Texto: Curiosidades sobre serpentes

Texto: Curiosidades sobre serpentes

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_ 1Questionário organizado por LEONARDO FRANCISCO STAHNKE, a partir das dúvidas mais freqüentes trazidas ao Laboratório.

CURIOSIDADES SOBRE SERPENTES1 Leonardo Francisco Stahnke, 2005.

O que é Herpetologia?

É o nome da ciência que estuda os répteis e os anfíbios. A palavra herpetós, do grego, significa o que se arrasta e a intenção do nome é referir-se aos animais que rastejam, os répteis. Entretanto, antigos dinossauros não arrastavam a barriga no chão, andando em quatro (quadrupedais) ou duas patas (bipedais) e estes últimos tinham a postura de aves quando estas caminham no solo, com a cauda levantada. Dentro desta especialidade entram, também, os anfíbios que caminham ou pulam, não se arrastam. Tradicionalmente, os anfíbios são estudados junto com os répteis, mas estes pequenos vertebrados, lisos e sem escamas, têm mais afinidade com os peixes, compartilhando poucos caracteres com os répteis. O costume de estudá-los juntos deve-se ao mesmo tipo de trabalho que se faz no campo e no laboratório, ou seja, são explorados os mesmos tipos de ambientes e colecionados em frascos com líquido conservador igual.

Qual a diferença entre um animal Venenoso e Peçonhento?

Os animais venenosos são aqueles sem capacidade de injetar o veneno, como o sapo; já os animais tido por peçonhentos, conseguem injetar seu veneno, como é o caso de algumas serpentes.

Qual a diferença entre Cobra e Serpente?

Chamamos de Cobra uma serpente que vive na Ásia, pois este é o seu gênero (Cobra sp.). Assim, para que no meio científico não haja confusão, prefere-se usar o termo serpente para designar os ofídios brasileiros.

Como posso identificar uma Serpente?

As serpentes são animais cilíndricos; ápodas, ou seja, não possuem patas; suas pálpebras são transparentes e imóveis, motivo pelo qual não fecham os olhos; e possuem o corpo coberto de escamas (com exceção das marinhas, as serpentes possuem as escamas ventrais maiores que as dorsais). Além dessas características, que nos permitem distinguir com segurança as serpentes dos demais animais confundidos com elas, podemos citar ainda a ausência de ouvidos, o sangue “frio” (pecilotérmico) e a língua bífida (dividida em duas partes na ponta), usada para explorar o ambiente.

Quais os animais confundidos com Serpentes?

São três os animais comumente confundidos com serpentes: dois deles são lagartos e o outro um anfíbio.

• COBRA-CEGA ou CECILIA (Classe Amphibia): este animal não é cego e muito menos cobra. Ela é confundida somente pelo formato sem patas de seu corpo, e pode ser diferenciada pelo fato de não possuir escamas.

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Cobra-cega (Siphonops annulatus)

• COBRA-DE-VIDRO (Classe Reptilia/ Ordem Lacertilia): a popularmente chamada

Cobra-de-Vidro não é uma cobra, muito menos de vidro. Apesar de pertencer à mesma classe das serpentes (Classe Reptilia) e possuir o formato do corpo semelhante; as cobras-de-vidro pertencem à ordem dos Lagartos (Ordem Lacertilia ou Sauria, Família Anguidae) e podem ser reconhecidos pela presença de patas vestigiais e pálpebras móveis. Além disso, suas escamas do dorso são do mesmo tamanho que as do ventre, do tipo cicloidal, e na cabeça são semelhantes à folidose dos Teídeos.

Cobra-de-Vidro (Ophiodes fragilis)

• COBRA-DE-DUAS-CABEÇAS (Classe Reptilia/ Ordem Lacertilia): “duas-cabeças” faz referências ao fato de a cauda não afilar, tomando assim o aspecto rombudo (arredondado, ovalado) que lembra a cabeça. Pode ser distinguida de uma serpente pelo fato de suas escamas serem todas do mesmo tamanho, tanto no ventre quanto no dorso.

