Anticristo - Nietzsche

Anticristo - Nietzsche

(Parte 4 de 4)

– Um passo adiante na psicologia da convicção, da “fé”. Agora já faz bastante tempo desde que

LV propus a questão de talvez as convicções serem inimigas mais perigosas à verdade que as mentiras (“Humano, Demasiado Humano”, Aforismo 483(1)). Desta vez pretendo colocar a questão definitiva: existe, de modo geral, alguma diferença entre uma mentira e uma convicção? – Todo o mundo acredita que sim; mas no que esse mundo não acredita! – Toda convicção tem sua história, suas formas primitivas, seus estágios de tentativa e erro: somente se transforma em convicção após não ter sido, por um longo tempo, uma convicção, e, depois disso, por um tempo ainda mais longo, sofrivelmente uma convicção. Não poderia também haver a falsidade nessas formas embrionárias de convicção? – Às vezes apenas é necessária uma mudança de pessoas: o que era uma mentira para o pai torna−se uma convicção para o filho. – Chamo de mentira o recusar−se a ver uma coisa que se vê, recusar−se a ver algo como de fato é: se a mentira foi proferida perante testemunhas ou não, isso não possui relevância.

um anti−semita mais respeitávelOs padres, que possuem mais sutileza em tais questões, e que
problemas capitais de valoração estão acima da razão humanaConhecer os limites da razão –
sua vontadeMoral: o padre não mente – não existe a questão da “verdade” ou da “inverdade” entre

A espécie mais comum de mentira é aquela com a qual nos enganamos a nós mesmos: mentir aos outros é algo relativamente raro. – Agora, este não querer ver o que se vê, este não querer ver como de fato é, praticamente constitui o primeiro requisito para todos que pertencem a alguma espécie de partido: o homem de partido inevitavelmente torna−se um mentiroso. Por exemplo, os historiadores alemães estão convictos de que Roma era sinônimo de despotismo e que os povos germânicos trouxeram o espírito da liberdade ao mundo: qual a diferença entre essa convicção e uma mentira? Pode alguém ainda se admirar de que todos os partidos, incluindo os historiadores alemães, instintivamente se sirvam de frases morais – que a moral quase deva sua sobrevivência ao fato de toda espécie de homem de partido necessitar dela a cada instante? – “Esta é nossa convicção: proclamamo−la perante todo o mundo; vivemos e morremos por ela – que sejam respeitados todos aqueles que possuem convicções!” – De fato, ouvi isso da boca dos anti−semitas. Pelo contrário, senhores! Mentir por princípio certamente não torna compreendem bem a objeção existente contra a idéia de convicção, ou seja, de uma mentira que se transforma em princípio porque serve a um propósito, tomaram emprestado dos judeus o artifício de introduzir nesses casos os conceitos “Deus”, “vontade de Deus” e “revelação Divina”. Kant, com seu imperativo categórico, também estava no mesmo caminho: isso era sua razão prática(2). Há questões relativas à verdade e à inverdade que o homem não pode decidir; todas as questões capitais, todos somente isso é filosofia genuína. Que finalidade teve a revelação divina ao homem? Deus faria algo supérfluo? O homem não pode descobrir por si mesmo o que é bom e o é ruim, então Deus lhe ensinou as coisas de que falam os padres. É impossível mentir a respeito de tais coisas, pois para mentir primeiramente seria necessário saber o que é verdade. Mas isso está além do que o homem pode saber; logo, o padre é simplesmente um porta−voz de Deus. – Tal silogismo de padre não é de modo algum somente judaico e cristão; o direito à mentira e à astuciosa evasiva da “revelação” pertence ao tipo do padre em geral – tanto aos padres da decadência quanto aos padres dos tempos pagãos (– pagãos são todos aqueles que dizem sim à vida, e para os quais “Deus” é uma palavra que significa um sim a todas as coisas). – A “lei”, a “vontade de Deus”, o “livro sagrado”, a “inspiração” – são todas palavras que designam as condições sob as quais o padre adquire e mantém o poder – esses conceitos se encontram no fundo de todas organizações sacerdotais, de todos governos eclesiásticos ou filosófico−eclesiásticos. A “santa mentira” – comum a Confúcio, ao código de Manu, a Maomé e à Igreja cristã – não falta em Platão. “A verdade está aqui”: essas palavras significam, onde quer que sejam pronunciadas, o padre mente...

