possível nas ciências do homem. Os conceitos de espaço e tempo, relação e mobilidade, são tratados em função das modernas teorias físicas, levando também em conta Pareto, Simmel, Von Wiese e Sorokin. Rejeita, porém, a separação formalista entre forma e conteúdo, além de registrar as dificuldades de estender esquemas físicos aos fatos sociais tomados na sua complexidade. Em A transformação da lógica conceptual da sociologia (1947), procura rever as suas bases conceituais à luz das novas teorias, fundadas na física moderna. A finalidade é garantir-lhe não apenas um rigor interpretativo coerente com o pensamento científico, mas preparar a sua aplicação adequada à realidade. Os novos conceitos de causalidade são estudados como garantia de afinidade entre a explicação sociológica e a das ciências físicas.

Guerreiro Ramos principiou por divulgar entre nós as teorias modernas sobre organização racional do trabalho (A sociologia industrial, 1951), ao mesmo tempo em que se dedicava aos problemas sociais brasileiros, que o levaram à preocupação acentuada com a velha “teoria geral do Brasil”. O seu ponto de vista é que o trabalho sociológico se vem perdendo em investigações de detalhe, empreendidas segundo métodos tomados de empréstimo aos estrangeiros, inadequados à nossa realidade, gerando em conseqüência falsos problemas, que desviam o sociólogo da sua verdadeira finalidade. Esta consiste precipuamente em construir uma interpretação geral do país, que sirva de ponto de partida aos estudos diretamente ligados aos problemas imediatos. No debate de tais idéias, Guerreiro Ramos ainda apresenta de comum com os seus predecessores o método polêmico e a apaixonada tomada de posição, à maneira de um Silvio Romero (Cartilha do aprendiz sociólogo, 1955).

A obra teórica de Florestan Fernandes compreende, além de quase uma dezena de artigos menores, três livros: A análise funcionalista da guerra: possibilidades de aplicação à sociedade tupinambá (1949), Ensaio sobre o método de interpretação funcionalista na sociologia (1953), Apontamentos sobre os proble-

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Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 1294 mas da indução na sociologia (1954). Apresentam, como traço geral, a característica de sucederem a intensa atividade científica, que permitiu ao autor, ao contrário de vários teóricos, a familiaridade com a matéria e o senso prático dos problemas.

O primeiro livro é uma investigação acurada sobre as possibilidades de estabelecer o conhecimento sistemático das sociedades primitivas por meio da análise das fontes primárias de caráter não-cientifico (pré-científico), no caso os cronistas e viajantes dos séculos XVI e XVII sobre os tupinambás. É uma discussão exaustiva, em que o autor demonstra a validade do método funcionalista na reconstrução do passado e na sistematização de aspectos doutro modo não coordenáveis para uma interpretação coerente.

No Ensaio, são abordados alguns tópicos de maior importância para a

Sociologia moderna. O ponto de partida é o conceito de função, que o autor, conforme algumas tendências atuais, aplica metodicamente ao trabalho sociológico, quando vinha sendo utilizado sobretudo pelos antropólogos. O método de que se trata aqui não deve ser confundido com o destes, mas engloba-o de certo modo, num sentido mais amplo e compreensivo. Trata-se em última análise de reconceituar o método “positivo” de algumas tendências tradicionais da sociologia “realista”, renovado pela perspectiva atual. É o método que pressupõe uma precedência lógica do “todo” na interpretação dos aspectos particulares da vida social, interessando-se não por interpretar o significado do comportamento dos agentes (método de compreensão), nem por aferi-lo ao condicionamento de determinado fator (método dialético, v. g.), mas por determinar o papel dos fatos sociais na integração de determinado sistema. O autor funda-se na análise da contribuição de três estudiosos que lhe parecem representar, a títulos diversos, a orientação estudada: Durkheim, Radcliffe-Brown, Merton. Coloca-se, porém, não numa atitude genérica em face da explicação sociológica, mas num ponto de vista delimitado, procurando determinar posições adequadas ao tratamento de situações empíricas definidas.

Esta delimitação é logicamente aprofundada nos Apontamentos, onde toma posição por uma sociologia empírica, baseada no acúmulo metódico de dados segundo diretrizes hipotéticas definidas, a fim de fornecer base para as operações indutivas, que analisa em suas várias modalidades, tanto sob o aspecto quantitativo como sob o qualitativo. As contribuições de Durkheim, Weber e Marx são estudadas, neste sentido, à luz das orientações mais modernas da metodologia das ciências. A posição do autor é compreensiva e despida de dogmatismo, norteada pela convicção, já manifesta no trabalho anterior,

