Karl Marx

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Karl Marx

Por André Frossard

Nesse brilhante ensaio, extraído de Les grands bergers: d´Abraham a Karl Marx (“Os grandes pastores: de Abraão a Karl Marx”), Frossard traça um perfil da vida e da obra de um dos homens mais influentes da História. A sua utopia reformadora — atéia na intenção, mas cheia de promessas quase-religiosas — nunca deu certo na prática, apesar das certezas de seu fundador e profeta e das inúmeras tentativas de implantá-la à força. A experiência marxista, sempre que foi posta em prática, deu como resultados o contrário do que pretendia o seu idealizador.

O seu retrato substituiu, durante muito tempo, as defuntas imagens da piedade popular. Milhões de crianças despertaram para a vida sob o olhar severo desse rosto maciço, rodeado por um espesso círculo de cabelos brancos, com um bigode cujo traçado dá a impressão de um sorriso. Uma fronte monumental — suficiente para albergar dois cérebros normais — esculpida num mármore impermeável a qualquer objeção, projeta para trás uma juba de fios de prata que se vai alargando até a altura das orelhas, como o penteado de uma esfinge. As sobrancelhas em linha quebrada, como pontudas águas-furtadas de casa de montanha, abrigam debaixo de si uns olhos extraordinariamente vivos, que acossam o oponente e fitam, varando sua débil figura, a parede em que irão cravá-lo.

Uma figura pétrea, imune à erosão, na qual até a barba parece estar feita de esponjosa pedra calcária; uma inexpugnável torre de pensamentos que, durante lustros, dominou o bulício das guerras civis, a algazarra das assembléias revolucionárias e o estrondo das multidões que — conscientes do próprio poder — rendiam ao seu gênio o tumultuado culto da esperança e da cólera: Karl Marx, o “guia imortal da classe operária”, o único personagem da História comunista cuja biografia jamais foi modificada pela Enciclopédia Soviética, profeta da revolução mundial e divindade ideológica que, mais de cem anos depois da sua morte, ainda continua a pairar sobre uma parte do mundo.

Quando nasceu, em 1818, na pequenina cidade renana de Trier, a grande sombra de Napoleão desvanecia-se lentamente na Europa como o fumo tardio de uma batalha. Os reis, ainda mal repostos do susto, certificavam-se do fim do pesadelo apalpando as suas coroas.

Na França, Luís XVIII — o que chegou de carruagem, fugiu de charrete e voltou de carroça —, o príncipe fatigado ao extremo pelo excesso de acontecimentos, e inteligente o bastante para não notar o desgaste do regime restaurado sob sua bondosa e ligeiramente sarcástica proteção, traduzia Horácio e praticava os conselhos de Marco Aurélio. O exílio havia-o tornado paciente e a gota fizera dele um estóico (1).

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(1) Em 1815, Luís XVIII deixou a Inglaterra, onde se refugiara durante o domínio de Napoleão, para assumir a Coroa francesa, após a derrota e o exílio do general na ilha de Elba. Quando Napoleão desembarcou na França, ainda em 1815, e voltou a tomar o poder durante os conhecidos “Cem Dias” (de 26 de fevereiro a 7 de junho), o rei fugiu para a cidade de Gante, na Holanda. Depois da queda definitiva de Napoleão em Waterloo, Luís voltou por fim a subir ao trono com o apoio dos governantes dos países aliados.

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Frederico Guilherme III, a quem nem os sucessos de Leipzig e Waterloo nem o Tratado de Viena puderam fazer esquecer a humilhação de Iena, cronometrava a infantaria prussiana e lançava-se pelos desfiladeiros de uma política que combinava inteligência e força, e que cinqüenta anos depois culminaria com a coroação imperial de Guilherme I em Versalhes, no meio das ruínas da França (2).