1 – “Inimigos da verdade. – Convicções são inimigos da verdade mais perigosos que as mentiras.”

2 – Uma referência, é claro, à “Kritik der praktischen Vernunft” de Kant (Crítica da Razão Prática). (H. L. Mencken)

– Em última análise, chega−se a isto: qual afinalidade da mentira? O fato de que, no cristianismo,

LVI os fins “sagrados” não são visíveis é minha objeção aos seus meios. Só existem maus fins: o envenenamento, a calúnia, a negação da vida, o desprezo pelo corpo, a degradação e envilecimento do homem através do conceito de pecado – logo, seus meios também são maus. – Tenho o sentimento oposto quando leio o código de Manu, uma obra incomparavelmente mais intelectual e superior; seria um pecado contra a inteligência simplesmente nomeá−lo juntamente com a Bíblia. É fácil ver o porquê: há uma filosofia genuína por detrás dele, nele próprio, e não apenas uma mixórdia fétida de rabinismo judaico e superstição – oferece, mesmo aos psicólogos mais delicados, algo saboroso. E não nos esqueçamos do mais importante, ele difere fundamentalmente de toda espécie de Bíblia: através dele os nobres, os filósofos e guerreiros preservam o domínio sobre a maioria; está cheio de valores nobres,

esposa e que cada mulher tenha seu próprio marido;pois é melhor casar−se que queimar−se(1)”? E
doutrina da immaculata conceptio?Não conheço qualquer outro livro em que sejam ditas tantas coisas

denota um sentimento de perfeição, de aceitação da vida, um ar triunfante em relação a si e à vida – o sol brilha sobre o livro todo. – Todas as coisas sobre as quais o cristianismo descarrega sua inexaurível vulgaridade – por exemplo, a procriação, as mulheres e o casamento – nele são tratadas seriamente, com respeito, amor e confiança. Como alguém pode colocar nas mãos de crianças e mulheres um livro contentor de palavras tão abjetas: “Para evitar a impudicícia, que cada homem tenha sua própria será possível ser um cristão enquanto a origem do homem estiver cristianizada, isto é, maculada pela boas e ternas sobre a mulher quanto no código de Manu; aqueles velhos e santos possuíam um modo tão amável de ser com as mulheres que talvez seja impossível superá−los. “A boca de uma mulher”, diz um trecho, “o seio de uma donzela, a oração de uma criança e a fumaça de um sacrifício são sempre puros”. Noutro trecho: “Não há nada mais puro que a luz do sol, a sombra de uma vaca, o ar, a água, o fogo e a respiração de uma donzela”. Finalmente, esta última passagem – que talvez também seja uma mentira sagrada –: “todos orifícios do corpo acima do umbigo são puros, todos os abaixo são impuros. Apenas na donzela o corpo todo é puro”.

1 – I Coríntios 7:2 e 7:9.

Pega−se airreligiosidade dos meios cristãos in flagranti simplesmente colocando os fins

