Auto-Estima e Educação

Auto-Estima e Educação

http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=349&categoria=Cultura

Problemas com a auto-estima

Por Paul C. Vitz

A teoria da auto-estima, com a qual tanta gente hoje em dia parece estar obcecada, prevê que só as pessoas que se sentem bem consigo próprias é que se darão bem (talvez seja por isso que todos estudantes a adotam). Contudo, não há nenhuma pesquisa que lhe dê suporte.

Palestra dada por Paul C. Vitz em New Westminster, British Columbia (Canadá) em 29 de setembro de 1995.

A maior e mais conhecida parte da psicologia nos Estados Unidos é, hoje, a psicologia popular da auto-estima (self-esteem), que pode ser encontrada em todas as esferas da sociedade americana. A auto-estima, e a obsessão que muitos têm por ela é familiar a quase todos nós atualmente. Ela influencia o currículo escolar de inúmeras crianças, uma vez que essa idéia – um ideal, na verdade – foi assumida e aplicada principalmente pelos educadores.

O conceito de auto-estima não tem origens históricas claras ou óbvias. Nenhum grande teórico da psicologia fez dele o seu ponto central, embora muitos psicólogos tinham enfatizado o “eu” (self) de diversas maneiras, pondo que o foco central na auto-realização ou na concretização do próprio potencial. Isso torna difícil rastrear a fonte da ênfase que lhe é dada. Aparentemente, essa preocupação tão difundida é um produto destilado do interesse pelo “eu” que se encontra em tantas correntes da psicologia. A auto-estima parece ser o denominador comum entre os escritos de teóricos tão distintos como Abraham Maslow, Carl Rogers, os partidários da força do ego e, mais recentemente, os educadores morais. Seja como for, a preocupação com a auto-estima paira hoje sobre todos os lugares dos Estados Unidos. É, contudo, mais fácil de ser encontrada no mundo da educação: nos professores universitários de pedagogia, nos departamentos de ensino, nos diretores e nos professores de escola, e até nos programas educativos, especialmente os que têm por objeto a educação pré-escolar, como o programa “Vila Sésamo”.

O auto-apreço (self worth), que é um sentimento de respeito e confiança em si mesmo, possui um mérito que veremos em breve. Mas é algo muito diferente de uma auto-estima egocêntrica, do tipo “deixe eu me sentir bem”, que nos leva a ignorar os nossos defeitos e a nossa necessidade de Deus. O que há de errado nesse conceito? Muita coisa, e na sua própria essência. Foram feitos milhares de estudos psicológicos sobre a matéria. O termo auto-estima é freqüentemente confundido e misturado com outros, usado como rótulo para diversos aspectos que vão da auto-imagem (self image), à auto-aceitação (self acceptance), ao auto-apreço, ao amor próprio (self love), à auto-confiança (self trust), etc. No fim das contas, não existe nenhum acordo sobre como definir e aferir esse conceito. Mas, o que quer que signifique, não há nenhuma evidência confiável de que signifique muita coisa.

Para já, não há nenhuma evidência segura de que uma alta auto-estima produza efeitos reais. Na verdade, muita gente com a auto-estima baixa obteve bastante sucesso nas suas atividades. Gloria Steinem, por exemplo, autora de muitos livros e uma importante líder do movimento feminista, revelou recentemente numa longa passagem de uma das suas obras que sofria de baixa auto-estima. Por outro lado, há muitas pessoas com alta auto-estima que são felizes simplesmente por serem ricas, bonitas ou bem relacionadas. Outro grupo de pessoas com alta auto-estima é o dos traficantes de droga das grandes cidades, que geralmente se sentem muito bem consigo próprios: afinal, conseguiram ganhar muito dinheiro num ambiente hostil e competitivo.

Um estudo de 1989 comparou os conhecimentos matemáticos de estudantes de oito países. Os norte-americanos ficaram na última posição, enquanto os coreanos alcançaram a primeira. Mas os pesquisadores também pediram aos alunos que eles próprios avaliassem até que ponto eram bons em matemática. Os norte-americanos ficaram em primeiro lugar e os coreanos em último. A auto-estima matemática estava numa relação inversamente proporcional com o conhecimento matemático real. Este é certamente um exemplo de como a psicologia do “sinta-se bem” não permite aos estudantes uma percepção clara da realidade. A teoria da auto-estima prevê que somente quem se sente bem consigo mesmo alcançará o sucesso, o que supostamente faz com que todos os estudantes precisem dela. Mas, na prática, sentir-se bem consigo mesmo pode simplesmente fazer você demasiado confiante, narcisista e incapaz de trabalhar duro.

