Folclore e sociologia em Florestan Fernandes

Folclore e sociologia em Florestan Fernandes

(Parte 5 de 6)

Em Contribuição para o estudo sociológico das adivinhas paulistanas, Florestan Fernandes trabalha com um conjunto de dados por ele coletados em São Paulo,16 composto de 61 adivinhas, 7 ‘problemas’ e 4 ‘perguntas’. Segundo ele, seu estudo comparativo de diferentes versões registradas em várias localidades do Brasil para a investigação das fontes imediatas tem um alcance modesto, pois pára aonde deveria começar o estudo folclórico propriamente dito, de pesquisa das fontes mediatas. Contudo, ele fornece alguns elementos para o enfoque sociológico das adivinhas, voltado para o exame da função que elas desempenham nos processos de manutenção ou modificação das estruturas sociais. A análise folclórica das adivinhas paulistanas permite algumas inferências, em especial, “que a persistência relativa da estrutura formal das adivinhas e a conservação quase normal de suas significações se explicam pela coerência das mesmas com o contexto cultural do meio social ambiente” (Fernandes, 1989, p. 318). Buscando interpretar os fenôme-

15 Cf. Sobre o folclore.

Fernandes, 1989, p. 48. 16 Cf. a nota 10.

nos de um ponto de vista dinâmico, os folcloristas concentram a atenção nos modos de manifestação das tradições no comportamento humano, investigando as maneiras como as pessoas contam as adivinhas e atentando para quem as conta. Considerando o material por esse ângulo, o que ele sugere é que a forma da integração das adivinhas à vida social está transformando-se profundamente em São Paulo.

O estudo comparativo do material sobre as adivinhas em diversas localidades do país indica “duas sequências características no desenvolvimento social do foclore brasileiro” (Fernandes, 1989, p. 323). Uma, em que as adivinhas atuam como uma força social construtiva, inseridas dinâmicamente nas situações sociais de vida, abrindo espaço, em sua plasticidade, para a imaginação criadora dos agentes sociais. Outra, em que as adivinhas atuam como força social construtiva somente no sentido conservativo; embora penetrem as condições da vida social, tornam-se rígidas, ossificadas na forma e na significação e ficam, assim, comprometidas quanto ao contexto subjetivo, relativo aos anseios, às emoções e às idéias dos agentes sociais. O que a segunda sequência expressa é a quebra da unidade entre o ritmo de vida psíquica e o ritmo de vida social, antes garantida pela vigência plena das tradições. As duas sequências evolutivas correspondem, então, a duas épocas da ‘sociedade de folk’ – a expressão de Fernandes corresponde à “era da comunidade” de Ferdinand Tonnies (cf. Fernandes, 1979, p. 326)–, a segunda representando uma fase estrutural na qual se engendra um novo estilo de vida na organização social, devido à transição incipiente para uma forma social urbana. Nessa linha de observações, os dados podem sugerir que as adivinhas paulistanas constituem “sobrevivências” – no sentido preciso usado pelos etnólogos, de perda de função –, resíduos culturais, os últimos vestígios da fase anterior da sociedade de folk. Os principais argumentos para essa idéia são: a conservação de adivinhas cujos temas são anacrônicos em relação à vida urbana; o alto grau de ossificação da estrutura formal e do significado das adivinhas em São Paulo; sua função recreativa restrita a relações circunstanciais entre indivíduos. O caráter recente do processo de urbanização em São Paulo e a composição heterogênea da população condicionariam a “demora cultural”, que explicaria assim a preservação. Contudo, uma questão não se esclarece. A utilização das adivinhas em São Paulo não responde a necessidades sociais? Se assim for, elas não podem ser caracterizadas como “sobrevivências”.

As condições sociais da forma de recreação associada às adivinhas transformou-se profundamente em São Paulo. Florestan comenta essas transformações em detalhe e, em seguida, condensa-as sintéticamente: quanto à forma de integração à vida social: alto grau de individualização e secularização e criação de significados suplementares, que dão sentidos atuais à exteriorização; quanto ao modo de exteriorização: explanação verbal rápida em que o agente desempenha todos os papéis ativos; incorporadas em diversas situações sociais de vida em regra como passatempo momentâneo;

GARCIA, Sylvia Gemignani. Folclore e sociologia em Florestan Fernandes. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 143-167, novembro de 2001.

quanto à função social: lubrificação das relações sociais; as adivinhas fazem parte dos “assuntos neutros” que servem para facilitar a proximidade em contatos entre estranhos; quanto aos atributos culturais objetivos: são representadas pelos sujeitos como uma modalidade de “jogos de espírito”; as adivinhas arcaicas mostram-se tão ossificadas na estrutura formal e na significação que o processo de formação de variantes expressivas praticamente esgotou-se.

