Anticristo - Nietzsche

Anticristo - Nietzsche

(Parte 3 de 4)

– Nossa época orgulha−se de seu senso histórico: como, então, se permitiu acreditar que a

XXXVII grosseira fábula do fazedor de milagres e Salvador constitui as origens do cristianismo – e que tudo nele de espiritual e simbólico surgiu apenas posteriormente? Muito pelo contrário, toda a história do cristianismo – da morte na cruz em diante – é a história de uma incompreensão progressivamente grosseira de um simbolismo original. Com toda a difusão do cristianismo entre massas mais vastas e incultas, até mesmo incapazes de compreender os princípios dos quais nasceu, surgiu a necessidade de torná−lo mais vulgar e bárbaro – absorveu os ensinamentos e rituais de todos cultos subterrâneos do imperium Romanum e as absurdidades engendradas por todo tipo de raciocínio doentio. Era o destino do cristianismo que sua fé se tornasse tão doentia, baixa e vulgar quanto as necessidades doentias, baixas e vulgares que tinha de administrar. O barbarismo mórbido finalmente ascende ao poder com a Igreja – a Igreja, esta encarnação da hostilidade mortal contra toda a honestidade, toda grandeza de alma, toda disciplina do espírito, toda humanidade espontânea e bondosa. – Valores cristãos – valores nobres: apenas nós, espíritos livres, restabelecemos a maior das antíteses em matéria de valores!...

– Não posso, neste momento, evitar um suspiro. Há dias em que sou visitado por um sentimento
O homem de hoje – seu hálito podre me asfixia!Em relação ao passado, como todos estudiosos, tenho

XXXVIII mais negro que a mais negra melancolia –o desprezo pelos homens. Que não haja qualquer dúvida sobre o que desprezo, sobre quem desprezo: é o homem de hoje, do qual desgraçadamente sou contemporâneo. muita tolerância, ou seja, um generoso autocontrole: com uma melancólica precaução atravesso milênios inteiros de mundo−manicômio, chamem isso de “cristianismo”, “fé cristã” ou “Igreja cristã”, como desejaram – tomo o cuidado de não responsabilizar a humanidade por sua demência. Mas um

Nossa época é mais esclarecidaO que era antigamente apenas doentio agora se tornou indecente – é
impedem que quaisquer homens finjam não saber dissoTodas idéias da Igreja agora estão
como a peçonhenta aranha da criação– Nós sabemos, nossa consciência agora sabe – exatamente qual
mantém−se mestreTodos sabem disso, mas, mesmo assim, nada mudou. Para onde foi nosso último
comunhão?Um príncipe à frente de seus regimentos, magnificente enquanto expressão do egoísmo e
defender−se a si mesmo; zelar pela sua honra; desejar sua própria vantagem; ser orgulhosoToda

sentimento irrefreável irrompe no momento em que entro nos tempos modernos, nos nossos tempos. uma indecência ser cristão hoje em dia. E aqui começa minha repugnância. – Olho à minha volta: não resta sequer uma palavra do que outrora se chamava “verdade”; já não suportamos mais que um padre pronuncie tal palavra. Mesmo um homem com as mais modestas pretensões à integridade precisa saber que um teólogo, um padre, um papa de hoje não apenas se engana quando fala, mas na verdade mente – já não se isenta de sua culpa através da “inocência” ou da “ignorância”. O padre sabe, como todos sabem, que não há qualquer “Deus”, nem “pecado”, nem “salvador” – que o “livre arbítrio” e a “ordem moral do mundo” são mentiras –: a reflexão séria, a profunda auto−superação espiritual reconhecidas pelo que são – as piores falsificações existentes, inventadas para depreciar a natureza e todos os valores naturais; o padre é visto como realmente é – como a mais perigosa forma de parasita, era o verdadeiro valor de todas essas sinistras invenções do padre e da Igreja e para que fins serviram, com sua desvalorização da humanidade ao nível da autopoluição, cujo aspecto inspira náusea – os conceitos de “outro mundo”, de “juízo final”, de “imortalidade da alma”, da própria “alma”: não passam de instrumentos de tortura, sistemas de crueldade através dos quais o padre torna−se mestre e resquício decência, de auto−respeito se nossos homens de Estado, no geral uma classe de homens não convencionais e profundamente anticristãos em seus atos, agora se denominam cristãos e vão à mesa de arrogância de seu povo – e mesmo assim declarando, sem qualquer vergonha, que é um cristão!...(1) Quem, então, o cristianismo nega? O que ele chama “o mundo”? Ser soldado, ser juiz, ser patriota; prática trivial, todo instinto, toda valoração convertida em ato agora é anticristã: que monstro de falsidade o homem moderno precisa ser para se denominar um cristão sem envergonhar−se! –

1 – Nietzsche refere−se ao Kaiser Guilherme I, que subira ao trono da Alemanha em 15 de abril de 1888, cinco meses antes da redação de O Anticristo. (Pietro Nasseti)

– Farei uma pequena regressão para explicar aautêntica história do cristianismo. – A própria
prática cristã, a vida vivida por aquele que morreu na cruz, é cristãHoje tal vida ainda é possível, e
quaisquer épocasNão fé, mas atos; acima de tudo, um evitar atos, um modo diferente de ser... Os
cegueira à dominação de certos instintosEu já denominei a “fé” uma habilidade especialmente cristã –

XXXIX palavra “cristianismo” é um mal−entendido – no fundo só existiu um cristão, e ele morreu na cruz. O “Evangelho” morreu na cruz. O que, desse momento em diante, chamou−se de “Evangelho” era exatamente o oposto do que ele viveu: “más novas”, um Dysangelium(1). É um erro elevado à estupidez ver na “fé”, e particularmente na fé na salvação através de Cristo, o sinal distintivo do cristão: apenas a para certos homens até necessária: o cristianismo primitivo, genuíno, continuará sendo possível em estados de consciência, uma fé qualquer, por exemplo, a aceitação de alguma coisa como verdade – como todo psicólogo sabe, o valor dessas coisas é perfeitamente indiferente e de quinta ordem se comparado ao dos instintos: estritamente falando, todo o conceito de causalidade intelectual é falso. Reduzir o ato ser cristão, o estado de cristianismo, a uma aceitação da verdade, a um mero fenômeno de consciência, equivale a formular uma negação do cristianismo. De fato, não existem cristãos. O “cristão” – aquele que por dois mil anos passou−se por cristão – é simplesmente uma auto−ilusão psicológica. Examinado de perto, parece que, apesar de toda sua “fé”, foi apenas governado por seus instintos – e que instintos! – Em todas as épocas – por exemplo, no caso de Lutero – “fé” nunca foi mais que uma capa, um pretexto, uma cortina por detrás da qual os instintos faziam seu jogo – uma engenhosa sempre se fala de “fé” mas se age de acordo com os instintos... No mundo de idéias do cristão não há

