Anticristo - Nietzsche

Anticristo - Nietzsche

(Parte 1 de 4)

O Anticristo Ensaio de uma Crítica do Cristianismo

Autor:Friedrich Wilhelm Nietzsche Tradutor:André Díspore Cancian Fonte: Nietzsche´s Labyrinth

Este livro pertence aos homens mais raros. Talvez nenhum deles sequer esteja vivo. É possível que se

Prefácio encontrem entre aqueles que compreendem o meu “Zaratustra”: como eu poderia misturar−me àqueles aos quais se presta ouvidos atualmente? – Somente os dias vindouros me pertencem. Alguns homens nascem póstumos.

As condições sob as quais sou compreendido, sob as quais sou necessariamente compreendido –
prejudicialPossuir uma inclinação – nascida da força – para questões que ninguém possui coragem de
entusiasmoAuto−reverência, amor−próprio, absoluta liberdade para consigo...
Muito bem! Apenas esses são meus leitores, meus verdadeiros leitores, meus leitores predestinados:

conheço−as muito bem. Para suportar minha seriedade, minha paixão, é necessário possuir uma integridade intelectual levada aos limites extremos. Estar acostumado a viver no cimo das montanhas – e ver a imundície política e o nacionalismo abaixo de si. Ter se tornado indiferente; nunca perguntar se a verdade será útil ou enfrentar; ousadia para o proibido; predestinação para o labirinto. Uma experiência de sete solidões. Ouvidos novos para música nova. Olhos novos para o mais distante. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas. E um desejo de economia em grande estilo – acumular sua força, seu que importância tem o resto? – O resto é somente a humanidade. – É preciso tornar−se superior à humanidade em poder, em grandeza de alma – em desprezo...

Friedrich Nietzsche

felicidadeNós descobrimos essa felicidade; nós conhecemos o caminho; retiramos essa sabedoria dos
modernoEsse é o tipo de modernidade que nos adoeceu – a paz indolente, o compromisso covarde,
virtudes modernas e outros ventos do sul!Fomos bastante corajosos; não poupamos a nós mesmos
possível da felicidade dos fracos, da “resignação”Nosso ar era tempestuoso; nossa própria natureza

– Olhemos−nos face a face. Somos hiperbóreos(1) – sabemos muito bem quão remota é nossa morada. “Nem por terra nem por mar encontrarás o caminho aos hiperbóreos”: mesmo Píndaro, em seus dias, sabia tanto sobre nós. Além do Norte, além do gelo, além da morte – nossa vida, nossa milhares de anos no labirinto. Quem mais a descobriu? – O homem moderno? – “Eu não conheço nem a saída nem a entrada; sou tudo aquilo que não sabe nem sair nem entrar” – assim suspira o homem toda a virtuosa sujidade do moderno Sim e Não. Essa tolerância e largeur(2) de coração que tudo “perdoa” porque tudo “compreende” é um siroco(3) para nós. Antes viver no meio do gelo que entre nem os outros; mas levamos um longo tempo para descobrir aonde direcionar nossa coragem. Tornamo−nos tristes; nos chamaram de fatalistas. Nosso destino – ele era a plenitude, a tensão, o acumular de forças. Tínhamos sede de relâmpagos e grandes feitos; mantivemo−nos o mais longe tornou−se sombria – pois ainda não havíamos encontrado o caminho. A fórmula de nossa felicidade: um Sim, um Não, uma linha reta, uma meta...

1 – Os Gregos acreditavam que no extremo Norte da Terra vivia um povo que gozava de felicidade eterna, os hiperbóreos, que nunca guerreavam, adoeciam ou envelheciam. Sem a ajuda dos Deuses, seu território era inalcançável. (N. do T.)

2 – Grandeza. 3 – Vento asfixiante, quente e empoeirado originário de desertos. (N. do T.)

O que é bom? – Tudo que aumenta, no homem, a sensação de poder, a vontade de poder, o

I próprio poder.

O que é mau? – Tudo que se origina da fraqueza.
O que é felicidade? – A sensação de que o poderaumenta – de que uma resistência foi superada.
Não o contentamento, mas mais poder; não a paz a qualquer custo, mas a guerra;não a virtude,

mas a eficiência (virtude no sentido da Renascença, virtu(1), virtude desvinculada de moralismos).

Os fracos e os malogrados devem perecer: primeiro princípio denossa caridade. E realmente

deve−se ajudá−los nisso.

O que é mais nocivo que qualquer vício? – A compaixão posta em prática em nome dos

malogrados e dos fracos – o cristianismo...

1 – “Vir”, em latim, significa “varão”, “homem”. Ou seja, “virtu”, neste “sentido da Renascença”, designa qualidades viris como força, bravura, vigor, coragem, e não humildade, compaixão, etc. (N. do T.)

