Educação física e sociedade

Educação física e sociedade

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Texto do Livro: Educação física e sociedade. De Mauro Betti. São Paulo: Movimento, 1991. Trabalho realizado por Leonardo Delgado

A HERANÇA HISTÓRICA Mauro Betti

Ao longo da história do homem, formas de atividade física - considerada esta de forma ampla - e mesmo de Educação Física, surgiram em todos os momentos, em maior ou menor grau, com maior ou menor institucionalização. Entrementes, desconsiderando-se a Antigüidade Grega, foi nas últimas décadas do século XVIII, e em especial durante o século XIX, que a Educação Física experimentou um decisivo impulso no sentido de sua sistematização e institucionalização como uma forma de educação no mundo ocidental. O epicentro deste desenvolvimento foi a Europa, onde ocorreram, no continente, os sistemas ginásticos, e na Inglaterra o movimento esportivo, e daí espalhou-se por todo o mundo. Este processo deu-se num momento histórico de grandes mudanças políticas, econômicas e sociais, e com elas relaciona-se, sofrendo também a influência do novo pensamento pedagógico do século XVIII, com o advento dos chamados educadores naturalistas e filantrópicos.

A Educação Física adentrou o século X com modelos forjados durante o século passado e experimentou notável expansão e penetração social, especialmente o esporte enquanto instituição social autônoma, que carreou para si enorme importância política e econômica. O fenômeno esportivo tem levado pedagogos, sociólogos e filósofos nas últimas três décadas a denunciarem o caráter mistificador do esporte e a questionarem a sua real utilidade para a sociedade, o seu valor educativo e sua integração na Educação Física sem qualquer tipo de reflexão pedagógica.

OS MOVIMENTOS GINÁSTICOS EUROPEUS A Situação Política e Social da Europa

O século XVIII caracterizou-se pelo regime político batizado de

"Despotismo Esclarecido", o qual foi influenciado pelas idéias do Iluminismo. As últimas décadas do século desenrolaram-se sob a marca da Revolução Francesa (1789), que derrubou o absolutismo, implantou a República, levou o povo ao poder político na França e semeou uma onda de revoluções liberais na Europa. Entre 1803 e 1815 a Europa toda envolveu-se nas Guerras Napoleônicas.

O século XIX é o século da formação dos Estados Nacionais. A

Europa nele adentrou sob a influência política do liberalismo e do nacionalismo, e economicamente, da Revolução Industrial, iniciada por volta de 1760 na Inglaterra, e que se espalhou por toda a Europa a partir de 1850, promovendo grande desenvolvimento econômico e transformações sociais.

O movimento nacionalista, aliado ao desenvolvimento econômico, cresceu muito na segunda metade do século XIX. Entre 1830 e 1870 transformou-se num movimento agressivo em favor da grandeza nacional e do direito de cada povo cultural e racialmente unido governar a si próprio (Burns, 1948). A partir de 1871 a Europa viveu em permanente estado de tensão por questões territoriais. A crise política levou à deflagração da I Grande Guerra, em 1914.

Texto do Livro: Educação física e sociedade. De Mauro Betti. São Paulo: Movimento, 1991. Trabalho realizado por Leonardo Delgado

Foi neste tempo de guerras e revoluções que a Educação Física de nossos dias assentou suas bases.

Situação das Instituições Educacionais

Entende Luzuriaga (1979) que o século XVIII é o século pedagógico por excelência. A educação tornou-se uma das mais importantes preocupações de reis, pensadores e políticos. Surgiram duas das maiores figuras da Pedagogia: Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) e Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827). Foi neste século que se desenvolveu a educação pública estatal e iniciou-se a educação nacional. Ainda segundo Luzuriaga, na educação do século XVIII observam-se os seguintes movimentos:

1. Desenvolvimento da educação estatal, da educação do Estado, com maior participação das autoridades oficiais no ensino. 2. Começo da educação nacional, da educação do povo pelo povo ou por seus representantes políticos. 3. Princípio da educação universal, gratuita e obrigatória, no grau da escola primária, que fica estabelecida em linhas gerais. 4. Iniciação do laicismo no ensino, com a substituição do ensino da religião pela instrução moral e cívica. 5. Organização da instrução pública em unidade orgânica, da escola primária à universidade. 6. Acentuação do espírito cosmopolita, universalista, que une pensadores e educadores de todos os países. 7. Sobretudo, a primazia da razão, a crença no poder racional na vida dos indivíduos e dos povos. 8. Ao mesmo tempo, reconhecimento da natureza e da intuição na educação, (p. 151)

Ao final do século XVIII a educação européia modificou-se radicalmente com a Revolução Francesa, que fez com que a educação estatal, do súdito, própria da monarquia absolutista e do despotismo esclarecido,se convertesse na educação nacional, na educação do cidadão participante do governo do país (Luzuriaga, 1979). A Revolução Francesa deixou assentada as bases da nova educação nacional, que da França estendeu-se depois por toda a Europa e América.

