Folclore e sociologia em Florestan Fernandes

Folclore e sociologia em Florestan Fernandes

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Florestan aponta para o papel socializador do folclore tanto nos conteúdos dos folguedos, que iniciam a criança nos padrões tradicionais de uma cultura, quanto na organização interna e entre os grupos, isto é, nas relações sociais infantis, que ensinam solidariedade e disciplina aos imaturos. A primeira dimensão é demonstrada a partir dos conteúdos substantivos dos folguedos que ensinam as regras das relações sociais. Neste texto, Florestan

8 Originalmente veiculada em revistas especializadas e jornais de grande e média circulação, a maior parte da produção de Fernandes sobre o folclore será posteriormente agrupada em dois livros: Fernandes, 1979 e 1989. Na primeira edição de Folclore e mudança social na cidade de São Paulo, de 1961, Fernandes reúne diversos estudos e artigos sobre o folclore como manifestação cultural e alguns ensaios sobre o estudo do folclore, todos encabeçados pelo artigo de 1959, O folclore de uma cidade em mudança, que coloca o estudo empírico do folclore no registro de uma investigação sobre os processos sócio-culturais de transformação da sociedade tradicional em uma cidade especialmente atingida por transformações de caráter moderno tais como a urbanização, a industrialização e o avanço das concepções seculares do mundo. Reorganizada, a segunda edição de Folclore e

refere-se, em especial, aos folguedos que veiculam os valores e padrões de conduta do amor-romanesco ou amor-namoro, isto é, a concepção ocidental do amor. Através de seus conteúdos, os jogos e brincadeiras preparam a criança para as atitudes adequadas nas relações amorosas e sexuais que, assimiladas, permanecerão no indivíduo adulto. Incorporando as idéias de Emílio Willems sobre a assimilação de estrangeiros (Willems, 1940), Fernandes aponta ainda para a função aculturadora do folclore infantil que, promovendo a assimilação da criança imigrante, facilita, por seu intermédio, a aculturação de sua família na sociedade brasileira. A segunda dimensão da socialização pelo folclore provém da observação do funcionamento interno dos grupos, quando Florestan descreve as relações, os conflitos e a solidariedade entre crianças pequenas e crianças maiores, meninos e meninas, crianças de um mesmo grupo e membros de diferentes troças, brasileiros, estrangeiros e filhos de estrangeiros, crianças pobres, ricas e de classe média.

De fato, a maior parte do artigo concentra-se nessa descrição da composição, organização e funcionamento dos grupos infantis. Reproduzindo, de uma forma bastante esquemática, as principais características: as troças e trempas são grupos estáveis, de vizinhança, que só admitem ádvenas excepcionalmente e, em geral, através de rituais de chegada dos novos membros. Os grupos são abertos às crianças pequenas de ambos os sexos mas, a partir da puberdade, dividem-se rigidamente em meninos e meninas. Os trangressores são punidos com as “xingações” que fazem referência às identidades sexuais desviantes em relação ao padrão definido pela tradição – para os meninos, “mariquinhas”, para as meninas, “mulecona”. As meninas, organizadas em trempas, são mais tolerantes com as crianças menores. Os grupos de meninos – as troças – têm uma forte consciência grupal (manifestada na autodesignação como “trocinha”), uma regulamentação interna mais complexa e desenvolvem atividades mais violentas, tanto dentro do grupo – as sanções pelo não cumprimento dos deveres – quanto em relação a grupos rivais – nas competições de futebol e nas “guerras” de paus e pedras nos terrenos baldios. Os grupos infantis possuem, portanto, uma hierarquia interna e um conjunto de direitos, deveres e sanções. Outra é a situação quanto à composição de classe. Apesar dos limites dos dados, que não cobrem todas as zonas ecológicas da cidade, e do fato das meninas valorizarem bastante a posição social dos membros do grupo, as troças e trempas são compostas por crianças pobres e, em menor escala, por crianças de classe média, podendo haver algumas de famílias mais ricas. Assim, “de um modo geral e, portanto, nem sempre exato, predomina o espírito democrático” (Fernandes, 1979, p. 382). Também quanto a diferentes nacionalidades e etnias, não há grandes barreiras. Os dados de 15 bandos de meninos e 20 de meninas mostram a convivência de brasileiros, estrangeiros e filhos de estrangeiros, sugerindo “que, em meio de tal heterogeneidade deve, por força, haver tolerância mútua” (Fernandes, 1979, p. 383). Finalmente, a organização interna das trocinhas se faz em função dos próprios folguedos. As cri- mudança social na cidade de São Paulo (1979) agrega especificamente os estudos sociológicos sobre manifestações folclóricas em São Paulo enquanto O folclore em questão (1989) congrega as análises críticas do folclore como campo de estudos e, especificamente, dos estudos folclóricos no Brasil. 9 Escrito em 1944 e publicado parcialmente em 1947, sem a Introdução na qual Florestan baseia-se para escrever o artigo, de 1945, Sobre o folclore. 10 Florestan coletou dados sobre folclore infantil, cantigas, adivinhas, práticas mágicas, jogos de pulha, contos e lendas, ditos e provérbios em diversos bairros da cidade, tais como Brás, Bela Vista, Lapa, Pinheiros, Bom Retiro, Cambuci, Pari, Belém e Penha (cf. Fernandes, 1979, p. 157). 1 Florestan coletou dados sobre as trocinhas e as trempas no Brás, na Bela Vista, na Lapa, em Pinheiros e no Bom Retiro (cf. Fernandes, 1979, p. 157).

