A Sociologia no Brasil. In Tempo Social

A Sociologia no Brasil. In Tempo Social

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Antonio Candido nos. Constituem a maior parte da população brasileira e têm sido objeto de numerosos estudos, por parte de americanos e brasileiros, sobretudo com recurso às monografias de comunidade, iniciadas aqui, como vimos, por Willems e Pierson. No entanto, são relativamente recentes e muitas ainda não estão publicadas. Citam-se as de Otávio da Costa Eduardo, Alceu Maynard de Araújo, Levi Cruz e Alfonso Trujillo Ferrari sobre grupos do vale do São Francisco; a de Azis Simão e Frank Goldman sobre Itanhaém; a de Gioconda Mussolini sobre a ilha de São Sebastião; a de Antonio Candido sobre Bofete etc. Fora da técnica de estudo de comunidade, que predomina mais ou menos modificada nos referidos estudos, citemos o de Maria Isaura Pereira de Queirós sobre o movimento messiânico do Contestado, e o de Carlo Castaldi, Eunice Ribeiro e Carolina Martuscelli sobre a crise mística do Catulé. Sobre os aspectos tanto rurais como urbanos de um município populoso, mencione-se a monografia de Oracy Nogueira sobre Itapetininga, nas mesmas condições. Eduardo Galvão publicou, em 1955, Santos e visagens, onde estuda a vida religiosa de uma comunidade do Baixo Amazonas. (e) Os estudos de aculturação vêm sendo também levados a efeito, embora em menor escala, sem todavia terem aparecido em livro pesquisas neste campo, cuja atração sobre os sociólogos pode ser comprovada por numerosos artigos de revista e pesquisas em andamento, como a de Florestan Fernandes sobre os sírios, as de Vicente Unzer de Almeida e Hiroshi Saito sobre os japoneses, sem falar de publicações de caráter geral, como as de Manuel Diegues Júnior (Estudos de relações de cultura no Brasil, 1955; Etnias e culturas do Brasil, 1956). (f) Já registramos a lacuna da nossa Sociologia no que se refere ao estudo das cidades e fenômenos específicos da urbanização contemporânea, e que pode ser explicada por vários fatores, inclusive a orientação antropológica dos estudiosos. Eles existem, todavia, embora abrangendo aspectos parciais, com resultados apresentados sob a forma de artigos e relatórios. Alguns sociólogos se dedicaram a eles de preferência, como Lucila Herrmann, Mário Wagner Vieira da Cunha, Vicente Unzer de Almeida.

À primeira devemos vários estudos de ecologia da cidade de São Paulo, um alentado sobre A estrutura social de Guaratinguetá num período de trezentos anos (1948) e outro sobre Flutuações e mobilidade da mão-de-obra fabril em São Paulo (1948).

Mário Wagner estudou o processo de racionalização burocrática na indústria paulista em A burocratização das empresas industriais (1951). O fenômeno capital da migração para as cidades foi objeto de um estudo rigoro-

A sociologia no Brasil, p. 271-301

Tempo Social, revista de sociologia da USP, v. 18, n. 1300 so de Vicente Unzer de Almeida e Otávio Teixeira Mendes Sobrinho, Migração rural-urbana (1951). Vários outros aspectos da vida urbana vêm sendo estudados por sociólogos, economistas, geógrafos, muitas vezes com finalidade imediata de auxiliar a solução de problemas, como as pesquisas do grupo de Economia e Humanismo sobre habitação e nível de vida, a investigação de Costa Pinto sobre o Balconista (1954) etc. (g) Sob a velha e, para o caso, bem cômoda rubrica de “sociologias especiais”, podemos incluir, em rápida menção, certos estudos e estudiosos que não couberem nas anteriores, colocando-se porventura melhor, nalguns casos marginais, em outras ciências humanas. É o caso dos estudos de política, seja do ponto de vista teórico, como os de Lourival Gomes Machado e Orlando de M. Carvalho, seja do ponto de vista da evolução das relações e instituições, como os de Vitor Nunes Leal e Maria Isaura Pereira de Queirós sobre o coronelismo e sua relação com a vida política, ou o de Costa Pinto sobre as lutas de família. É o caso dos estudos de sociologia eleitoral de Orlando Carvalho e Azis Simão, o de A. L. Machado Neto sobre sociologia do conhecimento, ou o de Gláucio Veiga sobre sociologia educacional. É o caso do estudo de Oracy Nogueira sobre as experiências psíquicas e sociais do tuberculoso (Vozes de Campos do Jordão, 1947), ou o de vários outros sobre aspectos sociais, culturais e função social do folclore, de Florestan Fernandes, Gioconda Mussolini, Antônio Rubbo Müller. São, ainda, os trabalhos de sociologia econômica de José de Faria Tavares e Júlio Barbosa, o de José Artur Rios sobre as técnicas de ação nos grupos, ou os densos estudos demográficos de José Francisco de Camargo.

Conclusão

Uma observação, antes de finalizar. No esboço anterior salientaram-se, depois de 1930, como ficou dito, os estudiosos que se consideram e são considerados sociólogos (em alguns casos, antropólogos), formando um conjunto profissional e científico. Mas, dado o caráter sincrético da nossa Sociologia, há outros estudiosos rotulados como historiadores, geógrafos, juristas etc., que produzem obras sensivelmente análogas às menos técnicas (no sentido específico) dentre as referidas, que superam muitas vezes em importância. Basta mencionar a contribuição teórica de Carlos Campos sobre Filosofia e sociologia do direito (1940) ou a obra de Caio Prado Júnior sobre a Formação do Brasil contemporâneo (1942), para não falar na de Sérgio Buarque de Holanda, seja na linha tradicional das interpretações gerais

301junho 2006

Antonio Candido do Brasil (Raízes do Brasil, 1936), seja na análise das técnicas de ajustamento do colonizador ao meio (Monções, 1945; Índios e mamelucos na expansão paulista, 1949).

Feita a ressalva, podemos dizer que, partindo das discussões genéricas, da divulgação e das “teorias gerais do Brasil”, a Sociologia se configurou afinal entre nós como disciplina caracterizada, embora sincrética, praticada cada vez mais por especialistas. Hoje é possível a formação adequada do sociólogo entre nós, devido à organização do ensino, relativa densidade do meio científico e solicitação crescente da sociedade, em fase de grande progresso técnico e conseqüente racionalização nos setores administrativo, assistencial e de planejamento. É fora de dúvida que a sociologia brasileira já existe como bloco, o que se verifica pela posição internacional que vem adquirindo aos poucos. Até aqui, projetava-se fora do país este ou aquele sociólogo, destacado como exceção graças ao mérito pessoal; hoje, sem prejuízo disso, é a nossa sociologia que começa a projetar-se em conjunto.

Resumo A sociologia no Brasil Publicado pela primeira vez em 1959, o texto analisa o processo de formação da sociologia brasileira, desde o final do século XIX, quando seria “praticada por intelectuais não especializados”, até a década de 1950, momento em que a disciplina já se havia institucionalizado parcialmente no Brasil. Palavras-chave: Sociologia brasileira; Ensaísmo; Intelectuais.

Abstract Sociology in Brazil First published in 1959, the text analyzes the process behind the formation of Brazilian sociology, from the end of the 19th century, when the author argues that it was “practiced by non-specialized intellectuals,” until the 1950s, a moment when the discipline had already become partially institutionalized in Brazil. Keywords: Brazilian Sociology; Essays; Intellectuals.

Antonio Candido é professor-emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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