Vê-se, portanto, que embora tenham perdido o suporte das tradições, as adivinhas encontraram uma expressão adequada à vida social urbana e um sentido atual nas regras da “sociabilidade convencional”. A técnica recreativa de formulação das adivinhas conformou-se socialmente às condições de vida urbana, satisfazendo necessidades características das relações humanas na cidade. Assim, não se caracterizam como sobrevivência, mas reproduzem-se como técnica, graças à coerência com as condições sociais da vida urbana e a plasticidade diante das inovações, em especial quanto ao modo de exteriorização. Além disso, sua configuração atual na cidade distingue-se das duas épocas da sociedade de folk, principalmente pelos aspectos ligados ao contexto social, que são os mais dinâmicos. Florestan afirma, então, a título de hipótese empiricamente baseada, que a configuração observada em São Paulo é típica, representando uma época característica, definida como uma fase de transição entre a sociedade de folk e a plena reintegração das técnicas de folk ao cosmo urbano.

O aproveitamento sociológico dos resultados da análise folclórica permitiu, assim, abordar as adivinhas do ponto de vista da estática e da dinâmica da cultura, em suas conexões com a transformação da estrutura social. Como objetivações culturais com origem, estrutura formal e significação, elas apresentam alto grau de estabilidade; em suas vinculações com a estrutura social, revela-se uma estabilidade parcial pois satisfazem a necessidades sociais diversas, próprias à vida urbana. Trata-se, portanto, de uma configuração com caracteres mistos, que compreende elementos tradicionais e elementos atuais, que emergem das convenções do meio social urbano.

A exposição detalhada da análise das adivinhas paulistanas dispensa, em meu entender, comentários sobre o uso que Florestan dá aos estudos folclóricos para o estudo desse fenômeno cultural. O ponto que se torna notável quando se considera os dois textos em sequência é a diferença entre o diagnóstico negativo a respeito das potencialidades heurísticas do enfoque folclórico e o tipo de aproveitamento que Fernandes consegue fazer do folclore, usando-o, exatamente como diz no primeiro texto, para abrir perspectivas, sustentar hipóteses explicativas e esclarecer problemas. Uma explicação possível poderia basear-se no intervalo de tempo que separa os dois textos, sugerindo que Florestan tivesse alterado sua posição em relação aos estudos folclóricos, mas certamente não é esse o caso. Como já mencionei, Florestan escreve com alguma regularidade sobre o folclore, especialmente, resenhando novas publicações na área. Em

todos esses trabalhos, ao longo da década de 40 e durante o decênio seguinte, sua leitura crítica do enfoque folclórico, tal como exposta acima, é reafirmada. Também em suas análise dos estudos folclóricos em São Paulo, incluindo os trabalhos sobre as contribuições de Amadeu Amaral e Mario de Andrade, a interpretação tem por eixo central a análise dos procedimentos, concepções e objetivos, pautando-se recorrentemente pelos critérios de produção de conhecimento positivo para avaliar o alcance e mesmo a consistência das contribuições de renomados folcloristas de São Paulo. No mesmo sentido, em sua análise dos estudos folclóricos em seu desenvolvimento histórico em São Paulo, é central a preocupação em examinar as concepções vigentes em certos períodos ou no trabalho de alguns importantes folcloristas, do passado e do presente, em si mesmas e quanto à precisão com que os estudiosos aplicam-nas em seus trabalhos concretos. A mudança da concepção do folclore como método para o folclore como uma disciplina humanística17 não implica nenhuma mudança quanto ao modo como Fernandes orienta seus exames da produção dos folcloristas e cientistas sociais, avaliando suas realizações a partir de uma concepção dos processos de investigação que definem a consistência – ou não – dos resultados, considerados menos em si mesmos do que como resultados de procedimentos rigorosamente adotados ou, ao contrário, como fruto de investigações carentes de sistematicidade. Desse modo, o ponto em questão é revelador da posição científica de Fernandes, e do lugar central que o rigor de procedimentos empíricos e teóricos de pesquisa nela ocupa.

Com base na exposição de Imre Lakatos das características do indutivismo enquanto uma metodologia moderna, ou seja, como um conjunto de regras para a avaliação de teorias já elaboradas a partir do qual se desdobram teorias da racionalidade científica, critérios de demarcação e definições de ciência, pode-se observar que o indutivismo define-se por um “rigor científico estrito” (Lakatos, 1974, p. 13), aceitando como científicas somente dois tipos de proposições: as proposições que descrevem dados empíricos consistentes e as que generalizam as primeiras por inferências indutivas precisas. Consequentemente, a crítica indutivista da produção intelectual tende a basear-se exclusivamente nesse critério de ciência; aplicando-o, o historiador indutivista caracteriza as idéias que analisa predominantemente em termos de sua natureza científica ou não-cientifíca (ou pseudocientífica). Note-se que, desse modo, a questão principal não é a verdade ou a falsidade de uma proposição, mas o problema de sua adequação aos processos específicos que definem a natureza legítima da ciência. Pode-se observar como esse critério está presente na conformação da perspectiva crítica de Fernandes ao avaliar a produção dos folcloristas (assim como dos cientistas sociais, especificamente, e dos pensadores do social em geral).18 Desse modo, o que marca notadamente a posição de Florestan é a diretriz normativa de suas análises. A partir de sua concepção da sociologia como ciência empiricamente fundamentada e logicamente consistente, Fernandes