planeta chamado Terra mereça olhar divino, uma demonstração de interesse divinoPortanto, não

qualquer coisa que sequer toque a realidade: ao contrário, reconhece−se um ódio instintivo contra a realidade como força motivadora, como único poder de motivação no fundo do cristianismo. Que se segue disso? Que mesmo aqui, in psychologicis, há um erro radical, isto é, determinante da essência, ou seja, da substância. Retire−se uma idéia e coloque−se uma realidade genuína em seu lugar – e todo o cristianismo reduz−se a um nada! – Visto calmamente, este fenômeno é dos mais estranhos, uma religião não apenas dependente de erros, mas inventiva e engenhosa apenas em criar erros nocivos, venenosos à vida e ao coração – constitui um verdadeiro espetáculo para os Deuses – para aquelas divindades que também são filósofas, as quais encontrei, por exemplo, nos célebres diálogos de Naxos. No momento em que a repugnância as deixar (– e também a nós!) ficarão agradecidas pelo espetáculo proporcionado pelos cristãos: talvez por causa desta curiosa exibição somente o miserável e minúsculo subestimemos os cristãos: o cristão, falso até a inocência, está muito acima do macaco – uma teoria das origens bastante conhecida(2), quando aplicada aos cristãos, torna−se simplesmente uma delicadeza...

1 – Um dos muitos neologismos de Nietzsche. Ele compõe este vocábulo angelium (cuja origem vem do grego e que significa “nova”, “notícia”) fazendo oposição com os prefixos dys (mau, infeliz – “notícia má”) e eu (bom, feliz – “boa nova”, “boa notícia”). (Pietro Nasseti)

2 – Referência à teoria de Charles Darwin sobre as origens do homem. (Pietro Nasseti)

– O destino do Evangelho foi decidido no momento de sua morte – foi pendurado na “cruz”...
com doce e suave tranqüilidade de coração, a uma morte similarMuito pelo contrário, foi
momento histórico: o “reino de Deus” virá para julgar seus inimigosMas nisso tudo há um

XL Somente a morte, essa inesperada e vergonhosa morte; somente a cruz, a qual geralmente era reservada apenas à canalha – somente este assombroso paradoxo colocou os discípulos face a face com o verdadeiro enigma: “Quemera este? O que era este?” – O sentimento de desalento, de profunda afronta e injúria; a suspeita de que tal morte poderia constituir uma refutação de sua causa; a terrível questão “Por que aconteceu assim?” – esse estado mental é facilmente compreensível. Aqui tudo precisa ser considerado como necessário; tudo precisa ter um significado, uma razão, uma elevadíssima razão; o amor de um discípulo exclui todo o acaso. Apenas então da fenda da dúvida bocejou: “Quem o matou? Quem era seu inimigo natural?” – essa pergunta reluziu como um relâmpago. Resposta: o judaísmo dominante, a classe dirigente. A partir desse momento revoltaram−se contra a ordem estabelecida, começaram a compreender Jesus como um insurrecto contra a ordem estabelecida. Até então este elemento militante, negador estava ausente em sua imagem; ainda mais, isso representava seu próprio oposto. Decerto a pequena comunidade não havia compreendido o que era precisamente o mais importante: o exemplo oferecido pela sua morte, a liberdade, a superioridade sobre todo o ressentimento – uma plena indicação de quão pouco foi compreendido! Tudo que Jesus poderia desejar através de sua morte, em si mesma, era oferecer publicamente a maior prova possível, um exemplo de seus ensinamentos. Mas os discípulos estavam muito longe de perdoar sua morte – apesar de que fazê−lo seria consoante ao evangelho no mais alto grau; e também não estavam preparados para se oferecerem, precisamente o menos evangélico dos sentimentos, a vingança, que os possuiu. Parecia−lhes impossível que a causa devesse perecer com sua morte: “recompensa” e “julgamento” tornaram−se necessários (– e o que poderia ser menos evangélico que “recompensa”, “punição” e “julgamento”!). – Uma vez mais a crença popular na vinda de um messias apareceu em primeiro plano; a atenção foi direcionada a um mal−entendido gigantesco: conceber o “reino de Deus” como ato final, como uma simples promessa! O Evangelho havia sido, de fato, a própria encarnação, o cumprimento, a realização desse “reino de Deus”. Foi apenas então que todo o desprezo e acridez contra fariseus e teólogos começaram a aparecer no tipo do Mestre, que com isso foi transformado, ele próprio, em fariseu e teólogo! Por outro lado, a selvagem veneração dessas almas completamente desequilibradas não podia mais suportar a doutrina do Evangelho, ensinada por Jesus, sobre os direitos iguais entre todos os homens à filiação divina: sua vingança consistiu em elevar Jesus de modo extravagante, destarte separando−o deles: exatamente como, em tempos anteriores, os judeus, para vingarem−se de seus inimigos, se separaram de seu Deus e o elevaram às alturas. Este Deus único e este filho único de Deus: ambos foram produtos do ressentimento...

– E a partir desse momento surgiu um problema absurdo: “Comopôde Deus permiti−lo?” Para o
homem, que era precisamente a sua “boa−nova”E não como um privilégio! – Desde então o tipo do
existencial pós−morte!Paulo, com aquela insolência rabínica que permeia todos seus atos, deu um
das promessas, a petulante doutrina da imortalidade do indivíduoE Paulo a pregava como uma

XLI qual a perturbada lógica da pequena comunidade formulou uma resposta assustadoramente absurda: Deus deu seu filho em sacrifício para a remissão dos pecados. De uma só vez acabaram com o Evangelho! O sacrifício pelos pecados, e em sua forma mais obnóxia e bárbara: o sacrifício do inocente pelo pecado dos culpados! Que paganismo apavorante! – O próprio Jesus havia suprimido o conceito de “culpa”, negava a existência de um abismo entre Deus e o homem; ele viveu essa unidade entre Deus e o Salvador foi sendo corrompido, pouco a pouco, pela doutrina do julgamento e da segunda vinda, a doutrina da morte como sacrifício, a doutrina da ressurreição, através da qual toda a noção de “bem−aventurança”, a inteira e única realidade dos Evangelhos é escamoteada – em favor de um estado caráter lógico a essa concepção indecente deste modo: “Se Cristo não ressuscitou de entre os mortos, então é vã toda a nossa fé” – E de súbito converteu−se o Evangelho na mais desprezível e irrealizável recompensa!...