Cobra-de-duas-cabeças (Amphisbaena trachura)

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A Cobra-de-Vidro é Peçonhenta?

Não. A Cobra-de-Vidro na verdade é um lagarto e, como os demais lagartos brasileiros, não possui peçonha. O único lagarto peçonhento do mundo é o Monstro-de-Gila (Heloderma), que ocorre somente no México, Estados Unidos e Guatemala.

Monstro-de-Gila (Heloderma)

A Cobra-cega enxerga?

Sim, mas não como nós. A visão destes animais se restringe à percepção de mudanças de luminosidade e vultos.

As serpentes escutam?

Não, pois não possuem ouvidos. Elas sentem as vibrações do solo através do próprio esqueleto.

As serpentes tem nariz? Não, mas possuem narinas, que são orifícios de entrada e saída de ar.

As Cobras-d’água tem brânquias?

Não, elas tem pulmões e narinas modificadas que aprisionam o ar enquanto mergulham. Lembramos que mussum e moréia são peixes, e não serpentes.

Cobra-d’água (Helicops infrataeniatus) respirando na superfície.

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As serpentes que vivem dentro d’água são peçonhentas?

No Brasil, as serpentes que vivem na água não são peçonhentas, fato que, aliás, deve ter originado a crença de que, ao entrar na água, a serpente deixa seu veneno numa folha. Entretanto, nada impede que nos deparemos com uma jararaca (Bothrops jararaca) dentro d’água, enquanto ela atravessa um córrego ou um rio. As serpentes marinhas são peçonhentas (Tanatofídios), mas não ocorrem no Brasil.

O que é a Fosseta Loreal?

É um órgão encontrado no grupo dos Crotalíneos. Consiste em um buraco entre o olho e a narina em cada lado da cabeça, que serve para a serpente perceber modificações de temperatura a sua frente. Por isso elas podem se movimentar e caçar a noite, mesmo sem a visão normal.

Quantas espécies de serpentes existem?

No mundo todo existem, aproximadamente, 2500 espécies. Destas, 250 são conhecidas no Brasil, das quais 70 são consideradas peçonhentas.

Quais são as serpentes peçonhentas do Brasil? No Brasil as serpentes peçonhentas pertencem a dois grupos e quatro gêneros:

• CROTALÍNEOS: são caracterizados por apresentarem fosseta loreal, cabeça triangular recoberta com escamas pequenas, escamas dorsais quilhadas e sem brilho e dentição solenóglifa. Este grupo divide-se em três gêneros:

* Bothrops: ponta da cauda lisa. Ex: Jararaca, Cruzeira. * Crotalus: ponta da cauda com guizo ou chocalho. Ex: Cascavel.

* Lachesis: ponta da cauda com escamas arrepiadas. Este gênero não ocorre no Rio Grande do Sul. Ex: Surucucu pico-de-jaca.

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• ELAPÍNEOS: não apresentarem fosseta loreal, a cabeça é arredondada e recoberta com escamas grandes (placas), escamas dorsais lisas e brilhantes, com anéis pretos, vermelho e brancos e dentição proteróglifa. No Brasil é representado por um só gênero:

*Micrurus: Ex: Coral-Verdadeira.

Como podemos rapidamente identificar uma serpente peçonhenta de uma nãopeçonhenta? Veja o Fluxograma abaixo:

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Como diferenciar uma Coral Falsa de uma Verdadeira?

Para o Rio Grande do Sul vale a regra do anel e faixa. As Corais-Verdadeiras (Micrurus) possuem uma listra transversal e preta que contorna todo o corpo, os Anéis. Já nas Falsas-Corais, esta listra não encontra-se no ventre, que é de cor clara.

Qual a serpente mais peçonhenta?

No Brasil, as Corais (Micrurus) são as serpentes que possuem a peçonha mais tóxica. Entretanto, não são as principais responsáveis pelos óbitos em casos tratados; este lugar é ocupado pelas Cascavéis (Crotalus), cuja peçonha pode deixar mais seqüelas quando comparada à das Corais.