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(2) Frederico Guilherme III foi rei da Prússia de 1797 a 1840. A confederação dos Estados do Norte da Alemanha, que esse rei formou em 1806 para deter Napoleão, sofreu logo de início duas pesadas derrotas – Oersted e Iena – que quase causaram o fim do Estado Prussiano, mergulhando-o numa crise profunda. Em 1813, aliado com a Rússia, conseguiu uma importante vitória sobre a França em Leipzig, que culminaria em 1814 na entrada dos exércitos aliados em Paris. Os seus exércitos também participaram da célebre batalha de Waterloo, na qual Napoleão sofreu a derrota final após retornar do exílio. Guilherme foi rei da Prússia (1861-1888) e moveu contra a França a guerra de 1870-1871, em que derrotou Napoleão III, autoproclamando-se a seguir imperador da Alemanha.

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Desmanteladas durante algum tempo pelo furacão revolucionário, as monarquias tinham recobrado os seus costumes: violinos, cavalgadas, segredos de Estado, cetins, ignorância refinada. No entanto, tudo ao seu redor havia mudado. Ao morrer, a Revolução francesa dera à luz uma sociedade nova, burguesa, liberal, ávida por produzir, por comerciar e por triunfar. Uma sociedade que, pensando bem, era muito pouco parecida com a mãe que a tinha gerado. As perucas empoadas já não cobriam mais do que a cabeça apergaminhada de velhos diplomatas; em breve, as meias de seda não seriam mais vistas a não ser nas panturrilhas de criados de luxo. Os cidadãos usavam cartolas em forma de chaminés de trem, e as suas calças tubulares anunciavam a era dos cilindros de motor. Também a mobília sofrera a sua revolução. Depois dos arcos, dos arabescos e das cópias do estilo Luís XV, e com a depuração de linhas sob o Diretório e sob o Império, a voluta e o cruzeiro padronizados preparavam a industrialização e o conforto.

A literatura alemã chamava-se Goethe, e a francesa Chateaubriand. Mas o Gênio do Cristianismo entrava num desses numerosos túneis da sua História, enquanto o jovem Lamennais meditava sobre a “indiferença em matéria religiosa”. O espírito religioso certamente não havia morrido, mas de fato recolhera as asas. O século do vapor iniciava a sua marcha rumo ao futuro triunfal da técnica e do progresso, no meio das lágrimas da retórica humanitária e ao som das aclamações dos burgueses, deslumbrados pela sua iminente vitória contra a derradeira tutela da Aristocracia e do Clero. Guiado pela Ciência e pelo Progresso — na época, pensava-se já somente com maiúsculas —, o Homem caminhava rumo ao descobrimento das riquezas deste mundo. Uma palavra resume a sua filosofia de felicidade na terra: “materialismo”. Com um simples adjetivo — misterioso aliás para a maior parte dos que o empregam — um jovem judeu alemão com juba de leão convertia aquela palavra, cheia de promessas por explorar, na mais terrível arma que jamais assolara a Civilização Ocidental. O materialismo havia libertado o burguês. O materialismo “dialético” de Karl Marx condenava-o implacavelmente à morte.

Karl era o mais velho dos oito filhos (cinco meninas e três meninos) de uma família estabelecida em Trier, numa casa burguesa cujo aspecto banal era similar ao de qualquer prefeitura ou escola primária provincianas. Seu pai, o advogado Heinrich Marx, filho de um antigo rabino da localidade, tinha conseguido criar para si uma sólida posição na Corte de Apelação da cidade. A mãe, pertencente a uma antiga família de rabinos holandeses, é vista pelos historiadores como um espírito prosaico, pouco dotada para a controvérsia e sempre disposta a recordar aos oradores da família as realidades domésticas. Um dia, será desaprovada — dir-se-á que foi inconveniente — essa sua reflexão irônica: “Filho, em vez de escrever sobre o Capital, seria melhor que você arranjasse algum”. Heinrich Marx era, pelo contrário, um espírito brilhante e liberal, apaixonado pelo jogo das idéias e cuja influência sobre o filho foi certamente muito grande. Ou pelo menos tão grande quanto o caráter do jovem Marx permitia.

