Folclore e sociologia em Florestan Fernandes

Folclore e sociologia em Florestan Fernandes

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GARCIA, Sylvia Gemignani. Folclore e sociologia em Florestan Fernandes. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 143-167, novembro de 2001.

Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 143-167, novembro de 2001.F

RESUMO: O folclore é, cronologicamente, o primeiro tema abordado por Florestan Fernandes em sua notável trajetória intelectual, tendo ele tratado do assunto desde os tempos de estudante de graduação da Faculdade de Filosofia em São Paulo. No conjunto de sua obra, o folclore é um assunto secundário, próprio do período de aprendizagem, um “tema morno” do início da carreira. Contudo, é nesses estudos que Florestan trava sua primeira disputa disciplinar, na qual se configura sua adesão a uma sociologia científica, baseada na sistematicidade dos procedimentos de observação e na abrangência das explicações. Nesse sentido, é possível acompanhar, no pequeno conjunto de trabalhos sobre o folclore escritos durante seu “período de formação” (1941-1953), os primeiros passos de sua definição da sociologia como ciência, recuperando-os em três linhas complementares de análise: 1. a explicação sociológica das manifestações folclóricas; 2. a explicação sociológica dos estudos folclóricos na sociedade moderna; e 3. a redefinição do folclore como método sociológico.

lorestan Fernandes tem, reconhecidamente, um papel central na institucionalização da sociologia como disciplina acadêmica e na conformação de um padrão de trabalho e de atuação intelectual dos cientistas sociais no Brasil. Sua concepção da sociologia como ciência marca a história da configuração de um campo especializado de estudos, a história da integração do pensamento sociológico ao sistema sociocultural brasileiro e a história das relações entre sociedade e ciência no Brasil moderno. Já há alguns decênios, os especialistas das ciências sociais no Brasil estudam a obra de Florestan Fernandes; interpretam, adotam, debatem e criticam

Folclore e sociologia em Florestan Fernandes

PALAVRAS-CHAVE: Florestan Fernandes, sociologia, folclore, ciência, cultura, Brasil.

Professora do Departamento de Sociologia da FFLCH-USP

suas idéias, enfocando-as de diversas perspectivas, movidos por diferentes preocupações e investigando problemas variados. De fato, a obra de Florestan abre um leque de numerosas possibilidades de interrogação, que está ainda muito longe de ter sido esgotado. Por isso, as diversas perspectivas de análise do pensamento sociológico de Florestan dependem, em primeiro lugar, da riqueza de sua obra mas também resultam diretamente dos próprios desenvolvimentos contemporâneos do pensamento sociológico. O primeiro tipo de análise que se desenvolveu sobre Florestan Fernandes tomou a forma de tentativas de sistematização de sua obra, especificamente, de sua teoria da sociedade brasileira, distintiva da chamada “segunda fase” de sua trajetória acadêmica que tem seu início, em geral, demarcado em meados dos anos 60. Buscando identificar as características fundamentais de seu pensamento, os intérpretes, nesse tipo de texto, tendem a concentrar-se nas obras maduras desse período, principalmente, em A revolução burguesa no Brasil.1A produção sobre Florestan ganha outro ímpeto pelas mãos de seus críticos, pesquisadores da história do pensamento social no Brasil que analisam criticamente os fundamentos de seu padrão sociológico acadêmico e as implicações de sua hegemonia na sociologia brasileira para a história da disciplina e da reflexão social e política no Brasil. Debatendo o seu modelo de ciência, de filiação racionalista, essa crítica concentra-se no desvelamento dos pressupostos de sua perspectiva sociológica, de suas abordagens, métodos e categorias.2A mais recente e também muito fértil linha de investigação sobre Florestan é aquela desenvolvida no âmbito da história das ciências sociais no Brasil que explora, em diferentes vertentes, o enfoque sociológico de análise das práticas científicas e intelectuais como sistema de ação social.3

O conhecimento produzido por essas diversas linhas de análise define, portanto, a possibilidade de investigações mais específicas.4Nessa diretriz insere-se a pesquisa acerca da constituição de sua concepção sociológica em seu “período de formação”, da qual fazem parte as reflexões expostas neste artigo.

Tendo como objetivo central reconstruir os primeiros passos da formação de sua posição teórica racionalista, busco, nesta leitura, acompanhar a concepção de sociologia científica que se conforma e expressa nos trabalhos sobre o folclore realizados entre 1941 e 1953, intervalo de tempo considerado, aqui, como “período de formação”.

Como todo recorte cronológico, este também tem um caráter arbitrário e define-se em função de um eixo central de abordagem. Neste caso, o marco inicial corresponde à data do trabalho de aproveitamento acadêmico, escrito quando ainda era aluno do primeiro ano do curso de ciências sociais e políticas da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, que se transformará nas primeiras publicações de Florestan, a partir de 1942. O marco final propõe demarcar o início da maturidade profissional e intelectual. De fato, em 1953, Florestan defende sua tese de livre-docência, alçando-se aos níveis superiores da hierarquia da carreira institucional. Em seguida, passa a dirigir um programa de pesquisa

1 Cf., por exemplo, Cohn, 1986 e 1987, Ianni, 1989, Arruda, 1996, Paiva, 1991 e 1997 e Cardoso, 1996 e 1997. 2 Cf., em especial, Santos, 1967, 1970 e 1978 e também Maggie, 1993 e Oliveira, L., 1995. 3 Cf., principalmente,

Arruda, 1995a e 1995b; Miceli, 1989 e 1995 e também Oliveira, R., 1988. 4 Cf., por exemplo, Castro & Cunha, 1996 e Peirano, 1983.

