Casos Clínicos em Psiquiatria

Casos Clínicos em Psiquiatria

(Parte 2 de 16)

Daí o pensamento começa cada vez mais a afastar-se da realidade, criando uma nova realidade delirante em que se acredita firmemente. Às vezes, esta realidade delirante não nos atinge por completo, justapondo-se à realidade de fato. Então, algumas coisas são interpretadas pela parte sadia de nosso cérebro, outras pela parte que está em delírio. Às vezes o delírio nos domina por completo. É quando perdemos a noção de nossos atos.

Quando se entra em delírio, encasquetando-se que uma determinada coisa irreal está acontecendo, não é possível compreender que os outros não percebam a mesma realidade. O mesmo ocorre quando se alucina, ouvindo vozes ou enxergandose coisas inexistentes.

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De repente, uma manhã, achei que iria ser preso imediatamente. Mas eu não achava que era só a polícia que estava atrás de mim e nem que eu seria apenas preso.

Delirei que o próprio governador do Estado estava me perseguindo por minhas idéias políticas e que eu seria metralhado, minha família também seria morta a tiros e minha casa seria destruída por bombas.

Então, alucinado, telefonei para o amigo com quem eu havia comprado maconha em sociedade e disse para ele:

_“O governador está atrás de mim. Eu vou embora daqui para ele não matar minha família.”

Meu amigo falou-me para eu ficar em casa porque ele ia me levar um médico. Eu disse que não, de jeito nenhum, porque todos seríamos mortos. Desliguei o telefone, corri até a cômoda onde guardava a maconha, peguei o pacote, joguei na privada e dei descarga.

Depois saí correndo, descendo a escada na embalada, fugindo de casa. Mônica tentou me segurar, eu não deixei. Eu achava que se saísse sozinho eu seria metralhado na rua e desta forma pouparia Mônica e as crianças.

Mônica tentou segurar-me de todo o jeito e quando saí correndo pelo quintal e fui para a rua, ela saiu atrás de mim. Eu gritava:

_“Fique em casa. Vai para dentro.” Para mim era uma questão de vida ou morte. Se ela viesse atrás de mim, seria metralhada também. Isto não podia acontecer. Ela não podia morrer. O problema era apenas meu. Então eu gritei de novo pra ela, na frente dos vizinhos que já tinham saído à rua, para saber o que estava acontecendo:

_“Não venha atrás de mim. Eu não gosto de você. Deixe-me em paz. Eu tenho outra mulher. Eu tenho outra mulher, você não entende?”

Ela chocou-se e se paralisou. Imediatamente uma vizinha abraçou-a e ela acabou ficando parada, estupefata.

Eu corri dez, quinze quarteirões, ou mais. Quando minha força acabou, fiquei andando ao léu, sem saber mais onde estava. Daí Mônica chegou de carro com meu cunhado, desesperada, e eles me puseram dentro do carro. Eu gritava alucinado:

_“Deixem-me descer. Eu vou me matar. Eu quero morrer sozinho. Eles vão me pegar. Você não pode morrer comigo Mônica, você precisa cuidar das crianças.”

Mônica tinha chamado meu pai e ao chegarmos em casa ele já estava me esperando para levar-me ao médico da família -

Auto-relato

Casos Clin Psiquiatria 2000; 2(1):2-92

Mestre e doutorando em Filosofia da Educação pela USP Presidente do Projeto Fênix - Associação Nacional Pró-Saúde Mental

Extrato do livro Anjo Carteiro - ACorrespondência da Psicose. Editora Imago, Rio de Janeiro, 1996, ps.297/324 (edição esgotada; no prelo segunda edição pelo Projeto Fênix - Associação Nacional Pró-Saúde Mental; reproduzido com autori- zação do autor)

Endereço para correspondência: Projeto Fênix Travessa Dornelas França, 59 - Pompéia 05023-0 - São Paulo- SP 0800 10 9636 E-mail: lfbarros@fenix.org.br

Quinze delírios naquele tempo eu não tinha psiquiatra. Levei dez dias para sair do delírio.

Naquele tempo eu e Mônica nos amávamos muito e ela, logo depois do choque, percebeu rápido que eu apenas dissera “Eu tenho outra mulher” para impedir que ela me seguisse. Então, desvencilhando-se da vizinha, tomou providências para me acudir. Com o passar do tempo o nosso amor sucumbiu às asperezas da vida, até mesmo por causa das constantes situações de xequemate em que eu a colocava nos meus delírios e depressões. Um dia, muitos anos depois, ela chegou-se a mim e perguntou:

_“Luiz, daquela vez que você saiu correndo de casa, lembra-se, era mesmo verdade que você tinha outra mulher?”

Não era verdade e ela sempre soube disto, mas ao relatar o caso à sua mãe, esta a manteve em eterna dúvida.

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Na praia, tive um delírio místico, religioso, em que eu me julgava um profeta. Eu estava em estado de beatitude e julgava que todas as coisas aconteciam porque eu as fazia acontecer.

Se uma folha de árvore caísse ao vento era porque eu estava olhando para ela e ordenando-lhe que caísse. Se uma pessoa andasse era porque eu queria que andasse e assim por diante...