Para salvar a sua situação e o porvir dos seus filhos, ameaçados pelas medidas anti-semitas da Câmara prussiana – que acabava de proibir aos judeus o acesso aos cargos públicos e à maioria das carreiras liberais – converteu-se juntamente com os seus ao Protestantismo. E o fez sem nenhuma dificuldade, pois estava afastado desde há muito tempo de qualquer prática religiosa. Essa “conversão” não deixou evidentemente nenhuma marca no espírito do jovem Marx, que durante toda a vida desprezou as crenças no sobrenatural, até o dia em ele próprio fundou, sem o perceber, uma religião do ateísmo que superaria a Inquisição em rigor dogmático e devolveria aos homens a esperança no inacessível, para além da “sociedade sem classes”.

Foi um estudante como todos os outros, incluindo a habitual tendência aos versos românticos. Um estudante talvez um pouco mais aplicado do que os outros tanto ao trabalho como às diversões, e que passava repentinamente da vigília estudiosa à balbúrdia noturna. Escreveu poemas em que as moças, com o vestido banhado em lágrimas, morriam de amor sob as estrelas impassíveis, enquanto os cavalheiros incompreendidos suicidavam-se na igreja, durante o casamento da amada infiel. É uma pena que esses escritos comoventes não tenham aparecido com a sua ilustre assinatura em revistas de fotonovelas. Mas esses repentes de febre sentimental, curados com cerveja, em breve desapareceram. O jovem Marx não tinha vocação para a lírica.

Depois de um ano de sonhos infrutíferos na Universidade de Bonn, renunciou a soluçar com a literatura do seu século e entrou na Universidade de Berlim. Mas foi na de Jena que obteve, por fim, o título de Doutor em Filosofia. A sua vigorosa inteligência destroçou sem grande esforço — em busca de realidades mais profundas — o papel-pedra das construções românticas. A violência natural do seu temperamento mudou de direção, elevou-se e passou dos adornos da ficção novelesca ao plano superior das idéias. Marx já era então o que seria até o final: combativo, seguro da sua própria capacidade intelectual como lógico realista propenso à ironia, e animado pela inquebrantável convicção de que o seu único dever era o de “trabalhar pelo bem da Humanidade”, como havia escrito aos quinze anos nas Reflexões de um jovem diante da escolha da carreira.

O pai, homem liberal e sensível, viu com preocupação como o caráter do seu filho ia adquirindo paulatinamente o perfil duro e monolítico que o faria atravessar o século como uma bala movida pela carga de um pensamento explosivo. Numa carta comovente, encontrada pelo erudito Auguste Cornu, escreveu-lhe: “Às vezes não posso defender-me contra idéias que me entristecem e inquietam, como se fossem um pressentimento sombrio. Sinto-me subitamente invadido pela dúvida e pergunto-me se o teu coração responde à tua inteligência e às tuas qualidades espirituais; se é acessível aos sentimentos de ternura que aqui na terra são uma grande fonte de consolo para uma alma sensível; e se o singular demônio do qual o teu coração é claramente vítima é o espírito de Deus ou, pelo contrário, o de Fausto. Pergunto-me se alguma vez serás capaz de desfrutar de uma felicidade simples, das alegrias da família, e se poderás fazer felizes os que te rodeiam”.

Mas o jovem Marx já está fora do alcance desse tipo de raciocínios. O seu espírito em busca de um ideal sofre toda a agitação, toda a perturbação de um missionário que está mais seguro dos princípios da sua missão do que do conteúdo da sua doutrina, ou de um profeta que sente a urgência de falar, mas que ainda não sabe bem o que dizer. É um adepto das idéias que hoje chamaríamos de extrema esquerda, mas que na altura só existiam em estado gasoso, pois ninguém as tinha ainda solidificado num corpo de doutrina.