Não quero dizer que uma alta auto-estima afete sempre negativamente a performance das pessoas. A pesquisa acima mostra que não se pode afirmar com certeza que os níveis de auto-estima influenciam o comportamento, quer positiva quer negativamente. Isso deve-se em parte ao fato de a vida ser complicada demais para que uma idéia tão simples possa ser de alguma valia.

Todos já ouvimos falar de pessoas que são impelidas por inseguranças e dúvidas sobre si mesmas (self doubts). Essas pessoas são sempre os heróis ou os vilões da história. A prevalência de homens de baixa estatura na história dos feitos militares fanáticos está bem documentada. Júlio César, Napoleão, Hitler e Stalin foram homens baixos decididos a provar que eram grandes. Muitos atletas notáveis tiveram de superar graves deficiências físicas e falta de auto-estima. Poderíamos designar esse fenômeno como “efeito Demóstenes”, por referência do célebre orador grego que tinha problemas de fala e superou o seu defeito depois de muitos treinos em que se esforçava por falar com pedras na boca.

Muitas das maiores conquistas do homem parecem ter-se originado naquilo que o psicólogo Alfred Adler chamou de complexo de inferioridade. Não é que sentir-se mal a respeito de si mesmo seja bom. O que acontece é que apenas duas coisas podem mudar de verdade a maneira como nos sentimos a nosso respeito: uma verdadeira realização e um verdadeiro amor.

Primeiro, o que afeta as nossas atitudes são as realizações no mundo de verdade. Uma criança que aprende a ler, que aprende matemática, que consegue tocar piano ou jogar bola, essa criança terá um sentido de realização autêntico e um sentido de auto-estima apropriado. As escolas que falham em ensinar a ler, escrever e fazer contas corrompem a verdadeira compreensão da auto-estima. Quem causa esses problemas são os educadores que dizem: “Não os avalie; não os rotule. Você deve fazer com que eles sintam-se bem consigo mesmos”. Não faz sentido que os alunos estejam cheios de auto-estima se não aprenderam nada. A realidade em breve vai destruir as suas ilusões e eles terão de enfrentar dois fatos perturbadores: a) que são ignorantes; b) que os adultos responsáveis por ensiná-los mentiram para eles. No mundo real, o louvor deve ser a recompensa por algo realmente meritório. O louvor deve estar ligado à realidade.

Há uma maneira ainda mais fundamental de desenvolver uma auto-estima autêntica, na verdade sentimentos de auto-apreço ou o que os psicólogos chama de “confiança básica” (basic trust). Esses sentimentos vêm pela recepção de amor.

Em primeiro lugar, está normalmente o amor materno. Essa experiência fundacional do amor não pode ser fingida. Os professores confundem a natureza desse amor quando tentam criar essa emoção profunda e estimulante fingindo amar todos os seus alunos por uma hora ou por um dia, e quando os elogiam indiscriminadamente. O amor dos pais simplesmente não pode ser manufaturado por um professor em poucos minutos diários de interação. A criança não apenas sabe que tal amor é falso, como também que os professores de verdade ensinam, e que ensinar envolve não apenas elogios, mas disciplina, exigências e reprimendas: amor numa palavra.

Os bons professores demonstram o seu amor quando se importam suficientemente com os alunos para discipliná-los. Assim, na maioria das escolas norte-americanas, os melhores professores e mais admirados são os professores de educação física. Eles ensinam, mas esperam desempenho e raramente preocupam-se com a auto-estima. Uma das melhores coisas que podem acontecer a um jogador de futebol aspirante é ser cortado do time, porque assim irá atrás das coisas para as quais leva jeito. Em vez de desperdiçar anos cruciais da sua vida lutando para ser um atacante de quinta categoria, pode tornar-se um golfista, um matemático ou um artista de primeira. Descobrimos muitas coisas na vida pelo processo de eliminação. E devemos esperar que os nossos professores nos eliminem das áreas em que não vamos bem, para assim podermos encontrar uma área que realmente seja a nossa.

