Casos Clínicos em Psiquiatria

Casos Clínicos em Psiquiatria

(Parte 4 de 16)

Minha cunhada deitou-me numa esteira de taboa e me fez massagens. Assim fiquei sabendo que massagens não adiantam nada para isto.

Meu irmão me pegou pelo braço, pôs-me no carro e levoume até a farmácia em Boissucanga. No caminho, havia enormes máquinas de terraplanagem que abriam naquele tempo o novo leito da Rio-Santos.

Durante todo o percurso, eu achava que seríamos esmagados por aquelas máquinas imensas. Estava certo que elas estavam ali apenas para nos perseguir, triturando-nos entre suas pás e esteiras. Os barreiros que havia no caminho tinham sido feitos de propósito pelas máquinas para nos fazer atolar. Depois elas viriam e nos esmagariam enquanto estivéssemos atolados.

Em Boissucanga, na farmácia, na calçada do lado de fora, lembro-me de uma mulher índia com um facão na mão que olhava para mim desconfiada. Eu tinha medo que ela me atacasse com o facão.

De fato, como eu estava, com a cabeça estirada de lado, o maxilar teso, repuxando músculos faciais e andando feito robô - acho que ela estava me estranhando. Lembro-me até hoje de seu olhar fixo e seu facão enorme seguro pelo braço direito, em posição de alerta.

Na realidade, ela estava mesmo preparada para me atacar, tanto que meu irmão me puxou para dentro da farmácia, dizendo-me:

_“Cuidado com a índia. Você não vê o facão dela e que ela está pronta para atacar? Ela está com medo de você. Fique comigo. Não vá mais lá.”

Daí meu irmão me fez beber meio vidrinho de Fenergan e poucos minutos depois, como por milagre, toda minha musculatura se relaxou e eu me livrei da impregnação. O delírio com as máquinas de terraplanagem, no entanto, continuou e eu vivi na volta até Barra do Una o mesmo terror de que elas iriam nos triturar.

- 10 -

Uma noite, na praia, fiquei de meia noite até sete horas da manhã condicionando um bagre num balde de água.

Eu estava certo de estar progredindo em meu intento que era o seguinte: cada vez que eu batesse no balde três vezes “toc, toc, toc,” o bagre viria até a superfície falar comigo. Então eu batia

5Casos Clin Psiquiatria 2000; 2(1):2-9 com um pau no balde “toc, toc, toc” e em seguida jogava comida de peixe na água.

De manhã cedo, vendo-me na faina com o balde, depois de eu explicar o que estava fazendo, meu irmão me disse: “Agora é hora de escovar os dentes, olha a pasta para o bagre.” E eu, acreditando mesmo no que fazia, peguei um pouco de pasta de dente e “toc, toc, toc,” joguei nágua para ele.

Nesta manhã meu irmão me trouxe para São Paulo para medicar-me e eu só concordei em vir depois que ensinei o pedreiro de minha obra a tomar conta do bagre.

Foi assim: eu fui com ele até o rio, soltei o bagre na margem e ele logo sumiu na água funda. Eu disse para o Armando:

_“Você não se preocupe. Ele está logo num buraco ali. De tarde você vem até aqui e bate com este pauzinho na beira. Vai fazer toc, toc, toc. Daí ele vem e você dá comida pra ele. Vê se cuida bem do meu bagre enquanto eu estiver em São Paulo.”

- 1 -

Estava em transcurso uma revolução separatista. São Paulo novamente lutava contra o Brasil. (Hoje acho engraçada esta versão, pois, como paulista, nunca aceitei a expressão “revolução separatista” e sim “revolução constitucionalista”). Sou paulista ferrenho. Desci a serra, com Mônica e as crianças, para Barra do Una. Minha missão era no litoral.

À noite, antes de deitar, angustiado, eu disse à Mônica sentado na cama, dentro do rancho:

_“Se eu morrer, você diz ao Governador que eu morri por São

Paulo?” Ela disse que sim. Eu insisti:

_“Você promete?” Ela prometeu. Dormi. Acordei com Mônica vestindo o biquini. Ela estava defronte à janela aberta, de costas para a cama, amarrando o sutiã do biquini. Eu comecei a chorar. Eu era um covarde. Minha mulher precisava ficar mostrando os peitos para o inimigo, pela janela, para que não bombardeassem o meu rancho. (A praia era deserta e entre o rancho e a praia havia uma touceira de bambu; Mônica não estava se exibindo, apenas estava à vontade, como o local permitia).