Agora se começa a ver justamente oque terminava com a morte na cruz: um esforço novo e
certamente não a verdade histórica!E uma vez mais o instinto sacerdotal do judeu perpetrou o
de seu “Salvador”Mais adiante a Igreja falsificou até a história da humanidade para transformá−la
em uma pré−história do cristianismoA figura do Salvador, seus ensinamentos, seu estilo de vida, sua

XLII totalmente original para fundar um movimento de pacifismo budístico, e assim estabelecer a felicidade na Terra – real, não meramente prometida. Pois esta é – como já demonstrei – a diferença essencial entre as duas religiões da decadência: o budismo não promete, mas de fato cumpre; o cristianismo promete tudo, mas não cumpre nada. – A “boa nova” foi seguida rente aos calcanhares pela “péssima nova”: a de Paulo. Paulo encarna exatamente o tipo oposto ao “portador da boa nova”; representa o gênio do ódio, a visão do ódio, a inexorável lógica do ódio. O que esse disangelista(1) não ofereceu em sacrifício ao ódio! Acima de tudo, o Salvador: ele pregou−o em sua própria cruz. A vida, o exemplo, o ensinamento, a morte de Cristo, o significado e a lei de todo o Evangelho – nada disso restou após esse falsário, com seu ódio, ter reduzido tudo ao que lhe tivesse utilidade. Certamente não a realidade, mesmo grande crime contra a História – simplesmente extirpou o ontem e o anteontem do cristianismo e inventou sua própria história das origens do cristianismo. Ainda mais, fez da história de Israel outra falsificação, para que assim se tornasse uma mera pré−história de seus feitos: todos os profetas falavam morte, o significado de sua morte, mesmo as conseqüências de sua morte – nada permaneceu intocado, nada permaneceu sequer semelhante à realidade. Paulo simplesmente deslocou o centro de gravidade daquela vida inteira para um local detrás desta existência – na mentira do Jesus “ressuscitado”. No fundo, a vida do salvador não lhe tinha qualquer utilidade – o que necessitava era de uma morte na cruz e de algo mais. Ver qualquer coisa honesta em Paulo, cuja casa estava no centro da ilustração estóica, quando converteu uma alucinação em uma prova da ressurreição do Salvador, ou mesmo acreditar na narrativa de que ele próprio sofreu essa alucinação – isso seria uma genuína niaiserie(2) da parte de um psicólogo. Paulo desejava o fim; logo, também desejava os meios. – Aquilo que ele próprio não acreditava foi prontamente engolido por suficientes idiotas entre os quais disseminou seu ensinamento. – Seu desejo era o poder; em Paulo o padre novamente quis chegar ao poder – só podia servir−se de conceitos, ensinamentos e símbolos que tiranizam as massas e formam rebanhos. Qual parte do cristianismo Maomé tomou emprestada mais tarde? A invenção de Paulo, sua técnica para estabelecer a tirania sacerdotal e organizar rebanhos: a crença na imortalidade da alma – isto é, a doutrina do “julgamento”.

1 – “Portador da má notícia” 2 – Parvoíce, tolice.

Quando centro de gravidade da vida é colocado,não nela mesma, mas no “além” – no nada –,
“sentido” da vidaPara que o espírito público? Para que se orgulhar pela origem e antepassados?
Para que cooperar, confiar, preocupar−se com o bem−estar geral e servir a ele?Outras tantas
“tentações”, outros tantos desvios do “bom caminho”. – “Somente uma coisa é necessária”Que todo
alma” – em outras palavras: “o mundo gira ao meu redor”A venenosa doutrina dos “direitos iguais
contra tudo que é nobre, alegre, magnânimo sobre a terra, contra nossa felicidade na TerraConceder
sentimentos de veneração por si e seus iguais – para o pathos da distânciaNossa política está debilitada

LXIII então se retirou da vida o seu centro de gravidade. A grande mentira da imortalidade pessoal destrói toda razão, todo instinto natural – tudo que há nos instintos que seja benéfico, vivificante, que assegure o futuro, agora é causa de desconfiança. Viver de modo que a vida não tenha sentido: agora esse é o homem, por possuir uma “alma imortal”, tenha tanto valor quanto qualquer outro homem; que na totalidade dos seres a “salvação” de todo indivíduo um possa reivindicar uma importância eterna; que beatos insignificantes e desequilibrados possam imaginar que as leis da natureza são constantemente transgredidas em seu favor – não há como expressar desprezo suficiente por tamanha intensificação de toda espécie de egoísmos ad infinitum, até a insolência. E, contudo, o cristianismo deve o seu triunfo precisamente a essa deplorável bajulação de vaidade pessoal – foi assim que seduziu ao seu lado todos os malogrados, os insatisfeitos, os vencidos, todo o refugo e vômito da humanidade. A “salvação da para todos” foi propagada como um princípio cristão: a partir dos recônditos mais secretos dos maus instintos o cristianismo travou uma guerra de morte contra todos os sentimentos de reverência e distância entre os homens, ou seja, contra o primeiro pré−requisito de toda evolução, de todo desenvolvimento da civilização – do ressentimento das massas forjou sua principal arma contra nós, a “imortalidade” a qualquer Pedro e Paulo foi a maior e mais viciosa afronta à humanidade nobre já perpetrada. – E não subestimemos a funesta influência que o cristianismo exerceu mesmo na política! Atualmente ninguém mais possui coragem para os privilégios, para o direito de dominar, para os por essa falta de coragem! – Os sentimentos aristocráticos foram subterraneamente carcomidos pela mentira da igualdade das almas; e se a crença nos “privilégios da maioria” faz e continuará a fazer revoluções – é o cristianismo, não duvidemos disso, são as valorações cristãs que convertem toda revolução em um carnaval de sangue e crime! O cristianismo é uma revolta de todas as criaturas rastejantes contra tudo que é elevado: o Evangelho dos “baixos” rebaixa...

– Os Evangelhos são inestimáveis como evidência da corrupção já arraigadadentro da

XLIV comunidade cristã primitiva. O que Paulo, com a cínica lógica de um rabino, posteriormente levou a cabo era no fundo apenas um processo de degradação que se iniciou com a morte do Salvador. –

ultima ratio(1) da mentira, é o judeu mais uma vez – é triplicemente judeuA vontade subjacente de
fosse humana –), deixou−se enganar. O Evangelho foi lido como um livro da inocênciacertamente
prova de devoçãoAh, essa humilde, casta e misericordiosa fraude! “A própria virtude deve
testemunhar em nosso favor”Leiam−se os Evangelhos como livros de sedução moral: essa gentinha
se somente o cristão fosse o significado, o sal, a medida e também o juízo final de todo o restoTodo