Problemas similares surgem entre aqueles que tentam levantar a sua baixa auto-estima à força de dialogar carinhosamente com a sua criança interior ou outro tipo de “eu interior” inseguro. Tais tentativas estão fadadas ao insucesso por duas razões. Primeiro: se estamos inseguros acerca do nosso auto-apreço, como podemos acreditar nos auto-elogios? Pense nisto. Se você acha que não vale muita coisa, como pode dizer a si mesmo que vale e acreditar nisso? A realidade tem de entrar em jogo, sob a forma de uma verdadeira realização ou então do amor que os outros têm por nós. Assim os elogios terão alguma base. Do contrário, serão apenas um pequeno narcótico psicológico. Segundo: tal como as crianças, sabemos da necessidade de auto-disciplina e de realizações. Em poucas palavras, a auto-estima deveria ser entendida como uma reação, não como uma causa. É principalmente uma resposta emocional àquilo que nós e os outros fizemos a nós mesmos. Embora seja um sentimento ou um estado interno desejável, como a felicidade, não tem muitos efeitos. E tal como a felicidade e o amor, a auto-estima é quase impossível de ser alcançada quando se tenta obtê-la. Tente obter auto-estima e você provavelmente falhará; faça o bem aos outros e realize algo de valor na sua vida e terá tudo o que precisa.

O tema da auto-estima é vital para os cristãos. Por um lado, porque muitos deles estão excessivamente preocupados com isso; por outro, porque se tem dado muita ênfase à recuperação da auto-estima, particularmente nas igrejas protestantes. Devemos notar, contudo, que o conceito de auto-estima é profundamente secular e que, em princípio, não diz respeito aos cristãos. Não lhes diz respeito porque não precisam disso. Os cristãos devem ter um tremendo sentido de auto-apreço. Deus nos fez à sua imagem e semelhança, ama-nos, enviou o seu Filho para salvar cada um de nós. O nosso destino é estar com Deus para sempre. Cada um de nós tem tanto valor que os anjos se alegram por cada pecador que se arrepende.

Por outro lado, não temos nada de pessoal de que nos orgulhar. A vida e todos os nossos talentos foram-nos dados, e não passamos de pobres pecadores. Não há razão teológica para pensar que os ricos, os bem sucedidos ou as pessoas de alta auto-estima recebam mais favores de Deus e tenham mais chances de atingir o Céu. Na verdade, bem-aventurados os humildes, os mansos.

Além disso, a auto-estima baseia-se no conceito bem americano de que cada um de nós é responsável pela sua própria felicidade e por isso, do ponto de vista cristão, tem um efeito sutil e negativo: pode levar-nos a buscar a felicidade mais do que buscar Deus.

A auto-estima tornou-se importante hoje por ser considerada essencial à felicidade. “Você não será feliz se não se amar a si próprio”, dizem. Mas afirmar que devemos amar-nos a nós mesmos, que Deus não nos vai amar tanto quanto precisamos, é uma forma de ateísmo prático. Dizemos acreditar em Deus, mas não confiamos nele. Há muitos cristãos que adotam um lema nada bíblico para as suas vidas: “Deus ama aqueles que se amam a si próprios”.

Outro problema é o fato de os cristãos terem começado a usar a baixa auto-estima como desculpa para comportamento ruins ou destrutivos. Acontece que a auto-estima, baixa ou alta, não determina os nossos atos. Nós é que somos os responsáveis por eles, por tentar fazer o bem e evitar o mal. A baixa auto-estima não torna uma pessoa alcoólatra nem apta para reconhecer o seu vício. Ambas as decisões cabem-nos a nós, independentemente do nosso nível de auto-estima.

Por fim, todo esse foco em nós mesmos alimenta um amor pouco realista por nós mesmos, que os psicólogos costumam chamar de narcisismo. Pensávamos que os Estados Unidos já tiveram problemas suficientes com o narcisismo nas décadas de 1970, com a minha geração, e de 1980, com os yuppies. Hoje, a busca pela auto-estima é puramente a mais nova expressão da velha egomania americana.

Pôr cara sorridente a cada dever de casa que as crianças entregam, simplesmente pelo fato de o entregarem, ou conceder-lhes troféus apenas por estarem no time são bajulações do tipo daquelas que há décadas estão presentes nos nosso bordões comerciais: “Você merece uma folga”, “Você é o chefe”, “A gente faz do seu jeito”. Tamanho amor próprio é uma manifestação extrema da psicologia individualista que por muito tempo vem sendo apoiada pelo consumismo, e que também é reforçada pelos nossos educadores, que gratificam até as mais jovens crianças com mantras repetitivos do tipo: “Você é a pessoa mais importante do mundo”.

