O paciente psiquiátrico

O paciente psiquiátrico

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O PACIENTE PSIQUIÁTRICO

PREFÁCIO

Pouco depois da Metablética ou Psicologia Histórica aparece agora em vernáculo O Paciente Psiquiátrico, ambos estudos da lavra do emi­nente psicólogo o psiquiatra holandês Dr. J. H. Van den Berg, profes­sor e diretor do Instituto de Psicologia dos Conflitos, na Universidade de Lelden.

Se escrevo mais este prefácio, não é porque tais obras me pareçam carecer de introdução, mas para aceder aos amáveis convites do tra­dutor e do editor

O presente livro há de interessar especialmente aos filósofos e os psicopatologistas

Os primeiros nele encontrarão Interessante amostra do método fenomenológico, praticado conforme a concepção de Husserl e Heidegger, aplicada na psiquiatria por iniciativa de L. Binswanger. Segundo tal concepção, consiste o método fenomenológico em descrever o objeto, tal como se revelar em si, dentro da perspectiva do sujeito conscien­te. Destarte, objeto e sujeito já não são dois absolutos essencialmente Independentes, mas comparáveis a dois pólos necessariamente ligados em relação reciproca de cognoscibilidade. Assim, manifestando-se tal como é, o objeto revela o respectivo sujeito; e inversamente, ao rela­tar o seu estado de alma, o sujeito não pratica a pura introspeção subjetiva, mas indica o modo em que lhe é dado o mundo objetivo e tem­poral, abrangendo opróprio corpo, além dos corpos ambientes, físicos ou humanos.

Compreende se. pois. porque o método fenomenológico aqui praticado pretende estudar o paciente psiquiátrico, não por via puramente introspectiva, recomendada por Jaspers, mas sim, por descrição fiel do mundo objetivo do psicopata, como preceitua Binswanger.

Logicamente, deve tal método descritivo e objetivo recusar todas as interpretações do comportamento do psicopata como devido a deturpa­ções do mundo rios objetos, reputado exclusivamente normal e pura­mente objetivo, pelo psiquismo anormal do paciente, considerado mera­mente subjetivo.

Em última analise, a posição fenomenológica aqui adotada não só na ciência introduz nova concepção de objetividade, mas ainda na filo­sofia implica a recusa de qualquer dualismo substancial entre corpo o alma, físico e psíquico, objeto e sujeito, atingindo assim o platonismo, o cartesianismo. o paralelismo psicofisiológico etc. mas deixando intatos o aristotelismo e o tomismo, em que a alma ou o psíquico se iden­tifica ao corpo ou físico como a natureza ou forma própria deste, sen­do ti consciência concebida como essencialmente "Intencional", ou re­lação de mútua cognosciblltdade com o objeto.

Os psicopatologistas por sua vez neste livro acharão uma critica aguda aos conceitos fundamentais, vigentes na psiquiatria atuai, mor­mente na de orientação freudiana; quais sejam, os conceitos de projeção, conversão, transferência, mitologização, inconsciente etc. Lembre­mos, entretanto, que o autor não pretende arruinar simplesmente a va­liosa contribuição de Freud, mas antes corrigir-lhe o exclusivismo do fator neurotizante sexual ou biológico pela concepção mais ampla de que, por mais variados que lhe possam ser os fatores, a chamada neurose é sempre no fundo "sociose" ou "synethose", devida a qualquer causa da inadaptação social; de modo que aPsicopatologia pode ser conceituada como a ciência da solidão ou do isolamento humano (conf. Metablética, cap. 3). Ao leitor comum, enfim, convirá passar por cima deste prefácio e procurar desde logo entender um livro, que pela cla­reza, precisão e vida concreta do estilo a si mesmo se apresenta corno lido e autêntico "fenômeno" de ciência e arte descritiva.

PROF. LEONARDO VAN ACKER

Doutor cm Filosofia pela Universidade de Lovaina, Bélgica Catedrático da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

INTRODUÇÃO

Esta Psicopatologia geral que aqui apresentamos concisamente, é de estrutura pouco usual. Via de regra, urna psicopatologia geral consiste num sumário de sintomas, síndro­mes e descrições de doenças em geral; quando se descreve o caso de um paciente, é apenas para documentar o assunto em discussão. Aqui, pelo contrário, descreve-se a condição mórbida de um simples paciente e nada mais. Não se oferece ao leitor definição alguma de sintomas psiquiátricos, nem resumo de síndromas, nem descrição geral de enfermidades. O número de livros em que isto tem sido feito, e muito bem feito, já é suficiente. Há, por exemplo, apenas para men­cionar dois deles, a obra do Dr. R. Vedder: Inleiding tot de psychiatrie e, para aqueles que desejam um trabalho mais extenso, o não ultrapassado livro de Jaspers: Allgemcine Psychopathologie. Minha intenção foi mostrar ao leitor que um simples paciente, seja qual for o grupo a que pertença o seu distúrbio, engloba toda a Psicopatologia.

