Casos Clínicos em Psiquiatria

Casos Clínicos em Psiquiatria

(Parte 5 de 16)

O frentista do posto de gasolina me olhava com estranheza e o mesmo fazia um motoqueiro parado a meu lado e assim, logo que o farol abriu, eu saí dirigindo com dificuldade porque eles eram inimigos e eu não podia me expor mais, ainda mais agora que estava ferido.

Desisti de ir ao cartório e resolvi dirigir-me de volta ao

Pacaembu, para voltar para casa e buscar socorro. Minha perna direita doía violentamente e pesava uns quinze quilos. Eu tinha de fazer uma força enorme para não deixar meu pé afundar no acelerador. Observei que não havia sangue no lugar do tiro, mas isso não me surpreendeu, pois estava claro que eu havia sido atingido por uma arma nova que me introduzira na barriga da perna um projétil de chumbo líquido, razão pela qual eu também não localizava a bala quando nas paradas do trânsito voltava a massagear a perna.

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Na Rua Maria Antônia havia um pedágio de calouros do

Mackenzie. Perto da Rua Sergipe, com um trânsito novamente parado, chegou à minha janela um estudante em trote e pediu-me um trocado para o chope dos veteranos. Eu, sem querer e sem poder evitar, talvez passei-lhe o grande trote de sua entrada na faculdade.

Eu precisava de socorro. Não achava que agüentaria chegar ao Pacaembu e, desesperado de dor, contei-lhe do tiro que eu levara, pedi socorro, que ele providenciasse um médico. Meu sofrimento e minha dor eram tão autênticos que ele, mesmo sem entender nada e mesmo sem o sangue que seria a evidência do tiro, parece de fato ter acreditado na história toda.

Ao mesmo tempo que as manifestações cenestésicas se intensificavam, minha cabeça não parava e eu via naquilo tudo, de o calouro de engenharia do Mackenzie tentando me ajudar, a mim, um ex-estudante de Filosofia da USP, uma amostra de como o destino dá voltas e de como os inimigos de ontem podem ser os aliados de hoje na história das verdadeiras guerras.

da frente e disse-lhe que vissese ele não tinha visto aquele carro

Tudo foi, afinal, tão rápido que sequer deu tempo de o rapazola sair da estupefação em que o coloquei, posto que em seguida achei que o melhor mesmo era eu ir até em casa e num ato reflexo, para despistá-lo, apontei com vivacidade para a esquina assim-assim atropelar a moça que atravessava a rua e ele, ao se virar para mais esta insuspeita ocorrência, distraiu-se de mim e saí quase cantando pneu em direção à minha casa.

Por rápido que tudo fosse, o tempo ainda foi suficiente para eu colocá-lo a par de importante mensagem, de cujo teor não lembro, que ele deveria por questão de vida ou morte fazer chegar a um alto líder nacional, depois de eu ter-lhe declinado minha patente, para o caso de eu ser morto no caminho.

Sei dizer que pelo espelho vi o rapaz sair correndo para um grupinho de estudantes, tão logo meu carro se afastava.

O que ele contou aos outros e o que pensou de mim e desta estranha guerra que eu travava eu não sei. Mas naquele momento eu dava de mim o melhor para minha causa e minha causa era o meu país.

Ao chegar em casa, vi que eu estava isolado. Em casa não havia ninguém, e trabalhando ao longo dos fios telefônicos de minha rua, bem em frente de onde eu moro, havia muitos homens fazendo reparos nos postes, erguidos por aquelas caçambas automáticas dos caminhões de serviço. Tudo aquilo nada mais era do que uma operação para interferir com minha linha telefônica de tal forma que eu estava incomunicável.

Tanto isto era verdade que todos os números para os quais eu tentava ligar davam ocupado ou eram ligações para o número errado. Só conseguia falar com gente estranha que me desligava o telefone na cara.