LVII tencionados pelo cristianismo ao lado dos tencionados pelo código de Manu – pondo essas duas finalidades monstruosamente antitéticas sob uma forte luz. O crítico do cristianismo não pode evitar a necessidade de torná−lo desprezível. – O código de Manu tem a mesma origem que todo bom livro de leis: sumariza a prática, a sagacidade e a experimentação ética de longos séculos; chega às suas conclusões, e então não cria mais nada. O pré−requisito para uma codificação dessa espécie é reconhecer que os meios usados para estabelecer a autoridade de uma verdade adquirida dura e lentamente diferem fundamentalmente dos que seriam utilizados para demonstrá−la. Um livro de leis nunca relata a utilidade, as razões, a casuística de suas leis: com isso perderia o tom imperativo, o “tu deves”, no qual a obediência se fundamenta. O problema encontra−se exatamente aqui. – Em um certo ponto da evolução de um povo, sua classe mais judiciosa, ou seja, com melhor percepção do passado e do futuro, declara que as séries experiências usadas para determinar como todos devem viver – ou podem viver – chegaram ao fim. O objetivo agora é colher os frutos mais ricos possíveis desses dias de experimentação e experiências difíceis. Em conseqüência, o que se deve evitar acima de tudo é o prolongamento da experimentação – a continuação do estado no qual os valores são volúveis, sendo testados, escolhidos e criticados ad infinitum. Contra isso se levantam duas paredes: de um lado, a revelação, isto é, a assunção de que as razões subjacentes às leis não possuem origem humana, que não foram buscadas e encontradas por um lento processo e após muitos erros, mas que possuem uma origem divina, foram feitas completas, perfeitas, sem uma história, como um presente, um milagre...; do outro lado, a tradição, isto é, a afirmação de que as leis permaneceram inalteradas desde tempos imemoriais, e que seria um crime contra os antepassados colocá−las em dúvida. A autoridade da lei assenta−se sobre estas duas teses: Deus a deu e os antepassados a viveram. – A razão superior desse procedimento está na intenção de distrair a consciência, passo a passo, de suas preocupações sobre os modos corretos de viver (isto é, aqueles que foram provados por uma vasta e minuciosamente considerada experiência), para que o instinto atinja um automatismo perfeito – um pressuposto essencial a toda espécie de mestria, toda perfeição na arte da vida. Confeccionar um código como o de Manu significa oferecer a um povo a chance de ser mestre, de chegar à perfeição – de aspirar ao mais sublime na arte da vida. Para tal fim deve−se torná−lo inconsciente: esse é o objetivo de toda mentira sagrada. – A ordem das castas, a lei suma e dominante, é meramente uma ratificação de uma ordem natural, de uma lei natural de primeira ordem, sobre a qual nenhum arbítrio, nenhuma “idéia moderna” exerce qualquer influência. Em toda sociedade saudável há três tipos fisiológicos que

esmagariam todos os outrosConhecimento – uma forma de ascetismo. – Representam o tipo mais
artificial – ele destrói a naturezaA ordem das castas, a hierarquia simplesmente formula a lei
é simplesmente seu deverA quem odeio mais entre a ralé de hoje? A escumalha socialista, aos
contentamento com uma existência pequena – que o tornam invejoso, que lhe ensinam a vingançaA
injustiça nunca está desigualdade de direitos, mas na exigência de direitos “iguais”O que é mau? Mas