O problema que aqui apresento não consiste em rediscutir o lugar humanidade na escala dos seres viventes (– o homem é um fim –): mas que tipo de homem deve sercriado, que tipo deve ser pretendido como sendo o mais valioso, o mais digno de viver, a garantia mais segura do futuro.

Este tipo mais valioso já existiu bastantes vezes no passado: mas sempre como um afortunado

acidente, como uma exceção, nunca como algo deliberadamentedesejado. Com muita freqüência esse foi precisamente o tipo mais temido; até ao presente foi considerado praticamente o terror dos terrores; – e devido a esse terror, o tipo contrário foi desejado, cultivado e atingido: o animal doméstico, o animal de rebanho, a doentia besta humana: o cristão...

Pelo que aqui se entende como progresso, a humanidade certamentenão representa uma evolução

IV em direção a algo melhor, mais forte ou mais elevado. Este “progresso” é apenas uma idéia moderna, ou seja, uma idéia falsa. O Europeu de hoje, em sua essência, possui muito menos valor que o Europeu da Renascença; o processo da evolução não significa necessariamente elevação, melhora, fortalecimento.

É bem verdade que ela tem sucesso em casos isolados e individuais em várias partes da Terra e

sob as mais variadas culturas, e nesses casos certamente se manifesta um tiposuperior; um tipo que, comparado ao resto da humanidade, parece uma espécie de super−homem. Tais golpes de sorte sempre foram possíveis e, talvez, sempre serão. Até mesmo raças inteiras, tribos e nações podem ocasionalmente representar tais ditosos acidentes.

Não devemos enfeitar nem embelezar o cristianismo: ele travou uma guerra de morte contra este

V tipo de homemsuperior, anatematizou todos os instintos mais profundos desse tipo, destilou seus conceitos de mal e de maldade personificada a partir desses instintos – o homem forte como um réprobo, como “degredado entre os homens”. O cristianismo tomou o partido de tudo o que é fraco, baixo e fracassado; forjou seu ideal a partir da oposição a todos os instintos de preservação da vida saudável; corrompeu até mesmo as faculdades daquelas naturezas intelectualmente mais vigorosas, ensinando que os valores intelectuais elevados são apenas pecados, descaminhos, tentações. O exemplo mais lamentável: o corrompimento de Pascal, o qual acreditava que seu intelecto havia sido destruído pelo pecado original, quando na verdade tinha sido destruído pelo cristianismo! –

Um doloroso e trágico espetáculo surge diante de mim: retirei a cortina dacorrupção do homem.

VI Essa palavra, em minha boca, é isenta de pelo menos uma suspeita: a de que envolve uma acusação moral contra a humanidade. A entendo – e desejo enfatizar novamente – livre de qualquer valor moral: e isso é tão verdade que a corrupção de que falo é mais aparente para mim precisamente onde esteve, até agora, a maior parte da aspiração à “virtude” e à “divindade”. Como se presume, entendo essa corrupção no sentido de decadência: meu argumento é que todos os valores nos quais a humanidade apóia seus anseios mais sublimes são valores de decadência.

Denomino corrompido um animal, uma espécie, um indivíduo, quando perde seus instintos, quando escolhe, quandoprefere o que lhe é nocivo. Uma história dos “sentimentos elevados”, dos “ideais da humanidade” – e é possível que tenha de escrevê−la – praticamente explicaria por que o homem é tão degenerado. A própria vida apresenta−se a mim como um instinto para o crescimento, para a sobrevivência, para a acumulação de forças, para o poder: sempre que falta a vontade de poder ocorre o desastre. Afirmo que todos os valores mais elevados da humanidade carecem dessa vontade – que os valores de decadência, de niilismo, agora prevalecem sob os mais sagrados nomes.

Chama−se cristianismo a religião dacompaixão. – A compaixão está em oposição a todas as
compaixão persuade à extinçãoÉ claro, ninguém diz “extinção”: dizem “o outro mundo”, “Deus”, “a
verdadeira vida”, Nirvana, salvação, bem−aventurançaEssa inocente retórica do reino da
porquê de a compaixão, para ele, ser uma virtudeAristóteles, como todos sabem, via na compaixão
Wagner), para que ele estoure e se dissipeNada é mais insalubre, em toda nossa insalubre

