Comunicação oral e escrita na Organização

Comunicação oral e escrita na Organização

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Comunicação oral e escrita nas empresas: o que há de verdade? – Yêda de Moraes Camargo

o que há de verdade?

COMUNICAÇÃO ORAL E ESCRITA NAS EMPRESAS: Yêda de Moraes Camargo

Quando se fala em Redação Empresarial, pensa-se em fórmulas de como se expressar com clareza para que a mensagem possa ser compreendida desde o porteiro, que irá lê-la, até o presidente, que poderá recebê-la, utilizando-se de um discurso 1 objetivo, direto e, como dizemos2 , inteligível.

As empresas, atualmente, buscam cursos de aperfeiçoamento em língua portuguesa, direcionado à redação comercial, muitas vezes por interesse do próprio funcionário; outras, por imposição da chefia.

A discussão maior está em como ter a independência vocabular ao elaborar um texto3 , haja vista a trajetória do ensino da língua portuguesa em nossas escolas, em nível municipal e estadual4 . Saliento, sempre, acerca da preocupação em ser um leitor contínuo de obras diversas, desde obras da literatura universal (Ilíada5 , Odisséia6

, por exemplo) a obras que acrescentem conhecimento ao dia-a-dia, procurando atualizar-se com obras

1 Segundo Dubois, J. et alli, discurso é a linguagem posta em ação, a língua assumida pelo falante. Na sua concepção lingüística moderna, o termo discurso designa todo enunciado superior à frase, considerado do ponto de vista das regras de encadeamento das seqüências das frases. A perspectiva da análise do discurso opõe-se, então, a qualquer ótica que tende a tratar a frase como a unidade lingüística terminal

3 Segundo Weinrich (1964), texto “ é uma estrutura determinativa cujas partes são interdependentes, sendo cada uma necessária para a compreensão das demais”.

4 Vivências minhas por mais de dez anos.

5 Poema épico em 24 cantos, atribuído a Homero. È a narrativa de um episódio da guerra de Tróia: Aquiles, que se tinha retirado para sua tenda após uma querela com Agamenon, volta ao combate para vingar seu amigo Pátroclo, morto por Heitor. Após ter vencido Heitor, Aquiles arrasta seu cadáver em torno do túmulo de Pátroclo e depois o entrega a Príamo, que reclamara o corpo do filho. Poema guerreiro, a Ilíada contém também cenas grandiosas ( funerais de Pátroclo) e comoventes ( as despedidas de Heitor e Andrômaca).

6 Poema em 24 cantos, atribuído, como a Ilíada, a Homero. Enquanto Telêmaco vai à procura de seu pai ( cantos I-IV) , Ulisses, recolhido, após um naufrágio, por Alcinoo, rei dos feácios, conta suas aventuras, desde a partida de tróia ( Cantos V-XIII): passou do país dos Lotófagos ao dos Ciclopes, esteve algum tempo na ilha de Circe, navegou no mar das sereias, entre Caribde e Cila, e foi durante anos retido por Calipso. A terceira parte do poema ( Cantos XIV e XXIV) narra a chegada de Ulisses a Ítaca e a astúcia que teve de empregar para afastar os pretendentes que cortejavam sua mulher, Penélope.

Comunicação oral e escrita nas empresas: o que há de verdade? – Yêda de Moraes Camargo empresariais, como

As melhores práticas em gerenciamento de projetos , de Harold

Kerzner;

O que é gerenciar e administrar , de Joan Magretta e Nasi Stone; Corrosão de caráte r – entrevistas com executivos, de Richard Sennett; Gestão de carreira na era do conhecimento , de Hélio Tadeu Martins;

A agenda e Reengenharia , de Michael Hammer;

Quem disse que os elefantes não dançam , de Lou Gerstner; A rebelião das elites e a traição da democracia , de Christopher Lashe; e outros. Estas obras são levadas para a sala de aula para que o participante se aproxime do material, folheie, leia parágrafos, abra e feche livros, leia a “orelha” destes, seja curioso quanto ao que o livro poderá oferecer-lhe, pois livro, digo constantemente, é afinidade. Se você não se identifica com a linguagem, com a sua necessidade, você não lê e, caso leia, pouco aproveita. Outros livros são levados para exposição em sala de aula: o VOLP (Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), da Academia Brasileira de Letras7 , os diversos dicionários: de sinônimos e antônimos

