Casos Clínicos em Psiquiatria

Casos Clínicos em Psiquiatria

(Parte 3 de 16)

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De tarde, na praia, apareceu-me um relógio em visão. A visão me acompanhou o tempo todo. Não importa o que eu fizesse, para onde olhasse, o relógio _ sempre com a hora certa _ aparecia no fundo.

Então, à noite, no apartamento de praia que meu irmão alugava, veio-me a explicação da visão: “Vou morrer à meia-noite.” E fiquei com a idéia fixa de que ia morrer à meia noite. Mas não disse para ninguém.

Às dez horas, por aí, Mônica, eu e as crianças saímos do apartamento e fomos para o rancho que tínhamos em Barra do Una antes de construir nossa casa. Arrumamos as camas e nos deitamos para dormir. A visão do relógio e a certeza de morrer à meianoite não me abandonavam, no entanto.

Daí pensei: _“Eu sou como Matraga, chegou minha hora e minha vez.

Como ele, não vou esperar meu destino passivamente: vou enfrentá-lo.”

Saí do rancho e fui para a rua onde fiquei andando, pronto para brigar pela vida com quem viesse me desafiar. A rua estava vazia e eu não sabia de onde viria o inimigo. Eram onze e meia em meu “relógio-visão” quando pensei diferente:

_“Se querem me matar, vão ter de vir à minha toca. Me pegar no meu lugar.”

Voltei para o rancho, afastei a cama das crianças e a da

Mônica e deitei-me num acolchoado bem em frente da porta. Antes de deitar, no entanto, peguei um facão de cozinha e segurei-o na mão direita, firme, pronto para dar o golpe se alguém invadisse o lar de minha família.

Enquanto eu esperava a meia-noite, dormiE não morri.

De manhã cedo, Mônica encontrou-me dormindo no chão com a faca do lado.

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Fui a um churrasco no interior, na casa de um tio meu. Eu estava de bermuda curta, camiseta leve e um par de chinelos. Chegando lá havia aquela festa toda, todo mundo animado, festeiros mesmo, e eu me senti muito mal porque todos estavam vestidos muito bem, traje esporte fino e só eu de bermudas e chinelo.

Como acontecia em outras crises, eu havia emagrecido em poucos dias mais de dez quilos.

Percebi que as pessoas me evitavam na festa e às vezes olhavam para mim de soslaio. É claro que me olhavam de soslaio e evitavam vir falar comigo porque eu estava em delírio. Devia estar muito estranho. Mas eu achei que estavam me evitando porque eu estava com AIDS. Percebendo minha magreza, olhando minhas pernas finas, logo concluí que de fato eu estava com AIDS.

Chamei a Mônica para irmos embora. Enquanto ela e as crianças almoçavam rapidamente fui para fora da casa, esperá-los na rua. Minha tia quis me levar de volta para a festa, me dar comida e tal e eu nada. Queria ir embora pra casa, deitar na minha cama.

Quando Mônica veio com as crianças, pegamos o carro e fomos embora. Havíamos andado uns vinte quilômetros talvez, sem falarmos nada um ao outro, quando cheguei-me ao ouvido dela e falei baixinho:

_“Eu estou com AIDS.” Ela me respondeu: _“Fique quieto. Não fale uma palavra!” Dirigiu até um retorno que havia na pista, onde pode parar o carro num lugar seguro. Mandou as crianças brincarem num canto da praça e sentou-se comigo no meio de um gramado. Disse-me, então: _“Fala Luiz. O que está acontecendo?”

_“Eu estou com AIDS, Mônica. Peguei AIDS.”

_“Você fez alguma coisa para achar que tenha pego AIDS?

Você saiu com alguém, fez alguma coisa assim?”

_“Não. Eu juro que não fiz nada. Mas veja minha magreza.

Veja como as pessoas me evitaram na festa...”

_“Você está magro porque está em crise, isto sempre acontece.

Quanto às pessoas, foi você quem as evitou. Você quis vir embora, não quis falar com ninguém.” _“Eu estou com AIDS!”

_“E como você pegou?”

_“Pelos mosquitos, você sabe. Pela picada dos pernilongos.”

_“Luiz, AIDS não se pega assim, você sabe disso. Agora, vou lhe falar uma coisa e você preste muita atenção senão eu vou ficar muito brava com você. Nós estamos no meio da estrada. Faltam duas horas pra chegar em casa. Nós vamos entrar no carro e ir embora pra casa. Lá nós conversaremos com calma. Mas, por favor, ouça o que estou lhe dizendo; isto é uma coisa muito séria: você não vai falar mais neste assunto até chegarmos em casa. Nós temos dois filhos pequenos que não podem ficar pensando que o pai deles está com AIDS apenas porque você está delirando. Entendeu?” _ “Entendi.”