Um lampejo de lucidez alucinada me conduziu a procurar meu médico. Mas não sem antes render-me à dor e deitar-me na cama para não exaurir minhas forças. Minhas preocupações eram três, entre outras, durante os minutos em que descansei em meu quarto. Preocupava-me sobretudo a morte que adviria de duas formas certas. A primeira, inexorável se eu não conseguisse socorro médico imediato e não tivesse minha perna amputada, era que o chumbo líquido se solidificaria e causaria uma gangrena que se estenderia pelo meu corpo todo. A segunda preocupa- ção com a morte era que eu poderia a qualquer momento ser atingido por um tiro de longa distância, disparado pelo vão da janela de meu quarto, razão porque eu precisava ficar deitado sem travesseiro para não deixar minha cabeça à mostra, na linha de tiro. A terceira grande preocupação era com meu seguro de vida para garantir a educação de meus filhos depois que eu morresse.

Acabei, afinal, localizando meu psiquiatra por telefone, justamente para que ele me providenciasse a urgente remoção que eu necessitava para um centro cirúrgico, a fim de amputar minha perna. Ele acabou por convencer-me de que meu problema estava na cabeça e não na perna e de que eu precisava era de uma consulta e uma medicação com urgência. E a única alternativa rápida que havia para isto era eu ir até o seu consultório na Vila Mariana, pois de lá ele não tinha condições de sair naquela hora.

Andei mancando o quarteirão que me separa da avenida e tomei um taxi. Para meu azar o motorista era inimigo. Pois a guerra continuava e durante dias ainda se estendeu. Mas eu sabia como lidar com este inimigo que estava no volante. Para não deixá-lo raciocinar resolvi contar-lhe piadas e assim fui durante a meia hora do trajeto. Não sei de onde minha memória foi sacar tanta piada, eu que não sou de contar piada. E as piadas se sucediam sem cessar, todas com duplo sentido e, ainda, por requinte, tenho a lembrança de que a maioria delas era de política e de caserna. Só que o cara não ria. E eu gargalhava sozinho, mas isso não importava porque cada piada que eu conseguia terminar representava uma vitória minha.

Cheguei salvo ao consultório. E de lá saí, noitinha já, com minhas receitas e a recomendação expressa de meu médico de ir direto para a farmácia e para casa, sem parar em lugar nenhum, sem conversar com pessoa qualquer a respeito de assunto nenhum e principalmente sem contar piadas.

O taxi que eu tomei na volta para casa era dirigido por um velho veterano da defesa civil, que também participava do esforço de guerra. Com ele não falei nada durante o trajeto, seguindo a orientação de meu médico, mas fiquei alarmado com as mutações que seu rosto assumiu durante a corrida, fruto de alucinações visuais que comecei a ter naquele instante. Era particularmente desagradável o fato de durante todo o caminho o velho vir pondo e tirando o céu da boca, enquanto dirigia.

Para meu conforto, ao chegar em casa meus pais ali estavam e com eles e meus remédios reiniciei minha verdadeira e permanente guerra que é a luta contra a loucura.

Ao cartório fui no dia seguinte, de Metrô, amparado por minha mãe que me guiou pelos labirintos das escadarias das estações e através das multidões do centro de São Paulo, porque compromisso de negócio não pode esperar a guerra acabar e eu mesmo, no fundo, sabia que honrar minha palavra numa transação comercial era mais importante do que continuar guerreando. Há anos atrás a venda daquele terreno ajudara a pagar meus remédios. Estes mesmos remédios de que depende a manutenção de minha sanidade, mas que até hoje não conheço nenhum sem algum tipo de efeitozinho colateral. O efeito colateral que a risperidona me deu foi este de me instalar na fase dos delírios cenestésicos. Justo ela, cuja vantagem alardeada era a de não ter efeito colateral algum. Hoje faz tempo que não tenho delírios e alucinações cenestésicos, mas justo no lugar em que levei o tiro de chum-

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Quinze delírios bo líquido, na barriga da perna direita, costumo ter, agora, de vez em vez, uma cãibra feroz.