(Fernandes, 1991), de regência verbal (Fernandes, 1985), etimológico (Cunha, 1991), de regimes de substantivos e adjetivos (Fernandes, 1966), de idéias afins (Sargentim, s/d); gramáticas diversas, de autores reconhecidos, como Evanildo Bechara, Celso Cunha, Celso Pedro Luft, Adriano da Gama Kury, Rocha Lima, entre outros. Além destes, saliento a importância de se ter livros sobre dificuldades da língua: alguns mais simples, como Todo mundo tem dúvida, inclusive você

(Oliveira, 1994; dúvidas simples do dia-a-dia), Erros correntes da língua portuguesa (Gobbes, 1995; em ordem alfabética, apresenta dificuldades de linguagem

), Os pecados da língua (Ledur & Sampaulo, 1995; são muitos volumes, os quais lembram os diversos tropeços diários na língua portuguesa); outros, mais específicos, como Dicionário de dificuldades da língua portuguesa de Cegalla (1996; apresenta mais de 2000 palavras e expressões), e outros. O fato de o aluno ter o material ali, em sala de aula, faz com que ele se aproxime e note o que é interessante e necessário para sua vida profissional.

Há anos, as empresas, em geral, solicitavam cursos para elaboração de cartas comerciais: era preciso dar regras, clichês, frases feitas de como se iniciariam e se encerrariam as cartas, ou seja, as correspondências entre duas empresas. Então, ministrar um curso acerca da carta comercial era um chamariz para toda empresa de cursos de treinamento que pretendesse atrair secretárias, por exemplo. Antes de 1992, ou melhor,

Comunicação oral e escrita nas empresas: o que há de verdade? – Yêda de Moraes Camargo exatamente antes de 04 de março de 1992, tínhamos fechos oficiais para se colocar em ofícios ( correspondências entre órgãos em nível federal, estadual e municipal). Como exemplo: “Reiteramos os nossos protestos de mais elevada estima e consideração”.

Observa-se, portanto, que antes da Instrução Normativa no. 4 de 06.03.1992, os respectivos fechos já haviam sido abolidos pelas empresas privadas (estas utilizam cartas comerciais). Isto é, há onze anos, os fechos foram abolidos dos ofícios e, nas cartas, acredita-se que de quinze a vinte anos. Isto parece absurdo quando, hoje, ainda se lêem estas orações arcaicas em textos comerciais. E a surpresa ainda aumenta quando o funcionário questiona, em curso, o seu uso e diz que é de praxe o emprego por chefes e superiores. Não estranho tal comentário quando percebo que este uso é freqüente em departamentos da USP e também na Reitoria.

primeira impressão é a de que as empresas não investiram e não investem em treinamento

Com a evolução tecnológica, mais precisamente de vinte anos para cá, a linguagem empresarial participou deste crescimento, embora lentamente. Por que lentamente? Porque se pensarmos, em órgãos públicos, eles são mais arcaicos, resistentes às mudanças, pouco participantes de cursos de treinamento, apreciam fórmulas que enalteçam o texto e garantam um respeito pelo destinatário. O pensamento ainda é norteado pelo conceito: “Se não usarmos este fecho, tal pessoa poderá achar que é falta de respeito”, ou então, “Se não usarmos este fecho, o que vamos usar?”. Preferem persistir nos erros que procurar saber o que está acontecendo, ou, na verdade, o que já foi modificado que ainda não se sabe. Assim, temos textos, considerados desatualizados, que “não dizem nada”, mas que ainda são utilizados para transmitir uma mensagem. Ao nos deparamos com esse tipo de texto, a

Com o fito de simplificar os fechos e uniformizá-los, o Manual de Redação estabelece o emprego de somente dois fechos diferentes para todas as modalidades de comunicação oficial: a) para autoridades superiores, inclusive o Presidente da República:

“Respeitosamente” ; b) para autoridades superiores de mesma hierarquia ou de hierarquia inferior: “Atenciosamente” .