O que faz uma serpente ser peçonhenta?

Como as serpentes engolem seu alimento inteiro, sua saliva evoluiu bastante para auxiliar na digestão, tanto que em algumas serpentes esta se tornou tóxica e mortal. Além disso, algumas serpentes evoluíram também na forma de seus dentes. Assim, as serpentes são classificadas quanto à dentição como:

• ÁGLIFA: serpentes com todos os dentes iguais, sem presas. Ex: Sucuri, Dormideira, Boipeva.

• OPISTÓGLIFA: serpentes que possuem as presas na região posterior da boca. Ex: Cobra-cipó, Muçurana, Papa-pinto.

• PROTERÓGLIFA: serpentes que possuem as presas na região frontal da boca. Ex: Coral, Naja, Serpentes marinhas.

• SOLENÓGLIFA: serpentes que possuem as presas móveis e na região frontal da boca. Ex: Jararaca, Cascavel, Surucucu pico-de-jaca.

Qual a diferença entre ser Picado e Mordido por uma serpente?

Ao picar as serpentes normalmente contraem parte do seu corpo e a arremetem contra a vítima, a meio-caminho a boca se abre, as presas se posicionam perpendicularmente e penetram na vítima, enquanto os músculos em torno das glândulas se contraem; após injetada a peçonha, elas retornam a posição inicial. Já na mordida, não existe um bote como o descrito acima; a serpente crava suas presas em sua vítima, demorando mais tempo para soltá-la.

Dorso Dorso

Ventre ANEL

Ventre FAIXA

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Onde vivem as Serpentes?

Existem serpentes que vivem sob o solo, chamadas de fossoriais; na serrapilheira, as criptozóicas; sobre o solo, terrestres; sobre as árvores, arborícolas; e na água, aquáticas.

De que se alimentam as Serpentes?

Todas são onicarnívoras, ou seja, alimentam-se de animais. Elas podem ser generalistas ou eurífagos. Outras são especialistas, comem determinado tipo de vertebrado, ou mesmo de invertebrado. Nesses citamos os comedores de lesmas ou caramujos (malacófagos), anfíbios (batracófagos), répteis e anfíbios (herpetófagos), serpentes (ofiófagos), lagartos (sauriófagos), aves (ornitófagos), roedores (rodentófagos), ovos (oófagos), peixes (pisciófagos) e outros.

Dormideira (Sibynomorphus ventrimaculatus) comendo um Caracol. Corredeira (Echinanthera poecilopogon) comendo um Sapo.

Cobra-cipó (Philodryas olfersii) comendo um Pássaro. Cruzeira (Bothrops alternatus) comendo um rato.

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Como as serpentes se reproduzem?

O órgão reprodutor do macho é chamado Hemipênis. O macho introduz metade do hemipênis na fêmea para que ocorra a cópula. Como as serpentes não possuem braços ou patas que lhes permitam agarrar a companheira, para que se mantenham unidas é necessária a ação dos “espinhos” do hemipênis para prender a fêmea. Se estes espinhos realizassem movimentos durante a cópula, poderiam causar ferimentos; assim, ao contrário do que estamos acostumados, a cópula das serpentes se realiza com poucos movimentos. A cópula pode durar horas.

Hemipênis com espinhos

Os anéis do chocalho indicam a idade da Cascavel?

Não, eles indicam o mínimo de mudas da pele que ela já teve. A cada muda cresce um anel. O número de mudas não é constante durante um ano, e alguns anéis ou o chocalho inteiro podem ser perdidos caso fiquem presos em irregularidades do terreno.

Guizo de Cascavel (Crotalus sp.)

A serpente, após injetar seu veneno, ainda continua com veneno na bolsa?

Sim. Uma serpente não gasta todo o estoque de peçonha em sua bolda (glândula de peçonha) em apenas uma picada.

Quanto tempo leva uma serpente para encher a glândula de veneno?

