A Arte da Capoeira - Camille Adorno

A Arte da Capoeira - Camille Adorno

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Prefácio

Título I - O caminho da Capoeira

O que é a Capoeira Itinerários As origens Zumbi dos Palmares: o mestre da resistência A lei áurea

Título I - Capoeira & Capoeiras

A Capoeira no passado Mestre Pastinha Mestre Bimba

Título I - Na roda de Capoeira

A música A roda O jogo de Angola Os movimentos A Capoeira hoje Nota do autor Bibliografia

Prefácio

Herança africana legada à cultura brasileira, o jogo da Capoeira significa valioso contributo à formação da nossa identidade cultural.

Neste livro, Camille Adorno estabelece os caracteres delineadores da Capoeira, propiciando uma oportunidade de iniciação à arte.

Na leitura desse tema ampliam-se as possibilidade de compreensão da nossa história, onde se insere a Capoeira e que preservou a lembrança das lutas sociais que forjaram a cidadania brasileira.

Esta obra é um passo importante para se promover o resgate das tradições da Capoeira divulgando essa bela expressão nacional.

Título I O caminho da Capoeira

“Em nome do Deus de todos os nomes Javé, Obatalá, Olorum, Oió. Em nome de Deus, que a todos os Homens nos faz da ternura e do pó. Em nome do Povo que espera na graça da fé, à voz do Xangô o Quilombo Páscoa que o libertará. Em nome do Povo sempre deportado pelas brancas velas no exílio dos mares marginalizados no cais, nas favelas e até nos altares. Em nome do povo que fez seu Palmares, que ainda fará Palmares de novo Palmares, Palmares, Palmares do Povo.”

(missa dos Quilombos)

O que é a Capoeira

Os negros usavam a Capoeira para defender sua liberdade.

Mestre Pastinha

Dança negra. Com muitos rituais. Brincadeira de movimentos com malícia. Na dança negra de pés no chão a agilidade da esquiva e a esperteza da fuga. E de repente, ante os olhos surpresos do adversário, o gesto rápido. O ataque fulminante. Então, prostrado, o inimigo se dá conta de que foi vítima da mandinga. Isto, se ainda tiver vida...

“No tempo em que o negro chegava fechado em gaiola Nasceu no Brasil Quilombo e Quilombola E todo dia

Negro fugia juntando a curriola De estalo de açoite, de ponta de faca e zunido de bala negro voltava p’ra argola No meio da senzala E ao som do tambor primitivo berimbau, maraca e viola Negro gritava: - abre ala! Vai ter jogo de Angola” (Mauro Duarte/Paulo Cesar Pinheiro, Jogo de Angola)

Capoeira: a arte negra

A dança - enquanto forma de expressão corporal - possui uma linguagem onde cada gesto significa e representa idéias e sentimentos. Emoções. Sensações.

O jogo da Capoeira é a síntese da dança. A sua essência, disfarçada em brinquedo. Vadiação. Distração de quem busca extravasar cada função interior nos gestos exteriores.

É na dança que se manifesta a tradição milenar da cultura negra de reverenciar as origens. Isto ocorre cada vez que se repetem gestos ancestrais. Renovados. Conduzindo ao reconhecimento da necessidade de manter viva a ligação com os antepassados, que praticaram os mesmos atos. Nisto reside a grandeza da dança negra. Ritual. E no respeito aos que geraram a vida, a beleza maior.

O balanço dos braços, o arremesso dos pés, o meneio do tronco e dos quadris, a harmonia de todo o corpo em gestos que não perdem a continuidade. Como se fora um ininterrupto perambular pelo círculo, em estreita ligação com o solo.

A Capoeira consiste numa dança onde o emprego dos movimentos arriscados - dado à circunstância de camuflar possível contenda - envolve os participantes e contagia quem assiste. Como não se deixar empolgar pela combinação de bela plástica humana nos movimentos despojados, com o evidente fascínio da dança e a alegria de uma festa?

É ainda muito mais a dança da Capoeira. O contato com o chão, intenso como o vínculo dos filhos com a mãe. Que envolve e protege, criando a vida e assistindo a todos, silenciosa. Acolhendo a dança, que é também em seu louvor.

A postura reverente dos capoeiras uns com os outros, para com o jogo, a terra, o berimbau, o atabaque, se explica no propósito maior da dança: unir. Ligar estreitamente, como as mãos que se apertam ao final de cada jogo, na saudação dos camarás.

cultural, físicaBastião erguido em defesa da nossa identidade coletiva, a

Luta negra. Com a força dos ritos. Preservando mitos. Participando ativamente da resistência comum às variadas formas de dominação: Capoeira não foi somente um fermento revolucionário - ela é realmente um instrumento de transformações, apesar do grande cerco que sofreu e sofre ainda hoje. Dos que tentam levá-la à padronização esportiva ou reduzi-la a mera forma de defesa pessoal, sugerindo sua definição como arte marcial.