Saí para levar meus filhos para a praia. Grudei o menor deles para atravessar o rio. (Entre meu terreno e a praia existe o Rio Una. Havia chovido muito e o rio estava com grande correnteza). Logo percebi que o inimigo, para me capturar, havia lançado mão de um interessante ardil: ele baixara o nível do mar para o rio correr ligeiro e eu me atrapalhar na correnteza. Vocês acham que isto é impossível porque não conhecem a astúcia e os recursos de meu inimigo: ele fazia isto com gigantescas bombas hidráulicas na barra do rio, onde o rio encontra o mar, escondido por trás da restinga de areia. Pus o menino no barquinho e saí remando em diagonal à correnteza. Dei risada. Era a força bruta deles contra a minha habilidade. Deixei o menino na praia e vim buscar o outro, do lado de cá do rio. (O barco era pequeno; o rio estava forte: não dava pra levar os dois ao mesmo tempo). No meio do rio o barco começou a afundar. Logo percebi o que houve. O ini- migo tirara a tampa do barco com sensores remotos. Percebi a tempo que o barco estava destampado e voltei a tampá-lo. Sorri comigo mesmo. Eram os sensores remotos deles contra minha percepção e rapidez. Mudei de lugar no barco e controlei o nível d’água. Remei com vigor e cheguei à margem de casa, muito abaixo de meu terreno, devido à correnteza. Meu filho chorava, gritando do lado de lá do rio, na praia: _“Paiê, Paiê, vem me buscar...”

_“Já vai, meu filho. Não sai daí. Não tenha medo, eu já vou voltar.” (Entre nós havia um rio de 40 m de largura, correndo em grande correnteza).

Os vizinhos vieram me ajudar a esvaziar o barco. Eles estavam de óculos escuros: eram inimigos. Deixei-os fazer força sozinhos para esvaziar o barco, não sou besta, vou deixá-los cansados. Eles esvaziaram o barco e levaram-no até em frente a minha casa, no lugar de atravessar de novo. (Perderam a tampa do barco mas eu sabia que era espionagem, roubaram a minha tampa). _“Paiê, Paiê, me tira daqui...”

_“Espera, espera. Não saia do lugar!” Corri até o rancho. Encontrei uma tampa de lata de spraye peguei a faca. Cortei um pedaço do plástico para ajustar no local, arranquei o pedaço com o dente - meu inimigo me olhando, vendo onde eu ia falhar para ele atacar - tapei o buraco do barco e atravessei de novo o rio.

Peguei meu filho e voltei para casa. Falei para a Mônica: _“Não dá pra ir à praia hoje. Os inimigos estão todos por aí.

Fizeram uma correnteza no rio que você precisa ver. Quase me pegaram.”

- 12 -

Logo após a publicação de Memórias do Delírio, de minha autoria, uma série de artigos e resenhas sobre o livro foram publicados pela imprensa. Para a resenha da revista Vejaeu fui entrevistado. A reportagem que a revista publicou, com uma foto minha, ainda que de costas, deu-me uma sensação incrível de desconforto pela grande exposição a que eu me submetia e principalmente pelo fato de que considerei a matéria muito crua e dura, ainda que desse grande destaque ao livro. Logo comecei a desestabilizar-me. E em poucos dias eu estava em delírio.

Semanas antes havia sido publicada uma resenha em

Curitiba. Por um erro de composição do jornal, a matéria que saiu sob o título da resenha e ao lado de uma reprodução da capa do livro era uma notícia sobre o Cartel de Medellin. No dia seguinte é que o jornal publicou corretamente a resenha. Mas fiquei com este fato na cabeça e quando a reportagem da Vejame desestabilizou passei a achar que o jornal de Curitiba estava me mandando uma mensagem cifrada. Que como eu falava mal da maconha no livro eu seria alvo dos traficantes do Cartel.

Passei uns quinze dias sendo perseguido pelo Cartel de

Medellin. Para cada instante eu esperava um ataque. Minha família, como de hábito, de início lutou contra minha convicção delirante, mas, a partir do momento em que ficou claro que eu estava com o delírio estabelecido, em seguida entrou no jogo. Não me contrariavam e apenas diziam que para que os traficantes pudes-

Casos Clin Psiquiatria 2000; 2(1):2-9 6

Quinze delírios sem me pegar teriam de pegar todo mundo. Em que pese o ligeiro alívio em termos de segurança que eu sentia, passei a ficar muito preocupado com todos da família e a sentir-me culpado pela insegurança em que agora todos viviam. Apenas ao final de meu delírio, quando comecei a duvidar de minhas certezas, é que meus pais e irmãos fizeram força para me convencer de que ninguém me perseguia.

Há sabedoria no ditado que diz que não se deve contrariar os loucos. Dá conforto ter gente a seu lado que “acredite” nas percepções desvairadas. Negar, fazer força contra na hora errada, além de nos tornar mais isolados, às vezes faz com que pensemos que quem está contrariando a evidência do delírio está do outro lado, faz parte dos “inimigos.”