GARCIA, Sylvia Gemignani. Folclore e sociologia em Florestan Fernandes. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 143-167, novembro de 2001.

anças respeitam sua ordem e o modo como dispõem os jogos e brinquedos. Os folguedos, além de causa desses grupos infantis estáveis, determinam, também, sua estrutura e organização. Neles, a criança aprende, entre iguais, a disciplina e a solidariedade social conforme uma certa cultura tradicional.

Na mesma linha desenvolve-se Educação e cultura infantil

(Fernandes, 1979, p. 386-397). Nele, Florestan retoma a idéia básica do grupo infantil como “um grupo de iniciação” (Fernandes, 1979, p. 386) à vida social. O objetivo é enfatizar o aspecto educador da cultura infantil, mostrando como, através dos folguedos, as crianças adquirem os padrões de conduta e os valores culturais da comunidade. Apoiando-se em Raum e em Piaget (cf. Fernandes, 1979, p. 386-387), trata-se, basicamente, de contestar a idéia que explica a presença dos elementos da cultura adulta na cultura infantil pela imitação. Quando a criança brinca de “papai e mamãe”, “comidinha” ou “casinha”, ela não imita o seu pai ou a sua mãe pois, no brinquedo, “pais e mães são entes gerais, representam uma função social” (cf. Fernandes, 1979, p. 387). O papel dos folguedos, enquanto elementos da cultura infantil, é, então, apresentar para os iniciantes, já elaborados, os padrões sociais de conduta da cultura adulta tradicional. Ao executá-los, as crianças não são levadas a imitar indivíduos, mas a adquirir padrões de comportamento correspondentes a certas funções sociais. A idéia central do artigo possibilita uma maior utilização do material folclórico coletado, diversamente do artigo anterior no qual a ênfase na descrição e caracterização dos grupos abre mais espaço para os dados sobre a organização e o funcionamento das trocinhas e trempas do que para os conteúdos dos folguedos. Por meio da análise das brincadeiras de “casinha”, ou “papai e mamãe”, Florestan busca demonstrar o duplo caráter do grupo infantil: grupo de iniciação e de antecipação da vida adulta do indivíduo. Nele, a criança aprende, na medida em que participa dos folguedos, os valores positivos e negativos básicos da sociedade, relativos ao amor romântico, ao namoro, ao casamento, à família, à fidelidade, ao incesto, conformando o indivíduo ainda imaturo aos valores e padrões de conduta da cultura tradicional em que se insere. A socialização no grupo infantil não se restringe ao aprendizado de relações específicas entre membros da comunidade, mas abarca também o aprendizado de regras sociais e de comportamento em uma situação privilegiada, já que a criança obedece espontaneamente às regras de funcionamento do grupo. O grupo infantil fornece, assim, elementos de base para a formação de personalidades ajustadas às formas que tomam as relações sociais em certa tradição cultural. É a opinião pública tradicional que fala nos folguedos, ensinando ludicamente às crianças como se vive em certa sociedade, o que se deve fazer, como se deve fazer e o que é proibido e castigado. Desse modo, revela-se a função que o grupo infantil exerce para a continuidade cultural. Ainda que de modo sucinto, Florestan aponta para a problematização desse aspecto da cultura infantil. Considerando que os padrões de com-

portamento que a criança adquire na infância podem orientar sua conduta de indivíduo adulto e que o grupo incorpora antigos elementos transferidos da cultura adulta do passado para a cultura lúdica do presente, “a ação do grupo infantil, nesse setor, se não é negativa, pelo menos se orienta no sentido do conservantismo cultural, contrabalançando a influência do ‘progresso’” (Fernandes, 1979, p. 394).