VII paixões tônicas que aumentam a intensidade do sentimento vital: tem ação depressora. O homem perde poder quando se compadece. Através da perda de força causada pela compaixão o sofrimento acaba por multiplicar−se. O sofrimento torna−se contagioso através da compaixão; sob certas circunstancias pode levar a um total sacrifício da vida e da energia vital – uma perda totalmente desproporcional à magnitude da causa (– o caso da morte de Nazareno). Essa é uma primeira perspectiva; há, entretanto, outra mais importante. Medindo os efeitos da compaixão através da intensidade das reações que produz, sua periculosidade à vida mostra−se sob uma luz muito mais clara. A compaixão contraria inteiramente lei da evolução, que é a lei da seleção natural. Preserva tudo que está maduro para perecer; luta em prol dos desterrados e condenados da vida; e mantendo vivos malogrados de todos os tipos, dá à própria vida um aspecto sombrio e dúbio. A humanidade ousou denominar a compaixão uma virtude (– em todo sistema de moral superior ela aparece como uma fraqueza –); indo mais adiante, chamaram−na a virtude, a origem e fundamento de todas as outras virtudes – mas sempre mantenhamos em mente que esse era o ponto de vista de uma filosofia niilista, em cujo escudo há a inscrição negação da vida. Schopenhauer estava certo nisto: através a compaixão a vida é negada, e tornada digna de negação – a compaixão é uma técnica de niilismo. Permita−me repeti−lo: esse instinto depressor e contagioso opõe−se a todos os instintos que se empenham na preservação e aperfeiçoamento da vida: no papel de defensor dos miseráveis, é um agente primário na promoção da decadência – idiossincrasia moral−religiosa mostra−se muito menos inocente quando se percebe a tendência que oculta sob palavras sublimes: a tendência à destruição da vida. Schopenhauer era hostil à vida: esse foi o um estado mental mórbido e perigoso, cujo remédio era um purgativo ocasional: considerava a tragédia como sendo esse purgativo. O instinto vital deveria nos incitar a buscar meios de alfinetar quaisquer acúmulos patológicos e perigosos de compaixão, como os presentes no caso de Schopenhauer (e também, lamentavelmente, em toda a nossa décadence literária, de St. Petersburgo a Paris, de Tolstoi a modernidade, que a compaixão cristã. Sermos os médicos aqui, sermos impiedosos aqui, manejarmos a faca aqui – tudo isso é o nosso serviço, é o nosso tipo de humanidade, é isso que nos torna filósofos, nós, hiperbóreos! –

É necessário dizerquem consideramos nossos adversários: os teólogos e tudo que tem sangue
teológico correndo em suas veias – essa é toda a nossa filosofiaÉ necessário ter visto essa ameaça de

VIII perto, melhor ainda, é preciso tê−la vivido e quase sucumbido por ela, para compreender que isso não é qualquer brincadeira (– o alegado livre−pensamento de nossos naturalistas e fisiologistas me parece uma brincadeira – não possuem a paixão nessas coisas; não sofreram –). Este envenenamento vai muito

colocarem acima da realidade, e olhá−la com suspeitaO idealista, assim como o eclesiástico, carrega
muito mais dano à vida que quaisquer outros horrores e víciosO puro espírito é a pura mentira...

mais longe do que a maioria imagina: encontro o arrogante hábito de teólogo entre todos aqueles que se consideram “idealistas”, entre todos que, em virtude uma origem superior, reivindicam o direito de se todos os grandes conceitos em sua mão (– e não apenas em sua mão!); os lança com um benevolente desprezo contra o “entendimento”, os “sentidos”, a “honra”, o “bem viver”, a “ciência”; vê tais coisas abaixo de si, como forças perniciosas e sedutoras, sobre as quais “o espírito” plana como a coisa pura em si – como se a humildade, a castidade, a pobreza, em uma palavra, a santidade, não tivessem causado Enquanto o padre, esse negador, caluniador e envenenador da vida por profissão for aceito como uma variedade de homem superior, não poderá haver resposta à pergunta: Que é a verdade?(1) A verdade já foi posta de cabeça para baixo quando o advogado do nada foi confundido com o representante da verdade.

1 – Alusão à passagem bíblica (Novo Testamento, Evangelho segundo João 18:38) na qual Pilatos pergunta a Jesus: “Que é a verdade?”. (N. do T.)

É contra este instinto teológico que guerreio: encontro vestígios dele por toda parte. Todo aquele
a exalta, a intensifica, a afirma, a justifica e a torna triunfante é nomeado “falso”Quando teólogos,

IX que possui sangue teológico em suas veias é cínico e desonrado em todas as coisas. Aopathos(1) que se desenvolve dessa condição denomina−se fé: em outras palavras, fechar os olhos ante si mesmo de uma vez por todas para evitar o sofrimento causado pela visão de uma falsidade incurável. As pessoas constroem um conceito de moral, de virtude, de santidade a partir dessa falsa perspectiva das coisas; fundamentam a boa consciência sobre uma visão falseada; após terem−na tornado sacrossanta com os nomes “Deus”, “salvação” e “eternidade” não aceitam mais que qualquer outro tipo de visão possa ter valor. Descubro este instinto teológico em todas direções: é a mais disseminada e mais subterrânea forma de falsidade que se pode encontrar na Terra. Tudo que um teólogo considera verdadeiro é necessariamente falso: aqui temos praticamente um critério da verdade. Seu profundo instinto de autopreservação não lhe permite honrar ou sequer mencionar a verdade. Onde quer que a influência dos teólogos seja sentida, há uma transmutação de valores, os conceitos de “verdadeiro” e “falso” são forçados a inverter suas posições: tudo que é mais prejudicial à vida é nomeado “verdadeiro”, tudo que através “consciência” dos príncipes (ou dos povos –), estendem suas mãos ao poder, não há qualquer dúvida quanto a este aspecto fundamental: que o anseio pelo fim, a vontade niilista, aspira ao poder...