17 Ver Os estudos folclóricos em São Paulo. Fernandes, 1989, p. 71-110. 18 Essa é a idéia de base da crítica de Wanderley Guilherme dos Santos à análise de Fernandes da história da sociologia no Brasil: fundada na distinção exposta acima, essa história descarta toda uma tradição de reflexão e estudo sobre a sociedade brasileira, porque definida como não-científica, demarcando o início do pensamento sociológico no Brasil no momento da institucionalização acadêmica da sociologia como disciplina científica, definida, não pelo nível de suas generalizações, mas pela precisão com que aplica os critérios de construção do material empírico e as normas da indução interpretativa. Cf. Santos, 1967, 1970 e 1978 e Fernandes, em especial, 1967, 1975 e 1977.

GARCIA, Sylvia Gemignani. Folclore e sociologia em Florestan Fernandes. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 143-167, novembro de 2001.

KEY WORDS: Florestan Fernandes, sociology, folklore, science, culture, Brazil.

não está preocupado em explorar os sentidos do que os estudiosos estão fazendo, mas em definir claramente o que eles devem fazer para assegurar a racionalidade interna de suas investigações, o único modo de sustentar a objetividade e, portanto, a generalidade do pensamento, controlando assim os fatores subjetivos (irracionais) que ameaçam, com sua particularidade, o desenvolvimento da ciência, isto é, do entendimento racional da realidade social e do consequente avanço da racionalização da sociedade moderna.

Recebido para publicação em agosto/2001

GARCIA, Sylvia Gemignani. Folklore and sociology in Florestan Fernandes. Tempo Social; Rev. Sociol. USP, S. Paulo, 13(2): 143-167, November 2001.

ABSTRACT: Folklore is, chronologically speaking, the first theme taken up by Florestan Fernandes in his noteworthy intellectual journey, having dealt with this subject since his days as an undergraduate student at the Faculty of Philosophy in São Paulo. If we consider his whole work, folklore is a secondary matter, specific to his student days, a “flat theme” from the beginning of his career. However, it is in these studies that Florestan wages his first academic battle, in which his adhesion to a scientific sociology takes shape, based on the systematics of observational procedures and scope of explanations. Thus, by looking at the small group of papers on folklore written during his formative years (1941-1953), it is possible to follow the first steps of his definition of sociology as science, which can be transcribed into three complementary lines of analysis: 1. the sociological explanation for folkloric manifestations; 2. the sociological explanation for folkloric studies in modern society; and 3. the redefinition of folklore as a sociological method.

ARBOUSSE-BASTIDE, Paul. (1940) Os métodos, os processos e as técnicas da pesquisa sociológica: aplicação às relações entre história e sociologia. Sociologia. São Paulo, (1) 4: 305-327.

ARRUDA, Maria Arminda do Nascimento. (1995a) A sociologia no Brasil:

Florestan Fernandes e a “escola paulista”. In: MICELI, Sergio (org.). História das ciências sociais no Brasil. Vol. 2. São Paulo, Editora Sumaré, p. 107-231.

_. (1995b) Formação e perfil de um sociólogo: a trajetória acadêmica de Florestan Fernandes. In: ADORNO, Sérgio (org.). A sociologia

entre a modernidade e a contemporaneidade. Porto Alegre, Editora da UFRGS, p. 117-129.

_. (1996) Arremate de uma reflexão: a revolução burguesa no Brasil de Florestan Fernandes. Revista USP. São Paulo, USP, (29): 56-65, março/abril/maio.

CARDOSO, Miriam Limoeiro. (1996) Florestan: a criação de uma problemática. Estudos Avançados. São Paulo, 10(26): 89-128, janeiro/abril.

_. (1997) Capitalismo dependente, autocracia burguesa e revolução social em Florestan Fernandes. Coleção Documentos, Série História Cultural 6, Instituto de Estudos Avançados, USP, julho.

CASTRO, Eduardo Viveiros & CUNHA, Manuela Carneiro da. (1996) Vingança e temporalidade: os tupinambás. Anuário Antropológico. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, (85): 57-78.

CAVALCANTI, M. Laura V. de C. & VILHENA, Luis Rodolfo da P. (1990) Traçando fronteiras: Florestan Fernandes e a marginalização do folclore. Estudos históricos. Rio de Janeiro, CPDOC, FGV, (3) 5: 75-92.

COHN, Gabriel. (1986) Padrões e dilemas: o pensamento de Florestan

Fernandes. In: MORAES, R.; ANTUNES, R. & FERRANTE, V. B. (orgs.). Inteligência brasileira. São Paulo, Brasiliense, p.125-148.

(Parte 5 de 6)

Comentários