GARCIA, Sylvia Gemignani. Folclore e sociologia em Florestan Fernandes. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 143-167, novembro de 2001.

no âmbito da cadeira de sociologia I. Entre 1953 e 1954, portanto, Florestan chega à maturidade enquanto sociólogo consagrado na academia, atuando como diretor de pesquisa, chefe de equipe e formador de novas gerações. Além disso, data desse mesmo ano a conferência sobre a crise da democracia no Brasil, pronunciada no Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política, vinculado ao governo federal. Na perspectiva geral de interpretação que orienta este estudo, a conferência marca o início de um novo momento da trajetória de Fernandes, quando sua prática de sociólogo desdobra-se em intervenções no debate dos problemas políticos nacionais mediante a crítica racional, aplicando os procedimentos especializados nos quais foi treinado na academia para a consideração das questões públicas, em um tipo de atuação característico do intelectual moderno.

A produção de Florestan durante esse pequeno intervalo de tempo é bastante ampla e diversificada. A presente exposição, entretanto, limita-se à leitura interna de um pequeno conjunto de trabalhos que favorece a investigação das características de sua posição quanto ao problema da natureza científica do estudo dos fenômenos sociais. Em seus textos sobre o folclore realizados durante o período em questão é possível explorar com algum detalhe a perspectiva e os problemas relativos à definição do enfoque sociológico delimitados pelo problema complementar da definição do estatuto disciplinar do folclore. Como se pode notar, essa exposição não dá conta do desenvolvimento completo de nenhuma linha de pesquisa de Fernandes, se assim considerarmos o conjunto de trabalhos sobre um mesmo tema e com uma mesma orientação. Mas, por outro lado, permite considerar uma perspectiva geral em formação e identificar, nela, a questão fundamental da definição do caráter científico da sociologia e da delimitação das fronteiras entre diversos tipos de saberes.

Tendo iniciado seus estudos sobre o folclore em um trabalho de aproveitamento do primeiro ano do curso de graduação, Florestan vai desenvolvê-los, especialmente ao longo da década de 40 e meados da década de 50, em um conjunto de investigações sobre elementos do folclore paulistano e brasileiro que definem uma abordagem propriamente sociológica para a interpretação dos fenômenos sociais ligados à transmissão de uma tradição cultural. Essa definição constrói-se em contraposição direta ao folclore como campo específico de estudos, por intermédio de uma crítica severa dos trabalhos de estudiosos da cultura tradicional e popular brasileira. Florestan trava uma longa discussão com os folcloristas, veiculada, em especial, em artigos escritos para O Estado de S. Paulo, embora ela seja indissociável de seus trabalhos de pesquisa. O jornal é, entretanto, uma tribuna pública e Florestan esmera-se na performance, iniciando, segundo Cavalcanti & Vilhena (1990), o processo de marginalização do folclore do

campo dos estudos acadêmicos de sociologia e antropologia no Brasil. Os folcloristas agrupam-se em uma das vertentes de estudos impulsionadas pela valorização das tradições populares e da pesquisa histórica que marca o cenário cultural paulista desde os anos 20. No decênio de 30, eles organizam-se rumo à institucionalização, em torno do Departamento de Cultura da cidade, dirigido por Mario de Andrade entre 1935 e 1938.5 O auge do debate entre a sociologia e o folclore, representados respectivamente por Florestan e Edson Carneiro, só vai ocorrer na segunda metade da década de 50, quando o movimento folclórico atinge o auge no Brasil, institucionalizado na Comissão Nacional do Folclore, do Ministério do Exterior, e na Campanha Brasileira de Defesa do Folclore, do Ministério da Educação e Cultura (cf. Cavalcanti & Vilhena, 1990, p. 75).