Quando ouço falar de remédio psiquiátrico sem efeito colateral, hoje em dia, tenho um medo que me pélo. Penso que sejam efeitos desconhecidos ou não relatados na literatura médica.

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Ocorre-me que talvez mais útil seja eu encerrar este texto não com o relato de mais um delírio qualquer, mas com a reafirmação de que sou amnésico a respeito de meus delírios depois que eles se desfazem.

Imagino que alguém possa achar estranha essa afirmação após ter lido várias páginas de relatos variados de delírios recentes e até bem antigos, alguns com diversos detalhes. Mas o fato é que o relatado corresponde à minha memória mais significativa em cada caso e os detalhes são mínimos comparados à multiplicidade dos episódios que se desenvolvem em cada momento do delírio e à complexidade das sensações e emoções que vivo numa crise. Principalmente no que se refere à intensidade das vivências.

Relatar um delírio dando destaque ao lado humorístico das situações, como fiz em alguns casos, é importante para realçar o surrealismo das experiências e para tentar tornar a leitura mais agradável, mas pode levar à falsa impressão de que tudo não passa de uma grande curtição. Nada mais enganoso. A tônica onipresente em cada uma dessas situações é a de um medo tenebroso. Um pavor e uma angústia inenarráveis. Nada é vivido pelo lado engraçado, exceto nas pequenas tréguas de conversações com pessoas que me conhecem muito bem e sabem me acompanhar no desvario.

A fase de bem estar nas crises corresponde, para mim, ao início do descontrole eufórico. Seria, como se diz, a fase pré-maníaca. Quando o delírio se estabelece em plenitude, a vivência é aterrorizante. O sofrimento é superlativo.

Cada delírio destes, de que relatei passagens, durou muitos dias, às vezes até duas ou três semanas, e cada minuto desses dias foi um momento de pânico, de urgência, de situação emergencial, onde alguma ameaça fatal me assolava de forma acachapante. O medo de vir a morrer numa explosão causada por um peido de gases inflamáveis não é menor do que o de vir a ser esmagado por uma motoniveladora no canteiro de obras de uma estrada em construção. Nem a angústia é menor.

Diante das situações intensa e ininterruptamente vividas ao longo de vários dias e noites, aquilo que minha memória retém não passa de fragmentos. De dezenas ou mesmo centenas de delírios não guardo a menor recordação. E de muitas das crises cujos fragmentos eu relatei, minha ex-mulher ou meus pais e irmãos talvez tenham melhor memória do que eu.

Por isso não sou um bom contador de delírios. O que deles me lembro e o que consigo transmitir numa narrativa nem de longe se assemelham à reconstituição das situações que vivi.

A única forma de saber o que é um delírio ou uma alucinação é passando pela própria experiência. Não desejo isso a ninguém, e que ninguém pense que esta é uma experiência que vale a pena. Não vale. O surrealismo vivido é a pior das realidades existentes.

Conheço pessoas, no entanto, que admiram minha vivência.

Creio que imaginam que me enriqueci espiritual ou existencialmente com ela. É ao contrário. Esse “enriquecimento” a que se referem, algum tipo de crescimento, só se dá ao nível da expansão da consciência, não com o contato patológico com o inconsciente. Se algum crescimento a doença me trouxe, este é referente a ela mesma e se constitui no desenvolvimento da consciência de minha fragilidade e no reforço de meu lado sadio para dar conta de suportar e conviver com as crises, tentando não destruir minha vida a cada novo episódio delirante.

O contato com o sublime e com o tenebroso que existe no inconsciente é, de fato, uma fonte de crescimento e energia, e tanto mais quando nos apropriamos conscientemente de seus conteúdos. Mas com limites. Qualquer um pode fazer isso intensa e proficuamente se souber curtir seus sonhos. O lado tenebroso do inconsciente à solta na vida, dominando em delírio todas as ações e sensações, é literalmente uma loucura. É patológico e em qualquer instante, sem mais aviso, pode levar à morte num ato qualquer desvairado durante uma crise. Por isso nenhum delírio é engraçado, a despeito das situações hilariantes que possa criar.