Nenhum esmero é demais na leitura dos Evangelhos; dificuldades se ocultam por detrás de cada palavra. Eu confesso – espero que ninguém me leve a mal – que precisamente por essa razão oferecem um deleite de primeira ordem a um psicólogo – como o oposto de toda corrupção ingênua, como um refinamento par excellence, como uma arte da corrupção psicológica. Os Evangelhos, de fato, estão à parte. A Bíblia em geral não deve ser comparada a eles. Estamos entre judeus: essa é a primeira coisa que devemos ter em mente se não quisermos perder o fio do assunto. A genialidade empregada para criar a ilusão de “santidade” pessoal permanece sem paralelos, tanto nos livros quanto nos homens; essa elevação da falsidade na palavra e nos gestos ao nível de arte – isso tudo não se deve ao acaso de um talento individual, de alguma natureza excepcional. O necessário aqui é a raça. Todo o judaísmo manifesta−se no cristianismo como a arte de forjar mentiras sagradas, como a técnica judaica que após muitos séculos de aprendizado e treinamento sério chegou à sua mais alta maestria. O cristão, essa utilizar somente conceitos, símbolos e atitudes que convém à práxis sacerdotal, o repúdio instintivo a qualquer outra perspectiva e a qualquer outro método para estimar valor e utilidade – isso não é somente uma tradição, é uma herança: apenas como uma herança é capaz de operar com força natural. Toda a humanidade, mesmo as maiores mentes das maiores épocas (com uma exceção que, talvez, mal nenhuma modesta indicação do alto grau de perícia com que o truque foi feito. – É claro, se pudéssemos de fato ver esses carolas e santos falsos, mesmo que apenas por um instante, a farsa seria posta a fim – e precisamente porque não consigo ler suas palavras sem também ver seus gestos que acabei com eles... Simplesmente não consigo suportar a maneira com que levantam os olhos. – Para a maioria, felizmente, livros não passam de literatura. – Que não nos deixemos induzir em erro: eles dizem “não julgueis”, mas condenam ao inferno tudo que fica em seu caminho. Ao deixarem Deus julgar, são eles próprios que julgam; ao glorificarem Deus, glorificam a si mesmos; ao exigirem que todos manifestem as virtudes para as quais são aptos – mais ainda, das quais precisam para permanecer no topo –, assumem o aspecto de homens em uma luta pela virtude, de homens engajados numa guerra para que a virtude prevaleça. “Nós vivemos, morremos, sacrificamo−nos pelo bem” (– “a verdade”, “a luz”, “o reino de Deus”): na realidade, simplesmente fazem o que não podem deixar de fazer. Forçados, como hipócritas, a serem furtivos, se esconderem nos cantos, se esquivarem pelas sombras, convertem sua necessidade em dever: é como um dever que surge sua vida humilde, e tal humildade converte−se em mais uma insignificante se atrela à moral – conhecem perfeitamente suas utilidades! A moral é o melhor meio para conduzir a humanidade pelo nariz! – A verdade é que a mais consciente presunção dos eleitos disfarça−se de modéstia: desse modo colocaram a si próprios, a “comunidade”, os “bons e justos”, de uma vez por todas, de um lado, do lado da “verdade” – e o resto da humanidade, “o mundo”, do outro... Nisto observamos a espécie mais fatal de megalomania que a Terra já testemunhou: pequenos abortos de beatos e mentirosos começam a reivindicar direitos exclusivos sobre os conceitos de “Deus”, “verdade”, “luz”, “espírito”, “amor”, “sabedoria”, “vida”, como se fossem sinônimos deles próprios, e através disso buscaram estabelecer o limite entre si e o “mundo”; pequenos superjudeus, maduros para todo tipo de manicômio, viraram os valores de cabeça para baixo para satisfazerem suas noções, como esse desastre só foi possível porque no mundo já existia uma megalomania similar, de mesma raça, a saber, a judaica: uma vez que se abriu o abismo entre judeus e judeus−cristãos, a estes já não havia escolha senão empregar os mesmos procedimentos de autoconservação que o instinto judaico lhes aconselhava, mesmo contra os próprios judeus, ainda que judeus somente os tivessem empregado contra não−judeus. O cristão é simplesmente um judeu de confissão “reformada”. –

1 – Última razão. Argumento decisivo.

– Ofereço alguns exemplos do tipo de coisa que essa gente insignificante tinha dentro de suas cabeças – do quecolocaram na boca do Mestre: a cândida crença de “belas almas”. –

“E tantos quantos vos não receberem, nem vos ouvirem, saindo dali, sacudi o pó que estiver debaixo

dos vossos pés, em testemunho contra eles. Em verdade vos digo que haverá mais tolerância no dia do juízo para Sodoma e Gomorra, do que para os daquela cidade” (Marcos, 6:1). – Quão evangélico!

“E qualquer que escandalizar um destes pequeninos que crêem em mim, melhor lhe fora que lhe

pusessem ao pescoço uma mó de atafona, e que fosse lançado no mar” (Marcos, 9:42). – Quão evangélico!

“E, se o teu olho te escandalizar, lança−o fora; melhor é para ti entrares no reino de Deus com um só

olho do que, tendo dois olhos, seres lançado no fogo do inferno, onde o seu bicho não morre, e o fogo nunca se apaga” (Marcos, 9:47−48). – Não é exatamente do olho que se trata...

“Dizia−lhes também: Em verdade vos digo que, dos que aqui estão, alguns há que não provarão a

morte sem que vejam chegado o reino de Deus com poder” (Marcos 9:1). – Bem mentido, leão!...(1)

“Se alguém quiser vir após mim, negue−se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga−me. Porque...” (Nota

de um psicólogo: a moral cristã é refutada pelos seus porquês: suas razões a contrariam – isso a faz cristã) (Marcos, 8:34). –

“Não julgueis, para que não sejais julgados ...com a medida com que tiverdes medido vos hão de

medir a vós” (Mateus 7:1−2). – Que noção de justiça, que juiz “justo”!...

“Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?

E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?” (Mateus 5:46−47). – Princípio do “amor cristão”: no fim das contas quer ser bem pago...

“Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as

vossas ofensas” (Mateus 6:15). – Muito comprometedor para o assim chamado “pai”.

“Mas, buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”
para ser eufêmicoUm pouco antes esse Deus apareceu como um alfaiate, pelo menos em certos casos.
“Folgai nesse dia, exultai; porque eis que é grande o vosso galardão no céu, pois assim faziam os seus

(Mateus 6:3). – Todas estas coisas: isto é, alimento, vestuário, todas necessidades da vida. Um erro, pais aos profetas” (Lucas 6:23). – Canalha indecente! Já se compara aos profetas...

“Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém violar o

templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” (I Paulo aos coríntios, 3:16−17). – Para coisas assim não há desprezo suficiente...

“Não sabeis vós que os santos hão de julgar o mundo? Ora, se o mundo deve ser julgado por vós, sois
apenas o discurso de um lunáticoEsse espantoso impostor assim prossegue: “Não sabeis vós que

porventura indignos de julgar as coisas mínimas?” (I Paulo aos coríntios, 6:2). – Infelizmente, não é havemos de julgar os anjos? Quanto mais as coisas pertencentes a esta vida?”...

“Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto como na sabedoria de Deus o
pregaçãoNão são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que

mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da são chamados. Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e Deus escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes; e Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que nada são, para aniquilar as que são; para que nenhuma carne se glorie perante ele” (I Paulo aos coríntios, 1:20 e adiante(2)). – Para compreender esta passagem, um exemplo de primeira linha da psicologia da moral de chandala, deve−se ler a primeira parte de minha “Genealogia da Moral”: nela, pela primeira vez, foi evidenciado o antagonismo entre a moral nobre e a moral de chandala, nascida do ressentimento e da vingança impotente. Paulo foi o maior dos apóstolos da vingança...

1 – Paráfrase de Demétrio. “Bem rugido, leão!”, ato V, cena I de “Sonho de uma Noite de Verão”, por William Shakespeare. O leão, obviamente, é o símbolo cristão para Marcos. (H. L. Mencken)

2 – 20, 21, 26, 27, 28, 29.

– Que se infere disso? Que convém vestir luvas antes de ler o Novo Testamento. A presença de
objeçõesAmbos cheiram mal. – Em vão procurei no Novo Testamento por um único traço de
seu primeiro passo ascendente – o instinto de limpeza está ausenteApenas maus instintos estão
Duque de Parma: “é tutto festo” – imortalmente saudável, imortalmente alegre e sãoEstes santarrões
“primeiro cristão” certamente não é denegridoPelo contrário, é uma honra possuir um “primeiro
reduzir a nada com a “loucura da pregação”Mesmo os escribas e fariseus são beneficiados por tal
“igualdade de direitos”Estritamente falando, ele não tem escolha. Quando alguém pretende
orgulho, ou na beleza e liberdade de coração, torna−se simplesmente “mundano” – o mal em siMoral:
que odeia, tem valor verdadeiroO cristão, e particularmente o padre cristão, é um critério de valores.
– Preciso acrescentar que, em todo o Novo Testamento, não aparece senão umaúnica figura
acima disso. Um judeu a mais ou a menos – que isso importa?A nobre ironia do romano ante o qual a

XLVI tanta sujeira faz disso algo muito aconselhável. Tão pouco escolheríamos como companheiros os “primeiros cristãos” quanto os judeus poloneses: não que tenhamos a necessidade de lhes fazer simpatia; nele não há nada que seja livre, bondoso, sincero ou leal. Nele a humanidade nem mesmo dá presentes, e tais instintos nem ao menos são dotados de coragem. Nele tudo é covardia; tudo é um fechar os olhos, um auto−engano. Após ler o Novo Testamento qualquer outro livro parece limpo: por exemplo, imediatamente após Paulo, li com arrebatamento o mais encantador e insolente zombeteiro, Petrônio, do qual poder−se−ia dizer o mesmo que Domenico Boccaccio escreveu sobre César Bórgia ao miseráveis erram no essencial. Atacam, mas tudo que atacam torna−se distinto. Quem é atacado por um cristão” como oponente. Não se pode ler o Novo Testamento sem adquirir uma predileção por tudo que nele é maltatrado – para não falar da “sabedoria deste mundo”, que um insolente fanfarrão tenta oposição: certamente deviam ter algum valor para merecerem ser odiados de maneira tão indecente. Hipocrisia – como se essa fosse uma acusação que os “primeiros cristãos” ousassem fazer! – Afinal, eles eram os privilegiados, e isso era suficiente: o ódio dos chandala não precisa de qualquer outro pretexto. O “primeiro cristão” – e também, receio, o “último cristão”, que eu talvez viva tempo suficiente para ver – é um rebelde por profundo instinto contra tudo que é privilégio – vive e guerreia sempre pela representar, ele próprio, o “eleito de Deus” – ou “templo de Deus”, ou “juiz dos anjos” –, então qualquer outro critério de eleição, quer seja baseado na honestidade, no intelecto, na virilidade e no toda palavra pronunciada por um “primeiro cristão” é uma mentira, todos seus atos são instintivamente desonestos – todos seus valores, todos seus fins são nocivos, mas todos que odeia, tudo merecedora de honra: Pilatos, o governador romano. Levar assuntos judaicos a sério – ele estava muito palavra “verdade” foi cinicamente abusada enriqueceu o Novo Testamento com a única passagem que tem qualquer valor – que é sua crítica e sua destruição: “Que é a verdade?”...

crime contra a vidaNegamos que esse Deus seja Deus... E se alguém nos mostrasse esse Deus cristão,
ciência – in praxi(2), mentir a todo custoPaulo compreendeu muito bem que a mentira – que a “fé” –

– O que nos distingue não é nossa incapacidade de encontrar Deus, nem na história, nem na natureza, nem por detrás da natureza – mas que consideramos tudo que foi honrado como sendo Deus, não como algo “divino”, mas lastimável, absurdo, nocivo; não como um simples erro, mas como um ficaríamos ainda menos inclinamos a crer nele. – Numa fórmula: Deus, qualem Paulus creavit, Dei negatio.(1) – Uma religião como o cristianismo, que não possui um único ponto de contato com a realidade, que se esfacela no momento em que a realidade impõe seus direitos, inevitavelmente será a inimiga mortal da “sabedoria deste mundo”, ou seja, da ciência – nomeará bom tudo que serve para envenenar, caluniar e depreciar toda disciplina intelectual, toda lucidez e retidão em matéria de consciência intelectual, toda frieza nobre e liberdade de espírito. A “fé”, como um imperativo, veta a era necessária; e posteriormente a Igreja compreendeu Paulo. – O Deus que Paulo inventou, um Deus que “reduz ao absurdo” a “sabedoria deste mundo” (especialmente as duas grandes inimigas da superstição, a filologia e a medicina), é em verdade uma indicação da firme determinação de Paulo para realizar isto: dar o nome de Deus à sua própria vontade, thora(3) – isso é essencialmente judaico. Paulo quer desvalorizar a “sabedoria deste mundo”: seus inimigos são os bons filólogos e médicos da escola alexandrina – a guerra é feita contra eles. De fato, nenhum homem pode ser filólogo e médico sem ao mesmo tempo ser anticristo. O filólogo vê por detrás dos “livros sagrados”, o médico vê por detrás da degeneração fisiológica do cristão típico. O médico diz “incurável”; o filólogo diz “fraude”...

1 – Deus, tal como Paulo o criou, é a negação de Deus. 2 – Na prática. 3 – Lei.