gravitam à diferenciação, mas que se condicionam mutuamente; cada qual tem sua própria higiene, sua própria esfera de trabalho, seu próprio sentimento de perfeição e maestria. Não é manu, mas a natureza que separa em uma classe aqueles que preponderam intelectualmente, em outra aqueles que são notáveis pela força muscular e temperamento, e numa terceira aqueles que não se distinguem, que somente demonstram mediocridade – esta última representa a grande maioria, as duas primeiras são a elite. A casta superior – que denomino a dos pouquíssimos – tem, sendo a mais perfeita, privilégios correspondentes: representa a felicidade, a beleza e tudo de bom sobre a Terra. Apenas os homens mais intelectuais têm direito à beleza, ao belo; apenas entre eles a bondade não significa fraqueza. Pulchrum est paucorum hominum(1): ser bom é privilégio. Nada lhes é mais impróprio que a rudeza, o olhar pessimista, os olhos afinados com a fealdade – ou a indignação por causa do aspecto geral das coisas. A indignação é um privilégio dos chandala; assim como o pessimismo. “O mundo é perfeito” – assim fala o instinto dos mais intelectuais, o instinto do homem que diz sim à vida. “A imperfeição, tudo que é inferior a nós, a distância, o pathos da distância, os próprios chandala, são parte dessa perfeição”. Os homens mais inteligentes, sendo os mais fortes, encontram sua felicidade onde outros encontrariam apenas desastre: no labirinto, na dureza para consigo e para com os outros, no esforço; seu prazer está na auto−superação; neles o ascetismo torna−se uma segunda natureza, uma necessidade, um instinto. Consideram tarefas difíceis como um privilégio; para eles é um entretenimento lidar com fardos que honroso de homens: mas isso não impede que também sejam os mais amáveis e mais alegres. Dominam não porque querem, mas porque são; não possuem a liberdade de ser os segundos. – A segunda casta: a esta pertencem os guardiões da lei, os mantenedores da ordem e da segurança, os guerreiros mais nobres e, acima de tudo, o rei, como a mais elevada forma de guerreiro, juiz e defensor da lei. Os segundos constituem o elemento executivo dos intelectuais; são aqueles que lhes estão mais próximos, os aliviando de tudo que há de grosseiro no trabalho de liderar – são seu séqüito, sua mão direita, os seus melhores discípulos. Nisso tudo, repito, nada é arbitrário, nada é “artificial”; apenas o contrário é suprema própria vida; a separação dos três tipos é necessária para conservar a sociedade, para possibilitar o surgimento dos tipos mais elevados, mais sublimes – a desigualdade de direitos é condição primordial para a existência de quaisquer direitos. – Um direito é um privilégio. Cada qual tem seus privilégios de acordo com seu modo de ser. Não subestimemos os privilégios dos medíocres. Quanto mais elevada, mais dura torna−se a vida – o frio aumenta, a responsabilidade aumenta. Uma civilização elevada é uma pirâmide: somente subsiste com uma base larga; seu pré−requisito é uma mediocridade sã e fortemente consolidada. O ofício, o comércio, a agricultura, a ciência, grande parte da arte, em suma, toda a gama de atividades ocupacionais, são apenas compatíveis com a mediocridade no poder e no querer; tais coisas estariam fora de seu lugar entre homens excepcionais; o instinto necessário encontrar−se−ia em contradição tanto com a aristocracia como com o anarquismo. O fato de o homem ser publicamente útil, uma engrenagem, uma função, é evidência de uma predisposição natural; não é a sociedade, mas o único tipo de felicidade de que são capazes, que faz deles máquinas inteligentes. Para os medíocres a felicidade é a mediocridade; possuem um instinto natural para dominar apenas uma coisa, para a especialização. Seria profundamente indigno da parte de um intelecto profundo ver algo de condenável na mediocridade em si. Ela é, de fato, o primeiro pré−requisito ao surgimento das exceções: é uma condição necessária a toda civilização elevada. Quando o homem excepcional trata o homem medíocre com mais delicadeza que si próprio ou seus iguais, isso não se trata de uma gentileza – apóstolos de chandala que minam o instinto do trabalhador, seu prazer, seu sentimento de essa questão foi respondida: tudo que se origina da fraqueza, da inveja, da vingança. – O anarquista e o cristão têm a mesma origem...

1 – A beleza é para poucos.

Em verdade, o fim pelo qual se mente faz uma grande diferença: se com isso preserva ou destrói.
e mais completos frutos; aqui, pelo contrário, os frutos são envenenados durante a noiteAquilo que se
pedra – até ao ponto em que os germanos e outros rústicos foram capazes de dominá−loO cristão e o
tudo que é grande, tudo que é durável, tudo que promete futuro à vidaO cristianismo foi o vampiro
para resistir contra a mais corrupta das corrupções – contra cristãosEsses vermes furtivos que, sob a
havia triunfado, todo intelecto respeitável em Roma era epicúreo – foi quando Paulo apareceuPaulo,
eterno par excellenceO que ele percebeu foi como, com a ajuda de um pequeno movimento sectário
podiam entenderFoi esta sua revelação em Damasco: compreendeu que precisava da crença na