O paciente estudado nesta obra pertence, sem dúvida al­guma, ao grupo dos neuróticos seriamente perturbados. Assim mesmo, as suas percepções são anormais no sentido de que não se diferenciam das alucinações e de que o seu pensa­mento ilusório não é diferente dos pensamentos dos pacien­tes que sofrem de ilusões. Naturalmente, seria incorreto negar a existência de linhas de demarcação, quando elas realmente existem. Há, uma diferença entre as alucinações e as percepções neuróticas, da mesma forma que há dife­rença entre pensamentos ilusórios e neuróticos. Mas as dife­renças não chegam ao ponto de anular qualquer relação ou,

para dizê-lo mais claramente, não são suficientemente grandes para que, quando uma condição é melhor compreen­dida, o mesmo não aconteça simultaneamente à outra situa­ção. Todos os pacientes participam da mesma existência hu­mana. Assim espero que, ao estudar á condição do meu único paciente, possa contribuir a criar melhor compreensão de outros pacientes ou mesmo, em princípio, de todos os pa­cientes, embora sabendo que o meu livro é pequeno e de modestas pretensões.

Não se pode explicar em poucas palavras, em que con­sista o método fenomenológica da Psicopatologia. Em diver­sos trechos das páginas seguintes procurarei definir mais claramente o que isto significa. No entanto, somente a im­pressão geral é que poderá esclarecer ao leitor o que é, real­mente, a fenomenologia. Uma das principais características da fenomenologia é que não visa à procura de uma teoria sutil, mas apenas a um plausível conhecimento intimo. O leitor tem o direito de usar a sua própria mente, ao acom­panhar a discussão, mesmo se o assunto está um pouco fora das suas capacidades. O leitor pertence à mesma existência humana que faz com que este estudo — se assim é permi­tido dizer — também diga respeito à sua própria vida.

Finalmente, esta declaração: o paciente, cujos males aqui se descrevem existe e não existe. Não existe no sentido de que o paciente descrito seja um indivíduo identificável pelas queixas aqui relatadas; existe, sim, enquanto as suas queixas pertencem a uma só classe de paciente. Conheço esse paciente; encontro-o em cada um dos meus enfermos.

CAPÍTULO I

QUAIS OS PROBLEMAS SUGERIDOS PELAS QUEIXAS DA MAIORIA DOS PACIENTES ?

1. Aparece o paciente no consultório do psiquiatra.

Faz alguns anos, já tarde da noite, fui chamado ao tele­fone por uni homem, cuja voz denunciava nervosismo e que desejava consultar-me a respeito das suas dificuldades pes­soais. Sugeri um encontro para o dia seguinte à tarde mas ele respondeu que, devido a razões muito especiais, preferia procurar-me à noite. Marcamos hora para a noite seguinte e apareceu-me então, na hora combinada, um jovem dos seus 25 anos, dizendo ser a pessoa que telefonara na véspera. Mostrou-se indeciso a princípio, mas finalmente explicou o motivo de sua visita.

Logo nos primeiros instantes compreendi que se achava em grandes dificuldades. Olhou-me com expressão mista de desconfiança e timidez e, quando pegou na minha mão es tendida, a sua mão deu-me uma sensação de moleza e de fraqueza; era a mão de uma pessoa que não encontra saída para os seus problemas e que, completamente fora de controle, deixa-se levar pela correnteza. Inclinando-se desajeitadamente, sentou-se na cadeira que eu lhe tinha indicado.

Muito empertigado, deixou espaço entre as suas costas e o espaldar da cadeira, como se estivesse preparado, desde o início, para levantar-se e ir embora. Sua mão direita, que mantinha dentro do colete ao entrar e que utilizou apenas para me cumprimentar com pouco entusiasmo, voltou ime­diatamente à sua posição original. Com os dedos da mão

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esquerda, tamborilava sem parar sobre o braço da cadeira. Não cruzou as pernas. Seu comportamento dava a impressão de um homem cuja vida, há muito tempo, era um contínuo tormento.