1 – O termo phatos vem do grego, significando “sentimento”, “emoção” “paixão”. Opõe−se a logos, pensamento racional, lógico. (N. do T.)

Entre os alemães sou imediatamente compreendido quando digo que o sangue teológico é a ruína
fundo, a filosofia alemã – uma forma muito astuta de teologiaOs suevos são os melhores mentirosos
da Alemanha; mentem com inocênciaQual o porquê de toda alegria que se estendeu pelo universo

X da filosofia. O pastor protestante é o avô da filosofia alemã; o protestantismo em si é opeccatum originale(1). Definição do protestantismo: paralisia hemiplégica(2) do cristianismo – e da razão... Precisa−se apenas pronunciar as palavras “Escola de Tübingen”(3) para compreender o que é, no erudito da Alemanha – que é formado em três quartos por filhos de pastores e professores – com o aparecimento de Kant? Por que ainda ecoa na convicção alemã que com Kant houve uma mudança para melhor? O instinto teológico dos estudiosos alemães os fez enxergar nitidamente o que tinha se

menos irrefutáveisA razão, o direito da razão, não vai tão longe... A realidade foi relegada a uma
“aparência”; um mundo absolutamente falso – o da essência – foi transformado na realidadeO

tornado possível novamente... Abria−se um caminho que conduzia de volta ao velho ideal; os conceitos de “mundo verdadeiro” e de moral como essência do mundo (– os dois erros mais viciosos que já existiram!) estavam, uma vez mais, graças a um ceticismo sutil e astucioso, se não demonstráveis, pelo sucesso de Kant foi um sucesso meramente teológico; assim como Lutero ou Leibniz, ele não foi senão um empecilho à já pouco estável integridade alemã. –

1 – Pecado original. 2 – Hemiplegia designa paralisia de um dos lados do corpo.

3 – A Escola de Tübingen (fundada em 1477) possui uma famosa faculdade de teologia, na qual estudaram Hegel e Johannes Kepler. (N. do T.)

Agora uma palavra contra Kant como moralista. A virtude deve sernossa invenção; deve surgir
vida!Somente o instinto teológico tomou−o sob sua proteção! – Uma ação suscitada pelo instinto vital
dogmatismo cristão, considerava o prazer como uma objeçãoO que destrói um homem mais
quanto para a idioticeKant tornou−se um idiota. – E ele era contemporâneo de Goethe! Este
sê−lo!Abstenho−me de dizer o que penso dos alemães... Kant não viu na Revolução Francesa a

XI de nossa necessidade pessoal e em nossa defesa. Em qualquer outro caso é fonte de perigo. Tudo que não pertence à vida representa uma ameaça a ela; uma virtude nascida simplesmente do respeito ao conceito de “virtude”, como Kant a desejava, é perniciosa. A “virtude”, o “dever”, o “bem em si”, a bondade fundamentada na impessoalidade ou na noção de validez universal – são todas quimeras, e nelas apenas encontra−se a expressão da decadência, o último colapso vital, o espírito chinês de Konigsberg(1). Exatamente o contrário é exigido pelas mais profundas leis da autopreservação e do crescimento: que cada homem crie sua própria virtude, seu próprio imperativo categórico(2). Uma nação se reduz a ruínas quando confunde seu dever com o conceito universal de dever. Nada conduz a um desastre mais cabal e pungente que todo dever “impessoal”, todo sacrifício ao Moloch(3) da abstração. – E imaginar que ninguém pensou no imperativo categórico de Kant como algo perigoso à prova estar correta pela quantidade de prazer que gera: e ainda assim esse niilista, com suas vísceras de rapidamente que trabalhar, pensar e sentir sem uma necessidade interna, sem um profundo desejo pessoal, sem prazer – como um mero autômato do dever? Essa é tanto uma receita para a décadence(4) calamitoso fiandeiro de teias de aranha foi reputado o filósofo alemão par excellence(5) – e continua a transformação do estado da forma inorgânica para a orgânica? Não perguntou a si mesmo se havia algum evento que não poderia ser explicado exceto através de uma disposição moral no homem, para que, fundamentada nisso, “a tendência da humanidade ao bem” pudesse ser explicada de uma vez por todas? Resposta de Kant: “Isso é a revolução”. O instinto que engana sobre toda e qualquer coisa, o instinto como revolta contra a natureza, a decadência alemã em forma de filosofia – isso é Kant!