– Será que alguém já compreendeu claramente a célebre história que se encontra no início da

XLVIII Bíblia – a do pavor mortal de Deus ante aciência? Ninguém, de fato, a compreendeu. Este livro de padres par excellence começa, como convém, com a grande dificuldade interior do padre: ele enfrenta um único grande perigo, ergo, “Deus” enfrenta um único grande perigo. –

O velho Deus, todo “espírito”, todo grão−padre, todo perfeição, passeia pelo seu jardim: está
o homem – o homem é divertidoMas então percebe que o homem também está entediado. A piedade
mundo” – todo padre sabe disso também. Logo, igualmente cabe a ela a culpa pela ciênciaFoi devido

entediado e tentando matar tempo. Contra o enfado até os Deuses lutam em vão(1). O que ele faz? Cria de Deus para a única forma da aflição presente em todos os paraísos desconhece limites: então em seguida criou outros animais. Primeiro erro de Deus: para o homem esses animais não representavam diversão – ele buscava dominá−los; não queria ser um “animal”. – Então Deus criou a mulher. Com isso erradicou enfado – e muitas outras coisas também! A mulher foi o segundo erro de Deus. – “A mulher, por natureza, é uma serpente: Eva” – todo padre sabe disso; “da mulher vem todo o mal do à mulher que o homem provou da árvore do conhecimento. – Que sucedeu? O velho Deus foi acometido por um pavor mortal. O próprio homem havia sido seu maior erro; criou para si um rival; a ciência torna os homens divinos – tudo se arruína para padres e deuses quando o homem torna−se científico! – Moral: a ciência é proibida per se; somente ela é proibida. A ciência é o primeiro dos pecados, o germe de todos os pecados, o pecado original. Toda a moral é apenas isto: “Tu não conhecerás” – o resto deduz−se disso. – O pavor de Deus, entretanto, não o impediu de ser astuto. Como se proteger contra a ciência? Por longo tempo esse foi o problema capital. Resposta: expulsando o homem do paraíso! A felicidade e a ociosidade evocam o pensar – e todos pensamentos são maus pensamentos! – O homem não deve pensar. – Então o “padre” inventa a angústia, a morte, os perigos mortais do parto, toda a

guerra contra a ciência! Os problemas não permitem que o homem penseApesar disso – que terrível!

espécie de misérias, a decrepitude e, acima de tudo, a enfermidade – nada senão armas para alimentar a – o edifício do conhecimento começa a elevar−se, invadindo os céus, obscurecendo os Deuses – que fazer? – O velho Deus inventa a guerra; separa os povos; faz com que se destruam uns aos outros (– os padres sempre necessitaram de guerras...). Guerra – entre outras coisas, um grande estorvo à ciência! – Inacreditável! O conhecimento, a emancipação do domínio sacerdotal prosperam apesar da guerra! – Então o velho Deus chega à sua resolução final: “O homem tornou−se científico – não existe outra solução: ele precisa ser afogado”...

1 – Paráfrase de Schiller, “Contra a estupidez até os Deuses lutam em vão”. (H. L. Mencken)

– Fui compreendido. No início da Bíblia estátoda a psicologia do padre. – O padre conhece
transbordante para poder “conhecer”“Logo, é preciso tornar o homem infeliz” – essa foi, em todas as
épocas, a lógica do padre. – É fácil ver o que, a partir dessa lógica, surgiu no mundo: – o “pecado”O
contra a emancipação do homem do jugo sacerdotalO homem não deve olhar para seu exterior; deve
sobre elas; não deve olhar para nada; deve apenas sofrerE sofrer tanto que sempre esteja precisando
Um ataque de parasitas! O vampirismo de sanguessugas pálidas e subterrâneas!Quando as

XLIX apenas um grande perigo: a ciência – o conceito sadio de causa e efeito. Mas a ciência apenas floresce totalmente sob condições favoráveis – um homem precisa de tempo, precisa possuir um intelecto conceito de culpa e punição, toda a “ordem moral do mundo” foram direcionados contra a ciência – olhar apenas para o interior. Não deve olhar as coisas com acuidade e prudência, não deve aprender de um padre. – Fora os médicos! O necessário é um Salvador. – O conceito de culpa e punição, incluindo as doutrinas da “graça”, da “salvação”, do “perdão” – mentiras sem qualquer realidade psicológica – foram inventadas para destruir o senso de causalidade do homem: são um ataque contra o conceito de causa e efeito! – E não um ataque com punho, com faca, com honestidade no amor e no ódio! Longe disso, foi inspirado pelo mais covarde, mais velhaco, mais ignóbil dos instintos! Um ataque de padres! conseqüências naturais de um ato já não são mais “naturais”, mas vistas como obras de fantasmas da superstição – “Deus”, “espíritos”, “almas” –, como conseqüências “morais”, recompensas, punições, sinais, lições, então torna−se estéril todo o solo para o conhecimento – e com isso perpetrou−se o maior dos crimes contra a humanidade. – Repito que o pecado, essa autoprofanação par excellence, foi inventado para tornar impossível ao homem a ciência, a cultura, toda a elevação e todo o enobrecimento; o padre reina graças à invenção do pecado. –

– Não posso, aqui, prescindir de uma psicologia da “fé”, do “crente”, em proveito, como é justo,
beatificado porque crêMas e aquilo que o padre promete ao crente, aquele “além” transcendental –

L dos próprios “crentes”. Se hoje há alguns que ainda não sabem quãoindecente é ser “crente” – ou quanto isso indica decadência, falta de vontade de viver –, amanhã eles o saberão. Minha voz alcança até os surdos. – Parece−me que entre cristãos, se não compreendi mal, prevalece uma espécie de critério da verdade chamado “prova de força”. A fé beatifica: logo, é verdadeira”. – Poderia−se objetar que a beatitude não é demonstrada, mas apenas prometida: sustenta−se na “fé” enquanto condição – será como isso pode ser demonstrado? – A “prova de força”, no fundo, não passa da crença de que os efeitos prometidos pela fé se realizarão. – Numa fórmula: “Creio que a fé beatifica – logo, ela é verdadeira”... Mas não podemos ir além disso. Esse “logo” já é o próprio absurdum transformado em critério da verdade. – Contudo, por cortesia, admitamos que a beatificação através da fé tenha sido demonstrada (– não meramente desejada, não meramente prometida pela suspeita boca de um padre): mesmo assim, poderia a beatitude – dito em forma técnica, o prazer – ser uma prova da verdade? Dista tanto de sê−lo que a influência das sensações de prazer sobre a resposta à questão “Que é a verdade?” praticamente constitui uma objeção à verdade, ou, em todo caso, é suficiente para torná−la altamente suspeita. A prova do “prazer” prova o “prazer” – nada mais; por que se deveria admitir que juízos verdadeiros geram mais prazer que os falsos e que, em conformidade a alguma harmonia preestabelecida, necessariamente trariam consigo sensações de prazer? – A experiência de todas as mentes profundas e disciplinadas ensina o contrário. O homem teve de lutar bravamente por cada migalha da verdade; teve de sacrificar quase tudo aquilo em que se agarra o coração humano, o amor humano, a confiança humana na vida. Para isso é necessário possuir grandeza de alma: o serviço da verdade é o mais duro dos serviços. – O que significa, então, a integridade intelectual? Significa ser severo com seu próprio coração, desprezar os “belos sentimentos” e fazer de cada Sim e de cada Não uma questão de consciência! – A fé beatifica: logo, ela mente...