A história que me contou confirmou plenamente a mi­nha primeira impressão. Disse que era estudante mas que não freqüentava as aulas desde vários meses, porque não se sentia capaz de caminhar na rua à luz do dia. A única ocasião em que se obrigara a sair de dia conservava-se como pesadelo em sua memória. Tivera a sensação de que as casas entre as quais passava, estavam prestes a desabar sobre ele. As casas pareciam cinzentas e quase em ruínas. A rua era espantosamente larga e vazia e as poucas pessoas com quem tinha cruzado pareciam-lhe irreais e longínquas. Mesmo quando alguém roçava por ele, sentia-se impressionado por uma distância que os separava. Sentia-se profundamente solitário e, cada vez mais, temeroso. O medo impelira-o a voltar para seu quarto e ele se teria certamente posto a correr, se não se sentisse tomado por umas palpitações tão fortes que só lhe permitiam andar passo a passo.

Essas palpitações o estavam torturando já havia bas­tante tempo. A princípio, isto é, alguns anos atrás, eram passageiras e suportáveis; com o correr do tempo tornaram-se mais freqüentes e mais violentas. As vezes, as batidas do seu coração eram mais rápidas que o normal, mesmo nos intervalos entre as crises. Estava sempre preocupado com seu coração e precisava manter a mão sobre o peito, para certificar-se de que nada ocorria de anormal e para poder, se fosse preciso, comprimir e acalmar as batidas.

Quando se achava em seu quarto, esses distúrbios não o incomodavam tanto. Sentia-se da melhor maneira possí­vel quando estava estudando e nada o perturbava. Além dos assuntos relacionados com os seus estudos, nada mais podia ler. Havia anos que não lera um romance. Tinha cer­teza de que seu coração sofreria qualquer abalo se se entregasse

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a qualquer leitura emocionante. Pelo mesmo motivo, não lia jornais. Recebia somente poucos amigos. Eram pes­soas que só falavam dos próprios conhecimentos e que, quan­do discutiam assuntos da vida de todos os dias, só o faziam para criticar. As discussões em que se arrasava o sexo femi­nino tinham o dom de fazê-lo sentir-se em boa saúde. Sen­tia-se então eufórico, podia rir e esquecia-se do seu coração. A sua opinião sobre o amor era, consequentemente, cínica. Concordava com a definição do moralista francês Chamfort, segundo a qual o amor não era mais que "o contato de duas epidermes e a troca de duas pálidas fantasias".

Antes de ficar doente, conhecera uma moça mas, quan­do ela sugeriu que ficassem "namorados firmes", riu-lhe na cara. Ela o abandonou então e ele verificou com surpresa que o seu coração desatou a bater aceleradamente. A partir desse momento, resolveu nunca mais manter relações com moças. Depois desse incidente, passou a visitar prostitutas, a intervalos regulares, embora não muito freqüentemente. Costumava humilhar essas mulheres por todos os meios pos­síveis, mas nunca tinha verdadeiro contato físico com elas.

Uma vez cada três meses passava o fim de semana em casa de seus pais, que moravam, a 20 quilômetros de distância. Tomava sempre o último trem e, durante a viagem, sentia-se deprimido. Assim que chegava à casa dos pais, sentia uma paz deliciosa invadir-lhe o corpo, mas essa sensação agradável desaparecia em poucas horas, porque o comporta­mento dos pais ia irritando-o aos poucos. Julgava o pai rús­tico e sem modos. E quando a mãe sentava-se perto dele e indagava simpaticamente dos seus estudos, o ódio crescia-lhe por dentro e precisava dominar-se paxá não esbofetear a progenitora. Nessa casa, onde cada canto e cada móvel lembrava-lhe a infância, as recordações do passado o im­peliam a culpar os pais pela sua infelicidade, em termos candentes. Sentia-se feliz ao partir novamente. No trem de volta, conseguia geralmente encontrar um lugar solitário

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num compartimento vazio onde, em voz iria, podia insultar à vontade os seus pais. Chegando ao seu quarto, livrava-se dos pensamentos do passado metendo a cabeça num livro.

Não pensava, ou não queria pensar no futuro. A vida, para ele, era apenas o estudo, sem nenhum outro propósito. Se, de vez em quando, as circunstâncias o compeliam a pen­sar no que estava por vir, tudo se tornava vago e ameaçador.

Assim termina o relato do paciente, em sua primeira visita ao psiquiatra.