1 – Cidade da Prússia onde Kant nasceu e passou toda a sua vida. Por isso, também é conhecido como “filósofo de Köenizberg”. (Pietro nasseti)

2 – Conceito kantiano. Considera−se imperativo uma proposição que tenha a forma de comando, de imposição e, em particular, de um comando ou ordem que o espírito dá a si próprio, Kant distinguia duas espécies de imperativos: o hipotético (ou condicional), quando a ordem ou determinação está subordinada como meio para atingir um determinado fim (ex.: sê justo, se queres ser respeitado); e o categórico (ou não−condicional), se a ordem é incondicional (ex. sê justo). Para Kant só existia um imperativo categórico fundamental (e é a esse que Nietzsche se refere) cuja fórmula é: “Age de tal maneira que o motivo que te levou a agir possa ser convertido em lei universal”. (Pietro nasseti)

3 – Divindade adorada pelos amonitas e moabitas, à qual sacrificavam crianças em troca de boas colheitas e vitória nas guerras. (N. do T.)

4 – Decadência. 5 – Por excelência.

Ponho à parte uns poucos céticos, os tipos decentes na história da filosofia: o resto não possui a
superior!O que padres têm a ver com filosofia! Estão muito acima dela! – E até agora os padres

XII menor noção de integridade intelectual. Comportam−se como donzelas, todos esses grandes entusiastas e prodígios – consideram os “belos sentimentos” como argumentos, o “peito estufado” como o sopro de uma inspiração divina, a convicção como umcritério da verdade. Ao final, com “alemã” inocência, Kant tentou dar um caráter científico a essa forma de corrupção, essa falta de consciência intelectual, chamando−a de “razão prática”. Deliberadamente inventou uma variedade de razões para usar ocasionalmente quando fosse desejável não se preocupar a razão – isto é, quando a moral, quando o sublime comando “tu deves” fosse ouvido. Lembrando do fato que, entre todos os povos, o filósofo não representa nada mais que o desenvolvimento dos velhos sacerdotes, essa herança sacerdotal, essa fraude contra si mesmo deixa de ser algo surpreendente. Quando um homem sente que possui uma missão divina, digamos, melhorar, salvar ou libertar a humanidade – quando um homem sente uma faísca divina em seu coração e acredita ser o porta−voz de imperativos supranaturais – quando tal missão o inflama, é simplesmente natural que ele coloque−se acima dos níveis de julgamento meramente racionais. Sente a si próprio como santificado por essa missão, sente que faz parte de uma ordem reinaram! – Determinaram o significado dos conceitos de “verdadeiro” e “falso”!

Não subestimemos este fato: quenós mesmos, nós, espíritos livres, já somos a “transmutação de
contra nósNossos objetivos, nossos métodos, nossa calma, cautela, desconfiança – para eles tudo isso
desceu a contragostoQuão bem o adivinharam, esses pavões da divindade!

XIII todos os valores”, uma manifesta declaração de guerra e uma vitória contra todos os velhos conceitos de “verdadeiro” e “falso”. As intuições mais valiosas são as mais tardiamente adquiridas; as mais valiosas de todas são aquelas que determinam os métodos. Todos os métodos, todos os princípios do espírito científico de hoje foram alvo, por milhares de anos, do mais profundo desprezo; caso um homem se interessasse por eles era excluído da sociedade das pessoas “decentes” – passava por “inimigo de Deus”, por zombador da verdade, por “possesso”. Enquanto homem da ciência, pertencia à Chandala(1)... Tivemos contra nós toda a patética estupidez da humanidade – toda a noção que tinham do que a verdade deveria ser, de qual deveria ser a função da verdade – todo o seu “tu deves” era arremessado parecia algo absolutamente indecoroso e desprezível. – Olhando para trás, alguém até poderia perguntar−se, com alguma razão, se não foi, na verdade, um senso estético que manteve os homens cegos por tanto tempo: o que exigiam da verdade era uma eficiência pitoresca, e daquele em busca do conhecimento uma forte impressão sobre seus sentidos. Foi nossa modéstia que por tanto tempo lhes 1 – Chandala é a casta mais baixa no sistema hindu. (N. do T.)

Nós desaprendemos algo. Nos tornamos mais modestos em todos os sentidos. Não derivamos mais
muitos outros animais, todos em similares estágios de desenvolvimentoE mesmo quando dizemos isso,
discordantes e parcialmente harmoniosos – a vontade não mais “age” ou “movimenta”Antigamente