Por duas vezes a sua saúde cambaleia, esgotada pelo cansaço. A sua família o repreende pela negligência da jovem de Trier que será a sua companheira e o único amor da sua vida: Jenny, filha do imponente barão von Westphalen. O pai morre sem ter obtido uma resposta válida para as suas perguntas inquietas, que — como os biógrafos podem confirmar — torna a levantar uma e outra vez. A mãe queixa-se de falta de consideração por parte da família Westphalen. Jenny, modelo de tenacidade, resiste ao assalto dos seus, que se negam a imaginar a união de uma jovem da mais antiga nobreza da Europa com um jovem burguês — e, o que é pior, revolucionário! — que já começa a ser por demais conhecido nas assembléias políticas.

É então que chega a luz para o jovem Marx, sob a forma glacial da filosofia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, mestre da dialética, ex-seminarista luterano de Tübingen e refinado artífice de uma doutrina hiper-intelectualista. Uma doutrina que começa abordando o próprio princípio da Idéia, cujo desenvolvimento através das contradições da História constituiria a realidade de todas as coisas.

A célebre “dialética” de Hegel consiste em conciliar uma afirmação e a sua subseqüente negação na unidade superior da síntese. Um exemplo: a idéia de “ser” introduz a de “não-ser” ou “nada”, e estas duas idéias contraditórias formam juntas a noção de “devir”: com efeito, as coisas que “chegam a ser” são e não são ao mesmo tempo, uma vez que “mudam” ou “se transformam”. A noção de “devir”, por sua vez, anuncia um grupo de pensamentos contrários sobre a “vida” e sobre a “morte”, também eles reconciliáveis na unidade conceitual da “evolução”, e assim sucessivamente. Uma vez posta em andamento essa mecânica, nada mais poderá deter o seu movimento em três tempos — tese, antítese e síntese —, até que tudo o que é real seja completamente absorvido pela lógica.

Esse tecido hegeliano (os fios entrelaçam-se em sentidos contrários), essa maneira original de conduzir o espírito rumo à identidade mediante a contradição, proporcionou a Marx o instrumento definitivo de pensamento, o método de lhe faltava para poder explorar a História das sociedades humanas, criticar a Civilização da época e formular a sua própria concepção de mundo, na qual as oposições hegelianas entre o “Capitalismo” e o “Proletariado” seriam resolvidas na unidade da “sociedade sem classes”.

Estamos em 1843: Karl Marx tem então vinte e cinco anos, e já resolveu a sua primeira síntese dialética casando-se com a sua antítese social, Jenny von Westphalen, com quem se traslada para Paris, morada favorita dos espíritos revolucionários da Europa. Na época da sua chegada à cidade do Sena, em toda a França só havia uma única lei social. E que lei! Defendida na Câmara dos Pares por Montalembert — que havia atacado energicamente “as indústrias que arrancam o pobre, a sua mulher e os seus filhos dos costumes da vida em família e dos benefícios da vida no campo, para encerrá-los em insanos barracões, autênticos cárceres, onde todas as idades e sexos são condenados a uma sistemática e progressiva degradação” —, a lei fixava os “oito anos” como idade mínima para a admissão de crianças nas fábricas, e regulamentava a sua jornada de trabalho em oito horas diárias até os doze anos de idade, e em doze horas diárias até os dezesseis. Essa era a lei, e não havia mais nada. Até o ilustre físico Gay-Lussac, honrado com o nome de uma rua no bairro latino, combateu esse projeto declarando que “o patrão era amo absoluto em sua casa”.