2. Resumo das queixas.

Para melhor compreensão, o sumário das queixas do paciente, relatadas em sua primeira visita, será completado com detalhes que ele acrescentou mais tarde. A fim de con­seguir uma visão bem clara, vou catalogar os males de que se queixou. Restringindo-me às próprias informações do pa­ciente, penso que os seus males podem ser classificados em quatro grupos: es mudanças que se produziram no mundo observável, as mudanças em seu corpo, as alterações nas suas relações com outras pessoas e naquelas que concernem o seu passado e seu futuro. A fim de não dar interpretação pre­matura a essas mudanças, acho preferível conservar a clas­sificação sugerida pelas próprias queixas.

a) O mundo.

A alteração no mundo concreto e observável é de tal natureza que o paciente não ousa sair de casa durante o dia claro. Quando se pede ao paciente que descreva o que viu, diz que a rua parecia muito larga, as casas cinzentas ou sem cor, tão velhas e arruinadas que pareciam a ponto de desa­bar. As casas também lhe causavam impressão de confinamento; era como se todas as janelas estivessem com as ve­nezianas fechadas, embora ele percebesse que não era assim. As casas assemelhavam-se a cidadelas fechadas. Olhando para cima, via as casas inclinando-se sobre a rua, de modo

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que a faixa de céu entre os telhados parecia mais estreita que as ruas em que caminhava. Ao chegar a uma praça, surpreendeu-se com a sua extensão, muito maior do que o seu tamanho real. Sabia, com certeza, que não seria capaz de atravessá-la. Sentia que uma tentativa para cruzar o largo teria resultado numa tão intensa sensação de vácuo, de largueza, de singularidade e de abandono que as suas pernas não o agüentariam. Teria caído ao chão. Do abrigo do seu quarto, a rua lhe parecia menos perigosa mas, mesmo assim, pensava que não seria capaz de andar ou ficar de pé na rua, sem ressentir as mesmas impressões. Havia anos que não saia da cidade, para passear pelos campos ou pelos bos­ques. Sabia, porém, o que aconteceria se ele saísse estrada afora. Seus pais viviam no interior; da casa deles avistava os descampados. A janela do seu quarto de dormir propor­cionava-lhe mesmo belíssimo panorama. Ou melhor, lem­brava-se que, no passado, achava a vista magnífica, mas agora já não a apreciava. As cores dos campos recobertos de flores e de árvores já não lhe causavam impressão algu­ma; tudo lhe parecia sem vida e sem cor. Mas era sobretudo o espaço aberto que o atemorizava; mesmo no campo, não seria capaz de dar o menor passeio. Costumava tomar um táxi para ir até a vizinha estação.

A descrição que o paciente fazia disso tudo era tão con­vincente que dava a impressão de estar ele vivendo em outro mundo, tão real como este nosso mundo comum e palpável. A impressão de que o paciente estava falando sobre alguma coisa que, para ele, era perfeitamente real, tornava-se ainda mais forte ao percebermos quanto sofria em conseqüência das suas observações. Não se tratava de fantasia ou de ilu­sões. A realidade definia suas ações. Era simplesmente im­possível para ele negar as suas apavorantes experiências na rua; via as coisas exatamente dessa maneira. As coisas do seu mundo eram temíveis, ameaçadoras e quando procurava compreender que a casa, a rua, a praça e os campos deveriam

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razoavelmente reassumir a sua primitiva forma e na­tureza e que, portanto, as suas percepções deviam lhe estar fornecendo uma falsificação da realidade, então essa correção, na qual queria acreditar ao menos por um momento, parecia-lhe irreal e artificial. Muito mais irreal que a obser­vação direta e não emendada, que para ele era tão ameaça­dora que o repelia para seu quarto. O que percebia era uma realidade, tal como a descrevia.