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Antonio Candido de que a Sociologia só marchará para formas mais rigorosas de explicação se persistir na análise de situações delimitadas por meio dos processos empíricos. Julgada no conjunto a contribuição metodológica de Florestan Fernandes, e aferida ao sentido da nossa evolução sociológica, vemos que representa a grande expressão teórica do processo pelo qual vimos passando de uma Sociologia global para uma Sociologia com objeto definido, de um método evolutivo e comparativo para formas mais rigorosas de indução. Representa o sinal de que realizamos no Brasil, por vários modos, a marcha geral da Sociologia à busca de caráter científico: restrição de campo, definição de objeto, determinação de método. (b) Nos estudos sobre as sociedades primitivas é freqüentemente difícil distinguir os que dependem de outras disciplinas e os que cabem na Sociologia, a despeito de os autores os enquadrarem ou não sob a sua égide. No Brasil, constituem terreno bastante palmilhado, visto como a Etnografia foi entre nós, bem cedo, um dos ramos prediletos dos que se interessavam pelo estudo das sociedades. Deixando de lado trabalhos baseados na descrição e na interpretação de aspectos puramente culturais, mencionemos apenas os que dedicam atenção sobretudo aos aspectos organizatórios, à função social dos traços, apresentados com referência ao contexto. Neste sentido podemos mencionar a atividade de Egon Schaden, Gioconda Mussolini, Lucila Herrmann, Florestan Fernandes, Fernando Altenfelder Silva.

A Egon Schaden devemos principalmente dois livros, Ensaio etno-sociológico sobre a mitologia heróica de algumas tribos indígenas do Brasil (1945) e Aspectos fundamentais da cultura guarani (1954). Aquele constitui porventura a primeira contribuição brasileira ao estudo dos mitos segundo as teorias modernas, interessadas menos na análise etiológica ou comparativa que na determinação do significado funcional. No segundo, sobrelevam preocupações de ordem mais estritamente antropológica, centralizadas pelo problema da aculturação, que o autor focaliza em vários setores, mostrando particularmente a importância das representações religiosas na integração do grupo e seu contato com as comunidades luso-brasileiras. “É no sistema religioso que, apesar das grandes diferenças de um subgrupo para outro, a cultura guarani encontra a expressão máxima de sua unidade fundamental. E é na religião que os mecanismos de defesa e as condições de resistência cultural aparecem de maneira mais manifesta.” Daí a importância do estudo sobre o mito do Paraíso, a “terra sem males”, para compreender os mecanismos de frustração coletiva e sua conseqüência nas relações intra e intergrupais.

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A Gioconda Mussolini, voltada sobretudo para os estudos de cultura cabocla, devemos Os meios de defesa contra a moléstia e a morte em duas tribos brasileiras: Kaingang de Duque de Caxias e Bororó Oriental (1946). É uma espécie de “sociologia da doença”, em que a autora estuda (sobre material tomado às obras de Jules Henry, Colbacchini e Albisetti) a gênese, o conceito e a função da doença e da morte em duas culturas preocupadas com tais problemas, mostrando o papel da integração social, da concepção de vida, bem como os efeitos da doença na definição de status, na expressão grupal etc.

Sobre o rico material colhido pelo malogrado missionário beneditino dom Mauro Wirth, Lucila Herrmann escreveu A organização social dos Vapidiana do território do Rio Branco (1946), analisada a partir dos grupos dialetais, residência e ciclo de vida, passando em seguida às associações por parentesco, território, convivência ou comemoração, para finalizar com as formas de controle político, onde aborda mais de perto problemas de mudança cultural.

Florestan Fernandes publicou em 1949 Organização social dos Tupinambá e em 1952 A função social da guerra na sociedade tupinambá, baseados numa verdadeira reavaliação analítica do material constituído pelas crônicas e relatos dos séculos XVI, XVII e XVIII. No primeiro, procede à reconstrução da organização social dos Tupinambá, combinando à exegese textual os recursos metodológicos da Sociologia moderna. Sob este ponto de vista, podese dizer que o trabalho apresenta duas contribuições básicas: renovação das técnicas de leitura e compreensão dos cronistas, e aplicação do método funcionalista à sistematização dos dados assim reunidos. Mediatamente resulta em renovação dos pontos de vista até aqui expendidos sobre a organização dos indígenas estudados, e a afirmação das possibilidades da Sociologia moderna na reconstrução de sistemas sociais não satisfatoriamente explicados pelo tratamento histórico ou etnográfico.

O segundo livro acentua ainda mais as possibilidades funcionalistas apresentadas no anterior, segundo a combinação aguda do que se poderia chamar o “senso da função” com o “senso da estrutura”, característico de vários trabalhos da antropologia social inglesa. O autor mostra, neste sentido, após exaustiva análise contextual, como a guerra e a vindita desempenhavam, na sociedade tupinambá, função integradora, mercê das implicações mágico-religiosas, econômicas etc., que traziam certa satisfação necessária ao equilíbrio da personalidade e das relações grupais.