LVIII Há uma perfeita consonância entre o cristão e o anarquista: seus objetivos, seus instintos, direcionam−se somente à destruição. Basta voltarmo−nos à história para encontrar a prova disso: ela aparece com precisão espantosa. Já estudamos um código religioso cujo objetivo era converter as condições sob as quais a vidaprospera numa organização social “eterna” – a missão que o cristianismo encontrou foi justamente destruir tal organização, porque com ela a vida prospera. Naquele, os benefícios que a razão produziu durante longos períodos de experimentação e incerteza foram aplicados nos aspectos mais remotos, fazia−se o todo esforço possível para colher os maiores, mais ricos erigia aere perennius(1), o imperium Romanum, a mais magnificente forma de organização sob condições adversas jamais alcançada, em comparação com a qual todo o anterior e o posterior assemelham−se a uma grosseria, uma imperfeição, um diletantismo – esses anarquistas santos fizeram da destruição do “mundo”, ou seja, do imperium Romanum, uma questão de “devoção”, até que não restasse pedra sobre anarquista: ambos são decadentes; ambos são incapazes de qualquer ato que não seja dissolvente, venenoso, degenerativo, hematófago; ambos têm por instinto um ódio mortal contra tudo que esta em pé, do imperium Romanum – destruiu do dia para a noite a vasta obra dos romanos: a conquista do solo para uma grande cultura que poderia aguardar por sua hora. Será possível que isso ainda não foi compreendido? O imperium Romanum que conhecemos, e que a história da província romana nos ensina a conhecer cada vez melhor – essa admirável obra de arte em grande estilo, era apenas um começo, sua construção estava calculada para provar seu valor por milhares de anos. Até hoje nada em escala semelhante sub specie aeterni(2) foi construído, ou sequer sonhado! – Essa organização era forte o suficiente para resistir a maus imperadores: o acaso da personalidade não pode fazer nada em tais coisas – primeiro princípio de toda arquitetura genuinamente grande. Mas não era forte o suficiente proteção da noite, da névoa e da duplicidade rastejam sobre todo indivíduo, sugando−lhe todo o interesse sério pelas coisas reais, todo o instinto para a realidade – essa turba covarde, efeminada e melíflua gradualmente alienou todas as “almas” desse edifício colossal – aquelas naturezas preciosas, virilmente nobres, que haviam encontrado em Roma sua própria causa, sua própria seriedade, seu próprio orgulho. A dissimulação dos hipócritas, o mistério dos conventículos, conceitos tão sombrios quanto o inferno, como o sacrifício do inocente, a unio mystica(3) no beber sangue, e acima de tudo o fogo lentamente reavivado da vingança, da vingança de chandala – isso dominou Roma: o mesmo tipo de religião que, numa forma preexistente, Epicuro combateu. Leia−se Lucrécio para entender contra o que Epicuro fez guerra – não contra o paganismo, mas contra o “cristianismo”, isto é, a corrupção das almas através dos conceitos de culpa, punição e imortalidade. – Combateu os cultos subterrâneos, todo o cristianismo latente – naquele tempo negar a imortalidade já era uma verdadeira salvação. – E Epicuro o ódio de chandala encarnado, inspirado pelo gênio, contra Roma, contra “o mundo” – o judeu, o judeu cristão, à parte do judaísmo, uma “conflagração mundial” poderia ser acesa; percebeu como, com o símbolo do “Deus na cruz”, poderia condensar todas as sedições secretas, todos os frutos das intrigas anárquicas, em um imenso poder. “A salvação vem dos judeus” – cristianismo é a fórmula para sobrepor e agregar os cultos subterrâneos de todas variedades, por exemplo, o de Osíris, da Grande Mãe, de Mitra: era nisso que consistia o gênio de Paulo. Seu instinto estava tão seguro disso que, com ousada violência contra a verdade, colocou as idéias que fascinavam toda espécie de chandala na boca de sua invenção, do “salvador”, e não apenas na boca – fez dele algo que até os sacerdotes de Mitra imortalidade para despojar o valor do “mundo”, que a idéia de “inferno” dominaria Roma – que a noção de um “além” significa a morte da vida. Niilista e cristão: são coisas que rimam(4), e não somente rimam...

1 – Mais duradouro que o bronze. 2 – Sob o aspecto do eterno. 3 – União sagrada ou mística. 4 – Rimam em alemão: “Nihilist und Christ”. (N. do T.)