Vamos supor que estamos acompanhando o paciente num passeio. O dia é claro, o sol está brilhante, o povo está todo nas ruas, que de modo algum parecem assustadoras. Tudo isto pode ser observado da janela do paciente. Con­firma este as nossas observações, embora esteja farejando algum perigo. Vamos para fora. Começa então a mudança. Logo depois de atravessar a porta, o paciente agarra nosso braço, seu rosto assume expressão vidrada, olha ansiosa­mente em volta de si. Quando lhe perguntamos o que o está perturbando, responde que a rua lhe causa pavor. Parece tão estranha, tão larga, e assim mesmo tão estreita. As casas debruçam-se sobre as calçadas; pensa que vão desmo­ronar de um momento para outro. Falamos com ele calma­mente e dizemos-lhe que nada há de errado com a rua; pelo contrário, apresenta aspecto muito agradável, mas ele me­neia a cabeça e não se convence. Ao contrário, à medida que vamos caminhando — apesar das nossas palavras tran­quilizadoras, tão bem escoradas na realidade — mais ansio­so vai ficando. Agarra com mais força o braço que está se­gurando, como se sentisse que o apoio não é suficiente. O suor transpira em sua testa. Seu rosto denota a impressão de que alguma coisa séria vai acontecer. Quer retroceder; para casa, pelo amor de Deus! De volta ao quarto, limpa o suor que lhe cobre a face e sorri debilmente. Qualquer pes­soa normal perguntaria: que aconteceu? Nada aconteceu na rua que pudesse refletir-se no paciente, mas ele não vê as

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coisas do nosso modo. Pode até mesmo exclamar: "Você não faz idéia do que aconteceu aí fora!"

Será conveniente lembrarmo-nos do seguinte: aquilo que, na rua, parece real para o paciente, para nós é inexis­tente. Assim, o paciente deve estar-se iludindo. De que ma­neira se engana, porém, não é claro. Mesmo o fato de que ele se ilude a si mesmo permanece obscuro.

b) O corpo.

Os lamentos do paciente quanto ao seu estado físico (não tem a menor aparência de estar enfermo), referem-se ao seu coração. Há muitos anos que vem sofrendo de palpi­tações, especialmente em crises esporádicas. A princípio, essas crises eram suportáveis, mas se tornaram gradualmen­te tão violentas que receava desmaiar de fraqueza. No intervalo dessas crises, sofre de dor permanente no peito. Pa­rece-lhe que o seu coração bate depressa demais. Há qual­quer coisa de errado em seu peito; alguma coisa que vai re­bentar. O paciente tem medo de que o seu coração pare subitamente de bater. É por isso que conserva a mão dentro do colete; quer estar alerta quanto a seu batimento. O seu pulso, de fato, tem ritmo muito rápido e ligeiramente irregular. Afinal de contas, seria talvez conveniente consul­tar um cardiologista. Replica, todavia, que já consultou grande número de cardiologistas, que lhe asseguraram una­nimemente estar perfeito o seu coração. Mostra-me a carta que recebeu do último cardiologista consultado, o mesmo que lhe sugeriu consultar um psiquiatra. Os dizeres dessa carta confirmam que o exame cuidadoso não revelou qual­quer anomalia, a não ser as batidas muito rápidas e o pulso ligeiramente irregular. Junto à carta está um filme eletrocardiográfico, que de sobejo prova nada haver de anormal no coração.

O paciente já está a par de tudo isso, mas não está convencido. Em sua opinião, se existissem métodos mais

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apurados de exame, os defeitos seriam certamente encon­trados. Pois não tem ele evidência da certeza da sua opinião? Basta-lhe dar alguns passos na rua para perceber como esta ruim o seu coração. Se ele prosseguisse no passeio, sabe que as batidas iriam parar. E além disso, não lhe dói o coração o dia todo? Cartas de todos os cardiologistas do mundo não seriam capazes de convencê-lo de que a dor que sente não existe e que o seu coração está perfeito. O seu coração está doente: esta é a realidade da sua vida física.

Além disso, o paciente queixa-se de fraqueza nas pernas e de distúrbios no sentido do equilíbrio. Quase todas as noites, quando está escuro e as ruas não parecem tão alar­mantes, ele dá um passeio. A princípio, tudo corria bem mas, ultimamente, só pode andar com a ajuda de forte ben­gala. Mais recentemente, até a bengala se tornou inadequa­da e ele só pode caminhar apoiado em sua bicicleta, segu­rando o guidão com ambas as mãos. Desde então, nunca mais saiu sem a sua bicicleta. Os seus vizinhos, que pensam que sai para uma corrida todas as noites, estão enganados. Ele nem pode sentar no veículo; fica tonto só de pensar nisso. Quando o pavimento está escorregadio, no inverno, fica em casa. É muito meticuloso na escolha dos seus sapatos; não pode correr o risco de escorregar e de perder o equilíbrio.

Não é necessário acrescentar que o paciente consultou também um otologista, que o examinou cuidadosamente e lhe afirmou não existir anomalia alguma em seu sentido de equilíbrio. Não precisava preocupar-se a esse respeito. As­sim mesmo, o paciente continuou inquieto e consultou um neurólogo que também lhe declarou não ter encontrado de­feito algum.