Uma serpente demora, caso as condições sejam boas, aproximadamente 15 dias para encher novamente sua glândula de peçonha.

A Cobra-cipó é peçonhenta?

Considerando as serpentes que mais comumente são designadas por este nome poderíamos dizer que as cipós são potencialmente peçonhentas. Ou seja, por serem opistóglifas, não se pode descartar a hipótese de alguém ser atingido pela presa (colmilho ou dente inoculador). Há registros que a peçonha da serpente Philodryas olfersii levou ao óbito uma criança.

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As Corredeiras-do-Campo correm em pé atrás das pessoas?

Os músculos relacionados com o movimento das serpentes, não permitem que elas se apóiem na parte posterior e se locomovam ao mesmo tempo. Algumas serpentes podem levantar até 1/3 de seu corpo, mas não conseguem manter este equilíbrio enquanto andam. Entretanto existe no Estado uma serpente de temperamento agressivo, a Jararacussu-do-banhado (Matigodryas bifossatus), que, quando ameaçada, lança-se em disparada em direção ao fator que lhe oferece tal risco, na maioria dos casos, o homem. Esta serpente, apesar de agressiva, não é peçonhenta.

Qual é a mais peçonhenta, o filhote ou a mãe?

A peçonha sofre transformações do filhote para o adulto, o que não quer dizer que o filhote seja mais peçonhento que o adulto. Ex: os filhotes de Bothrops jararaca possuem uma fração proteolítica da peçonha muito reduzida quando comparadas aos adultos de sua espécie.

O que fazer quando for picado por uma serpente?

Se possível, capturar o animal (desde que não implique em novas picadas), e dirigir-se a um hospital o mais rápido possível. Como primeiros socorros, podemos citar:

• Não entre em pânico;

• Lave o local da picada com água limpa;

• Não passe nenhum remédio no local;

• Aplique uma bandagem sobre a picada, somente para evitar que pousem moscas;

• Remova anéis, braceletes, pois caso seja um acidente do grupo Botrópico, o membro poderá inchar e estes acessórios poderiam restringir a circulação;

• Não tome bebidas alcoólicas;

• Não corte, faça furos ou sugue o local da picada;

• Não faça torniquete ou garrote (não amarre), pois isso provoca o risco de gangrena, podendo resultar até na perda de um membro;

• Beba bastante água;

• Mantenha-se o mais imóvel possível, desde que isso não retarde o atendimento médico;

• Se possível, traga transporte até o paciente, ao invés de removê-lo.

Quais são os sintomas de uma pessoa picada por serpente?

No caso de um acidente por serpentes do gênero Bothrops, a região da picada apresenta dor e inchaço, às vezes com manchas arroxeadas e sangramento pelos orifícios da picada, além de sangramentos em gengivas, pele e urina. Pode haver complicações como infecção e necrose na região da picada e insuficiência renal. Quadro semelhante ao acidente por serpentes do gênero Bothrops, a picada pelo gênero Lachesis pode ainda causar vômitos, diarréia e queda da pressão arterial. Na picada por serpentes do gênero Crotalus, o local da picada não apresenta lesão evidente, apenas uma sensação de formigamento; dificuldade de manter os olhos abertos, com aspecto sonolento, visão turva ou dupla são os manifestações características, acompanhadas por dores musculares generalizadas e urina escura. O acidente por Micrurus não provoca no local da picada alteração importante; as manifestações do envenenamento caracterizam-se por visão borrada ou dupla, pálpebras caídas e aspecto sonolento.

_ 1Questionário organizado por LEONARDO FRANCISCO STAHNKE, a partir das dúvidas mais freqüentes trazidas ao Laboratório.

O que é o Soro-Antiofídico?

São substâncias contra veneno, eficazes como tratamento em casos de picadas de serpentes. Existem soros específicos para cada gênero:

• ANTIBOTRÓPICO: Usado em caso de envenenamento por jararacas (Gênero Bothrops);

• ANTICROTÁLICO: Usado em caso de envenenamento por cascavéis (Gênero Crotalus);

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