A educação no século XIX liga-se estreitamente aos acontecimentos políticos e econômicos. A Revolução Política, principiada em 1789 com a Revolução Francesa, completou-se com a vitória da soberania popular e das idéias liberais, constitucionalistas e parlamentaristas, impondo-se a necessidade de educar o "povo soberano" (Luzuriaga, 1979, p. 180). A Revolução Industrial, que alcançou grande intensidade naquele século, levou a um aumento populacional nas cidades e à necessidade de cuidar da educação desta grande massa.

Para Luzuriaga (1979) "todo século XIX foi um contínuo esforço por efetivar a educação do ponto de vista nacional" (p. 180), o que é bastante coerente com o momento político de afirmação dos Estados Nacionais que

Texto do Livro: Educação física e sociedade. De Mauro Betti. São Paulo: Movimento, 1991. Trabalho realizado por Leonardo Delgado vivia a Europa. Os países europeus estruturaram, naquele século, seus sistemas nacionais de educação. A escola primária foi universalizada, em caráter obrigatório e gratuito, estabeleceram-se escolas normais para a preparação do magistério. A escola secundária também se afirmou, mas limitada ao atendimento da burguesia, e considerada apenas como preparação para a Universidade.

Os Sistemas Ginásticos e o Nacionalismo

A história da elaboração e institucionalização dos, chamados "sistemas ginásticos" confunde-se com a própria história do nacionalismo europeu e do militarismo sempre presente nos séculos XVIII e XIX. Originários da Alemanha, Dinamarca, Suécia e França, vinculam-se aos processos da afirmação da nacionalidade nestes paises e à constante preocupação de preparação para guerra. Alguns autores (Marinho, s.d.a; Ramos, 1982) rotularam de “doutrinários” os movimentos de Educação Física surgidos naqueles países.

O movimento ginástico alemão teve origem no Philanthropinum, uma escola fundada em 1774 pelo pedagogo Johann Bernhard Basedow (1723- 1790). Basedow foi influenciado pelas idéias educacionais de Rousseau, que dava grande importância à saúde e à educação física, e sua escola iniciou o primeiro programa moderno de Educação Física (Van Dalen & Bennet, 1971). Este programa compreendia corridas, saltos, arremessos e lutas semelhantes às que se praticavam na Antiga Grécia: jogos de peteca, de bola, de pinos e pelota; natação; arco e flecha; marchas; excursões no campo, caminhada e suspensão em escadas oblíquas e transporte de sacolas cheias de areia (Marinho, s.d.a; Van Dalen & Bennet, 1971).

Em 1784 foi fundado um instituto educacional semelhante ao

Philanthropinum também colocando em prática idéias educacionais naturalistas, onde Cristoph Friedrich GutsMuths (1759-1839), assumindo as aulas de ginástica, experimentou novas atividades e aparatos e elaborou um sistema de trabalho que ficou conhecido como "ginástica natural" ou "método natural". Ele dividiu as atividades em três classes: exercícios ginásticos, trabalhos manuais e jogos sociais (Van Dalen & Bennet, 1971).

Segundo Van Dalen e Bennet (1971), o programa de GutsMuths harmonizava com os ideais de Rousseau. Ele acreditava firmemente na influência do corpo sobre a mente e o caráter; e que a saúde, mais do que o conhecimento, deveria ser o objetivo básico da educação. Moolenijizer (1973) entende que GutsMuths ganhou grande importância como o autor da primeira abordagem metódica para planejar intencionalmente a educação física e também por introduzir o jogo como meio justificado de educação.

O período de gestação do sistema de ginástica de GutsMuths não coincidiu com a exacerbação do espírito nacional alemão, o que ocorreu apenas a partir de 1806 com a invasão francesa. Contudo, ele não ficou isento de influência do nacionalismo e da política de intervenção estatal na educação. Considerava a ginástica de alta significação social e patriótica, e meio

Texto do Livro: Educação física e sociedade. De Mauro Betti. São Paulo: Movimento, 1991. Trabalho realizado por Leonardo Delgado educativo fundamental para a nação, e pediu que o Estado assumisse a organização e divulgação da ginástica (Marinho, s.d.a).