Que em certas circunstâncias a fé promove a bem−aventurança, que a bem−aventurança não faz
não se é “convertido” ao cristianismo – antes é necessário estar suficientemente doenteNós outros,
sintomas de um corpo empobrecido, enervado e incuravelmente corrompido!O movimento cristão,
amadurecido. A maioria subiu ao poder; a democracia, com seus instintos cristãos, triunfouO

LI de umaidee fixe(1) uma idéia verdadeira, que a fé na realidade não move montanhas, mas as constrói onde antes não existiam: tudo isso fica bastante evidente após uma breve visita a um hospício. Mas não, é claro, para um padre: pois seus instintos o induzem a dizer que a doença não é doença e que hospícios não são hospícios. O cristianismo necessita da doença, assim como o espírito grego necessitava de uma saúde superabundante – o verdadeiro objetivo de todo o sistema de salvação da Igreja é tornar as pessoas enfermas. E a própria Igreja – não considera ela um manicômio católico como o ideal último? – Toda a Terra, um manicômio? – O tipo de homem religioso que a Igreja deseja é o típico decadente; a época em que uma crise religiosa se apodera de um povo é sempre marcada por epidemias de desordem nervosa; o “mundo interior” de um homem religioso assemelha−se tanto ao “mundo interior” de um homem sobreexcitado e exausto que é difícil distinguir entre os dois; os estados mais “elevados”, que o cristianismo colocou sobre a humanidade como valores supremos, são formas epileptóides – a Igreja concedeu nomes sagrados apenas para lunáticos ou grandes impostores in majorem Dei honorem(2)... Uma vez me aventurei a considerar todo o sistema cristão de training em penitência e salvação (atualmente melhor estudado na Inglaterra) como um método para produzir uma folie circulaire(3) sobre um solo já preparado, ou seja, um solo absolutamente insalubre. Nem todos podem ser cristãos: nós que temos coragem para a saúde e para o desprezo – temos o direito de desprezar uma religião que prega a incompreensão do corpo! Que se recusa a dispensar a superstição da alma! Que da insuficiência alimentar faz “virtude”! Que combate a saúde como alguma espécie de inimigo, de demônio, de tentação! Que se convenceu de que é possível trazer uma “alma perfeita” em um corpo cadavérico, e que, para isso, inventou um novo conceito de “perfeição”, um estado existencial pálido, doentio, fanático até a estupidez, a chamada “santidade” – uma santidade que não passa de uma série de enquanto movimento Europeu, desde o começo não foi mais que uma sublevação de toda espécie de elementos desterrados e refugados (– que agora, sob a máscara do cristianismo, aspiram ao poder). – Não representa a degeneração de uma raça; representa, pelo contrário, uma conglomeração de produtos da decadência vindos de todas as direções, amontoando−se e buscando−se reciprocamente. Não foi, como se pensa, a corrupção da Antigüidade, da Antigüidade nobre, que tornou o cristianismo possível; nunca será possível combater com violência suficiente a imbecilidade erudita que atualmente sustém tal teoria. Quando as enfermas e podres classes chandala de todo o imperium foram cristianizadas, o tipo oposto, a nobreza, alcançou seu estágio de desenvolvimento mais belo e cristianismo não era “nacional”, não estava baseado em raça – apelou a todas as variedades de homens deserdados pela vida, tinha aliados em toda parte. O cristianismo possui em seu âmago o rancor dos doentes – o instinto contra os sãos, contra a saúde. Tudo que é bem−constituído, orgulhoso, galante e,

está crucificado é divinoNós todos estamos suspensos na cruz, conseqüentemente somos divinos...
Apenas nós somos divinos!Neste sentido o cristianismo foi uma vitória: uma mentalidade mais nobre

acima de tudo, belo é uma ofensa aos seus olhos e ouvidos. Novamente recordo as inestimáveis palavras de Paulo: “Deus escolheu as coisas fracas deste mundo, as coisas loucas deste mundo, as coisas ignóbeis e as desprezadas”(4): essa era a fórmula; in hoc signo(5) a décadence triunfou. – Deus na cruz – o homem nunca compreenderá o assustador significado que esse símbolo encerra? – Tudo que sofre, tudo que pereceu por ele – o cristianismo continua sendo a maior desgraça da humanidade. –

1 – Idéia fixa. 2 – Para maior honra de Deus. 3 – Loucura circular. 4 – I Coríntios 1:27−28. 5 – Com este sinal.

O cristianismo também se encontra em oposição a toda boa constituiçãointelectual – somente a
caminhos proibidos. A própria dúvida é um pecadoA completa ausência de limpeza psicológica no
meteorológicas – para não mencionar a “salvação da alma”A maneira como um teólogo, seja de
fundo, Deus é simplesmente um nome dado para a mais imbecil espécie de acasoA “Divina

LII razão enferma pode ser usada como razão cristã; toma o partido de tudo que é idiota; lança sua maldição contra o “intelecto”, contra a soberba do intelecto são. Visto que a doença é inerente ao cristianismo, segue−se disso que o estado típico do cristão, “a fé”, também é necessariamente uma forma de doença; todos os caminhos retos, legítimos e científicos devem ser banidos pela Igreja como sendo padre – identificada por um simples olhar – é um fenômeno resultante da decadência – observando−se mulheres histéricas e crianças raquíticas notar−se−á regularmente que a falsificação dos instintos, o prazer de mentir por mentir e a incapacidade de olhar e caminhar direito são sintomas da decadência. “Fé” significa não querer saber o que é a verdade. O padre, o devoto de ambos os sexos, é uma fraude porque é doente: seus instintos exigem que a verdade jamais tenha direito em qualquer ponto. “Tudo que torna doente é bom; tudo que surge da plenitude, da superabundância, do poder, é mau”: assim pensa o crente. Uma compulsão para mentir – é através disso que reconheço todo teólogo predestinado. – Outra característica do teólogo é sua incapacidade filológica. O que quero dizer com filologia é, de modo geral, a arte de ler bem – a capacidade de absorver fatos sem interpretá−los falsamente, sem perder, na ânsia de compreendê−los, a cautela, a paciência e a sutileza. Filologia como ephexis(1) na interpretação: trate−se de livros, de notícias de jornal, dos mais funestos eventos ou de estatísticas Berlim ou Roma, explica, digamos, uma “passagem bíblica”, ou um acontecimento, por exemplo, a vitória do exército nacional, sob a sublime luz dos Salmos de Davi, é sempre tão ousada que faz um filólogo subir pelas paredes. E o que dizer quando devotos e outras vacas da Suábia(2) usam o “dedo de Deus” para converter sua miserável existência cotidiana e sedentária em um milagre da “graça”, da “providência”, em uma “experiência divina”? O mais modesto exercício de intelecto, para não dizer de decência, deveria de certo ser suficiente para convencer esses intérpretes da perfeita infantilidade e indignidade de tal abuso da destreza digital de Deus. Apesar de sermos poucos compassivos, caso encontrássemos um Deus que curasse oportunamente um constipado, ou que nos colocasse em uma carruagem no instante em que começasse a chover, ele nos pareceria um Deus tão absurdo que, mesmo existindo, teríamos de aboli−lo. Deus como empregado doméstico, como carteiro, como mensageiro – no Providência”, na qual terça parte da “Alemanha culta” ainda acredita, é um argumento tão forte contra Deus que em vão se procuraria por um melhor. E em todo caso é um argumento contra os alemães!... 1 – Ceticismo.