XIV o homem do “espírito”, do “desejo de Deus”; rebaixamos o homem a um mero animal. O consideramos o mais forte entre eles porque é o mais astuto; um dos resultados disso é sua intelectualidade. Em contrapartida, nós nos precavemos contra este conceito: de que o homem é o grande objetivo da evolução orgânica. Em verdade, pode ser qualquer coisa, menos a coroa da criação: ao lado dele estão estamos exagerando, pois o homem, relativamente falando, é o mais corrompido e doentio de todos os animais, o mais perigosamente desviado de seus instintos – apesar disso tudo, com certeza, continua a ser o maisinteressante! – No que concerne aos animais inferiores, foi Descartes quem primeiro teve a admirável ousadia de descrevê−los como uma machina(1); toda a nossa fisiologia é um esforço para provar a veracidade dessa doutrina. Entretanto, é ilógico colocar o homem à parte, como fez Descartes: todo o conhecimento que temos sobre o homem aponta precisamente ao que o consideramos: uma máquina. Antigamente, concedíamos ao homem, como herança de algum tipo de ser superior, o que se denominava “livre−arbítrio”; agora lhe retiramos até essa vontade, pois o termo não descreve qualquer coisa que possamos compreender. A velha palavra “vontade” agora designa apenas um tipo de resultado, uma reação individual, que se segue inevitavelmente de uma série de estímulos parcialmente pensava−se que a consciência humana, seu “espírito”, era uma evidência de sua origem superior, de sua divindade. Aconselharam−no que, para que se tornasse perfeito, assim como a tartaruga, recolhesse seus sentidos em si mesmo e não tivesse mais contato com coisas terrenas, para escapar de seu “envoltório mortal” – assim apenas restaria sua parte importante, o “puro espírito”. Aqui também pensamos melhor sobre o assunto: para nós a consciência, ou “o espírito”, aparece como um sintoma de uma relativa imperfeição do organismo, como uma experiência, um tatear, um equívoco, como uma aflição que consome força nervosa desnecessariamente – nós negamos que qualquer coisa feita conscientemente possa ser feita com perfeição. O “puro espírito” é uma pura estupidez: retire o sistema nervoso e os sentidos, o chamado “envoltório mortal”, e o resto é um erro de cálculo – isso é tudo!...

1 – Máquina.

No cristianismo, nem a moral nem a religião têm qualquer ponto de contado com a realidade. São
contra o natural (– a realidade! –), é evidência de um profundo mal−estar com a efetividadeIsso
realidade significa uma existência malogradaA preponderância do sofrimento sobre o prazer é a

XV oferecidascausas puramente imaginárias (“Deus”, “alma”, “eu”, “espírito”, “livre arbítrio” – ou mesmo o “não−livre”) e efeitos puramente imaginários (“pecado”, “salvação”, “graça”, “punição”, “remissão dos pecados”). Um intercurso entre seres imaginários (“Deus”, “espíritos”, “almas”); uma história natural imaginária (antropocêntrica; uma negação total do conceito de causas naturais); uma psicologia imaginária (mal−entendidos sobre si, interpretações equivocadas de sentimentos gerais agradáveis ou desagradáveis, por exemplo, os estados do nervus sympathicus com a ajuda da linguagem simbólica da idiossincrasia moral−religiosa – “arrependimento”, “peso na consciência”, “tentação do demônio”, “a presença de Deus”); uma teleologia imaginária (o “reino de Deus”, “o juízo final”, a “vida eterna”). – Esse mundo puramente fictício, com muita desvantagem, se distingue do mundo dos sonhos; o último ao menos reflete a realidade, enquanto aquele falsifica, desvaloriza e nega a realidade. Após o conceito de “natureza” ter sido usado como oposto ao conceito de “Deus”, a palavra “natural” forçosamente tomou o significado de “abominável” – todo esse mundo fictício tem sua origem no ódio explica tudo. Quem tem motivos para fugir da realidade? Quem sofre com ela. Mas sofrer com a causa dessa moral e religião fictícias: mas tal preponderância, no entanto, também fornece a fórmula para a décadence...

Uma crítica daconcepção cristã de Deus conduz inevitavelmente à mesma conclusão. – Uma nação
orgulhosa precisa de um Deus ao qual pode oferecer sacrifíciosA religião, dentro desses limites, é uma
existência à mera tolerância e à filantropiaQual seria o valor de um Deus que desconhecesse o ódio, a
um cosmopolitaNoutros tempos representava um povo, a força de um povo, tudo que em suas almas
havia de agressivo e sequioso de poder; agora é simplesmente o bom DeusNa verdade não há outra

XVI que ainda acredita em si mesma possui seu próprio Deus. Nele são honradas as condições que a possibilitam sobreviver, suas virtudes – projeta o prazer que possui em si mesma, seu sentimento de poder, em um ser ao qual pode agradecer por isso. Quem é rico lhe prodigaliza sua riqueza; uma nação forma de gratidão. O homem é grato por existir: para isso precisa de um Deus. – Tal Deus precisa ser tanto capaz de beneficiar quanto de prejudicar; deve ser capaz de representar um amigo ou um inimigo – é admirado tanto pelo bem quanto pelo mal que causa. Castrar esse Deus, contra toda a natureza, transformando−o em um Deus somente bondade, seria contrário à inclinação humana. A humanidade necessita igualmente de um Deus mau e de um Deus bom; não deve agradecer por sua própria vingança, a inveja, o desprezo, a astúcia, a violência? Que talvez nem sequer tenha experimentado os arrebatadores ardeurs(1) da vitória e da destruição? Ninguém entenderia tal Deus: por que alguém o desejaria? – Sem dúvida, quando uma nação está em declínio, quando sente que a crença em seu próprio futuro, sua esperança de liberdade estão se esvaindo, quando começa a enxergar a submissão como primeira necessidade e como medida de autopreservação, então precisa também modificar seu Deus. Ele então se torna hipócrita, tímido e recatado; aconselha a “paz na alma”, a ausência de ódio, a indulgência, o “amor” aos amigos e aos inimigos. Torna−se um moralizador por excelência; infiltra−se em toda virtude privada; transforma−se no Deus de todos os homens; torna−se um cidadão privado, alternativa para os Deuses: ou são a vontade de poder – no caso de serem os Deuses de uma nação – ou a inaptidão para o poder – e neste caso precisam ser bons.