Com Friedrich Ludwig Jahn (1778-1852) as relações entre a

Educação Física e o nacionalismo atingiram o seu auge na Alemanha. As idéias de Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), autor dos Discursos nação alemã (1807-1808) exerceram enorme influência sobre Jahn, um professor primário alemão. Para Fichte, a salvação da nacionalidade alemã estava na educação. Para isso, defendia uma educação popular, nacional e promovida pelo Estado (Luzuriaga, 1979).

Segundo Roberts (1973) Jahn tomou como ponto de partida o plano de Fichte para a educação nacional, no qual a educação física tinha importante papel, e criou o movimento batizado de Turnen que atingiu enorme popularidade na Alemanha no decorrer do século XIX, persistindo até nossos dias. Jahn embebeu-se fortemente, de idéias nacionalistas, e entre 1808 e 1809, durante a dominação francesa da Prússia, escreveu a obra "A Nacionalidade Alemã", onde manifesta o seu "intenso desejo de ver a Alemanha unificada numa nação forte, capaz de livrar-se do odiado jugo estrangeiro" (Leonard, 1973, p. 89).

O trabalho de Jahn, numa escola para garotos em Berlim na qual passou a lecionar a partir de 1810, consistia de jogos e exercícios como correr, saltar, arremessar e lutar, e obteve grande popularidade entre os estudantes. Ele idealizou alguns aparatos primitivos, tais como ramos de carvalho utilizados como barras para suspender e varas para arremessar em alvos. Daí originouse a idéia do Turnplatz (playground). Para Leonard (1973) o propósito de Jahn era "a vida ativa, saudável e em comunhão ao ar livre" (p. 91) e, treinando os estudantes a trabalharem juntos, "buscava também acender neles o espírito público, o qual poderia um dia estar a servio da nação" (p. 92). Para Jahn, (citado por Mclntosh, 1975):

Só quando todos os homens em idade militar se tenham tornado capazes, através da educação física, de pegar em armas; quando se tenham tornado prontos para combate, através de um treino prático intenso, prontos para entrar em novas espécies de jogos de guerra e sempre alerta, por amor da Pátria - só então se poderá dizer de um povo que está militarmente preparado. (p. 79-80).

Em junho de 1811, Jahn abriu seu primeiro Turnplatz nos arredores de Berlim. Afirma Roberts (1973) que o objetivo imediato do Turnen era o fortalecimento físico e moral da juventude alemã para a libertação da terra natal. Quando irrompeu a Guerra da Libertação em 1813, Jahn e vários Turneres uniram-se às forças armadas que lutavam contra Napoleão. Após a expulsão dos franceses, o patriotismo alemão fortaleceu-se e o Turnen experimentou enorme expansão, com grupos organizados pelas províncias prussianas e em outros Estados alemães. A unificação da Alemanha era um objetivo claro para Jahn, que se tornou um herói nacional.

Mas com a França já derrotada e expulsa, o governo alemão passou a temer os movimentos de massas liderados por Jahn, de forte conteúdo

Texto do Livro: Educação física e sociedade. De Mauro Betti. São Paulo: Movimento, 1991. Trabalho realizado por Leonardo Delgado político. As autoridades temiam que o Turnen servisse difusão das doutrinas Ijberais então em voga, e proscreveram as sociedades ginásticas. O próprio Jahn foi preso em 1819, acusado de traição. Segundo Roberts (1973), o governo prussiano até mesmo incorporou o sistema ginástico na escola formal, num esforço para frustrar as sociedades ginásticas. Mas a repressão oficial não conseguiu impedir o crescimento do Turnen que recuperou o seu vigor no reinado de Frederico Guilherme IV. Em 1868 organizou-se o Deutsche Turnerschaft, uma federação de todas as sociedades ginásticas alemãs. Durante a guerra franco-prussiana de 1870-71, quinze mil de seus membros apresentaram-se ao serviço militar. A guerra propiciou a unificação da Alemanha - o grande ideal de Jahn e seus seguidores - e isto levou valorização da ginástica, que passou a receber o apoio estatal., .

Nas escolas alemãs, a Educação Física foi introduzida na forma do sistema ginástico de Adolph Spiess (1810-1858). Em 1842, o governo prussiano reconheceu oficialmente a Educação Física como uma função do Estado, e após o fracasso em introduzir a ginástica de Jahn, Spiess foi convidado a implantar o seu sistema.