Quem quiser se aproximar da compreensão do que vem a ser um delírio, tome contato profundo com os seus próprios sonhos. Principalmente com os pesadelos. Experimente imaginar o que viria a ser o seu pior pesadelo e imagine o que seria de você vivendo este pesadelo ininterruptamente durante duas ou três semanas, acordado, enquanto tenta continuar dando conta da sua vida, trabalhando, cuidando dos filhos, se relacionando com as pessoas e com os fatos do mundo real. Misture as vicissitudes de seu cotidiano com o lado mais tenebroso de seu inconsciente e depois me diga que minha experiência ou a de qualquer outro psicótico é enriquecedora.

Verdade é que, em momentos meus de desalento e desesperança perante o mundo e as pessoas, eu às vezes já fantasiei que seria muito instrutivo para alguns experimentar uma crisezinha psiquiátrica para largar mão de tanta onipotência ou de tanto chorar de barriga cheia. Mas isso não passa de meus rancores. Na verdade, volto a dizer que não desejo a experiência a ninguém, nem mesmo a meus desafetos.

Quanto a meu próprio destino, acalanta-me a esperança de que Deus seja sábio. Talvez ele dê o frio conforme o cobertor.

Comentários deste e de outro auto-relato de delírios por Othon Bastos no próximo número de CPP.

9Casos Clin Psiquiatria 2000; 2(1):2-9

Pilar Sierra San Miguel* Lorenzo Livianos Aldana**

Luis Rojo Moreno**

Resumen

El síndrome de Kleine-Levin es un síndrome caracterizado por la triada clásica de hipersomnia periódica,trastornos de la alimentación en forma de megafagia y diversos síntomas neuropsiquiátricos.Se trata de un trastorno de difícil diagnóstico,que puede iniciarse con sintomatología muy inespecífica.Hasta el momento,se han descrito unos 100 casos.El presente artículo expone el caso de un hombre de 2 años inicialmente diagnosticado de trastorno de somatización y que finalmente lo fue de síndrome de Kleine-Levin,tras perfilarse la sintomalogía clásica de somnolencia excesiva,hiperfagia e hipersexualidad.En este trabajo,los autores exponen el cuadro clínico insistiendo en los tratamientos utilizados y resultados obtenidos.

Palabras-claves: Síndrome de Kleine-Levin; Hipersomno-lencia; Hiperfagia; Sexualidad

Satterley describió por primera vez en 1815 un caso con un perfil similar a lo que actualmente denominamos síndrome de Kleine-Levin. Posteriormente, Dana (1884),Anfimot (1898), Kleine (1925)1y Levin2(1929) aportaron casos con una sintomatología coincidente. El término de “síndrome de Kleine-Levin”, se debe a Critchley y Hoffmann3,4quienes lo propusieron en 1942.

Aparece de forma más frecuente en varones, en la última etapa de la adolescencia y a partir de la segunda década de la vida, posteriormente se observa una disminución gradual tanto en la frecuencia como en la duración de los episodios.5También existen casos descritos con una clínica muy similar en mujeres, en relación con el periodo menstrual pudiendo ejercer un importante papel etiopatogénico la progesterona.6

En cuanto a la hipersomnia, puede instaurarse de forma brusca o gradualmente, tiene un carácter recurrente y una duración variable, desde un día hasta seis semanas como caso extremo.7

Billiar,8uno de los autores que más ha publicado en torno a este tema, escogió el término “sobrealimentación”, a la hora de describir los trastornos alimentarios, ya que incluyen megafagia, polifagia e hiperfagia. Orlosky9en una revisión de 3 casos, encontró como alteración más frecuente la confusión (73%), irritabilidad (58%), amnesia (39%), ilusiones (30%), letargia (24%), depresión (21%) y desinhibición sexual (18%).10

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