Essa ênfase narcisista em si mesmo, que na sociedade americana se dá, sobretudo na educação, mas também na religião, é uma forma disfarçada de egolatria. Se levada a sério, os Estados Unidos teriam “os trezentos milhões de pessoas mais importantes do mundo inteiro”. Trezentos milhões de “eus” dourados. Se tal idolatria não fosse tão perigosa para a sociedade, seria vergonhosa, patética até. Esperemos que o senso comum inicie uma reação.

Paul C. Vitz

Ph.D. pela Universidade de Stanford (1962), professor emérito de Psicologia da Universidade de Nova York e professor adjunto do John Paul II Institute for Marriage and Family (Washington, D.C.). É autor de quatro livros, entre os quais estão «Psychology as Religion: The Cult of Self-Worship» (“A psicologia como religião: a egolatria”) e «Faith of the Fatherless: The Psychology of Atheism» (“A fé dos órfãos: psicologia do ateísmo”).

Fonte: Catholic Educator´s Resource Center

Link: http://catholiceducation.org/articles/education/ed0001.html

Tradução: Quadrante

........................................................................................

.....................................................................................................................................

A arte da verdadeira educação

Por Robert K. Carlson

Ao descrever as excelências de um aprazível e bem-sucedido College americano, este autor relembra os preceitos clássicos para toda a boa educação, e sobretudo este: um bom ambiente é fundamental para o que há de mais essencial na educação – o aprendizado das virtudes

Recentemente, fui convidado pelo Magdalen College, uma Faculdade católica de Artes Liberais da cidade de Warner, New Hampshire, para falar sobre o tema: "Qual é a verdadeira crise moral?" Ao voar de volta e pensar sobre a minha estadia ali, reparei que tinha recebido dos estudantes pelo menos tanto quanto procurara dar-lhes – e talvez mais. Magdalen fez-me lembrar de uma verdade perene central que, tal como o pássaro de São Beda, costuma fugir da mente se não se reflete sobre ela: a de que os estudantes não conseguem crescer em solo infértil.

Ao chegar em casa, um amigo perguntou-me se tudo tinha corrido bem. Respondi-lhe que sim: "Em Magdalen, o solo era fértil, a semente tinha vida, os agricultores eram fortes, entusiastas e competentes, os estudantes eram dóceis e a colheita foi copiosa". Inspirado nesse solo rico, escrevi uma carta ao Presidente do College, Jeffrey J. Karls, em que resumia a minha experiência:

"Os seus alunos, criados em boas famílias católicas, foram-lhe confiados pelos pais para se tornarem membros da ampla família de Magdalen – in loco parentis. Como filhas e filhos adotivos, tomaram contacto com a beleza do campus, com a capela de Nossa Senhora Rainha dos Apóstolos, com a liturgia e música sacras, com os trajes civilizados, com as boas maneiras e com o ensino excelente – todo o fértil solo de Magdalen. E isso produziu bons frutos. Demonstram-no a caridade e o zelo de sua faculdade em dar o que tem – a sabedoria –, e a docilidade e alegria que os seus estudantes põem na busca dessa sabedoria, como pude observar nas duas aulas que vi serem ministradas, bem como nas conversas que tive com os alunos fora da sala de aula. E tudo acompanhado de muita educação, sinal de verdadeira caridade posta em prática".

Creio que foi G.K. Chesterton quem disse certa vez, naquele seu estilo inimitável, que na educação o ambiente – o solo – é quase tudo. Nisso posso perdoar a Chesterton a sua costumeira tendência ao exagero retórico, pois frisava um ponto importante: de fato, o solo, se não é quase tudo, é pelo menos a coisa mais importante. E o Magdalen College sabe disso: coisa que muitos educadores de hoje esquecem ou, pelo menos, negligenciam.

Contrariamente à opinião de Chesterton, muitos educadores modernos parecem pensar que o ambiente em que se dá a educação aos nossos estudantes conta muito pouco ou nada. A tradição educativa do Ocidente está certamente do lado de Chesterton, ou melhor, ele é que está do lado dela. Começando por Platão, o primeiro grande comentarista da educação, a tradição nos ensina que os estudantes não conseguem desenvolver-se em solo estéril; que o ambiente do campus onde são educados é de primordial importância para que a educação liberal produza o seu fruto.