1 – Ardores.

Onde quer que, por qualquer forma, a vontade de poder comece enfraquecer, haverá sempre um
fracos. Obviamente, eles não se denominam os fracos; denominam−se “os bons”Nenhuma explicação é

XVII declínio fisiológico concomitante, umadécadence. A divindade dessa décadence, despida de suas virtudes e paixões masculinas, é convertida forçosamente em um Deus dos fisiologicamente degradados, dos necessária para se entender em quais momentos da História a ficção dualista de um Deus bom e um Deus mau se tornou possível pela primeira vez. O mesmo instinto que leva os inferiores a reduzir seu próprio Deus à “bondade em si” também os leva a eliminar todas as qualidades do Deus daqueles que lhes são superiores; vingam−se demonizando o Deus de seus dominadores. – O bom Deus, assim como o Diabo – ambos são frutos da décadence. – Como podemos ser tão tolerantes com o simplismo dos teólogos cristãos, aceitando sua doutrina de que a evolução do conceito de Deus a partir do “Deus de Israel”, o Deus de um povo, ao Deus cristão, a essência de toda a bondade, significa um progresso? – Mas até Renan(1) o fez. Como se Renan tivesse o direito ao simplismo! O contrário, na realidade, é o que se faz ver. Quando tudo que é necessário à vida ascendente; quando tudo que é forte, corajoso, imperioso e orgulhoso foi amputado do conceito de Deus; quando se degenerou progressivamente até tornar−se uma bengala para os cansados, uma tábua de salvação aos que se afogam; quando vira o Deus dos pobres, o Deus dos pecadores, o Deus dos incapazes par excellence, e o atributo de “salvador” ou “redentor” continua como o atributo mais essencial da divindade – qual é a significância de tal metamorfose? O que implica tal redução do divino? – Sem dúvida, com isso o “reino de Deus” cresceu. Antigamente, tinha somente seu povo, seus “escolhidos”. Mas desde então saiu perambulando, assim

esquinas, um Deus de todos os recantos e gretas, de todos lugares insalubres do mundo!Seu reino na
Ele mesmo é tão pálido, tão fraco, tão décadentAté o mais pálido entre os pálidos é capaz de
o “puro espírito”, o “absoluto”, a “coisa em si”O colapso de um Deus: ele converte−se na “coisa em

como seu próprio povo, a territórios estrangeiros; desistiu de acomodar−se; e finalmente passou a sentir−se em casa em qualquer lugar, esse grande cosmopolita – até agora possui a “grande maioria” ao seu lado, e metade da Terra. Mas esse Deus da “grande maioria”, esse democrata entre os Deuses, não se tornou um Deus pagão orgulhoso: pelo contrário, continua um judeu, continua um Deus das Terra, agora, assim como sempre, é um reino do submundo, um reino subterrâneo, um reino−gueto... dominá−lo – os senhores metafísicos, os albinos do intelecto. Esses teceram teias ao seu redor por tanto tempo que finalmente o hipnotizaram, o transformaram em aranha, em mais um metafísico. E então retornou mais uma vez ao seu velho serviço de tecer o mundo a partir de sua natureza interior sub specie Spinozae(2); após isso se transformou em algo cada vez mais tênue e pálido – tornou−se o “ideal”, si”.

1 – O filólogo e historiador Ernest Renan (1823−1892), que dera a um dos volumes de sua obra−mestra, Les Origines du Christianisme, precisamente o título L’Atnéchrist. O volume continha uma história das heresias. (Rubens Rodrigues Torres Filho)

2 – Frase de sentido duplo: segundo a óptica de Espinoza e sob a forma de aranha. Trata−se de um jogo de palavras baseado no próprio de Espinoza – spinne significa aranha em alemão. (Pietro Nasseti)

A concepção cristã de Deus – Deus o como protetor dos doentes, o Deus que tece teias de aranha,

XVIII o Deus na forma de espírito – é uma das concepções mais corruptas que jamais apareceram no mundo: provavelmente representa o nível mais ínfero da declinante evolução do tipo divino. Um Deus que se degenerou em umacontradição da vida. Em vez de ser sua própria glória e eterna afirmação! Nele declara−se guerra à vida, à natureza, à vontade de viver! Deus transforma−se na fórmula para todas calúnias contra o “aqui e agora” e para cada mentira sobre “além”! Nele o nada é divinizado e a vontade do nada se faz sagrada!...