Spiess estudou e trabalhou em escola suíças que sofreram a influência de Pestalozzi. L , criou um sistema de ginástica adaptado a objetivos pedagógicos e integrado no currículo escolar. Segundo Van Dalen e Bennet (1971 ) Spiess foi bem sucedido em introduzir a Educação Física nas escolas da Alemanha porque seus objetivos harmonizavam com a política autocrática e a filosofia educacional da época. Ele dava bastante ênfase disciplina, e embora seu sistema buscasse um desenvolvimento eficiente e completo de todas as partes do corpo, tais objetivos eram alcançados através de submissão, treino da memória e respostas rápidas e precisas ao comando.

Roberts (1973), após estudar o processo histórico do surgimento e desenvolvimento da Educação Física na Alemanha, concluiu que ela desenvolveu-se de duas diferentes formas: como um sistema escolar regular de educação física e como um sistema extra-curricular politicamente orientado que acabou por tornar-se uma força auxiliar de Adolf Hitler, chamada de "Movimento Jovem Hitleriano".

A Dinamarca, por volta de 1814, envolveu-se nas Guerras

Napoleônicas, perdeu territórios e afundou-se numa crise econômica que durou até 1820; a partir daí, as condições melhoraram e emergiu um novo sentimento nacional. Em 1849 foi adotada uma constituição liberal com sufrágio popular. Isto tudo encontra correspondência com a onda política e econômica do movimento liberal europeu de 1848.

Neste período, Franz Nachtegall (1777-1847) liderou o movimento que levou à consolidação da Educação Física dinamarquesa. Influenciado por GutsMuths, organizou, em 1798, um clube de ginástica e em 1799 passsou a dar aulas numa escola privada que seguia a linha de Basedow. Neste mesmo ano, Nachtegall abriu um ginásio particular, a primeira instituição do gênero fundada na Europa moderna. Seu sistema ginástico fez grande sucesso e atingiu o meio militar.

Texto do Livro: Educação física e sociedade. De Mauro Betti. São Paulo: Movimento, 1991. Trabalho realizado por Leonardo Delgado

E, 1804 foi criado o Instituto Militar de Ginástica, em Copenhague, e

Nechtegall tornou-se seu primeiro diretor. Civis também passaram a ser admitidos nos cursos do Instituto, que acabou por tornar-se uma escola preparatória de professores de ginástica para as escolas em geral.

Sob a liderança de Nachtegall, a Dinamarca tornou-se o primeiro país europeu a introduzir a Educação Física como uma matéria escolar, promova cursos de treinamento de professores e a editar manuais para instrutores (Leonard, 1973; Van Dalen & Bennet, 1971).

Uma lei de 1804 sobre as escolas secundárias e o Ato de Educação de 1814 formaram um sistema de escolas elementares operadas pelo Estado. Esta lei, pioneira na Europa, tornou compulsória a educação para todas crianças dos sete aos catorze anos e determinou que as escolas deve" riam providenciar espaço e equipamentos, e onde houvesse professores aptos, ministrar aulas de ginástica aos alunos. Em 1828, uma nova legislação tornou obrigatória a introdução da ginástica em todas as escolas elementares da Dinamarca.

Para Van Dalen e Bennet (1971) a Educação Física na Dinamarca como em muitos países europeus durante o século XIX, foi dominada pelo nacionalismo, sendo seus principais objetivos o desenvolvimento da competência militar e do patriotismo.

para a França, o povo mobilizou-se no desejo de reconstruir' prestígio nacional

No início do século XIX a Rússia conquistou a Finlândia, destituindo a Suécia da terça parte de seu território. A decadência do império sueco desencadeou uma onda de patriotismo; como na Alemanha após as derrotas

Per Henrik Ling (1776-1839) iniciava nessa época seu movimento em prol da Educação Física. Nas universidades suecas e na Dinamarca, onde esteve entre 1799 e 1804, foi influenciado por filósofos e poetas que levaram a adquirir um profundo respeito pela sua origem escandinava. Em Copenhague, recebeu aulas de esgrima e, conheceu o trabalho desenvolvido por Nachtegall em seu ginásio particular. Ao retornar à Suécia em 1804, tornou-se professor de esgrima e conferencista em literatura e história na Universidade de Lund, e logo conseguiu autorização para introduzir a ginástica e a natação no currículo.

Segundo Van Dalen e Bennet (1971), quando a Suécia perdeu a

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