Todo o esforço do mundo antigo emvão: não tenho palavras para descrever meu sentimento ante
significado da antiguidade desaparece!Para que serviram os gregos? Para que serviram os romanos?
seus modos grosseiros! Mas como corpo, como gesto, como instinto – em suma, como realidadeTudo
se transformado em realidade, verdade, vida– Tudo destruído de um dia para outro, e não por uma
vampiros velhacos, furtivos, invisíveis e anêmicos! Não conquistado – apenas consumido!A vingança
dotá−los, ao menos modestamente, de instintos respeitáveis, íntegros, limposDito entre nós, eles não
são sequer homensSe o islamismo despreza o cristianismo, tem mil razões para fazê−lo: o islamismo

LIX tal monstruosidade. – E, considerando o fato de que esse era um trabalho meramente preparatório, que com granítica autoconsciência lançou os fundamentos para um trabalho de milhares de anos, todo o – Todos os pré−requisitos para uma cultura sábia, todos métodos científicos já existiam; o homem já havia aperfeiçoado a grande e incomparável arte de ler bem – essa é a primeira necessidade para a tradição da cultura, para a unidade das ciências; as ciências naturais, aliadas às matemáticas e à mecânica, palmilhavam o caminho certo – o sentido dos fatos, o último e mais precioso de todos os sentidos, tinha suas escolas, e suas tradições possuíam séculos! Compreende−se isso? Tudo que era essencial ao começo do trabalho estava pronto; – e o mais essencial, nunca será demais repeti−lo, são os métodos, que também são o mais difícil de desenvolver e o que há mais tempo têm contra si os costumes e a indolência. O que hoje reconquistamos com uma inexprimível vitória sobre nós mesmos – pois certos maus instintos, certos instintos cristãos ainda habitam nossos corpos –, ou seja, o olhar afiado ante a realidade, a mão prudente, a paciência e a seriedade nas menores coisas, toda a integridade no conhecimento – tudo isso já existia há mais de dois mil anos! E mais, havia também bom gosto, um excelente e refinado tato! Não como um adestramento de cérebros! Não como a cultura “alemã”, com em vão! Do dia para a noite tornou−se memória! – Os gregos! Os romanos! A nobreza do instinto, o gosto, a investigação metódica, o gênio para a organização e administração, a fé e a vontade para assegurar futuro do homem, um grandioso sim a todas as coisas, visível sob a forma de imperium romanum e palpável a todos os sentidos, um grande estilo que não era simplesmente arte, mas que havia convulsão da natureza! Não pisoteado até a morte por teutônicos e outros búfalos! Mas vencido por oculta, a inveja mesquinha, agora dominam! Tudo que é miserável, intrinsecamente doente, tomado por maus sentimentos, todo o mundo de gueto da alma estava subitamente no topo! – Leia−se qualquer agitador cristão, por exemplo, Santo Agostinho, para entender, para sentir o cheiro daquela gente imunda que subiu ao poder. – Seria um erro, entretanto, presumir que havia falta de compreensão por parte dos líderes do movimento cristão: – ah, eles eram espertos, espertos até à santidade, esses pais da Igreja! O que lhes faltava era algo bastante diferente. A natureza deixou – talvez esqueceu−se – de pressupõe homens...

O cristianismo nos fez perder todos os frutos da civilização antiga, e mais tarde nos fez perder os

LX frutos da civilização islâmica. A maravilhosa cultura dos mouros na Espanha, que era fundamentalmente mais próxima aos nossos sentidos e gostos que Roma e Grécia, foi pisoteada (– não

dizia sim à vida, e a com a rara e refinada luxuosidade da vida mourisca!Mais tarde os cruzados
Oriente era ricoColoquemos à parte os preconceitos! As cruzadas: pirataria em grande escala, nada
cruzadas: a Igreja sabia muito bem comoganhar a nobreza alemãA nobreza alemã, sempre a
“guarda suíça” da Igreja, estava ao serviço de todos maus instintos da Igreja – mas bem pagaFoi
Cristianismo, álcool – os dois grandes meios de corrupçãoEm suma, não havia mais escolha entre o
liberdade de escolha aqui. Ou bem se é chandala ou bem se não é“Guerra de morte a Roma! Paz e