“Dança guerreira Corpo do negro é de mola Na Capoeira Negro embola e desembola E a dança que era uma festa pro povo da terra Virou a principal defesa do negro na guerra Pelo que se chamou libertação E por toda força, coragem e rebeldia Louvado será todo dia Que esse povo cantar e lembrar o jogo de Angola Da escravidão no Brasil”

(Mauro Duarte/Paulo Cesar Pinheiro)

A luta da Capoeira não acontece com objetivo de competição entre os camaradas. Quando o jogo degenera em luta explícita, já não ocorre a Capoeira. O objetivo da luta é tornar o capoeira senhor de si mesmo e integrado ao grupo. É no recesso da comunidade que ocorre o aprendizado e a prática do jogo, de forma coletiva e fraterna. Se às vezes isto não acontece, não se pode falar em Capoeira na plenitude; quando muito em adestramento nos movimentos básicos, de forma desvinculada dos objetivos e fundamentos da arte.

O ponto alto da luta sempre foi resistir. Contra o preconceito, a discriminação disfarçada. Contra oportunistas e aproveitadores astuciosos que se apropriam dos valores da nossa cultura e tentam adulterá-la, fazendo isto de tal forma que ao negro é mesmo vedado o acesso à manifestação.

Assim, o que era coisa de negro pode acabar se tornando de alguns indivíduos. Que detêm o poder, confiscam o que lhes interessa e depois de adaptar às suas conveniências, comercializam como bem entendem.

A luta da Capoeira implica também na reação a este estado de coisas.

Não é legítimo transformar a arte negra em esporte ou folclore, conforme os conceitos de algumas pessoas. Não podemos admitir a inovação das cores e graduações tiradas de qualquer coisa que não a própria arte. Ou a cópia de conceitos de hierarquia segundo manuais militares e culturas exóticas. Menos legítimo ainda é o estabelecimento de regras para o jogo da Capoeira aplicando conceitos extraídos de lutas alienígenas - geralmente chegadas até nós deturpadas pelos objetivos de exploração das academias e descaracterizadas pela indústria do cinema hollywoodiano. Contra tudo isso a Capoeira é luta. Mais que nunca reafirmando os valores culturais do povo que a criou.

por vocêPor você...”

“Capoeira vai lutar já cantou e já dançou não pode mais esperar... Não há mais o que falar cada um dá o que tem capoeira vai lutar... Vem de longe, não tem pressa mas tem hora p’ra chegar já deixou de lado sonhos dança, canto e berimbau abram alas, batam palmas poeira vai levantar quem sabe da vida espera dia certo p’ra chegar capoeira não tem pressa mas na hora vai lutar

(Geraldo Vandré, Hora de Lutar)

Luta negra. Presente no cotidiano dos morros, terreiros, favelas, praças e ruas. Companheira do trabalho e diversão das feiras e festas, acompanhando o negro em qualquer ambiente social.

Itinerários

“Fomos ao rio de Meca, Pelejamos e roubamos E muito risco passamos e vela. E árvore seca. (...) A renda que apanhais O melhor que vós podeis, Nas igrejas não gastais Aos pobres pouco dais. E não sei o que lhe fazeis.”

Gil Vicente, Exortação da Guerra

Portugal, África e Brasil: os relatos históricos

Para a melhor compreensão do período histórico onde se situa o descobrimento do Brasil e a conseqüente formação da nossa cultura, é indispensável reportarmo-nos aos relatos e narrativas deixadas por escritores portugueses da época.

A literatura lusa - constituída ainda no período medieval - alcançou o apogeu com Gil Vicente, Camões e Fernão Mendes Pinto, justamente na fase em que é completada a expansão do povo português no mundo. O Brasil, portanto, é contemporâneo dessa expansão, nela se inserindo tanto o fato primordial da sua descoberta e colonização, quanto o dos belos trabalhos produzidos pela talentosa literatura portuguesa terem por motivo inspirador os fatos decorrentes da sua descoberta - além da conquista na

África.

A língua portuguesa, instrumento dessa literatura e que com ela se aprimorou, deriva do latim popular, que teria chegado à Península Ibérica no século I antes de Cristo.

Na história literária - assim como na história geral - encontramos divisões em épocas ou períodos, compreendendo fases de tempo em evolução cronológica e englobando conjuntos de obras literárias com características comuns. Nesse trabalho, os historiadores da literatura consideram se as obras obedecem aproximadamente à mesma ordem de valores estáticos, ao reuni-las com vistas à exposição histórica.

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