2 – Uma referência à Universidade de Tübingen e sua famosa escola de crítica Bíblica. O líder da escola era F. C. Baur, e um dos homens que ele mais fortemente influenciou era uma abominação de Nietzsche, David F. Strauss, ele próprio, um suábio. (H. L. Mencken)

– É tão pouco verdadeiro quemártires oferecem qualquer verossimilhança a uma causa que me
maisO entendimento que todos profetas, sectários, livres−pensadores, socialistas e homens de igreja
verdades. – Os mártires, diga−se de passagem, foram uma grande desgraça na história: seduziramA
investigativo e circunspeto. Os mártires danificaram a verdadeMesmo hoje, basta uma certa dose de
colocando−a, respeitosamente, no gelo – esse também é o melhor meio para refutar os teólogosFoi
honrosa à causa a que se opuseram – deram−lhe de presente a fascinação do martírioMulheres ainda

LIII sinto inclinado a negar que qualquer mártir já teve alguma coisa a ver com a verdade. No tom com que um mártir lança sua convicção à cara do mundo revela−se um grau tão baixo de probidade intelectual, tamanha insensibilidade ao problema da “verdade”, que nunca chega a ser necessário refutá−lo. A verdade não é algo que alguns homens têm e outros não: na melhor das hipóteses, só há camponeses e apóstolos de camponeses, da classe de Lutero, que possam pensar assim da verdade. Pode−se ter certeza de que, quanto maior for o grau de consciência intelectual de um homem, maior será sua modéstia, sua discrição neste ponto. Ser competente em cinco ou seis coisas e se recusar, com delicadeza, a saber algo têm da palavra “verdade” é simplesmente uma prova cabal de que nem sequer foi dado o primeiro passo em direção à disciplina intelectual e ao autocontrole necessários à descoberta da menor das conclusão a que todos idiotas, mulheres e plebeus chegam é que deve haver algum valor em uma causa pela qual alguém afronta a morte (ou que, como o cristianismo primitivo, engendra uma epidemia de gente à procura da morte) – essa conclusão impede o exame os fatos, tolhe por inteiro o espírito crueldade na perseguição para proporcionar uma honrável reputação ao mais vazio tipo de sectarismo. – Como? O valor de uma causa é alterado pelo fato alguém ter se sacrificado por ela? – Um erro que se torna honroso é simplesmente um erro que possui um encanto sedutor: julgais, senhores teólogos, que vos daremos a chance de serdes martirizados por vossas mentiras? – Melhor se refuta uma causa precisamente esta a estupidez histórico−mundial de todos os perseguidores: deram uma aparência se ajoelham ante um erro porque lhes disseram que um indivíduo morreu na cruz por ele. A cruz, então, é um argumento? – Mas sobre todas essas coisas um, e somente um, disse aquilo de que há milhares de anos se tinha necessidade – Zaratustra:

Traçaram sinais de sangue pelo caminho que percorreram, e sua loucura ensinava que a verdade se

prova através do sangue.

Mas o sangue é, de todas, a pior testemunha da verdade; sangue envenena até a doutrina mais pura e a

converte em insânia e ódio do coração.

E quando alguém atravessa o fogo por sua doutrina – que isso prova? Mais vale, em verdade, que do

1 – “Assim falou Zaratustra”, parte I, “Dos Sacerdotes”.

Não nos enganemos: grandes intelectos são céticos. Zaratustra é um cético. A força e aliberdade
convicções abaixo de si – atrás de siUma mente que aspira a algo grande, e que também deseja os
força, da capacidade de possuir um ponto de vista independenteA grande paixão do cético, o
mesma a expressão de uma despersonalização, de um alheamento de siApós se ponderar sobre quão
antagonistas do homem veraz – da verdadeO crente não é livre pra responder à questão do

LIV que surgem do vigor e da plenitude intelectual se manifestam através do ceticismo. Homens de convicção estática não são levados em consideração quando se pretende determinar o que é fundamental em matéria de valor e desvalor. Homens de convicção são prisioneiros. Não vêem longe o bastante, não vêem abaixo de si: para um homem poder falar de valor e desvalor é necessário que veja quinhentas meios para isso, é necessariamente cética. A liberdade de qualquer tipo de convicção constitui parte da fundamento e a potência do seu ser, é mais esclarecida e mais despótica que ele próprio, coloca toda sua inteligência a seu serviço; lhe torna inescrupuloso; lhe concede a coragem para empregar até meios ímpios; sob certas circunstâncias, lhe permite convicções. A convicção enquanto um meio: muito só pode ser alcançado por meio de uma convicção. A grande paixão usa, consome convicções, mas não se submete a elas – sabe−se a soberana. – Pelo contrário, a necessidade de fé, de uma coisa não subordinada ao sim e não, de carlylismo, se me permitem a expressão, é a necessidade da fraqueza. O homem de fé, o “crente” de toda espécie, é necessariamente dependente – tal homem é incapaz de colocar−se a si mesmo como objetivo, e tampouco é capaz determinar ele próprio seus objetivos. O “crente” não se pertence; apenas pode ser o meio para um fim; precisa ser consumido; precisa de alguém que o consuma. Seus instintos atribuem suprema honra à moral da despersonalização; tudo o persuade a abraçar essa moral: sua prudência, sua experiência, sua vaidade. Todo tipo de fé é em si necessários à maioria são os regulamentos restringentes; sobre quão necessária é a opressão, ou, em um sentido mais elevado, a escravidão, para possibilitar o bem−estar ao homem de vontade fraca, e especialmente à mulher, então finalmente se compreende o significado da convicção e da “fé”. Para o homem de convicção a fé representa sua espinha dorsal. Deixar de ver muitas coisas, não possuir imparcialidade alguma, ser sempre de um partido, estimar todos os valores com uma ótica severa e infalível – essas são as condições necessárias à existência desse tipo de homem. Mas isso faz deles “verdadeiro” e do “falso”; segundo os ditames de sua consciência: a integridade, neste ponto, seria sua própria ruína. A limitação patológica de sua ótica faz do homem convicto um fanático – Savonarola, Lutero, Rousseau, Robespierre, Saint−Simon – o tipo desses encontra−se em oposição ao espírito forte, emancipado. Mas as grandiosas atitudes desses intelectos doentes, desses epiléticos das idéias, exercem influência sobre as grandes massas – os fanáticos são pitorescos, e a humanidade prefere observar poses a ouvir razões...

(Parte 3 de 4)

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