digo por que tipo de pés –). Por quê? Porque devia sua origem aos instintos nobres e viris – porque combateram algo ante o qual seria mais apropriado que rastejassem – uma civilização que faria mesmo o nosso século XIX parecer muito pobre e “atrasado”. – O que queriam, obviamente, era saquear: o mais! A nobreza alemã, que no fundo é uma nobreza de viking, estava em seu elemento com as precisamente a ajuda das espadas, do sangue e do valor alemães que permitiu à Igreja fazer sua guerra de morte contra tudo que é nobre sobre a Terra! Aqui poderiam ser feitas perguntas bastante dolorosas. A nobreza alemã encontra−se fora da história das civilizações elevadas: a razão é óbvia... islamismo e o cristianismo que há entre um árabe e um judeu. A decisão já foi tomada; não há mais amizade com o islamismo!”: esse foi o sentimento, essa foi a ação do grande espírito livre, do gênio entre os imperadores alemães, Frederico I. Como? Será preciso que um alemão seja gênio, espírito livre, para possuir sentimentos decentes? Não consigo imaginar como um alemão poderia sentir−se cristão...

Neste momento faz−se mister evocar uma memória cem vezes mais dolorosa aos alemães. Os
para fazer triunfarem os valores opostos, os valores mais nobresAté ao presente essa foi a única
desejos mais fundamentais dos que ocupavam o poderVejo diante de mim a possibilidade de um
irromper numa imortal gargalhada – César Bórgia como Papa!Compreendem−me?... Pois bem, essa
tudo que é grande, belo e audaz!E Lutero restabeleceu a Igreja: a atacou... A Renascença – um evento
existia, para algo irrecuperávelEstes alemães, eu confesso, são meus inimigos: desprezo neles toda a

LXI alemães impediram a Europa de colher os últimos grandes frutos de cultura – aRenascença. Compreende−se finalmente, será que por fim compreende−se o que era a Renascença? A transmutação dos valores cristãos – uma tentativa com todos os meios, todos os instintos e todos os recursos do gênio grande guerra; nunca houve uma questão mais crítica que a da Renascença – que é minha questão também –; nunca houve uma forma de ataque mais fundamental, mais direta, mais violentamente desferida por toda uma frente contra o centro do inimigo! Atacar no lugar decisivo, no próprio assento do cristianismo, e lá entronar os valores nobres – isto é, introduzi−los nos instintos, nas necessidades e encantamento supraterreno: – parece−me que cintila com todas vibrações de uma beleza sutil e refinada, dentro da qual há uma arte tão divina, tão diabolicamente divina, que em vão se procuraria através dos milênios por semelhante possibilidade; vejo um espetáculo tão rico em significância e ao mesmo tempo tão maravilhosamente paradoxal que daria a todas as divindades do Olimpo o ensejo de teria o sido a espécie de vitória que hoje somente eu desejo –: com ela o cristianismo teria sido abolido! – Que sucedeu? Um monge alemão, Lutero, chegou a Roma. Esse monge, com todos os instintos vingativos de um padre malogrado no corpo, levantou uma rebelião contra a Renascença em Roma... Em vez de compreender, com profundo reconhecimento, o milagre que havia ocorrido: a conquista do cristianismo em sua sede – usou o espetáculo apenas para alimentar seu próprio ódio. O homem religioso pensa apenas em si mesmo. – Lutero viu apenas a corrupção do papado, enquanto exatamente o oposto estava tornando−se visível: a velha corrupção, o peccatum originale, o cristianismo já não ocupava mais o trono papal! Em seu lugar havia vida! Havia o triunfo da vida! Havia um grande sim a sem sentido, uma grande futilidade! – Ah, esses alemães, quanto já nos custaram! Tornar todas as coisas vãs – sempre foi esse o trabalho dos alemães. – A Reforma; Leibniz; Kant e a assim chamada filosofia alemã; as guerras de “independência”; o Império – sempre um substituto fútil para algo que sujidade nos valores e nos conceitos, a covardia perante todo sim e não sinceros. Há quase mil anos embaraçam e confundem tudo que seus dedos tocam; têm sobre suas consciências todas as coisas feitas

consciências a mais imunda, incurável e indestrutível espécie de cristianismo – protestantismoSe a

pela metade, feitas nas suas três oitavas partes, de que a Europa está doente – e também pesa sobre suas humanidade nunca conseguir livrar−se do cristianismo, os culpados serão os alemães...