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Ficam excluídas dessa fórmula as comunicações dirigidas a autoridades estrangeiras, que atendem a rito e tradição próprios, devidamente disciplinados no M anual de

Então, para surpresa dos participantes, informamos-lhes que a expressão “Venho por meio desta...” já não se escreve há mais de quinze anos em empresas privadas e, como já se mencionou, há onze anos, em órgãos públicos. A reformulação solicitada aos catedráticos da ABL10 , e revista por Celso Pedro Luft, foi publicada com o nome de

Manual de Redação da Presidência da República , e vem com a regulamentação respectiva.

Poucos conhecem esse manual, principalmente representantes dos órgãos públicos, que resistem muito mais às alterações, pois se permitem copiar e colar outros textos administrativos.

Ao se pensar em iniciar um texto, deve-se desprezar a construção citada: “Venho por meio desta...”, pois, é claro, que é desta porque da passada já foi e, da futura, virá. Nesta mesma linha, conclui-se que é totalmente desnecessário o seu emprego. Assim, devese observar qual é realmente a finalidade da correspondência, ou seja, solicitar, encaminhar, devolver, sugerir, etc. Cabe, aqui, salientar que os usos dos verbos “comunicar” e “informar” acabam sendo redundantes, já que é função da correspondência comercial, informar ou comunicar algo. Portanto, evita-se tal emprego e se inicia a correspondência, retirando o verbo “ comunicar e informar” . Por exemplo, “A partir de 10 de julho de 2003, as empresas...”.

A partir do que se delimitava para uma correspondência comercial, mais especialmente para cartas, transferiu-se para outros tipos de correspondências empresariais. Ainda hoje, recebem-se mensagens com frases feitas, sendo que os funcionários não têm o trabalho de questionar, mas a displicência apenas de recortar e colar, fazendo com que recebamos textos frios, sem a mera preocupação de quem irá recebê-lo, ou seja, sem a preocupação de “ escrever com alma”, diferente de “ escrever com sentimentalismo”. Isto quer dizer que o emissor deve procurar atender ao seu destinatário, com cortesia, porém com preocupação de que se o que está enviando, como mensagem, corresponde ao ideal.

8 Presidência da República do Brasil. Manual de Redação da Presidência da República; Gilmar Ferreira

Mendes [et al]. Brasília: Presidência da República, 1991.

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Como fazer isso? Relendo o texto com atenção, juntando parágrafos que se assemelham quanto ao conteúdo, acertando frases fragmentadas, observando outras que têm ausência de verbos, assegurando o tempo do verbo em comparação com a ação do texto, buscando o sujeito, etc.

Será que o texto, após algumas observações, tem sentido? Para isso, é preciso verificar a coesão e coerência textuais. Levar para a classe de uma empresa informações acerca de tópicos que tratem da coesão e da coerência textuais e, mais além, falar sobre argumentação, desponta como “ novidade” na abordagem realizada.

Sempre é bom lembrar que um texto não é apenas uma soma ou seqüência de frases isoladas (cf. Koch, 2002, p. 14) e mostrar aos participantes que há mecanismos cuja função é assinalar determinadas relações de sentido entre enunciados ou partes de enunciados, como, por exemplo:

oposição ou contraste (mas, mesmo que , etc.); finalidade ou meta (para, etc.); conseqüência (foi assim que, e, etc.); localização temporal (até que, etc.) explicação ou justificativa (porque, etc.); adição de argumentos ou idéias ( e, etc.)