Logo depois entrei a estrebuchar. Pensei ter tido uma convulsão. Muitos anos depois, meu irmão médico, que estava comigo na ocasião, disse que na verdade tive uma crise histérica. Eu balbuciava sons ininteligíveis e para mim, dentro de mim, eu estava falando com Deus em uma linguagem arcaica. Durante muito tempo eu julguei ter tido um contato com Deus, até que o tempo passou e essa impressão se dissipou.

Acredito, no entanto, que muitas das experiências místicas, sobrenaturais, possam ser fruto de delírios e alucinações doentias. Assim como acredito que as religiões todas nada mais são do que uma resposta que o homem criou para sua maior dor psicológica: a solidão perante o destino e o universo.

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Houve uma ocasião em que passei dias brigando com um computador inexistente. Eu me alimentava muito mal. O computador se comunicava comigo em linguagem binária e eu assim respondia a ele dentro de meu cérebro. A uma determinada altura, a briga se tornou uma livre associação de palavras. As palavras me ocorriam em duplas, uma seguindo-se à outra em uma velocidade impressionante. Eu estava em Barra do Una e um dia meu irmão médico levou-me até o outro irmão, psicólogo, em Guaecá. Eu me alimentava muito mal. Não sei como foi, comecei o jogo de livre associação de palavras com meu irmão psicólogo. Eu dizia uma palavra, ele dizia outra. Para mim, cada palavra devia vencer a anterior, ser mais forte, dominá-la. E assim ficamos longo tempo. A uma determinada altura cheguei à palavra “leite” e ele, sem me propor outra palavra, fixou-se na palavra “leite”. Eu propunha outras palavras e ele repetia: “leite”. Acabei também por me fixar na palavra leite e dizia: “leite, leite, leite.” Ele me dizia: “Isto, Luiz: leite.” Levantei-me da praia e, com ele ao meu lado, fui até dentro de casa na cozinha, onde encontrei leite.

Bebi mais de um litro de leite enquanto meu irmão dizia: “Isto, Luiz: leite, leite, leite.” (Ele havia encontrado uma forma de me alimentar).

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Em meu trabalho eu usava uma calculadora HP 38C, considerada na época a melhor calculadora financeira existente e às vezes eu costumava carregá-la na cintura.

Um dia cismei que minha calculadora era capaz de fazer tudo. Não ela sozinha, naturalmente. Julguei que ela estivesse acoplada por radiotransmissão a uma central de computação mundial, de espionagem estatal. Ela era um elo do Grande Irmão de Orwell em 1984.

Primeiro falei com minha chefe, no alto escalão de uma

Secretaria de Estado:

_“Sabe, eu tenho participado de reuniões sigilosas e se alguma informação importante vazar, a culpa não é minha, é de minha calculadora.”

Ela era psicóloga, por coincidência, e logo percebeu que eu estava delirando. Telefonou para minha mulher e ela veio me buscar no escritório, tendo já marcado hora no meu psiquiatra. Eu fui com ela ao médico e chegando lá, mostrei-lhe a calculadora. Que ele cuidasse dela porque ela é que era perigosa, estava desajustada; não eu.

Depois saímos do médico e enquanto Mônica dirigia, na

Avenida Paulista, eu encaixei a calculadora no lugar do cinzeiro do carro e lhe disse:

_“Pode largar do volante, de tudo isto de controle mecânico do carro que é obsoleto e desnecessário. Já programei a calculadora e em conexão com as centrais eletrônicas ela vai levar nosso carro até em casa.”

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Um delírio que me perseguia sempre, em várias crises subseqüentes, era o delírio da espionagem eletrônica. Para mim todos os aparelhos eletrônicos, em especial os rádios e as televisões, estavam conectados entre si mandando informações para uma central nacional, às vezes mundial, de computação. Lá eu era observado pelos senhores do mundo, como se eu fosse espionado pelo Grande Irmãode Orwell. Quando eu estava na rua, ou às vezes à janela de minha casa, onde não havia aparelhos eletrônicos, eu estava sendo filmado a grandes altitudes por aviões ou satélites espiões que eu não via, mas tinha certeza que estavam lá.

Nas televisões eu sempre via um botão qualquer ou uma luz que me filmavam. Então, a central de televisão podia me ver e escutar, da mesma forma que eu via e escutava o programa que estavam passando.

Assim, durante dias, eu falava com o rádio ou a televisão, conversando ou com a emissora ou com os participantes do programa.

Já fiquei conversando, por este método delirante, com as grandes estrelas nacionais e internacionais de TV e também com Tatcher, Bush, Gorbatchov...

3Casos Clin Psiquiatria 2000; 2(1):2-9

falando diretamente para mimEles me olhavam no olho. Então,

Naqueles momentos, então, que o entrevistado, ou o ator, olha para a câmera e fala para os telespectadores, ah, eles estavam eu também olhava no olho deles e respondia.

De noite, em meu quarto, eu achava que havia câmaras de filmagem escondidas, filmando o meu sexo com Mônica.

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