– Com isto concluo e pronuncio meu julgamento: eucondeno o cristianismo; lanço contra a Igreja
miséria para fazer−se imortalPor exemplo, o verme do pecado: foi a Igreja que enriqueceu a
idéia moderna e princípio de decadência de toda ordem social – isso é dinamite cristãOs

LXII cristã a mais terrível acusação que um acusador já teve em sua boca. Para mim ela é a maior corrupção imaginável; busca perpetrar a última, a pior espécie de corrupção. A Igreja cristã não deixou nada intocado pela sua depravação; transformou todo valor em indignidade, toda verdade em mentira e toda integridade em baixeza de alma. Que se atrevam a me falar sobre seus benefícios “humanitários”! Suas necessidades mais profundas a impedem de suprimir qualquer miséria; ela vive da miséria; criou a humanidade com esta desgraça! – A “igualdade das almas perante Deus” – essa fraude, esse pretexto para o rancor de todos espíritos baixos – essa idéia explosiva terminou por converter−se em revolução, “humanitários” benefícios do cristianismo! Fazer da humanitas(1) uma autocontradição, uma arte da autopoluição, um desejo de mentir a todo custo, uma aversão e desprezo por todos instintos bons e honestos! Para mim são esses os “benefícios” do cristianismo! – O parasitismo como única prática da Igreja; com seus ideais “sagrados” e anêmicos, sugando da vida todo o sangue, todo o amor, toda a esperança; o além como vontade de negação de toda a realidade; a cruz como símbolo representante da conspiração mais subterrânea que jamais existiu – contra a saúde, a beleza, o bem−estar, o intelecto, a bondade da alma – contra a própria vida...

Escreverei esta acusação eterna contra o cristianismo em todas as paredes, em toda parte onde
houver paredes – tenho letras que até os cegos poderão lerDenomino o cristianismo a grande

maldição, a grande corrupção interior, o grande instinto de vingança, para o qual nenhum meio é suficientemente venenoso, secreto, subterrâneo ou baixo – chamo−lhe a imortal vergonha da humanidade...

E conta−se o tempo a partir do dies nefastus(2) em que essa fatalidade começou – o primeiro dia do

cristianismo! – Por que não contá−lo a partir do seu último dia? – A partir de hoje? – Transmutação de todos os valores!...

1 – Caráter humano, sentimento humano. 2 – Dia nefasto.

Datada do dia da Salvação: primeiro dia do ano Um (em 30 de Setembro de 1888, pelo falso

Lei contra o cristianismo calendário).

Artigo Primeiro – Qualquer espécie de antinatureza é vício. O tipo de homem mais vicioso é o

Guerra de morte contra o vício: o vício é o cristianismo padre: ele ensina a antinatureza. Contra o padre não há razões: há cadeia.

Artigo Segundo – Qualquer tipo de colaboração a um ofício divino é um atentado contra a moral pública. Seremos mais ríspidos com protestantes que com católicos, e mais ríspidos com os protestantes liberais que com os ortodoxos. Quanto mais próximo se está da ciência, maior o crime de ser cristão. Conseqüentemente, o maior dos criminosos é filósofo.

Artigo Terceiro – O local amaldiçoado onde o cristianismo chocou seus ovos de basilisco deve ser

demolido e transformado no lugar mais infame da Terra, constituirá motivo de pavor para a posteridade. Lá devem ser criadas cobras venenosas.

Artigo Quarto – Pregar a castidade é uma incitação pública à antinatureza. Qualquer desprezo à

vida sexual, qualquer tentativa de maculá−la através do conceito de “impureza” é o maior pecado contra o Espírito Santo da Vida.

Artigo Quinto – Comer na mesma mesa que um padre é proibido: quem o fizer será excomungado

da sociedade honesta. O padre é o nosso chandala – ele será proscrito, lhe deixaremos morrer de fome, jogá−lo−emos em qualquer espécie de deserto.

Artigo Sexto – A história “sagrada” será chamada pelo nome que merece: história maldita; as

palavras “Deus”, “salvador”, “redentor”, “santo” serão usadas como insultos, como alcunhas para criminosos.

Artigo Sétimo – O resto nasce a partir daqui.

Nietzsche – O Anticristo

Todo o conteúdo deste site possui fins tão−somente educacionais

(Parte 4 de 4)

Comentários