E qual é o fruto próprio da educação liberal? A nossa tradição clássica e cristã nos diz que a educação liberal é a arte de tornar o homem melhor enquanto homem, para que assim possa viver uma vida melhor. É também a arte que possibilita ao homem adquirir as virtudes ou hábitos morais e intelectuais. Essas virtudes são os princípios absolutos e universais que regem a educação enquanto arte: são o significado da sua pretensão de tornar o homem melhor. Pois a educação liberal – do latim líber, livre – prepara a pessoa em função do seu próprio bem, e não apenas para algum trabalho. É a educação de um homem livre, e não de um escravo. Por isso, ao contrário de um escravo, o homem que recebeu essa educação vive por si próprio, no sentido exposto por Marcus Berquist: “compreende interiormente a finalidade da sua vida e a assume na sua própria pessoa”.

A educação liberal forma o intelecto e as virtudes intelectuais. Robert Maynard Hutchins, explicando o enfoque tradicional da educação liberal, aponta: “Ao falar de virtudes intelectuais, refiro-me aos bons hábitos intelectuais. Das cinco virtudes intelectuais que os antigos distinguiam, três eram virtudes especulativas: o conhecimento intuitivo, que é o hábito da indução; o conhecimento científico, que é o hábito da demonstração; e a sabedoria filosófica, que é o conhecimento – ao mesmo tempo científico e intuitivo – das coisas de natureza mais alta: os primeiros princípios e as causas. As outras duas virtudes correspondem ao intelecto prático: a arte, que é a capacidade de agir conforme o verdadeiro curso do raciocínio, e a prudência, que é a reta razão quanto ao que se deve fazer”.

No entanto, a educação liberal não menospreza a força da vontade – fonte primária da moralidade –, nem, muito especialmente, o cultivo prático das três virtudes morais cardeais – a temperança, a justiça e a fortaleza – que resumem todos os outros valores morais.

Embora ao longo da história da educação liberal tenha havido muita discussão quanto ao ensino dessas virtudes morais – como devem ser ensinadas e se, a rigor, podem mesmo ser ensinadas –, há um consenso geral de que o intelecto tem de estar envolvido no cultivo da vontade. Como diz o antigo ditado, "o intelecto propõe e a vontade dispõe". Mark Van Doren comenta a propósito da vontade e do intelecto: “Sem capacidade de abstração, ficaríamos ofuscados ao ver as coisas, tal como o homem de Platão quando sai da caverna. O que não vemos é a natureza daquilo que vemos. «Virtude é conhecimento», disse Sócrates, ao explicar que o ignorante não pode ser corajoso, pois a coragem consiste em saber o que se deve e o que não se deve temer. A educação moral nada mais é do que reflexão. O método mais seguro de educação moral consiste em ensinar a pensar. Como dizia Pascal, «trabalhemos, pois, para bem pensar: eis o princípio da moral»".

Consta da declaração de princípios educacionais do Magdalen College que o seu Programa de Estudos "se baseia na visão clássica e cristã da educação liberal", em coerência com o dito socrático: "uma vida irrefletida não é uma vida digna". Por isso, anuncia que a sua missão é capacitar os estudantes a "viverem bem a vida", o que é justamente a finalidade última da educação liberal.

O Programa foi montado para realizar essa tarefa ajudando os estudantes na aquisição das virtudes intelectuais: "como questionar e como participar no discurso racional; como pensar e como aprender; como defender opiniões e como chegar à verdade; como analisar e como sintetizar". Isso, por sua vez, irá prepará-los para as virtudes morais, pois, como acabamos de ver, "pensar bem é o princípio da moral".

A tradição classificou a Educação como uma arte cooperativa, juntamente com a Medicina e a Agricultura. Essas artes são cooperativas no sentido de que o professor, o médico e o agricultor cooperam com a Natureza para a consecução de seus fins respectivos: o aprendizado, a saúde e a obtenção dos frutos da terra. A Natureza por si própria é capaz de chegar a essas metas, mas alcança-as melhor através desses artistas, que atuam como instrumentos secundários ao exercerem as suas capacidades.

Por causa da semelhança entre ensinar e plantar, o próprio Cristo fez uma analogia entre essas atividades na Parábola do Semeador, a fim de instruir os Seus discípulos na arte que em breve passariam a praticar pregando o Evangelho. A Parábola do Semeador ensina a importante verdade de que, assim como o solo deve ser rico para que a semente lançada pelo semeador crie raízes e produza fruto abundante, da mesma forma o estudante deve ser dócil ao ouvir as palavras de quem ensina para que elas criem raízes e produzam o seu fruto nele: o fruto do entendimento. Cristo diz: e a semente que cai em terra boa são aqueles que ouvem a palavra e a põem em prática, e dão fruto: uns trinta, uns sessenta e outros cem por um.