E quando se usam os elementos acima, por meio desses mecanismos, é que se vai tecendo o “tecido” (tessitura) do texto. A este fenômeno é que se denomina coesão textual. Quando há tempo para aprofundar o assunto, dá-se prosseguimento ao tema, destacando duas modalidades da coesão: a coesão referencial e a coesão seqüencial. A coesão referencial é aquela em que um componente da superfície do texto faz remissão a outro(s) elemento(s) nela presente(s) ou inferíveis a partir do universo textual. É importante observar que o referente representado por um nome ou sintagma nominal (SN) vai incorporando traços que lhe vão sendo agregados à medida que o texto se desenvolve; ou seja, como diz Blanche-Benveniste (1984), o referente se constrói no desenrolar do texto, modificando-se a cada novo “nome” que se lhe dê ou a cada nova ocorrência do mesmo “nome”. Isto é, o referente é algo que se (re)constrói textualmente. Exemplificando a cada informação teórica, tem-se que “lugar” pode ser reconstruído por “ali”, “lá”, “naquele

Comunicação oral e escrita nas empresas: o que há de verdade? – Yêda de Moraes Camargo local”, etc. Quanto à coesão seqüencial , ou seqüenciação, diz respeito aos procedimentos lingüísticos por meio dos quais se estabelecem, entre segmentos do texto (enunciados, partes de enunciados, parágrafos e seqüências textuais), diversos tipos de relações semânticas e/ou pragmáticas, à medida que se faz o texto progredir. Tem-se a seqüenciação parafrástica com recorrências de:

termos (reiteração de um mesmo item); estruturas ( paralelismo sintático); conteúdos semânticos – paráfrase; recursos fonológicos segmentais e/ou supra-segmentais; tempo e aspecto verbal.

Cita-se também a seqüenciação frástica, destacando os diversos conectores, de uma forma muito mais simples e objetiva, lembrando-se de exemplificar com dados referentes à empresa::

se (estabelece uma relação de implicação entre um antecedente e um conseqüente); e, bem como, também (somam argumentos a favor de determinada conclusão:

quando (localização temporal dos fatos a que se alude no enunciado); ainda que, no entanto (introduzem uma restrição, oposição ou contraste com relação ao que se disse anteriormente); pois (apresenta uma justificativa ou explicação sobre o ato da fala anterior);

sejamsejam, como

(introduzem uma especificação e/ou exemplificação); ou (introduz uma alternativa).

Outros elementos, como mesmo, até, antes de mais nada , têm função argumentativa, isto é, orientam os enunciados em que figuram para determinadas conclusões.

No que se refere à coerência textual, fica evidente que a construção da coerência decorre de uma multiplicidade de fatores das mais diversas ordens: lingüísticos, discursivos, cognitivos, culturais e interacionais. O nosso conhecimento de mundo

Comunicação oral e escrita nas empresas: o que há de verdade? – Yêda de Moraes Camargo desempenha um papel decisivo no estabelecimento da coerência: se o texto falar de coisas que absolutamente não conhecemos, será difícil calcularmos o sentido e ele nos parecerá destituído de coerência. Cada um de nós vai armazenando conhecimentos na memória a partir de suas experiências pessoais, pois é impossível que duas pessoas partilhem exatamente o mesmo conhecimento de mundo, mas devem ter, ao menos, uma boa parcela de conhecimentos comuns. Quase todos os textos que lemos ou ouvimos exigem que façamos uma série de inferências para podermos compreendê-los integralmente. Compete ao receptor ser capaz de atingir os diversos níveis de implícito, se quiser alcançar uma compreensão mais profunda do texto que ouve ou lê. É preciso observar os fatores de contextualização, que são aqueles que ancoram o texto em uma situação comunicativa determinada. Os fatores contextualizadores propriamente ditos são a data, o local, a assinatura, elementos gráficos, timbre, etc. Os fatores perspectivos ou prospectivos são aqueles que avançam expectativas sobre o conteúdo e também a forma do texto: título, autor, início do texto. Outros elementos são citados: situacionalidade, informatividade, focalização, intertextualidade, intencionalidade e aceitabilidade, consistência e relevância; contudo, não é possível, em cursos de redação empresarial, citar minuciosamente todos estes elementos. A exemplificação é importante, dentro da realidade, categoria e segmento da empresa, como dito anteriormente. Todo e qualquer conteúdo trabalhado é dirigido para o foco, isto é, para o mercado e para o direcionamento da empresa, seja ela farmacêutica, metalúrgica, alimentícia, de comunicação, de publicidade, de jóias, de telemarketing, escritórios de advocacia, hospitais, universidades, etc.

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