A descrição detalhada das duas análises demonstra claramente a perspectiva generalizante a partir da qual Florestan aborda o folclore infantil, buscando identificar as funções que ele desempenha para a manutenção de uma certa identidade coletiva, atuando diretamente na socialização dos indivíduos desde a infância. A idéia da sociedade como totalidade coloca, desde o início, o problema da socialização do indivíduo, ou seja, os modos pelos quais os indivíduos são conformados pelo sistema sociocultural em que se inserem. Assim, pode-se notar uma tendência para articular o enfoque sociológico ao psicológico, na investigação dos modos como os membros individuais internalizam os padrões de conduta e os valores de uma certa sociedade, inserida em uma tradição cultural. O enfoque sociológico não está apenas na representação do social como uma totalidade, mas também no desenvolvimento da análise do folclore a partir do estudo do grupo social que o pratica. Pela investigação do grupo e dos usos que faz do folclore, Florestan aborda-o como ‘cultura infantil’, isto é, como um sistema parcial de um sistema sociocultural mais geral ao qual o primeiro vincula-se e em relação ao qual se define sua função, isto é, os resultados úteis que produz para a satisfação de necessidades gerais da estrutura social. Na busca desses vínculos, Florestan investiga as formas pelas quais um sub-sistema ligase ao sistema social geral, na trilha da perspectiva analítica desenvolvida por Durkheim e Mauss para o estudo dos fenômenos sociais. Por essa via, Florestan afasta-se bastante do tipo de abordagem dos estudos folclóricos que, desprovida de uma perspectiva totalizante de interpretação, concentrase na coleta, descrição e estudo comparativo de elementos folclóricos tendo em vista o estudo de suas origens. Mas isso não quer dizer que ele descarte o estudo das fontes; ao contrário, Florestan trabalha o tempo todo com o enfoque folclorista, o que tem consequências específicas no modo como ele enfrenta os problemas das definições disciplinares.

O primeiro trabalho de estudo de fontes de Fernandes é Congadas e batuques em Sorocaba, de 1943 (Florestan, 1972, p. 239-255). O pequeno texto é basicamente descritivo das congadas e dos batuques observados em Sorocaba, resguardando a característica sociológica da abordagem na exposição da organização e da composição dos grupos e do funcionamento geral das congadas naquela comunidade. Mas a discussão central do artigo se faz em torno da relação entre a versão colhida em Sorocaba e o problema das origens desses autos populares representados exclusivamente pelos pretos nos períodos de passagem de ano. Florestan dialoga diretamente com os folcloristas e, com base nos dados coletados, alinha-se à posição de Artur Ramos, reafir-

GARCIA, Sylvia Gemignani. Folclore e sociologia em Florestan Fernandes. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 143-167, novembro de 2001.

mando o caráter definitivamente sincrético do folclore negro no Brasil, onde as tradições africanas misturam-se às influências ibéricas. Trata-se pois do primeiro texto no qual Fernandes lança mão do trabalho tipicamente folclorista de busca das origens de elementos folclóricos, posterior aos primeiros dois textos nos quais o material sobre o folclore infantil é abordado tendo em vista entender seus efeitos de socialização e aculturação das crianças.

N’As trocinhas do Bom Retiro (Fernandes, 1979, p. 153-258), podese observar como ele junta as duas abordagens e propõe a caracterização do folclore como um método de trabalho dos estudos sociológicos do folclore. Confrontando sua nota explicativa com o prefácio de Roger Bastide, o que ressalta imediatamente é que Florestan apresenta o uso simultâneo dos dois enfoques como um problema, enquanto Bastide, ao contrário, considera a dupla abordagem altamente profícua para o desenvolvimento das ciências do homem. Segundo Bastide, não se deve temer “esclarecer uma ciência pela outra” e é isso que Florestan realiza nesse trabalho no qual a análise dos grupos infantis e a dos elementos do folclore infantil do Bom Retiro ligam-se em “uma unidade orgânica” pois, se é verdade, como aponta Florestan, que o estudo do folclore serviu para esclarecer o estudo sociológico, também a relação recíproca é verdadeira, ou seja, a sociologia esclarece o folclore pois somente pelo estudo dos grupos será possível entender as funções de elementos folclóricos tradicionais cujas significações antigas desapareceram no presente.

Para Fernandes, por sua vez, o estudo do folclore brasileiro “como padrões costumeiros de comportamento, em relação concreta com a conduta individual” (Fernandes, 1979, p. 156), embora recente, necessita, no presente, de uma renovação que impulsione seu desenvolvimento teórico e metodológico. O uso concomitante da perspectiva sociológica e do enfoque folclórico, entretanto, pode gerar confusões. É nesse momento que Florestan, como diz Bastide, “desculpa-se” pela dupla abordagem. De fato, Florestan o faz, mas justifica em seguida o duplo aspecto do estudo pelas próprias características do material recolhido. O procedimento é esclarecedor da combinação de ortodoxia e heterodoxia em Florestan Fernandes. Embora apresente a dupla abordagem como um problema, ele a pratica, justificando-a nos termos dos problemas concretos da realização de uma pesquisa específica. Segundo ele, o problema surgiu a partir do material coletado já que parecia insuficiente restringir-se à indicação das fontes remotas dos elementos do folclore infantil paulistano, isto é, limitar-se ao estudo do “mecanismo de desenvolvimento interno dos fatos folclóricos” (Fernandes, 1979, p. 157). A atenção volta-se para os grupos infantis como modo de investigar as formas sociais correspondentes aos conteúdos culturais dos fenômenos folclóricos. Desse modo, diz Fernandes, o enfoque folclórico e o enfoque sociológico revelam sua complementaridade, o primeiro servindo de subsídio para o segundo de modo que “pode-se, mesmo, falar na utilização do folclore como um método de trabalho”. A preocupação com a ortodoxia disciplinar é central, mas Florestan enfrenta o problema subordinando-o às necessidades das investigações concretas, em um movimen-

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