Essa módica lei de 1840 foi a primeira “lei social” votada na França. Antes, toda a legislação trabalhista era regulada pela “lei Le Chapelier” de 14 de junho de 1791, que proibia a coalizão “entre cidadãos do mesmo ofício ou profissão” — na prática, uma lei “dirigida” contra os operários da construção que reclamavam em bloco um aumento de salário —, e por um decreto de 3 de janeiro de 1813, que apoiava a proibição de que “meninos menores de dez anos” trabalhassem nas minas.

Nenhum dos grandes nomes da Revolução Francesa havia sequer intuído o problema operário. Nem Mirabeau, nem Danton, nem Robespierre, nem Marat — o “amigo do Povo” (3) — pressentiram a evolução econômica da sociedade da sua época. A lei Le Chapelier tinha sido adotada e aplicada sem oposição alguma, nem sequer operária, e o decreto imperial de 1813 fora durante trinta anos o único texto que havia demonstrado algum interesse pelas inumeráveis crianças literalmente encarceradas desde muito cedo em autênticas prisões industriais. Um menino ganhava entre trinta e cinqüenta centavos por dia; o salário de um adulto variava entre um e dois francos, conforme a profissão, salvo em caso de depressão econômica. “Em Lyon — conta Blanqui —, as operárias ganham trezentos francos por ano, trabalhando catorze horas diárias em ofícios em que têm de estar penduradas em correias para poder usar ao mesmo tempo os pés e as mãos, cujo movimento contínuo e simultâneo é indispensável para tecer galões”. Um pesquisador oficioso aponta que “em certos estabelecimentos da Normandia, o chicote figura oficialmente entre os instrumentos de trabalho”.

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(3) O amigo do povo era o nome do jornal editado por Marat em Paris.

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Desse modo, enquanto Stendhal descrevia pormenorizadamente os delicados amores dos seus coleópteros mundanos, enquanto Musset contemplava com pesar a sua palidez no Grande Canal e a burguesia, deslumbrada perante o progresso do comércio e da indústria, deixava a religião para as mulheres e voltava-se para a mística dos “negócios” – debaixo de toda essa decoração, todo um povo de deserdados vivia sem alegria, sem esperança e às vezes sem pão. O sistema feudal havia sido destruído, mas no seio do “regime burguês” uma nova categoria de servos substituíra a antiga. Já não havia camponeses, “servos da gleba”, em torno dos castelos. Mas ao redor das fábricas, multiplicadas pelo gênio empresarial que animava a época, as grandes concentrações operárias pouco a pouco iam formando uma classe à parte, ignorada pela lei, com uma existência miserável, e que seria chamada de “Proletariado”.

O método hegeliano havia proporcionado a Karl Marx a ferramenta de que o seu pensamento precisava. A crueldade da “condição proletária” deixou-o indignado, centuplicou a sua vontade de agir e converteu o jovem pensador, apaixonado pela especulação filosófica, no general revolucionário mais conseqüente e temível de todos os tempos. O marxismo nascente seria uma mistura explosiva de lógica e indignação.

Estava pronta a armação da sua máquina de guerra contra o mundo da ganância. A anarquia glutona da sociedade da época indicava-lhe o inimigo: o “capitalismo burguês”; as suas tropas: o proletariado; o campo de batalha: a mina, a fábrica, a oficina, todos os lugares de trabalho e de miséria nas cidades e nos campos.

O destino proporcionou-lhe um inestimável aliado na pessoa do jovem Friedrich Engels, nascido em 1820 numa rica família industrial de Bremen. Tratava-se de um espírito agudo, tão hábil para os negócios como ágil nas decisões políticas; um elegante personagem que seria como um fiel Saint-Just (4) para esse novo Robespierre, um Saint-Just previsor que salvaria o amigo da miséria e sustentaria até o fim a desastrosa economia doméstica do teórico da Economia Universal.

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(4) Louis Antoine Saint-Just (1767-1794), deputado jacobino durante a Revolução Francesa, era profundo admirador de Robespierre e foi o seu braço direito durante o Regime do Terror, tendo sido guilhotinado após a queda deste.