Florestan Fernandes escreveu sobre o folclore de 1941 a 1962.6

Embora suas posições sejam reformuladas, com os estudos posteriores sobre a emergência do folclore, as linhas de estudos folclóricos em São Paulo e as distinções entre ciência e humanidades, da passagem dos anos 40 aos 50,7 a perspectiva que define sua posição racionalista está presente desde os primeiros escritos sobre o assunto, considerando que seu traço essencial refere-se à questão da natureza científica dos estudos das manifestações de culturas tradicionais. Tomando-os como um todo, os estudos sobre o folclore de Florestan Fernandes compõem duas linhas complementares de desenvolvimento: a) as pesquisas empíricas sobre elementos folclóricos brasileiros que definem uma abordagem sociológica dos fenômenos folclóricos e, consequentemente, o âmbito de utilização dos estudos folclóricos comparativos de determinação das origens; e b) a análise crítica das definições do folclore como campo de estudos e a revisão crítica da tradição dos estudos folclóricos em São Paulo.8 As concepções que sustentam os enfrentamentos em torno da definição dos campos disciplinares estão presentes em todos esses trabalhos por meio de dois elementos fundamentais e concomitantes: a adoção de uma certa abordagem sociológica e um certo entendimento da constituição dos campos do saber. Desse modo, a consideração dos trabalhos sobre o folclore é o primeiro passo para acompanhar a emergência da concepção da sociologia como ciência no pensamento de Florestan Fernandes das décadas de 40 e 50. Do ponto de vista de sua obra, o trabalho sobre o folclore tende a ser minimizado, para isso contribuindo o próprio Florestan, ao caracterizá-lo como trabalho próprio ao período de aprendizagem ou como assunto de interesse secundário. Nessa linha, o folclore compõe com os chamados “temas mornos” da primeira fase de sua trajetória intelectual, em comparação com os temas de grande impacto, ligados à teorização da sociedade de classes no Brasil, próprios a um período cujo início é identificado, em geral, ao decênio de 60. Contudo, durante os anos 40 e 50, e especialmente em São Paulo, o folclore é um tema bastante “quente”, trespassado de significações políticas e culturais que circulam em diferentes formas de conceber a cultura popular.

5 Para a história dos estudos folclóricos no Brasil nesse período, ver Rubino, 1995. Para a história da institucionalização do folclore no Brasil nas décadas de 40 e 50 ver Cavalcanti & Vilhena, 1990. 6 Nesse ano, Florestan publica seus dois últimos artigos sobre o assunto. Trata-se de duas resenhas sobre o uso do folclore na educação primária: “Brincando de roda” e Jogos para recreação na escola primária, publicados, respectivamente, no Suplemento literário d’O Estado de S. Paulo n. 265 de 20 de janeiro e no Suplemento literário n. 268 de 10 de fevereiro e reproduzidos em Fernandes, 1989, p. 197-202. 7 Segundo Fernandes, ele teve a oportunidade de aprofundar o estudo da delimitação dos campos do folclore e da sociologia em 1949 quando ministrou, junto com Roger Bastide, o curso “Sociologia e Folclore” para os alunos do quarto ano. Cf. Fernandes, 1989, p. 2.

GARCIA, Sylvia Gemignani. Folclore e sociologia em Florestan Fernandes. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 143-167, novembro de 2001.

1. Fenômenos folclóricos e socialização

De todos os trabalhos de Florestan sobre o folclore, o mais conhecido é As trocinhas do Bom Retiro,5 que expõe de modo mais sistemático tanto os dados coletados em São Paulo6 quanto sua análise sociológica do folclore infantil. Inicialmente, essa abordagem foi, entretanto, desenvolvida nos dois primeiros artigos de Fernandes, Folclore e grupos infantis, de 1942, e Educação e cultura infantil, de 1943, razão pela qual inicio por eles a exposição de sua perspectiva sociológica para o estudo do folclore. A idéia básica de Folclore e grupos infantis(Fernandes, 1979, p. 377-386), exposta com base em dados de diversos bairros da cidade,7 é que o folclore exerce uma função socializadora através da reprodução de uma tradição cultural específica. A tese central, que conclui o pequeno texto, sustenta o entendimento do grupo infantil como “uma suave introdução à sociedade, humanizando e nacionalizando a criança” (p. 386). O eixo da análise é, portanto, a identificação da função socializadora do folclore enquanto elemento da cultura infantil. O grupo, as inter-relações de seus membros dentro do grupo, a organização interna, as regras de convivência são os aspectos sociologicamente relevantes para uma leitura que quer mostrar como a tradição promove e organiza a socialização das crianças. O ponto de partida está em tomar os fatos folclóricos como fatores de associação (p. 377), direcionando, portanto, a análise para o grupo infantil, base social das atividades recreativas, e suas relações com a tradição sociocultural. Se o grupo infantil é a base social das atividades recreativas, não é, contudo, a sua causa; ao contrário, o folclore é o motivo do agrupamento. O folclore foi produto da vida social no passado e em geral da cultura adulta, passando posteriormente para a cultura infantil. No presente, não é a vida social dos grupos infantis que gera os elementos folclóricos, mas são os elementos tradicionais que provocam e organizam a experiência social das crianças no interior dos grupos de folguedos. Definem-se assim os aspectos socializadores do folclore através da diferenciação entre cultura adulta e cultura infantil para, analisando o funcionamento desta última, mostrar como ela atualiza para as crianças os mesmos padrões da cultura adulta, reafirmando dessa maneira a unidade dos valores e padrões de conduta de uma sociedade. Assim, a independência da cultura infantil em relação aos adultos aumenta a eficácia da socialização, digamos, pela prática. Dentro dos grupos, as crianças praticam a solidariedade e a disciplina, o respeito às regras e à hierarquia em relações de interação entre iguais e em função da cultura tradicional da sociedade em que estão inseridas.

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