Tudo isso conduz à mesma conclusão: os sintomas, que tanto estão a perturbar o paciente, resultam inexistentes quando submetidos a cuidadoso exame, isto é, depois de objetiva e conscienciosa pesquisa clínica. O paciente, por­tanto, deve estar errado; deve estar iludindo-se a si mesmo,

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sem o saber; pois quem pode duvidar do resultado de um exame médico, moderno, objetivo e científico?

E assim mesmo, mais uma vez, não se pode explicar como o paciente se engana a si mesmo. Ouvindo a sua his­tória, a gente fica imaginando se o paciente está mesmo se iludindo; será possível que uma pessoa sofra tanto por auto-ilusão?

c) As outras pessoas.

Quando se pede ao paciente que exprima as suas opiniões a respeito do próximo, uma coisa resulta evidente: ele não tem contato real com pessoa alguma. Toda e qualquer pessoa o irrita. Quando seus pais estão conversando sobre assuntos corriqueiros de todos os dias, acha-os crédulos, muito român­ticos e otimistas demais. Tem objeções à palavra "amigo"; pois a amizade, em sua opinião, não é mais que egoísmo disfarçado. Não chama de amigos aos colegas estudantes que o visitam e conversam com ele a respeito dos seus co­nhecimentos científicos. Eles podem ser úteis no que se re­fere aos estudos, mas esta é a única razão que o faz supor­tá-los. E as pessoas que discutem, desdenhosamente, os assuntos relativos aos valores da vida, proporcionam-lhe, certamente, momentos de prazer, mas também não gostaria de conside­rá-los amigos. No que concerne às moças, não tem opinião, formada. Prefere não ter nada com elas. Em sua opinião, são criaturas inferiores que se interessam principalmente por assuntos que para ele são assustadores. A seu ver, as relações com prostitutas são a única espécie de relações que um homem pode ter com o outro sexo. O amor é pura bo­bagem — embora admita que esta bobagem está sempre a preocupá-lo. É por esse motivo que não lê romances. Para conservar a sua tranqüilidade, ele tem que se afastar de tudo o que possa evocar relações humanas normais. Por esse motivo, também não lê jornais.

As outras pessoas na rua parecem-lhe distantes, o que lhe

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dá um sentimento de abandono. Mesmo quando esbarram com ele, na calçada, a distância se mantém. Movimentam-se sem razão pela rua muito larga, como se fossem bonecos sem vida. Fazem-no sentir-se solitário, inquieto, ansioso e zan­gado. Gostaria de destruir esses bonecos. Todo o gênero hu­mano é seu inimigo.

Nosso Bom-Senso nos diz que o paciente deve estar mais uma vez errado. Está sendo vítima de um desentendimento provocado por ele mesmo. Embora, de certo ponto de vista, seja certo que a sociedade é movida pela ambição e pelo interesse, também é óbvia a existência da verdadeira ami­zade e do amor. Mas essa evidência é positivamente negada pelo paciente. Está sempre pronto a citar incidentes suscetíveis de provar que a amizade é apenas uma máscara. Não adianta discutir o assunto com ele. Tudo o que é óbvio para qualquer pessoa, para ele não existe. O paciente vive em outra realidade, inclusive em suas relações com outras pes­soas. Esclarece perfeitamente esta outra realidade quando faz descrição da aparência das demais pessoas. Dão-lhe a impressão de serem bonecos sem sentido, que se movem sem nenhum objetivo e que são controladas pelo mal. Não quer ter nada com elas. Nada quer receber delas. De qualquer maneira, nada poderia receber, pois estão longe demais. Não pode alcançar pessoa alguma, e ninguém pode alcançá-lo. Para ele, estão condicionadas pela distância, no sentido mais literal da palavra. Mesmo quando estão em contato físico com ele, elas permanecem distantes. Não é isto uma contra­dição? Para o paciente, não é contradição alguma. Pode­ríamos argumentar com ele, com todos os elementos de per­suasão ao nosso alcance que, quando duas pessoas estão se tocando, não pode haver percepção de qualquer distância entre ambas. Mas isto não adiantaria nada, pois ele per­cebe e sente a distância. É distância o que ele observa; qual a vantagem, então, de argumentar com ele? Alguma coisa

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que ninguém percebe e que, quando sugerida, é negada por toda a gente, parece ser uma realidade para o paciente.

d) Passado e futuro.

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