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A partir desse momento, numerosos textos políticos trarão a assinatura conjunta dos dois amigos, sem que hoje seja possível distinguir qual foi a contribuição de cada um para a obra comum. Redigem conjuntamente o famoso Manifesto do Partido Comunista, cuja publicação coincide com a revolução de 1848, e que contém os principais traços da doutrina que, agravada pelo fanatismo, seria imposta por tanto tempo a centenas de milhões de seres humanos.

Assim como Marx, Engels é um perfeito ateu e, apesar das ilusões de um certo número de cristãos contemporâneos, o ateísmo constitui a própria essência do marxismo. De nada serve sonhar com um marxismo separado da sua irreligião orgânica, e que limite a sua ambição a uma reforma das estruturas da Economia. O ateísmo integral proporciona a “Marx-Engels” a base da sua doutrina: o “materialismo histórico”, meta para a qual a sociedade e a moral estão determinadas pelas suas formas de produção. A partir dessa comprovação desenvolve-se o movimento “dialético” do marxismo, que vê na História uma permanente luta de classes entre aqueles que possuem — e que, por defenderem os seus interesses, se “desumanizam” — e os que não possuem, cuja condição de dependência os torna “desapropriados”, “alienados”.

Hegel, cujo pensamento ia da Idéia ao real, desembocava num vago espiritualismo conservador muito grato ao governo prussiano, que segundo essa doutrina resultava ser o melhor dos governos possíveis, posto que se constituía, sob a direção do mestre, na última encarnação da Idéia. Mas Karl Marx, discípulo irreverente, viraria ao avesso a lógica de Hegel, como uma luva. Irá do real à Idéia e, como num passe de mágica, tudo aquilo que na filosofia do filho do pastor levava ao conservadorismo, na do neto do rabino levará à revolução.

Por ser uma emanação das classes possuidoras, o governo prussiano — assim como todos os governos do mundo — nada mais é do que um momento da dialética. Também o é a burguesia, cujo inevitável conflito com a sua antítese social, o proletariado, traz necessariamente a revolução, na qual a dita burguesia — reduzida, pela concentração de riquezas, a um número cada vez menor de possuidores — acabará por ser submersa e liquidada pela massa crescente do proletariado. Uma vez vitoriosa, a classe operária abolirá a propriedade privada dos meios de produção e de troca, e ao mesmo tempo manterá a salvo, no paraíso sintético da sociedade sem classes, todos os homens libertados do sistema econômico que desumanizava uns e alienava outros.

Esse é o esquema de uma doutrina cuja atitude disfarçadamente religiosa é impossível ignorar. Trata-se de uma réplica atéia que logo se converterá numa insolente caricatura do judeu-cristianismo tradicional: do Pecado Original (a Queda na propriedade privada) à Redenção dos Pobres (Cristo, Deus feito homem; o Proletário, homem feito deus); da escravidão do Egito (nas garras dos capitalistas) à Terra Prometida (do coletivismo), passando pela Igreja (fora do Partido não há salvação); o Magistério infalível de Moscou; a chamada Confissão “autocrítica”..., sem esquecer, no plano supremo da mística, essa espécie de “diálogo” do homem com o homem, numa espécie de divinização sem amor. Pois se o advento do Reino de Deus é obra da caridade, o da sociedade sem classes não pode ser acelerado a não ser pelo esforço conjunto da violência e do ódio.

Durante longos anos, de expulsão em expulsão e de hotel em hotel, e em diversos apartamentos mobiliados, Karl Marx levará a vida de um proscrito de escassos recursos, deixando na França, na Bélgica, na Alemanha e mais tarde em Londres, onde terminará os seus dias, diversos grupos de discípulos. Estes, num dia de 1864, formarão o núcleo propulsor da Internacional de trabalhadores como resultado indireto, afinal, dos seus forçados deslocamentos. O seu itinerário estará marcado por folhas mortas, gazetas sem leitores, livros e panfletos incautos que irão devorando os seus parcos ingressos, a pequena fortuna de sua mulher e o dinheiro dos seus amigos, exceto o do sagaz Engels, que dirige a sua barca fraternal como se fora uma lancha salva-vidas, sem avareza mas com discernimento.