A tradição ensina que a docilidade é uma virtude moral, um cume entre dois vícios opostos: a subserviência e a indocilidade. O estudante dócil é aquele que tem o nível adequado de respeito pela autoridade do professor, que é quem semeia a palavra. Se o estudante exagerar na sua dependência dessa autoridade corre o risco de simplesmente ouvir a verdade tal e como o mestre a enuncia, e depois confiá-la à memória sem fazer nenhum esforço por compreendê-la por si mesmo. Isto não é ensino: é doutrinação. Por outro lado, se o estudante não respeita a autoridade do professor, não irá sequer escutá-lo e, em conseqüência, permanecerá na ignorância ou no erro. Estes dois vícios conduzem a efeitos negativos bem conhecidos, ao passo que a docilidade – o nível adequado de respeito pela autoridade do professor – conduz à verdadeira educação.

O Magdalen compreende a docilidade e a valoriza nos seus estudantes. Parte da sua pedagogia consiste em que os alunos leiam os "Grandes Livros" em pequenas sessões com os professores, nas quais estes procuram fazê-los descobrir a verdade em conversas de estilo socrático. A respeito disso, o programa comenta: "Uma vez que viver melhor pressupõe uma busca pessoal dos princípios que integram a nossa existência, os estudantes devem aprender a descobrir e avaliar esses princípios. E o conseguirão na medida em que se fizerem dóceis como as crianças".

Mas como tornar o aluno dócil às palavras do professor? Deve-se deixar isso inteiramente ao acaso, ou os educadores – tal como os agricultores – devem cultivar cuidadosamente o solo educacional em que se encontram imersos os estudantes, com a intenção de os expor à verdade, ao bem e à beleza, para que assim possam mais facilmente tornar-se receptivos à palavra do professor?

Platão, na República, responde: "Não permitamos que os nossos guardados cresçam no meio de imagens de deformação moral, como ocorre em certos pastos ruins, e ali mordisquem e comam, dia após dia e pouco a pouco, ervas e flores prejudiciais e venenosas, até acumularem silenciosamente uma massa de podridão que fermenta nas suas almas".

Platão afirma além disso que os educadores, tal como os artistas, devem produzir por meio da razão o rico solo em que os seus educandos podem absorver "a graça e a beleza verdadeiras" e "o bem em todas as coisas". Então "a beleza moldará a sua alma desde os primeiros anos, em conformidade e harmonia com a beleza da razão".

E o que pressagia esse rico solo para o estudante cuja alma foi moldada "em conformidade e harmonia com a beleza da razão", e que por isso mesmo está apto para uma verdadeira educação? Quem for educado num ambiente onde se cultive corretamente a verdade, o bem e a beleza, argumenta Platão, "adquirirá bom gosto" nas artes, "tornar-se-á nobre e bom", e "saudará a sua amiga , com quem convive desde há muito tempo graças à educação".

Em poucas palavras: pela influência desse rico solo, o estudante tornar-se-á dócil, ou seja, capaz de ser ensinado. Conseqüentemente, não somente respeitará a sua “amiga razão”, mas também o representante dela – o professor –, que deposita a semente na sua alma para que aí lance raízes e produza frutos de sabedoria. Vê-se portanto que Platão e a tradição confirmam aquilo que Chesterton diz e que o Magdalen sabe: que na educação o solo é realmente o mais importante. Descrevendo o seu ambiente educativo, o College articula essa verdade perene: “Na sala de aula, espera-se que haja respeito para com todas as pessoas e uma vigorosa busca da verdade. Nas atividades em comum, todos são convidados a participar e os estudantes podem crescer nas virtudes enquanto se divertem e convivem com os colegas. No refeitório praticam-se as boas maneiras e o serviço ao próximo. As residências conservam-se limpas e em ordem, e dá-se incentivo aos bons hábitos de estudo. Por toda parte, vão-se formando verdadeiras e duradouras amizades e consegue-se obter um sólido rendimento acadêmico”.

Nos tempos que correm, e em que esses conceitos são freqüentemente esquecidos, é animador saber que há um pequeno College de Artes Liberais que responde ao apelo "do Coração da Igreja" (Ex Corde Ecclesiae) e o põe em prática. Magdalen é um diamante aos pés do monte Kearsarge, em Warner, cidade de New Hampshire.

Robert K. Carlson

Professor de Filosofia e Humanidades no Casper College, Wyoming (EUA)

Fonte: The New Oxford Review

Link: http://www.newoxfordreview.org/2002/jun02/robertkcarlson.html

Tradução: Quadrante

.......................................................................................................................

Comentários