_“Então vamos embora. Vou chamar as crianças.” Viemos para São Paulo sem conversar uma palavra sequer durante a viagem. Passei quase uma semana obcecado pela idéia de AIDS e pernilongos. Às noites, eu ficava acordado com uma toalha de rosto na mão matando pernilongos no quarto das crianças.

Minha obsessão era evitar o contágio das crianças e para mim, em meu delírio, as formas de contágio foram se multiplicando. Ao fim de alguns dias eu tinha separado para meu uso exclusivo copos, louças e talheres e não deixava ninguém usá-los além de mim.

Estranhamente, o sexo, a própria forma de contágio da

AIDS, não me incomodava. Eu não achava que a Mônica, minha parceira sexual, estivesse com AIDS. Apenas eu estava. Tinha pego dos pernilongos.

Casos Clin Psiquiatria 2000; 2(1):2-9 4

Quinze delírios

Daí ela teve de pegar os livros que tínhamos em casa sobre

AIDS e me fazer reler, explicando-me como se pegava a doença, como se eu nunca tivesse sabido. Depois me disse:

_“Se você está tão preocupado, vá fazer um exame de sangue.

Mas eu lhe proponho outro teste. Você sabe que eu não estou com AIDS. E que sou uma pessoa consciente, lúcida, que não quero pegar AIDS. Pois você também não tem, e para você ter certeza disso eu lhe ofereço o meu corpo. Venha deitar comigo.”

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De uma das vezes em que estive internado, lembro-me de estar amarrado na cama num dos quartos do Bezerra de Menezes e pensar que estava enterrado vivo numa espécie de catacumba que eu imaginava ser vizinha do cemitério do Araçá.

Neste dia eu fiquei, talvez, amarrado das dez horas da manhã até quatro da tarde. O delírio evoluiu. Após algum tempo eu não estava mais enterrado vivo. Eu era um morto sem condições de ser enterrado.

A catacumba onde eu estava era uma espécie de purgatório com objetivos de purificação. Era um lugar intermediário entre o Hospital das Clínicas e o Cemitério do Araçá para onde eram mandados os mortos de graves doenças infecciosas. Havia um pessoal burocrata que decidia quem podia ser enterrado, e quem podia subia pelo elevador até o cemitério. Quem não podia, continuava amarrado. (Não havia elevador no local).

Meu corpo estava numa estranha transmutação e de repente eu não era mais eu. Perdi todas as esperanças de ser solto pois eu era, afinal, o vírus da AIDS que tinha sido isolado naquele estranho lugar para ser estudado pelos médicos. Eu era um vírus e tinha sido capturado. Meu corpo todo tinha sido envolto por uma película plástica para que não contaminasse ninguém. Após um tempo, perdi as esperanças de ser solto e parei de gritar. Foi quando, um tempo depois, fui solto da cama.

Andei até a sala de televisão sem ver ninguém e fiquei sentado num dos bancos de madeira que havia no local. Os bancos estavam postos em L, como devem estar até hoje, e assim pareciam delimitar um espaço máximo de ação de cerca de dez metros quadrados. Daí eu vi ao meu lado, sentado, assistindo televisão, um companheiro paciente. Era um preto gordo, já um senhor, bonacheirão, com um gorro enfiado na cabeça. Eu não sabia que ele estava vendo televisão. Nem sabia que ali havia televisão - eu não a via, pendurada alta na parede. Para mim, eu continuava preso para toda a eternidade naquele quadrado delimitado pelos bancos e o preto era o meu vigia.

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O haldol, assim como outros neurolépticos, causa efeitos colaterais, comumente chamados de “impregnação” e que consistem basicamente numa crescente robotização dos movimentos por uma rigidez muscular que se espalha pelo corpo todo. Para deter a impregnação usam-se outros remédios junto com os neurolépticos.

Neste delírio, após ser medicado em São Paulo, fui para a praia com Mônica e as crianças e também com meu irmão médico e sua família.

Desta vez tive a maior impregnação de haldol de todas as minhas crises. Aliás, mesmo em minhas internações, nunca vi ninguém tão impregnado quanto eu fiquei. O akineton não foi suficiente para deter a impregnação.

Primeiro meu corpo ficou todo rígido e eu só me movimentava muito lentamente, com o andar estranho dos robôs.

Depois, uma tarde, fui acometido por um repuxamento muscular na nuca e no pescoço e eu ficava com o rosto de lado, com a musculatura toda estirada. Meu maxilar se travou e o trismo não permitia que eu abrisse a boca.

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