Karl Marx experimenta até à náusea a deprimente dialética entre a necessidade e o crédito, fustigado por credores a quem não paga, num perpétuo estado de tensão doutrinal impróprio para qualquer atividade que não seja a de profeta social. Qualquer que fosse o amor que tivesse pelos seus, para ele a vida pública tinha absoluta prioridade sobre a vida privada. A sua resistência à miséria e à desgraça, por outro lado, era prodigiosa. Oprimido pelas lágrimas e pelas justas recriminações da sua mulher, fulminado em várias ocasiões pelo mais terrível golpe que um ser humano pode sofrer — a morte de um filho —, mantém-se em pé, inamovível, como que protegido da violência do destino pela violência do seu próprio pensamento.

As únicas notícias que espera e recebe com alegria são as que lhe trazem a confirmação das suas teorias: depressões, crises econômicas, greves, bramidos revolucionários, motins. Dia após dia, a sua figura histórica delineia-se com traços cada vez mais claros sob um céu tempestuoso. Nos comitês extremistas, admira-se um filósofo capaz de falar com semelhante autoridade uma misteriosa linguagem escolástica, da qual nada se entenderia se não fosse tão facilmente traduzível nas mais simples e diretas fórmulas de ação: exploração do homem pelo homem, luta de classes, revolução, liquidação, libertação. O respeito cede lugar à admiração e à veneração. É o primeiro Papa do “comunismo” (adotou uma velha palavra para designar algo novo, ao contrário do que faz a maioria dos políticos). Proudhon, cujas impraticáveis teorias o expõem à burla do mestre, assim como Bakunin e todos os outros, sofrem a sua influência mesmo sem o quererem. Até o conde Tolstoi, um amável piadista, põe à sua disposição a sua imensa fortuna..., mas partindo logo depois, antes que ela sumisse(5).

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(5) Pierre Joseph Proudhon (1809-1865), pensador político belga, é considerado o fundador do anarquismo. A sua obra A filosofia da miséria (1846) obteve-lhe o desafeto de Marx, que no mesmo ano publicou em resposta um livro intitulado A miséria da filosofia. Mikhail Aleksandrovitch Bakunin (1814-1876) foi um dos teóricos do anarquismo e líder revolucionário, tendo participado da Comuna de Paris em 1848. O conde Lew Nicolaievitch Tolstoi (1828-1910), o famoso escritor, foi simpatizante do socialismo e elaborou uma versão “social” do cristianismo, dedicando-se sem sucesso a educar os camponeses das suas propriedades.

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A fama do doutrinário estende-se muito além dos círculos revolucionários, mas os seus êxitos respeitáveis não suavizam nem o seu caráter, nem a dureza das suas réplicas. Não discute: maneja os argumentos como um bloco, esmaga quem o contradiga e vai embora, sacudindo a cabeleira. As celebridades têm menos facilidade para se aproximar dele do que os operários: Reclus (6) queixa-se de que não se tenha levantado do fundo do salão para recebê-lo, permanecendo “constantemente próximo a um busto de Júpiter Olímpico, como se quisesse fazer alusão ao lugar que ocupa entre as grandes figuras da Humanidade”.

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(6) Élisée Reclus (1830-1905), geógrafo, escreveu a Geografia Universal (1875-1894). Membro da Internacional Socialista, foi desterrado em 1871.