Em Mudança social dos Terena (1951), Fernando Altenfelder Silva analisa o papel, nesse fenômeno que estudou in loco, da troca de meio geográfi-

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Antonio Candido co, contato com as populações mato-grossenses, catequese, novos meios de vida, que influíram decididamente no sentido da destribalização. Os atuais Terena são católicos ou protestantes, bilíngües, integrados na economia latifundiária, praticando danças e folguedos da cultura cabocla embora conservem práticas mágico-religiosas e a consciência étnica – o que não permite considerá-los assimilados. (c) O estudo dos grupos afro-brasileiros, ou afro-americanos em sentido mais amplo, processou-se, na maioria, à margem de preocupações sociológicas, tendendo à psicologia, história, folclore, antropologia cultural, setores em que constitui objeto de uma produção abundante, e não raro de boa qualidade, sob a influência de Artur Ramos (herdeiro, ele próprio, da tradição de Nina Rodrigues), Gilberto Freyre e outros.

Num sentido mais próximo à Sociologia, ou se enquadrando inteiramente nela, destaquemos Otávio da Costa Eduardo, Ruy Coelho, Tales de Azevedo, L. A. da Costa Pinto e a publicação coletiva Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo, sob a direção de Roger Bastide e Florestan Fernandes.

Em The negro in Northern Brazil (1948), diz Otávio da Costa Eduardo que o negro das comunidades maranhenses, rurais e urbanas, ajustou-se bem à situação aculturativa. Conservando traços da cultura de origem, adotando outros do meio em que vive, alcança uma síntese que garante o equilíbrio da sua personalidade, visto como tem nítida consciência dos aspectos conflituais da cultura que desenvolveu. Não se registra, assim, ambivalência ou tensão psíquica, embora os negros da cidade revelem maior índice de insegurança. Para atingir o objetivo, o autor estudou os meios de vida, organização da família, religião, ritual da morte.

Em The black Carib of Honduras (1954), Ruy Coelho, discípulo de

Herskovits, como Otávio Eduardo, estuda a aculturação desse grupo centro-americano através da organização social, função econômica da família, papel do sobrenatural, para concluir pela existência de notável unidade cultural, a partir da fusão dos três elementos étnicos originais: africano, europeu, indígena. Esta homogeneidade é devida, do ponto de vista histórico, à falta de um grupo africano compacto da mesma origem que pudesse predominar no processo; ao crescimento pela inclusão de indivíduos nos grupos; à pressão do colonizador europeu, levando à união para sobrevivência. Do ponto de vista institucional, à flexibilidade da estrutura social e cultural da África Ocidental; à reinterpretação, atuando sobre elementos das três origens. Do ponto de vista psicológico, à importância conferida à iniciativa individual, permitindo a adoção harmoniosa dos elementos culturais.

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Enquanto estes trabalhos se enquadram melhor nos moldes antropológicos e visam a fornecer elementos para o estudo dos grupos negros “em si”, os seguintes são feitos conforme ponto de vista sociológico e estudam a posição dos negros e mestiços no conjunto da vida social.

Em Les élites de couleur dans une ville brésilienne (1953, o original brasileiro foi publicado em 1955), Tales de Azevedo investiga a ascensão social dos elementos de cor na Bahia, chegando a conclusões sensivelmente análogas às de Pierson: ausência de discriminação violenta; ascensão possível mediante o êxito pessoal; conceito convencional de brancura sancionando a posição adquirida.

Já em O negro no Rio de Janeiro (1953), L. A. da Costa Pinto se coloca em posição diversa. Estudando a situação racial do ponto de vista demográfico, estrutural, ecológico, cultural e psicossocial, toma como pedra de toque da realidade presente a análise subseqüente dos movimentos sociais do negro, para concluir pela existência de uma situação de tensão acentuada, própria de uma sociedade em mudança. Verifica a existência de um forte preconceito de cor, que, embora pouco contundente enquanto se tratou da admissão parcimoniosa de indivíduos isolados às camadas superiores, tende a agravar-se na medida em que os grupos de cor principiam, como tais, a tentar a escalada. Distingue a posição das elites de cor, que tendem a forjar ideologias ambivalentes para justificar ou proporcionar a sua incorporação aos estratos médios e superiores da sociedade, e a posição da massa, ainda à margem de tais preocupações, que, segundo o autor, não exprime os seus reais interesses, ao contrário do que proclamam os líderes. Dadas as condições atuais da sociedade brasileira, há, em resumo, “uma questão racial em processo de agravamento”.

Na referida publicação coletiva, Roger Bastide, Florestan Fernandes,

Oracy Nogueira e as psicólogas Virginia Leone Bicudo e Aniela Meyer Ginsberg, auxiliados por numerosa equipe de pesquisadores, procederam a estudos que se podem considerar os mais rigorosos na matéria. Enquanto Oracy Nogueira analisou a situação num município do interior, os dois primeiros se restringiram à capital de São Paulo, procurando distinguir os aspectos estruturais dos aspectos raciais no comportamento em relação ao homem de cor. (d) Os agrupamentos rústicos são constituídos por indivíduos de origem portuguesa, negra ou indígena, puros ou em grau variado de mestiçagem, ocupando-se de agricultura rudimentar e vivendo tradicionalmente em áreas rurais com maior ou menor aproximação social e cultural dos centros urba-

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