O fato de as raças fortes do Norte da Europa não terem repudiado esse Deus cristão não dá

XIX qualquer crédito aos seus dotes religiosos – para não mencionar seus gostos. Deveriam ter sido capazes de sobrepujar tal moribundo e decrépito produto dadécadence. Uma maldição paira sobre eles porque não o repeliram; absorveram em seus instintos a enfermidade, a senilidade e a contradição – e a partir de então não criaram mais nenhum Deus. Dois mil anos se passaram – e nem um único Deus novo! Em vez disso, ainda existe como que por algum direito intrínseco – como se fosse um ultimatum(1) e maximum(2) da força criadora de divindades, do creator spiritus(3) da humanidade –, esse deplorável Deus do monótono−teísmo cristão! Essa imagem híbrida da decadência, destilada do nada, da contradição e da imaginação estéril, na qual todos os instintos da décadence, todas as covardias e cansaços da alma encontram sua sanção! –

1 – Última palavra. 2 – Máximo. 3 – Espírito criador.

Em minha condenação do cristianismo certamente espero não injustiçar uma religião análoga que

X possui um número ainda maior de seguidores: aludo aobudismo. Ambas devem ser consideradas religiões niilistas – são religiões da décadence – mas distinguem−se de um modo bastante notável. Pelo simples fato de poder compará−las, o crítico do Cristianismo está em débito com os estudiosos da Índia. – O budismo é cem vezes mais realista que o cristianismo – é parte de sua herança de vida ser capaz de encarar problemas de modo objetivo e impassível; é o produto de longos séculos de especulação filosófica. O conceito “Deus” já havia se estabelecido antes dele surgir. O budismo é a única religião genuinamente positiva que pode ser encontrada na História, e isso se aplica até mesmo à sua epistemologia (que é um fenomenalismo estrito) – ele não fala sobre “a luta contra o pecado”, mas, rendendo−se à realidade, diz “a luta contra o sofrimento”. Diferenciando−se nitidamente do cristianismo, coloca a autodecepção que existe nos conceitos morais por detrás de si; isso significa, em minha linguagem, além do bem e do mal. – Os dois fatos fisiológicos nos quais se apóia e aos quais direciona a maior parte de sua atenção são: primeiro, uma excessiva sensibilidade à sensação que se manifesta através de uma refinada suscetibilidade ao sofrimento; segundo, uma extraordinária espiritualidade, uma preocupação muito prolongada com os conceitos e com os procedimentos lógicos, sob a influência da qual o instinto de personalidade submete−se à noção de “impessoalidade” (– ambos esses estados serão familiares a alguns de meus leitores, os objetivistas, por experiência própria, assim como são para mim). Esses estados fisiológicos produzem uma depressão, e Buda tentou combatê−la através de medidas higiênicas. Prescreveu a vida ao ar livre, a vida nômade; moderação na alimentação e uma cuidadosa seleção dos alimentos; prudência em relação ao uso de intoxicantes; igual cautela em relação a quaisquer paixões que induzem comportamentos biliosos e aquecimento do sangue; finalmente, não se preocupar nem consigo nem com os outros. Encoraja idéias que produzam serenidade ou alegria – e encontra meios de combater as idéias de outros tipos. Entende o bem, o estado de bondade, como algo que promove a saúde. A oração não está inclusa, e nem o asceticismo. Não há um imperativo categórico ou qualquer disciplina, mesmo dentro dos monastérios (– dos quais é sempre permitido sair –). Todas essas coisas seriam simplesmente meios para aumentar aquela excessiva sensibilidade supramencionada. Pelo mesmo motivo não advoga qualquer conflito contra os incrédulos; seus ensinamentos não antagonizam nada senão a vingança, a aversão, o ressentimento (– “inimizade nunca põe fim à inimizade”: o refrão que move o budismo...) E nisso tudo estava correto, pois são precisamente essas paixões que, na perspectiva de seu principal objetivo regimental, são insalubres. A fadiga mental que apresenta, já claramente evidenciada pelo excesso de “objetividade” (isto é, a perda do interesse em si mesmo, a perda do equilíbrio e do “egoísmo”), é combatida por vigorosos esforços a fim de levar os interesses espirituais de volta ao ego. Nos ensinamentos de Buda o egoísmo é um dever. A “única coisa necessária”, a questão “como posso me libertar do sofrimento”, é o que rege e determina toda a dieta espiritual (– talvez alguém lembrar−se−á daquele ateniense que também declarou guerra ao “cientificismo” puro, a saber, Sócrates, que também elevou o egoísmo à condição de princípio moral).

(Parte 1 de 4)

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