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Era um carniceiro que devorava sobretudo papel. Em Londres, onde passou a maior parte dos seus últimos trinta anos, indo de um bairro a outro conforme o estado dos seus recursos, da paciência dos proprietários e das amistosas subvenções de Engels, escreve a sua obra mais importante, O Capital, usando frases complexas, enroladas como molas e sem se preocupar com a conclusão. O ponto crucial da abordagem é a teoria segundo a qual o trabalho, como qualquer outra mercadoria, tem o seu valor determinado pelas necessidades do operário, e o excedente constitui a “mais-valia”, cujo benefício reverte ao capital.

Resolvidos os seus apuros daí por diante graças a Engels — que soube dirigir os seus próprios assuntos em benefício do interesse comum a ambos —, Marx modifica, abandona, volta sem cessar a empreender o grande trabalho da sua vida, que ficará inacabado. Desde o dia em que o Manifesto Comunista lançou ao mundo o seu brilhante e sombrio “Proletários de todos os países, uni-vos!”, as sua teorias só receberam um arremedo de aplicação durante as breves jornadas da Comuna de Paris. Mas ele está certo — com a certeza de um crente — da vitória final da sua doutrina. Uma certa paz pousa sobre os últimos dias da sua vida, que no entanto se vê atravessada por dois sofrimentos fulgurantes: a morte de sua mulher e de sua filha, Jenny Longuet. Pouco depois desse último golpe, ao entrar em seu quarto no dia 14 de março de 1883, Engels o encontrou tranqüilamente adormecido para sempre. Sua tumba está em Highgate.

A maioria dos marxistas não conhece O Capital melhor do que os católicos conhecem a Suma Teológica de São Tomás de Aquino. O pensamento de Marx, que também parece proceder da indústria pesada, deixou um método qualificado pomposamente de científico e um catecismo revolucionário que deram a volta ao mundo. Mas as teorias filosófico-econômicas tiradas do marxismo foram em todo lugar refutadas pelos fatos e não deram bons resultados em lugar nenhum. Apesar da abolição da propriedade privada — final simbólico da “exploração do homem pelo homem” — nos países socialistas, e do extermínio direto ou indireto de milhões de seres humanos, sacrificados em nome — ou por causa — da “ideologia” do Partido, ninguém viveu, nem sequer por um só dia, o ideal da sociedade sem classes. Nenhum povo da Terra passou-se para o comunismo pelo efeito da lógica marxista, e todos os que viveram essa experiência foram obrigados a isso pela força das armas, ao amparo de duas Guerras Mundiais. E à desgraça doutrinal deve-se acrescentar o fato de que o marxismo — ao fazer com que os governos “burgueses” se vissem forçados a finalmente elaborar uma política social, que foi com freqüência eficaz — acabou contribuindo para a consolidação do capitalismo.

Karl Marx queria sinceramente a libertação da Humanidade, mas os seus seguidores a aprisionaram num totalitarismo sem precedentes; queria um Homem novo, mas o Homem novo surgiu com a mente de um comissário político; pensava que a “ditadura do proletariado” duraria algumas semanas, mas ela se manteve por setenta anos. Pode dizer-se que Marx tinha previsto tudo, menos o marxismo, que — como se fosse um sacramento das trevas — em toda parte produziu o contrário do que significava.

“A razão troveja em sua cratera”, dizia o magnífico canto da classe operária. Hoje não se vê nada além da cratera na qual ficou sepultada a pátria do socialismo e, com ela, umas esperanças traídas.

André Frossard

nasceu em 1915. Foi jornalista, cronista e, nos últimos anos, editorialista do Le Figaro. Durante a Segunda Guerra, esteve na Marinha e participou depois da Resistência, chegando a ser preso pelos nazistas. Terminada a guerra, recebeu do presidente Charles de Gaulle a Légion d’honneur, a mais alta condecoração militar francesa. Foi redator-chefe em alguns grandes jornais e revistas franceses, como Le Temps Présent, L’Aurore e Paris-Match. Membro da Academia Francesa desde 1987, André Frossard faleceu em 1995

Fonte: Arvo.net

Link: http://www.arvo.net

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