- 13 -

Em 1993, minha instabilidade era tão grande, eu entrando e saindo sucessivamente de crises alternadas de depressão e euforia que meu médico sugeriu-me e acabou por convencer-me e à minha família de que seria interessante tentar uma nova medicação. Havia também a conveniência de se tentar um novo neuroléptico, pois o uso a longo prazo que eu fazia do haldol estava dando sinais de estabelecimento da discinesia tardia. (A discinesia é um sintoma colateral da medicação e que se caracteriza por aqueles esgares de lábio tão marcantes da loucura. Em grande parte dos casos, é efeito de remédio e não sintoma da doença).

Eu concordei, esperançoso, e entrei na “aventura de ser sujeito experimental de um medicamento que estava em teste no Brasil, antes de ser lançado no mercado”. Era a risperidona. O experimento foi conduzido na USP e na UNICAMP, entre outros centros de pesquisa, e eu fui inscrito no grupo piloto do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas.

Quando iniciei com a medicação eu estava em leve crise, mas logo a seguir entrei em forte delírio. Um tipo novo de delírio que eu ainda não conhecia. Tive meu primeiro delírio cenestésico, que se caracterizava por fortes dores e sensações musculares e corporais.

O que eu sentia era uma tremenda e insuportável dor toráxica e nas costas. Era uma dor aguda e lancinante que me atravessa em diagonal desde o peito até a base da coluna, verticalmente. Eu tinha certeza de que havia uma espada enorme, do tipo das que os cruzados usavam, afiadíssima, atravessada em minhas costas e em meu peito, fincada de baixo para cima. E eu não podia me mexer, pois a cada movimento a espada cortava mais. Ficava horas sentado, parado numa mesma posição retorcida para tentar evitar a dor.

Neste mesmo delírio eu quase explodi. Literalmente.

Mexendo, um dia, com minha binga (aquele tipo de isqueiro antigo), eu, ao abastecê-la de fluido, derramei grande quantidade de líquido na mesa e sem me aperceber inalei todo o gás que se volatilizava. Quando me dei conta do sucedido, passei a ficar apavorado, achei que eu iria explodir. Principalmente porque, fumante inveterado, mesmo diante da minha absoluta convicção do risco de explosão, eu não deixava de acender um cigarro atrás do outro. Mas eu fumava com uma tremenda preocupação em não peidar, porque estava certo de que se eu peidasse ocorreria uma explosão. Eu me sentia uma bomba ambulante. O único cigarro que fumei tranqüilo, neste dia, foi no consultório de meu médico, que me garantiu que eu podia fumar e peidar o quanto quisesse que não explodiria. Lembro-me até hoje da esdrúxula conversa que tivemos, ele divertido e sério a me explicar que eu não corria o risco de explodir.

A experiência com a risperidona não deu certo para mim; pelo contrário, foi aterradora por deflagrar minha fase de delírios cenestésicos. Tive notícias, no entanto, de que o uso do remédio foi aprovado e de que alguns doentes têm-se dado bem com ele. Mesmo sem questionar a competência e a ética dos médicos que conduziram este experimento, duvido, entretanto, que o protocolo final deste teste discorra sobre a possível interferência desta droga na instalação de delírios cenestésicos. Possivelmente, porque sou uma irrelevância estatística.

- 14 -

O uso da risperidona, ainda que por pouco tempo, deixoume de herança os delírios cenestésicos que voltei a ter mesmo sem estar mais usando esta droga. Sei lá o que aconteceu, ela deve ter aberto algum novo tipo de sinapse patológica no meu repertório neurológico.

Sei que um dia eu precisava ir a um cartório no centro da cidade para passar a escritura definitiva de um imóvel que eu havia vendido muitos anos antes. Peguei meu carro e fui. Ou, antes, tentei ir.

Não pude lá chegar porque a meio caminho envolvi-me no centro de uma revolução. Era, para repetir o enredo, alguma coisa de confusão de São Paulo com o resto do país. Mas, de repente, a revolução virou uma guerra e eu de paulista virei brasileiro e tudo se tratava de defender o solo pátrio.

Só que as forças armadas não se entendiam e o exército não se dava com a marinha e nem os dois com a aeronáutica. Eu era um agente de informações e espionagem da marinha. E quando estava passando pela Rua Santo Antônio, no Bexiga, em frente a um posto de gasolina, levei um tiro na perna, certamente desferido pelas forças da aeronáutica. A dor foi lancinante e tive uma tremenda contração. Sorte que o trânsito estava parado e então eu coloquei o pé sobre o painel do carro e então pude massagear a perna.

(Parte 4 de 16)

Comentários